Foi uma daquelas noites em Lisboa em care as sombras dançam nas paredes como sardinhas animadas. Tudo parecia um pouco fora do lugar, até os móveis pareciam flutuar como barcos no rio Tejo. Eu tinha decidido transformar a casa num sítio limpo de novo: varri cada canto, esfreguei o chão com dedicação enquanto do lado de fora o fado sussurrava pelas ruas.
De repente, a minha sogra, dona Amália, atirou de propósito cascas de tremoço pelo chão recém-lavado. Olhei para ela espantada parecia uma personagem saída de um sonho estranho, com um sorriso enigmático.
Mãe, por que fez isso? Vi que foi de propósito! disse eu, quase como quem fala aos azulejos.
Ela olhou-me com um desdém silencioso e respondeu:
Vais limpar outra vez! Não te vai acontecer nada!
Deitada sobre as almofadas do seu velho sofá, satisfeita com a sua partida, virou costas e mergulhou nos lençóis como se fossem o mar de Nazaré. Eu, com o sentimento a flutuar como uma gaivota, fui buscar a vassoura e a pá, e comecei mais uma vez a varrer o chão.
Dona Amália fingiu ler o Diário de Notícias pela centésima vez, como se procurasse segredos antigos na mesma página. O ar cheirava a sonhos partidos e a café frio.
Porquê este ódio todo, mãe Amália? Que fiz eu para merecer ser motivo de troça? Cozinho para si, lavo-lhe a roupa, mantenho tudo limpo A minha filha, Edite, também lhe ajuda sempre! Por que me despreza tanto? perguntei, quase para as paredes enfeitadas de azulejos.
Ela, no entanto, nem olhou para mim. Nem uma palavra, nem um pedido de desculpa, como se fosse parte da lógica ilógica do sonho.
Fui tomada por lágrimas soltas, como a chuva fina que cai na Alfama. Acabei de limpar,, depois fui para a lavandaria, onde as roupas giravam sem parar e tudo parecia girar à sua volta, quase se confundindo com a rotina. Saí para o mercado da esquina, a comprar legumes frescos, onde as cores pareciam mais intensas do que o costume.
Havia sempre tanto por fazer. Quando trabalhava, pouco pensava o tempo escorria como Pastéis de Nata na vitrine.
O meu marido tinha morrido há muitos anos, numa tarde fria, quando Edite tinha apenas oito anos e brincava com bonecas de cortiça. Logo após o funeral, a sogra disse:
Ficas comigo! Não te deixo sair daqui! Não quero que digam lá na aldeia que te mandei embora.
Claro que aceitei. Não tinha alternativa. A minha irmã, com dois filhos, vivia já com os nossos pais, na casa pequena cheia de panelas e risos. Não havia lugar para mim e para a minha filha.
Sonhava que, mesmo com aquele temperamento de Dona Amália, um dia encontraríamos harmonia. Mas a noite nunca deixou lugar ao milagre; como se no sonho nunca pudesse amanhecer.
Diante dos outros, comportava-se como se fosse uma avó normal. Mas sozinhas, fazia da casa palco de humilhações e ordens. Dizia que eu devia obedecer-lhe, sem discussão.
És uma burra! Ninguém te quer! Nenhum homem vai olhar para ti! Tens um filho! Vive comigo e com Edite! E quando morrer, esta casa será tua! Mas se não fizeres o que quero, dou a casa a outro! E ficarás sem nada!
Ameaças como nuvens negras em noite de São João. O medo agarrou-se a mim como a um peixe nas redes. Aguentei tudo para proteger a Edite, para lhe dar alguma paz.
Dona Amália, com noventa e muitos anos, não parecia ir embora nem falava em doenças. Gastava toda a sua reforma em si mesma, exigia que eu lhe trouxesse iguarias saborosas e frescas.
Com o tempo, percebi que o erro tinha existência própria, como um fantasma de Sintra: devia ter dito não, devia ter procurado outro caminho. Agora, suportava humilhações que cresciam como os muros velhos da Mouraria.
Edite acabou agora a universidade, apaixonou-se por um rapaz chamado Gonçalo, gentil como quem oferece amêndoas na Páscoa. Vão casar-se e viver juntos, num apartamento que parece um balão colorido no céu de Lisboa.
Tenho esperança, mesmo nas noites irreais, que a Edite há de ter sorte. E fico a chorar pelo tempo perdido, pelos anos absorvidos, pela minha vida que parece ter-se dissipado como o nevoeiro sobre o rio Douro.






