Apaixonei-me por Filipa assim que a vi pela primeira vez, naquele café ensolarado do Chiado. Foi um encanto imediato, impossível resistir à sua beleza discreta e ao seu magnetismo natural. Senti que era verdadeiramente afortunado por ter ao meu lado uma mulher tão inteligente, elegante e com uma presença tão delicada. Mal perdi tempo: pedi Filipa em casamento, de coração apertado e esperança nos olhos.
Pouco depois, decidimos juntar os trapinhos e partilhar um pequeno T2 em Lisboa. Filipa não tardou a ser francanão gostava de tarefas domésticas. O seu foco era a carreira e queria dividir as responsabilidades da casa de forma justa. Para mim, não havia problema. Achei até bastante razoável esse nosso acordo, sem imaginar o que nos reservava o destino.
Dividimos as lides da casa, e Filipa jurou que conseguiria dar conta do recado tanto no emprego como no lar. Acreditei nela. Nunca questionei.
Seis meses voaram e, com o tempo, reparei que as coisas fugiam ao planeado. A vida profissional de Filipa não floresceu como ela sonhara. Ficou por um trabalho a meio-tempo para uma empresa obscura, com ordenado irregular e horários em constante mudança. Todo o dinheiro que recebia era gasto em pequenos mimos para si. Entretanto, eu trabalhava de sol a sol num escritório, mal vendo a luz do dia. Filipa, por sua vez, lembrava-se muito bem da nossa divisão das tarefas, mas convenientemente esquecia as suas próprias obrigações.
De início, empenhou-se, mas a motivação esfriou depressa. O nosso apartamento ia-se desorganizando aos poucos, com montes de roupa por passar amealhados nos cantos. Espantou-me quando começou a culpar-me, atirando que eu devia ajudá-la mais. Doeu-me fundo. Era uma provação conciliar o peso do trabalho intenso com as obrigações domésticas. Desde o princípio, combinámos que seria tudo repartido.
Alimentei esperanças de que, com a vinda da nossa bebé, as coisas mudassem. Imaginava que Filipa aproveitaria a licença de maternidade para cuidar da filha e da casa. Enganei-me. A situação só piorou. Por vezes, dou por mim a pensar se a vida não seria mais simples sem ela. Além de tudo, as discussões tornaram-se rotina entre nós.
Apesar de tentar pôr-me na pele da minha mulher e compreender as suas motivações, sinto-me cada vez mais à margem. Trabalho no escritório, lido com as contas, trato dos jantares, e a casa continua a pesar-me. Só queria poder sentar-me ao fim do dia, descansar um pouco.
Pergunto-me muitas vezes o que faz Filipa com os seus dias durante a licença de maternidade. Não entendo o que a impede de preparar o jantar ou de arrumar a sala. A nossa bebé tem apenas dois meses e dorme grande parte do tempo. Penso que, mesmo cuidando dela, conseguiria tratar de algumas coisas na casa. Não consigo evitar o pensamento de como iremos sobreviver caso venha outro filho. Sempre fui adepto da igualdade e da entreajuda, mas parece que Filipa ainda não compreendeu bem o que é isso.
Não quero desmanchar a nossa família. Amo perdidamente a nossa filha. Mas sinto-me esgotado, à beira do limite. Já não sei como aguentar esta situação. E tu, de que lado ficas nesta história?







