Olha, só quem trabalha vai perceber mesmo o meu sentimento quando a campainha toca logo de manhã, justo na minha única folga da semana.
Ainda meio zonza do sono, nem sei porquê, meu primeiro pensamento foi que tinha dado algum problema de canalização saí a correr para ver se tinha inundado alguém. A casa de banho e a cozinha estavam sequinhas, vai lá, não eram os vizinhos do rés-do-chão, aqueles que tinha inundado há uns seis meses atrás.
A campainha não parava, lá fui eu, obediente, até à porta, e assim que abro vejo logo umas malas grandes e umas pessoas meio escondidas por trás delas.
Ah, nunca te teria reconhecido na rua! manda logo uma senhora, já de idade, com um elogio meio atravessado, daqueles que não sabes se agradeces ou não.
Tento puxar pela memória Acompanhava a senhora um tipo com um sorriso aberto, que me estendia a mão, claramente todo contente. Atrás deles dava para ver a cabeça de um rapaz, que felizmente não resolveu acrescentar mais confusão à charada. Mas a senhora continua:
Então, mas não nos fazes entrar? Peço desculpa, mas o que quer dizer com entrar?
Ah, não conheces o teu tio? Eu tomei conta de ti! Olha, (aponta para o rapaz) este é o teu primo, não te lembras? Veio estudar aqui a Lisboa e não tem onde ficar. Decidimos que ele podia ficar aqui contigo. Depois compramos uma cama, não te preocupes. Até trouxemos uns presentinhos para ti! Não te disse nada o teu pai?
Não, não disse… Ah, deve-se ter esquecido, nós tratamos disto! Tratam, como assim? É suposto ele viver cá?
Pois claro, tu cuidas dele, sabes como é estar numa cidade nova! Não vou cuidar de ninguém, até porque o meu namorado está sempre cá. Não cabe aqui mais ninguém. Vamos ter de resolver isto…
Não quero saber de resolver. Há residências universitárias, também as usei enquanto estudava. Não, isso não é opção!
Os familiares começaram a ficar visivelmente irritados e iam já tentando arrastar as malas para dentro do apartamento, mas eu barrava-lhes o caminho. Percebi que, se aquelas malas atravessassem o limiar da porta, estava tudo feito depois era um castigo para os tirar de lá.
Pedi-lhes para esperar cinco minutos e levei toda a comitiva à residência universitária, onde o meu primo tinha sido colocado.
O resultado foi um festival de acusações de falta de tino e de egoísmo, acabaram-se os sorrisos e, depois de algum tempo, desapareceram também eles e as malas. Assim que pude, telefonei aos meus pais e só perguntei: Mas o que é isto?
Quando expliquei o que se passou, a minha mãe ficou fula e ainda me disse que não sou de famíliaDo outro lado da linha, um silêncio embaraçado anunciou a confusão: a minha mãe murmurou qualquer coisa sobre “boa intenção”, o meu pai, mais prático, disse só: Fizemos o melhor que podíamos. Ri-me, sem vontade, mas sentindo um alívio inesperado. Afinal, a minha folga ainda estava ali à minha espera intacta, silenciosa e só minha. Juntei-me ao sofá, abracei a almofada e, pela primeira vez, achei graça à rotina e ao direito a fechar a porta.
Talvez, no final, trabalhar tanto me ensinou isso: às vezes, defender o próprio espaço é o maior gesto de carinho que podemos oferecer a nós mesmos. E quando finalmente o telefone parou de tocar e a vizinhança se calou, deixei um suspiro escapar não de cansaço, mas de pertença. Meu lar, minhas regras. E, desta vez, nem família, nem malas atravessaram a linha.






