A minha mãe é confiante e sabe amar! E este homem quis aproveitar-se disso, ainda bem que nós chegámos na hora certa.

Hoje, sinto necessidade de colocar os meus pensamentos no papel, talvez para conseguir organizar o turbilhão de emoções dentro de mim. A minha mãe tem agora 73 anos. Apesar da idade, sempre foi uma mulher bastante moderna e ativa, surpreendendo toda a gente com o seu ânimo. Durante quarenta anos viveu um casamento feliz com o nosso pai, e não poderiam ter sido melhores pais para mim e para o meu irmão. Somos realmente afortunados por termos crescido numa família assim, unida e carinhosa.

O amor entre os meus pais era notório e inspirador. Por isso, quando o meu pai faleceu, há dez anos, a mãe entrou numa fase difícil. Sabíamos que seria impossível preencher esse vazio. Ofereci-lhe desde logo a possibilidade de vir viver connosco, tentei convencê-la de todas as formas, mas ela recusava. Dizia que os amigos de longa data estavam ali em Lisboa e que o apartamento onde vivera com o pai era o seu refúgio e recordação. Para ela, aquelas paredes guardavam memórias demasiado preciosas para abandonar.

O tempo trouxe algum alívio, ainda que a saudade jamais tenha desaparecido. As conversas sobre o meu pai deixaram de trazer lágrimas aos olhos da mãe, e conseguimos falar dele com sorrisos e gratidão. A pouco e pouco, ela foi recuperando a sua alegria chegou até a parecer mais jovem.

Neste domingo, eu, o meu irmão, Sofia, e os nossos filhos fomos todos visitar a mãe. Logo à entrada, foi ela quem nos avisou: “Hoje tenho visita em casa, é um amigo meu, portem-se com respeito!”. Ficámos um pouco atónitos. Durante muitos anos, a mãe insistia que não voltaria a refazer a sua vida com ninguém. Para ela, cuidar de um homem seria um peso, manter-se livre e independente era o seu mantra. Não precisava de homens, garantia sempre.

Quando vi o tal amigo, percebi logo que a situação era outra. Não era só amizade, isso ficou claro. Fiquei sem saber se devia dizer-lhe algo ou não. Pessoalmente, não gostei da situação, mas reconheço que a mãe é uma mulher adulta, cheia de experiência e sabedoria. Cabe-lhe a ela decidir o que fazer e com quem partilhar a vida e, aconteça o que acontecer, terá sempre o nosso apoio.

Sentámo-nos à mesa. Ele chamava-se Eduardo, teria uns sessenta anos, cabelo preto brilhante, fato caro que lhe dava um ar de empresário, embora soubéssemos que era reformado, tal como a mãe. Era comunicativo, fazia piadas e contava histórias divertidas. Mas o que me irritou foi que sempre desviava qualquer pergunta sobre a sua vida pessoal, mudando de assunto de imediato. Não me inspirava confiança. Numa primeira interação, aproximou-se do meu irmão, Luís, e pediu-lhe dinheiro emprestado foi aí que tudo ficou claro para mim e para Luís, mas não para a mãe.

Ela própria, com os olhos marejados de lágrimas, implorou ao Luís que emprestasse dinheiro ao Eduardo. E ele, contrariado, cedeu por não conseguir negar nada à mãe. Dois dias depois, recebemos uma chamada inesperada. Era a filha do tal Eduardo, avisando-nos que o pai era um vigarista. Procurava senhoras idosas e vulneráveis, conquistava-lhes a confiança e aproveitava-se delas, desaparecendo assim que elas ficavam sem dinheiro. Já tinha enganado várias mulheres.

Contei tudo ao Luís, e ele tentou ligar ao Eduardo, mas o telemóvel estava desligado. Fomos ao endereço que nos tinha dado, mas havia outras pessoas lá, nada fazia sentido. Luís perdeu o dinheiro, e a minha mãe ficou com o coração partido, embalada por falsas esperanças.

Fico a pensar na fragilidade do ser humano, especialmente na velhice, e como às vezes, por carência ou saudade, nos tornamos vulneráveis, mesmo depois de tudo o que já vivemos. Só espero que a mãe encontre novamente paz e que, juntos, saibamos protegê-la melhor. Não há dinheiro no mundo que substitua o amor e o abrigo que queremos dar-lhe.

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