A Visitante Misteriosa

«Convidada Desconhecida»

No início da era dos telemóveis, eu e a minha esposa éramos recém-casados. Tínhamos acabado de nos mudar para uma casa nova em Lisboa. Os apartamentos eram de cortar a respiração, com uma distribuição fabulosa e tudo nos encantava, exceto os vizinhos do andar. Eram pessoas estranhas, distantes, pouco simpáticas. Eu, ainda jovem, mas sempre muito exigente, ocupava um cargo de responsabilidade e estava habituado a ser tratado com respeito. O meu marido, sempre bem-disposto, chamava-me pelo nome e apelido como quem brinca com o meu ar sério.

Certo dia, ao sair de casa, cruzei-me com a nova vizinha. Nada de cumprimento, nem um bom dia ou boa tarde! Decidi logo que também não lhe daria confiança. Fiquei de trombas com eles!

Um mês depois, fizemos finalmente a festa de inauguração da casa. Chamámos todos os familiares e amigos para celebrar. Acabámos por ficar até um pouco mais tarde do que seria adequado. O vizinho, sem demora, tocou à campainha. Abri a porta e lá estava ele: Já é tarde!. A mim! Achei aquilo um abuso. Era sábado, e nem eram onze e meia! E ainda por cima veio com a desculpa da esposa: A minha mulher está com uma dor de cabeça terrível e precisa de descansar!. Fiquei ofendido. Passei a ignorá-los completamente, mesmo que nos cruzássemos à entrada do prédio! Só o meu marido, sempre cordial, continuava a cumprimentá-los. Eu, nem pensar! Tinha de lhes mostrar como é que as pessoas educadas se portam. Orgulhoso e cheio de princípios!

Durante meses nem dei por eles. Mas, numa noite gelada de dezembro, ao regressar a casa, deparo-me com uma jovem junto à porta do patamar. Ao ver-nos, sorriu de imediato: Sou irmã da vossa vizinha, vim de longe e estou à espera deles há três horas. Posso ficar aqui no patamar? Está um frio desgraçado no prédio!. E lá fora a tempestade varria as ruas de Lisboa. Deixei-a entrar. Com um tom autoritário, perguntei: Não é de cá? Onde está a sua bagagem?. Explicou-me que a deixou na estação, na bagageira automática, à espera que o cunhado a pudesse ajudar no dia seguinte impossível arrastar as malas naquele temporal.

Fui para o interior e comentei com o meu marido: Se eles não vieram buscar a familiar numa noite destas, de certeza que algo está errado! E se ela nem for irmã de ninguém? E se for uma aventureira?. Estava com a pulga atrás da orelha.

Começámos a preparar o jantar, mas a imagem da rapariga não me saía da cabeça. Espreitei pela janela da porta ela continuava ali, encostada à parede, com ar gelado e resignado. O marido chamou-me para a mesa, mas eu não conseguia engolir uma dentada. Só pensava na estranha. Ele sugeriu: E se a convidássemos para jantar?. Recusei de imediato: Não sabemos quem é!. Mas mesmo assim levei-lhe uma cadeira para o patamar. Perguntei-lhe, de maus modos: Então e porque é que a sua irmã não veio buscar-la?. Ela, muito simples, respondeu: Quis fazer uma surpresa! A minha irmã está quase a ter o bebé, está a ser uma gravidez difícil, então vim ajudar. Posso tomar conta do bebé nos primeiros tempos. Ouvi-a, desconfiado. Será mesmo que a vizinha estava grávida? Nunca reparei!

De cinco em cinco minutos ia espreitar pelo olho da porta. A jovem esperava, sem reclamar. O meu marido adormeceu logo, mas eu não conseguia fechar os olhos. Só pensava na via-sacra da rapariga até Lisboa. Já devia estar exausta.

Eram quase meia-noite. Saltei da cama, vesti o roupão e, de rompante, abri a porta: Pronto, chega! Venha dormir cá em casa!. Ela nem queria acreditar. Sentia-se sem jeito, mas fui firme. Dei-lhe um roupão, uma toalha e mandei-a tomar um bom banho quente. Insisti para que jantasse. Preparei o espaço de hóspedes e desejei-lhe boa noite. Atencioso e preocupado.

Escrevi um bilhete para os vizinhos: A vossa irmã está na nossa casa. Não a acordem antes das 6:00!

Às oito da manhã, tocaram à porta. Era o vizinho, radiante de felicidade. A esposa dera à luz um rapaz naquela mesma noite de tempestade. É um filho! Temos um filho!. Senti aquela felicidade como se fosse minha também de repente, fez-se luz e tudo pareceu mais bonito e possível.

A mãe e o bebé não tardaram a vir para casa. A vizinha não parava de agradecer o gesto de hospitalidade naquela noite tão difícil.

Às vezes, pensamos que conhecemos tudo sobre nós próprios e os outros, que percebemos quem está à nossa volta, criticamos, desconfiamos, armamos guerras. E depois um momento especial dissolve tudo isso. Descobri que viver só se faz com o coração aberto. Essa lição foi-me dada por uma convidada desconhecida.

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