“Não gostavas de ter uma filha? Posso ser tua filha, se quiseres.” A rapariga chegou sozinha à nossa família

Olha, deixa-me contar-te uma coisa que me aconteceu há uns 15 anos atrás. Eu estava num lar de crianças em Lisboa, e uma miúda de olhos verdes ficou a olhar para mim durante uns bons minutos. De repente, sussurra-me:
Tem filha?
Fiquei meio atrapalhada e respondi:
Não, não tenho.

Ela suspirou, com aquele ar triste:
Não gostaria de ter?

Enquanto eu tentava perceber ce vrea să spună, ela continua:
Posso ser tua filha. Se quiseres, claro…

Olha, a minha cabeça começou logo a viajar. Eu já tinha um filho de 20 anos, para ser sincera nunca passou pela cabeça ter outro. Mas aquela frase dela Uma filha nunca faz falta e aqueles olhos grandes a olhar para mim Aquilo mexeu comigo.

Sempre sonhei em ter uma filha, sabes? Queria tanto uma princesa para vestir a preceito, comprar laçarotes, bonecas, brincar às maquilhagens, fazer todas aquelas brincadeiras de meninas. Mas pronto, tive um rapaz e nunca me atrevi a tentar ter outro. E estava a pensar: Sou uma mulher já com alguma idade Achas mesmo que vou conseguir criar uma miúda agora? Mas ao mesmo tempo era mesmo o que sempre desejei.
E pronto, sem pensar muito, sai-se-me:
Claro que sim!
E não é que ela me abraça logo, como se fossemos mãe e filha desde sempre?

Juro, senti ali todo o amor que ela foi guardando nos anos que passou sem família naquele lar. A menina chamava-se Matilde, tinha cinco anos. Já estava no abrigo desde os dezoito meses, desde o acidente trágico que tirou a vida aos pais e mais cinco pessoas. A Matilde sempre sonhou com uma família, mas como tantos lares em Portugal estão cheios, o sonho dela foi ficando adiado.

Nem imaginas a felicidade dela quando percebeu que ia finalmente ter família. Ela fez questão de conhecer toda a gente, decorar os nomes dos tios, primos, avós. Conquistou logo todos era uma miúda tão querida, tão ternurenta. Olha, o meu marido ao início estava reticente, mas bastou uns minutos com a Matilde e já estava derretido. Começou logo a chamar-nos mãe e pai, e o meu marido, que achava que não ia aguentar, nunca mais quis saber de deixá-la.

Ela ajustou-se tão bem que parecia que ali pertencia desde sempre, apanhou logo o ritmo das outras crianças. Quando entrou para a escola, destacou-se logo pela inteligência e lógica. E agora, imagina, a Matilde começou a escrever poesia! Está sempre com uma folha e uma caneta, a inventar versos.

Hoje em dia toda a família a adora e eu só agradeço à vida por aquele dia em que, sem saber, fui ao lar buscar o que me faltava. Nem que tivesse gasto todos os meus euros da conta, faria tudo igual outra vez.

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“Não gostavas de ter uma filha? Posso ser tua filha, se quiseres.” A rapariga chegou sozinha à nossa família
Nikdy som svojim rodičom nepovedala, že som sudkyňa na Najvyššom súde Slovenskej republiky