Quando o silêncio se tornou quase doloroso, o primeiro aplauso ecoou como um tiro.

Quando o silêncio se tornou quase insuportável, o primeiro aplauso ecoou como um tiro.

Um, depois outro. Em segundos, a sala explodiu em ovações. Pessoas se levantaram, aplaudiram, alguém gritou “Bravo!”, senhoras enxugavam lágrimas, homens pigarreavam disfarçando a emoção.

Mariana ficou parada, perdida como se sonhasse.

O coração batia forte, e um zunido preenchia seus ouvidos. Estava convencida de que seria expulsa, mas em vez disso, todos olhavam para ela a menina descalça vinda do nada.

Professor Manuel Borges aproximou-se lentamente. Seus passos ressoaram no chão de mármore.

Como te chamas, filha? perguntou baixinho.

Mariana… murmurou ela.

E onde aprendeste a tocar assim?

Em lado nenhum. Ela deu de ombros. A minha mãe mostrou umas notas… depois fui sozinha.

Borges a observava por instantes, tentando decifrar como uma música tão pura podia vir de dedos de criança sem sapatos. Voltou-se para o público:

Senhores e senhoras, esta noite fomos testemunhas de um verdadeiro milagre.

Os aplausos retomaram, mas Mariana já não ouvia. Sua cabeça girava. Não comia há dois dias.

O professor percebeu e chamou o empregado:

Tragam-lhe comida, por favor. Agora.

Após alguns minutos, colocaram uma tigela de sopa quente à sua frente. Mariana comeu em silêncio, devagar, temendo que alguém viesse tirar-lhe. Borges olhava com um sorriso tranquilo.

Ao final da noite, a sala estava vazia. Só restavam as velas terminando de queimar, o ar perfumado por fragrâncias e cera.

Tens onde dormir? perguntou o professor.

Ela balançou a cabeça.

E família?

Não tenho. Só tinha a minha mãe…

Borges assentiu.

Amanhã às dez te espero aqui. Vou levar-te ao Conservatório. Vais tocar para eles.

Não posso… sussurrou ela. Não tenho roupa, nem sapatos…

Ele sorria suavemente.

Isso já não é problema teu.

Na manhã seguinte, Mariana esperava à porta do hotel limpa, penteada, vestindo um simples mas arranjado vestido.

Nas costas, trazia uma mochila nova; dentro, a velha fotografia da mãe.

Professor Borges chegou pontualmente às dez, num “Opel” antigo, azul-escuro.

No caminho, quase não falaram. Só uma vez ele perguntou:

O que sentiste quando tocaste ontem?

Parecia que a mãe estava ali comigo. respondeu ela, baixinho.

Ele sorriu e continuou a conduzir.

O Conservatório Nacional de Música de Lisboa os acolheu com um silêncio solene. A secretária olhou Mariana com desconfiança.

Desculpe, senhor professor, as audições só são na primavera.

Ouça-a cinco minutos. insistiu Borges. Cinco apenas.

Em cinco minutos, o diretor estava de pé, silencioso.

Esta menina não precisa de audição. Ela é música.

Assim, Mariana Vieira tornou-se a mais jovem estudante do conservatório.

Os anos passaram.

Seu nome começou a aparecer em cartazes, entrevistas, televisões.

Diziam que, na sua música, havia alma, não apenas técnica.

Mas nunca esqueceu a primeira tigela de sopa e a sala onde lhe permitiram tocar pela primeira vez.

Professor Borges virou seu mentor, depois quase um pai. Observava o crescimento, via as salas lotadas, a emoção da plateia nos concertos.

Ainda assim, nos olhos de Mariana, sempre residia a tristeza de quem já foi criança faminta.

Oito anos depois, no mesmo Hotel “Imperial” realizava-se novamente o baile “Chance aos Jovens”.

Novo piano, mesmo público, roupas elegantes, jóias reluzentes.

Professor Borges na primeira fila agora grisalho, mas com a cabeça erguida com orgulho.

O apresentador subiu ao palco:

Senhoras e senhores, hoje temos entre nós uma jovem cuja história começou exatamente aqui. Recebam… Mariana Vieira!

Ela entrou de vestido branco, sem maquilhagem, sorrindo.

A sala silenciou.

Sentou-se ao piano, mas antes de tocar, olhou para as pessoas:

Há oito anos entrei aqui descalça. Só queria comer. Alguém disse: Deixem-na tocar. Esta noite toco para ele.

E começou.

A mesma melodia, mas diferente mais madura, mais intensa.

Cada nota trazia dor e esperança.

Quando a última nota soou, Borges levantou-se. Não aplaudiu apenas ficou a olhar. Nos olhos, lágrimas.

Aproximou-se e abraçou-a, dizendo:

Agora podes alimentar o mundo inteiro com a tua música.

Uma semana depois, Mariana fundou a sua organização Nota de Esperança.

No primeiro dia foi à Estação do Oriente, onde dormiam crianças sem abrigo.

Aproximou-se de um rapazinho sentado no passeio e ofereceu-lhe um pão quente.

Estás com fome?

Sim.

Tocaste algum instrumento? perguntou ela.

Não… respondeu o miúdo.

Mariana sorriu:

Vem comigo. Vou ensinar-te.

Os jornais escreveram:

A menina que tocou por uma tigela de sopa agora dá pão aos outros.

Mas Mariana sabia que o verdadeiro milagre não era o aplauso nem a fama.

Aconteceu naquela noite, quando alguém simplesmente disse:

Deixem-na tocar.

E desde então ninguém mais ficou com fome, enquanto houvesse música.

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Quando o silêncio se tornou quase doloroso, o primeiro aplauso ecoou como um tiro.
Alexandre sentou-se à beira do sofá, como se o chão debaixo dele tivesse desaparecido.