Ana foi apenas uma mãe feliz durante todos estes 32 anos. Vivia com o seu filho, Afonso, que trabalhava como gestor numa pequena empresa em Coimbra. Ana passava todo o tempo possível junto do filho. Quando chegava o fim de semana, tinham sempre muitas tarefas planeadas. Iam ao mercado municipal. Embora Afonso achasse este passeio cansativo, suportava tudo para agradar à mãe. Ana percorria pacientemente os corredores, escolhendo com muito cuidado as frutas, legumes e queijos, mesmo sabendo que tudo seria mais rápido num supermercado. No entanto, gostava da tradição de passear no mercado junto do filho.
Depois seguiam para a aldeia natal e dedicavam o tempo livre a cuidar da pequena horta familiar.
Chegava a época das conservas embora nem Ana nem Afonso gostassem particularmente de pickles ou tomate em frasco. Faziam-nos para oferecer a amigos e familiares, encontrando alegria em partilhar com quem amam. A vida parecia tranquila, e Ana era feliz ao ver o filho, já com 32 anos, sempre presente a seu lado.
Até que um dia tudo mudou. Afonso chegou a casa com uma notícia: Mãe, vou casar-me. A sua escolhida era Teresa, uma jovem de 25 anos, recatada e meiga. Afonso e Teresa compraram um apartamento em Lisboa, mas a sogra de Afonso sugeriu que vivessem ainda com Ana e arrendassem o novo apartamento para terem algum dinheiro extra nos primeiros anos de vida de casal: Agora, como família jovem, aquele dinheiro pode dar-vos muito jeito, aconselhou.
Aceitaram o conselho. Ana voltou a sentir-se animada por ter o filho debaixo do mesmo teto. Mas a felicidade durou pouco. Afonso começou a dedicar-se inteiramente à nova esposa. Passavam as noites a passear pelas ruas de Coimbra, e não tardou até Teresa anunciar a gravidez.
Ana acreditava que agora faria falta o enxoval de bebé, cuidadosamente guardado há longos anos. No entanto, a nora explicou que talvez aquelas roupinhas só servissem para uma sessão de fotografias, pois queria escolher tudo para o próprio filho.
E, passado algum tempo, quando haviam poupado o suficiente, os jovens pais mudaram-se, finalmente, para o seu apartamento em Lisboa.
Ana sentiu, nesse momento, um ressentimento profundo, convencida de que o filho a abandonara para viver a sua nova vida. Sentiu-se trocada mas com o tempo percebeu que criar um filho é prepará-lo para voar. Compreendeu que felicidade de mãe é ver a alegria de quem se ama a construir o seu próprio caminho, mesmo que seja longe dos nossos braços. Assim, Ana encontrou paz no pensamento de que amor que liberta é amor verdadeiro.







