Acontece Mesmo Assim…

Às vezes a vida é mesmo assim, como um sonho estranho…

Os pais da pequena Beatriz esperaram por ela com tanta esperança. Mas a gravidez tornou-se pesada, e Beatriz nasceu prematura, perdida num mundo de máquinas luminosas e sons indistintos. Ficou longos dias num incubador que piscava como se fosse uma embarcação em alto mar. Os médicos disseram que muitos órgãos estavam por acabar de crescer. Máquinas respiravam por ela. Duas operações. Descolamento de retina.

Duas vezes permitiram que os pais viessem despedir-se. Mas Beatriz não quis saber, ficou. Sobreviveu à tempestade.

Mas cedo perceberam: pouco via, quase nada ouvia. O corpo, com o passar do tempo, aprendeu sozinho Beatriz sentou-se, agarrou um boneco, depois levantou-se apoiando-se nalguma coisa. A mente, essa, ficou presa em ilha distante. Os pais tentaram acreditar. Lutaram juntos, até o pai, como se fosse nevoeiro num bairro da Madragoa, simplesmente desapareceu; restou a mãe, Maria Clara, a lutar sozinha.

Descobriu um programa do Estado, aos três anos e meio Beatriz recebeu implantes para ouvir o mundo. Parecia escutar a chuva, o ranger dos eléctricos, mas dentro dela, nada floresceu. Defectólogos, terapeutas da fala, psicólogos, especialistas de tudo e nada. Maria Clara vinha vezes sem conta comigo, com Beatriz pela mão.

E eu dizia: vamos tentar assim, ou desta maneira, ou daquela… Maria Clara tentava. O silêncio persistia. A maior parte do tempo, Beatriz sentava-se quietinha no parque e rodava qualquer coisa entre os dedos. Batia nos tijolos, mordia-lhe a palma da mão. Às vezes uivava numa nota só, noutras modulava em tons quase musicais. Maria Clara dizia-me: Beatriz reconhece-me, chama-me com um trinado especial, adora que lhe faça festinhas nas costas e nas pernas.

No final, um velho psiquiatra do Porto disse-lhe: mas minha senhora, para que queres um diagnóstico? Legume deambulante, aceite e viva. Ou deixa-a num lar, ou continue a cuidar já aprendeu bem, não foi? Não faz sentido esperar por milagres nem morrer de pé em frente ao parque dela. Foi o único na vida dela que falou com clareza. Então Maria Clara inscreveu Beatriz numa creche especial e voltou ao trabalho.

Alguns meses depois, comprou uma mota sempre o desejara. Circulava pelas ruas de Lisboa e pelas curvas da Arrábida com outros sonhadores; o rugido do motor varria qualquer tristeza ou dúvida. O pai pagava pensão em euros, ela gastava tudo com cuidadoras ao fim-de-semana Beatriz era fácil, depois de se acostumar ao seu uivar. Até que um amigo motard disse-lhe: sabes, apaixonei-me mesmo por ti; tens um quê de interessante e trágico.

Anda, mostra-te murmurou Maria Clara.

O amigo sorriu, pensando ser convite para lençóis. Mostrou-lhe Beatriz. Estava espevitada, uivava em tons e trinava talvez reconhecesse a mãe ou se assustasse com um estranho.

Eh pá, isto sim é outra coisa! disse ele.
E o que esperavas tu? respondeu Maria Clara.

Algum tempo depois, não só andavam de mota, como moravam juntos. O motard, Jaime, mantinha-se longe de Beatriz (combinado de antemão), e Maria Clara preferia assim. Um dia Jaime sugeriu: que tal termos um filho? Maria Clara respondeu seco: e se vier outro igualzinho, aguentas? Jaime calou-se quase um ano; depois voltou: não, a sério, vamos tentar.

Nasceu então Afonso. Felizmente, robusto e são. Jaime sugeriu: agora podíamos meter a Beatriz num lar, não? Agora que temos um filho “normal”… Maria Clara respondeu: antes te deixava a ti. Jaime recuou: Era só uma ideia.

Aos nove meses, Afonso descobriu Beatriz engatinhando. Fascinou-se logo. Jaime assustava-se, zangado: deixa lá o miúdo que é perigoso! Mas Jaime passava os dias entre trabalho e as motas, e Maria Clara deixava. Quando Afonso estava com Beatriz, ela não uivava. Às vezes parecia escutar, esperar. Afonso levava-lhe brinquedos, mostrava como se brincava, apertava e abria os dedos dela para encaixar peças.

Um fim-de-semana, Jaime, com febre, ficou em casa. Reparou: Afonso circulava hesitante, balbuciando sons inventados, e atrás dele, colada, Beatriz (até então, permanecia sempre isolada num canto). Jaime fez uma cena e exigiu: Afastas o meu filho do teu… ou vigilância constante!. Maria Clara silenciosamente apontou-lhe a porta.

