— Quarenta anos vivemos sob o mesmo teto, e agora, aos sessenta e três anos, de repente decidiste mudar de vida?

Durante quarenta anos vivemos juntos sob o mesmo teto, e agora, aos sessenta e três, tu queres mudar de vida?

Sou a Catarina, e hoje escrevo no meu diário, porque só assim consigo pôr em palavras a confusão desta semana. Eu estava sentada na minha poltrona favorita, com vista para o Tejo, tentando afastar da mente a inquietação do dia. Há poucas horas, preparava o jantar apressada, esperando que o Joaquim regressasse da pesca. Mas ele voltou sem peixe, apenas com uma notícia que há muito tinha guardado e finalmente decidiu contar.

Quero divorciar-me, Catarina. Peço-te compreensão. Os nossos filhos já são adultos, vão perceber. Os netos não se vão importar; podemos terminar isto sem discussões.

Quarenta anos juntos, Joaquim! E queres agora mudar tudo? Preciso saber o que será de mim.

Ele já tinha a solução planeada: Tu ficas com o nosso apartamento em Lisboa, eu vou morar na casa de campo em Sintra. Não temos bens a dividir, depois fica tudo para as nossas filhas.

E como se chama ela? perguntei, resignada.

Joaquim corou, respondeu fugaz e começou a juntar as coisas, fingindo que não ouviu. Para mim, estava claro; havia outra. No tempo da juventude, nunca imaginei terminar os dias sozinha, ainda menos ver o meu marido fugir para os braços de outra mulher.

As filhas, Helena e Isabel, tentaram consolar-me: Mãe, vais ver que tudo se vai ajeitar. Não prestes atenção ao pai.

Eu respondi: Nada vai mudar, apenas não faz sentido revoltar-me, vou viver o tempo que me resta e alegrar-me com a vossa felicidade.

Helena e Isabel foram ao campo falar com Joaquim, regressando visivelmente abatidas, mas sem revelar a verdade direta. Passaram a incentivar-me a viver sozinha, a sugerir que assim talvez fosse melhor, sem ter de cuidar de ninguém. Eu não insisti, tentei apenas continuar a minha rotina. Mas a curiosidade dos parentes e vizinhos era um tormento.

Tantos anos juntos… e no fim ele foge para outra? comentavam as vizinhas, sem cerimónia. É mais nova ou mais rica?

Eu não sabia o que responder, mas o pensamento sobre quem era a rival não me largava. Cheguei ao ponto de ir à casa de campo, sob pretexto de buscar as compotas do Verão, sem avisar. E lá, finalmente, encontrei a dita mulher.

Joaquim, não me disseste que a tua ex vinha cá? protestava a extravagante senhora, com maquilhagem berrante. Achei que tinhas resolvido tudo e ela não tinha razão de aparecer.

Trocas-me por isto? perguntei eu, examinando-a.

Vais ficar aí a deixar esta criatura insultar-me? gritava ela. Tenho só uns anos menos que vocês, mas pareço muito melhor!

O caminho de regresso ao autocarro foi doloroso, com os gritos da Barbie envelhecida a ecoar, e as lágrimas ameaçavam cair. Só em casa, deixei-me levar pela emoção e liguei à minha irmã, Ana, pedindo-lhe para vir.

Já chega dizia Ana, preparando um chá de hortelã. Disseste tu mesma, a nova mulher do Joaquim nem bonita é e, pelo que percebo, nem inteligente.

Talvez ela tenha razão, talvez eu pareça uma velha… duvidei.

Ana foi honesta: Estás bem para a tua idade. O erro é dessas mulheres que, aos sessenta ou mais, querem usar calças de leopardo ou saias curtas. Uma mulher é bela em qualquer idade, se sabe comportar-se.

Olhei para o espelho, e percebi que Ana estava certa. Sentia-me em boa forma, vestia-me com gosto, e as filhas sempre me davam cremes e maquilhagem. Nunca fui espalhafatosa; jamais imaginei que pudesse agir como aquela rival que vi.

