Dois filhos já crescidos e não consigo receber deles nem uma mãozinha. Eles aparecem como quem vai para o Algarve: vêm desfrutar, relaxar como se estivessem num hotel. E eu, sou como uma empregada invisível, recebendo, hospedando, cozinhando, limpando e cuidando deles sem nunca um gesto de ajuda explícita quanto mais pensar em dinheiro, nem falo nisso.
Tenho um filho, o Diogo, e uma filha, a Leonor. Para mim, sempre serão crianças, mas já são adultos com as suas famílias. O Diogo é pai de dois meninos, e a Leonor tem uma filha pequena. Resido na minha quinta nos arredores de Évora, por isso filhos e netos vêm cá frequentemente. Só que cada visita deles se torna mais longa e pesada para mim, como uma maré que chega sem avisar.
Os filhos vêm com o mesmo espírito de quem tira férias na Costa da Caparica. Tudo faço: das refeições ao mercado, da roupa de cama limpa ao pão fresco que compro de madrugada. Preparo pratos como sempre foi hábito, mesa farta, sopa rica, arroz de pato era assim que a minha mãe nos recebia, mesa cheia, calor no coração. Mas eu e a minha irmã nunca deixávamos tudo a cargo dela sabíamos que era difícil para uma mulher só. Lavávamos pratos, tomávamos conta dos miúdos, ajudávamos a fazer limpeza geral, trazíamos compras. Tudo para aliviar o peso dela, mesmo que nunca fosse pedido.
Agora, basta os meus filhos lavarem a sua própria chávena e já consideram que ajudaram. Os genros e noras são convidados, sou só a sénhora da casa para eles, é normal. Mas no fundo o que me magoa é Diogo e Leonor não perceberem como podem ajudar. Chegam, comem, desligam-se a ver televisão ou deixam os miúdos comigo enquanto vão a passear na aldeia ou visitar amigos. Eu fico com panelas para lavar, almoço para preparar, chão para passar pano, a casa cheia de vozes e brinquedos. E com os netos, ainda mais correria.
Cada vez me custa mais, o meu corpo já dói, já não aguento de pé horas frente ao fogão. Mas a educação que recebi não me deixa ignorar, nunca consigo parar e deixar para lá. Não se faz, temos de receber quem entra em casa com dignidade. Passo a semana cansada, a recuperar das aventuras caóticas do fim-de-semana.
Sei que preciso de ajuda, mas não me sai pedir parece mal. E se os filhos se sentem magoados? Não quero que pensem que não fico feliz com eles, porque fico, mas é duro suportar tudo. Há tarefas em casa que já nem consigo enfrentar, mas é uma vergonha pedir. Eles trabalham, não deveriam vir trabalhar cá em casa também.
Não sei como lidar, esta mania de não pedir nada estorva-me, fico só a sofrer. Faz-me tão mal e, ao mesmo tempo, parece mal queixar-me. Preciso mesmo de apoio, não importa como. Só que pedir é uma afronta, cá nunca se pede ajuda cresci a ouvir que a gente desenrasca-se. Sofro, não ultrapasso isto, é um nó que não desata. Não sei porque Diogo e Leonor não percebem, não imaginam que já não sou jovem nem forte como antes. Ninguém para se zangar, mas fico magoada, sem saber como sair deste sonho confuso que nunca termina.