Jaime assustou-se. Acabaram por fazer as pazes. Maria Clara desabafou comigo:
O Jaime é um pau com olhos, mas amo-o, estranho, não?
Amar os filhos é natural, independentemente de…
Eu falava do Jaime, na verdade corrigiu Maria Clara. E Beatriz, é perigosa para o Afonso, o que acha?
Eu disse: a liderança é de Afonso, mas atenção nunca é demais. Combinaram assim.

Com apenas um ano e meio, Afonso ensinou Beatriz a empilhar blocos por tamanho. E já falava frases, cantava cantigas e fazia gestos, tipo a galinha põe o ovo. É um génio, não? quis saber Maria Clara. O Jaime mandou perguntar; acha-se um pavão, os filhos dos amigos nem dizem mamã…

Por causa da Beatriz, talvez sugeri. Nem todos com essa idade puxam o desenvolvimento de outro.
Pois, sorriu Maria Clara, é isso mesmo que vou dizer ao pau com olhos.

Que família, pensei legume ambulante, pau com olhos, mulher sobre duas rodas, miúdo prodígio. Depois de aprender ao bacio, Afonso gastou seis meses a ensinar a irmã. Comer, beber de copo, vestir e despir Maria Clara já dava tarefas a Afonso.

Com três anos e meio, Afonso insistiu: O que tem mesmo a Beatriz?
Bem, não vê nada…
Vê sim, corrigiu Afonso. Mal, mas vê. Isto vê, aquilo não. Depende da luz. Na casa-de-banho, debaixo da luz do espelho, vê melhor.

O oftalmologista estranhou trazerem um miúdo de três anos a explicar como a irmã via o mundo. Ouviu, marcou mais exames, prescreveu tratamento e óculos especiais.

O infantário era um pesadelo para Afonso. Ele precisa é de escola, isto não o desafia! queixou-se a educadora. Tudo contesta, tudo sabe melhor!

Recusei matrícula precoce. Que Afonso fosse a ateliers e sessões com a irmã. Jaime concordou: Deixa-os estar, ela já nem uiva.

Meio ano depois, Beatriz disse: mãe, pai, Afonso, dá, água, miau-miau. Os rapazes entraram juntos na primária. Afonso preocupou-se: como é que ele se vai portar sem mim? Os professores lá eram mesmo bons? Iam entendê-la? Até ao quinto ano, fazia primeiro os trabalhos com Beatriz, só depois os seus.

Beatriz falava em frases curtas. Sabia ler, mexia no computador. Gostava de cozinhar e arrumar (sob a batuta da mãe ou do irmão), de sentar no jardim a escutar o vento, cheirar flores, cumprimentar vizinhos, moldar plasticinas, montar e desmontar legos portugueses.

Mas o que amava de verdade era aquelas viagens de sonho: a família em motas, voando por estradas do interior, ela e a mãe, Afonso com o pai, e todos juntos, gritando qualquer coisa para o ventoNuma tarde de março, ao regressarem a casa, Afonso levou Beatriz pela mão ao jardim minúsculo do prédio, onde um silêncio tímido pairava entre malmequeres e rosas silvestres. Cheira aqui, pediu ele, e ajoelharam-se juntos. Maria Clara, na janela, observava-os: viram como Beatriz inclinou a cabeça, trincou o lábio inferior, depois sorriu sorriso novo, inteiro, daqueles que nascem quando uma luz interior se acende de repente.

Naquela noite, Beatriz sentou-se na cama, esperou que a mãe se deitasse com ela, como faziam todos os dias. Tocou-lhe o rosto, devagar, até encontrar-lhe o sorriso. Mamã, feliz? perguntou, num sussurro rouco e tímido. Maria Clara abraçou-a com força, lágrimas descendo pelo cabelo da filha. Lá fora, ouviu-se um motor ao longe, depois o gargarejo de um pardal na árvore.

Muito feliz, filha. Muito mesmo.

E assim, de modos tortos e inesperados, Beatriz aprendeu a sentir o mundo. Maria Clara aprendeu a confiar na beleza do incerto. Jaime, afinal, permaneceu menos pau, mais ponte. E Afonso, sem saber, tornara-se igualzinho à irmã: mestre no raro milagre de transformar estranheza em ternura.

Há sonhos estranhos, dizia-se no início. Mas há outros, ainda mais estranhos, que não queremos acordar. E assim continuaram, cada um à sua maneira, a remar por mares por inventar.

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Acontece Mesmo Assim…
МИЛА КРИСТАЛИНКА, ТИ СИ МОЯ!