Ora, Catarina, agora és livre, aproveita! As filhas são independentes, há imensos programas culturais, não te deixo desanimar continuava Ana.

Cumpriu a promessa; começou a levar-me a teatros, passeios, concertos. Rapidamente, juntámos um grupo de amigos da mesma geração. Até apareceu um senhor, o Manuel, a mostrar interesse, mas eu logo dispusei e dispensei encontros privados.

Numa ida ao supermercado, Joaquim surgiu: Ouvi dizer que agora andas entre teatros e festas, arranjaste novos amigos, talvez até te cases de novo?

E tu, que vieste fazer tão longe de Sintra? Não há lojas lá, ou a tua nova mulher não cozinha? disse-lhe eu.

Sempre fiz compras aqui, é difícil mudar hábitos nesta idade resmungava ele.

Não estendi o assunto, despedi-me e voltei a casa. Joaquim ficou com vontade de correr atrás de mim, contar quanto se arrepende. O entusiasmo inicial com a tal Odete depressa passou; ela não gostava das tarefas diárias, preferia convívios e mexericos.

Joaquim começou a sentir saudades do lar e da companhia serena que só comigo encontrava. Eu nunca fiz cenas, nem discussões, apenas procurei manter a dignidade e viver conforme as circunstâncias. Nunca pensou que sentiria tanta falta da paz e do conforto familiar.

Trouxeste alperce seco, eu pedi ameixa! gritava Odete. O queijo está gordo demais, e o molho nem sequer compraste.

Antes, era a Catarina ou eu junto com ela a comprar, tu queres que faça tudo sozinho, respondeu ele, cansado.

Pára de comparar-me à tua ex. Dizes que te arrependes de a deixar por mim? disparou Odete.

Joaquim realmente arrependia-se, mas sabia que falar já não servia de nada. Eu nunca tentei reconquistá-lo, nem joguei com a situação; apenas fui eu própria, enquanto ele desesperava por perdoar e esquecer.

Sabia bem que, por mais arrependimento, eu nunca voltaria a confiar ou acolher de novo. Por vezes pensou em telefonar, noutra vez chegou à porta do antigo apartamento.

Estás cá para buscar alguma coisa? perguntei, sem o deixar entrar.

Gostava de conversar, tens tempo? pediu ele, sentindo o aroma do meu bolo de ameixa.

Não tenho tempo, nem vontade. Se queres alguma coisa, leva, que espero visitas respondi com firmeza.

Não havia nada para levar, apenas muita coisa por dizer e nenhuma palavra certa lhe vinha. Voltou para Sintra, foi para a cozinha preparar o jantar, já que Odete desaparecera no bairro. Voltou alegre, como sempre, e Joaquim finalmente deu-lhe tempo de arrumar as suas coisas.

Depois das discussões, quase telefonou, depois desistiu. Sabia demasiado bem que era inútil esperar perdão ou esquecimento.

Talvez um dia, mais tarde, pudesse procurar-me só para expiar. Sabia que teria de o fazer, ou jamais teria paz. Sonhava com o perdão, mas, mesmo sem reatar, sabia que nunca o mereceria. Quando começou o romance, sabia que eu nunca toleraria a traição.

Agora, Joaquim vivia isolado em Sintra, e eu tinha vida própria em Lisboa filhas, netos, teatro, amigos. Já não havia lugar para ele na minha história.

E, no fundo, penso: a serenidade vale mais do que qualquer paixão tardia.

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— Quarenta anos vivemos sob o mesmo teto, e agora, aos sessenta e três anos, de repente decidiste mudar de vida?
Depois de salpicar lama de uma poça na senhora mais idosa, a jovem loura exclamou: “Avó, onde vais vestida assim? Já é tarde! As avós deviam estar em casa a esta hora”.