A minha mãe disse-me para desistir do meu filho e agora nunca mais poderei ter filhos.

Tinha eu dezasseis anos quando me vi grávida de um rapaz por quem era completamente apaixonada. O nome dele era Gonçalo. Namorei com ele durante um ano e foi então que aconteceu. Gonçalo era meu colega de turma no liceu. Ficámos ambos muito assustados quando descobrimos a gravidez, por isso não contamos logo aos meus pais. Quando a notícia lhes chegou, tomaram-na de forma muito dura, a ira nos rostos deles.

A nossa família era tida como modelo na pequena vila do interior. Eu era filha única e sempre tive notas excelentes, orgulho dos meus pais e esperança de um bom futuro. Quer eu, quer Gonçalo, éramos ainda menores, e os nossos pais decidiram por nós.

Os sonhos deles eram claros: desejavam que entrássemos para boas faculdades, que seguíssemos carreiras dignas. Um filho, pensavam, arruinaria tudo aquilo que tinham idealizado para nós.

A minha mãe obrigou-me a interromper a gravidez. Não era demasiado tarde, diziam os médicos de Lisboa. O procedimento correu sem problemas aparentes.

Passado algum tempo, eu e Gonçalo voltámos à nossa rotina. Continuámos juntos, terminámos o secundário, fomos para a universidade em Coimbra e, um ano depois, casámo-nos. Os meus pais já não intervieram mais. Então, engravidei novamente e, desta vez, todos estavam radiantes.

Porém, recordo com dor aquele sexto mês. Comecei a ter hemorragias e o nosso menino nasceu prematuro, mal chegando a pesar um quilo e meio. Faleceu apenas três horas depois.

Houve sérias complicações; os médicos lutaram, mas não conseguiram controlar a hemorragia. Tiveram de me retirar o útero. Nunca mais poderia ser mãe. Vi a minha mãe vir ao hospital, pedir-me perdão por aquilo que me obrigou a fazer anos antes. Mas nenhum pedido apaga o vazio.

O passado não se reescreve, nem as decisões tomadas podem ser desfeitas. Ficou para sempre a ausência nunca mais poderei ter filhos, nunca mais poderei viver a maternidade. Não sei se eu e Gonçalo conseguiremos manter o casamento e encontrar satisfação juntos. Afinal, um filho é, na nossa tradição, o verdadeiro elo de uma família.

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A minha mãe disse-me para desistir do meu filho e agora nunca mais poderei ter filhos.
Vou casar, mas não com esse galã. Sim, ele é um rapaz maravilhoso em todos os sentidos. Mas não é o meu.