Quando tinha 24 anos, tomei a decisão mais dura da minha vida: deixei as minhas duas filhas aos cuidados da minha mãe. A mais velha, Mariana, tinha cinco anos; a mais nova, Beatriz, só três. Trabalhava doze horas por dia, não tinha ninguém a quem confiar as miúdas, não tinha dinheiro e o pai delas abandonara-nos sem olhar para trás. Eu, perdida, jovem e com medo, aceitei a ajuda da minha mãe, que prometeu ficar com elas até eu conseguir dar a volta. Pensei que seria coisa de uns meses, mas os meses foram-se transformando em anos.
Ao início, passava todos os sábados e domingos com elas. Eram tão pequenas que não percebiam porque não ficava a dormir ali. Cada visita tornava-se num misto de abraços e perguntas que me rasgavam o peito:
Porque não ficas cá hoje?
Porque dormes noutra casa?
Quando voltas?
A minha mãe tentava acalmá-las, dizendo que eu trabalhava muito, mas o que mais me custava era vê-las, inconscientemente, começarem a chamar-lhe mãe, como se fosse natural.
Quando Mariana fez oito anos e Beatriz seis, já não me procuravam como antes. Os abraços começaram a ser apressados e corriam logo para a avó. Eu ficava ali, de pé, a sentir-me uma visitante na vida delas. Um dia, a Beatriz caiu ao brincar e, quando tentei pegá-la ao colo, puxou o braço para trás e gritou: Eu gosto da mãe! referindo-se à minha mãe. Nessa altura percebi que algo tinha partido em definitivo, sem volta.
Os anos foram passando e, na ânsia de as recuperar, tentava compensar com roupa, presentes, doces, passeios tudo o que o dinheiro, aquele pouco de euros que juntava, permitia. Cada vez que aparecia, recebia um olá rápido antes de voltarem às brincadeiras delas. A minha mãe, sempre sem maldade, decidia tudo: escola, vacinas, horários, permissões. Eu era quem trazia coisas, mas nunca quem realmente contava.
Elas cresceram assim. Olhavam para mim como a tia que traz presentes, em vez da mulher que lhes deu a vida.
Quando começaram a escola, doeu-me ainda mais. Nas reuniões de pais, as professoras só falavam com a minha mãe. A mim perguntavam: É a tia delas? E as minhas filhas nunca corrigiam.
Um dia tentei assinar um papel para uma visita de estudo, e a Mariana sussurrou:
Não podes, tem de ser a mãe.
Fui à casa de banho da escola e chorei baixinho, para ninguém me ouvir.
Quando ficaram adultas, tentei explicar-lhes porque não estive presente. Contei tudo como vivi, por tudo o que passei, como lutei para sobreviver. Ouviram em silêncio, mas nada mudou.
A Mariana disse que não sabia se me devia agradecer ou ficar magoada, porque já não sente nada.
A Beatriz foi mais direta:
Não estavas cá. Não sei inventar um sentimento que não existe.
Hoje tenho 61 anos. As minhas filhas falam comigo, vêm ver-me nas festas, dão-me abraços mas não me chamam mãe. Faço parte da vida delas, mas não no lugar que deveria ocupar.
Aprendi, finalmente, que não se pode voltar atrás no tempo mas não deixa de doer. Dói ver como a vida delas seguiu em frente sem mim. E eu sigo a viver com esse vazio, a maior lição que a vida me ensinou.






