Zé enfiou o gato no saco – o miúdo vizinho viu sem quererAgora o miúdo corre para casa a gritar pela mãe, enquanto o gato mia desesperado dentro do saco.

A cancela do Sr. António não fechava desde o verão passado. O ferrolho saltou quando ele a empurrou com o ombro, porque tinha as mãos ocupadas com os baldes. Desde aí, a portinhola ficou pendurada numa só dobradiça, e o vento batia-a de noite, como se alguém chegasse e fosse embora sem se decidir a entrar.

O Sr. António habituou-se. Ele habituava-se depressa a tudo. Ao facto de a mulher ter morrido há três anos. Ao facto de o filho ligar uma vez por mês, aos domingos, e a conversa durar quatro minutos. Ao facto de a horta se encher de ervas daninhas porque as costas já não deixam vergar-se, e contratar ajuda era admitir que não aguentava.

A gata apareceu em setembro. Cinzenta, com uma mancha branca no peito e uma orelha rasgada. Sentou-se no degrau da entrada e pôs-se a olhar para a porta. Não miava. Não se roçava nas pernas. Só ficou ali, como quem vinha tratar de um assunto e esperava ser atendida.

O Sr. António saiu, olhou para ela e disse:

– Eu próprio não tenho com que me governar.

A gata não foi embora.

Ele voltou para dentro, tirou do frigorífico um bocado de bacalhau cozido, pô-lo num jornal e levou-o para o degrau. A gata comeu o peixe, lambeu-se e voltou a sentar-se no mesmo sítio.

– Pronto, fica lá, – disse o Sr. António.

Em outubro, ela já vivia em casa. Não porque o Sr. António a tivesse convidado, mas porque uma manhã ele abriu a porta e deu com a gata a dormir no capacho da entrada. Como tinha entrado, não se percebia. A porta estava fechada. Depois reparou que a janela basculante da cozinha não fechava bem, e percebeu.

Não tratou de arranjar a janela.

O miúdo do vizinho, o Tomás, passava todos os dias em frente da casa do Sr. António. Tinha nove anos, andava no terceiro ano e voltava da escola pelo beco porque era mais curto. A cancela com o ferrolho partido ficava mesmo no seu caminho. O Tomás olhava sempre para o quintal – não por curiosidade, mas porque atrás do barracão do Sr. António havia uma macieira velha, e no outono ficavam maçãs no chão, amarelas, pequenas, azedas, mas o Tomás apanhava-as na mesma e comia.

Agora já não havia maçãs. Mas o hábito de olhar ficou.

Naquela quinta-feira, o Tomás vinha da escola e viu o Sr. António no degrau com um saco de pano na mão. O saco mexia-se.

O Tomás parou junto à cancela. O saco nas mãos do Sr. António agitava-se, e lá dentro qualquer coisa arranhava, surdamente, como unhas numa tábua.

O Sr. António não viu o miúdo. Desceu do degrau, atravessou o quintal até ao carro – um Fiat Uno velho, encostado à vedação, coberto de uma crosta de lama. Abriu a porta de trás, pôs o saco no banco e voltou para dentro.

O Tomás ficou parado, sem se mexer. O coração batia-lhe como se tivesse corrido, embora estivesse quieto. Ele já tinha visto a gata perto da casa do Sr. António. A cinzenta, com a mancha branca. Às vezes sentava-se no peitoril da janela e olhava para a rua. Uma vez o Tomás acenou-lhe, e a gata inclinou a cabeça, como se não percebesse.

O saco. A gata dentro do saco. O Tomás sabia o que aquilo era. A avó contava que antigamente, na aldeia, afogavam os gatos no rio. Não por maldade, mas porque não havia quem os alimentasse. A avó dizia aquilo com a maior naturalidade, como se falasse do tempo, e o Tomás na altura não conseguiu dormir até à meia-noite, a imaginar um saco a descer na água escura.

O Sr. António saiu de novo. Agora trazia uma caixa de cartão. Pô-la no banco de trás ao lado do saco, sentou-se ao volante e ligou o motor. O Fiat tossiu, resfolegou e saiu do quintal pelos portões abertos.

O Tomás encostou-se à vedação para o carro não lhe bater. O Sr. António passou por ele sem virar a cabeça.

O miúdo correu para casa.

A mãe, a Sofia, estava na cozinha a cortar cebola. Os olhos vermelhos, mas não de chorar, sim da cebola. O Tomás entrou na entrada a voar, sem descalçar os sapatos, e desatou a falar:

– Mãe, o Sr. António meteu a gata num saco e levou-a!

A Sofia largou a faca.

– Que gata?

– A cinzenta, com a mancha branca! Ela vivia lá! Ele meteu-a no saco e pô-la no carro!

– Tomás, descalça os sapatos. Tu vais sujar o chão todo…

– Mãe! Ele foi afogá-la! Ou deitá-la ao mato!

A Sofia limpou as mãos ao pano da cozinha. Olhou para o filho. Ele estava com o casaco desabotoado, a mochila num ombro, e o lábio inferior tremia-lhe. Não chorava, mas estava quase.

– Tomás, senta-te. Nós não sabemos para onde ele a levou. Talvez ao veterinário.

– Ao veterinário não se leva num saco! Leva-se numa caixa de transporte!

E aí a Sofia não soube o que responder. Porque o filho tinha razão. Ao veterinário não se leva num saco.

– Está bem, – disse ela. – Vou falar com o Sr. António quando ele voltar.

– E se for tarde demais?

– Tomás.

– E se for tarde demais, mãe?

A Sofia tirou o avental.

– Veste-te. Vamos.

Não sabia bem por que estava a fazer aquilo. O Sr. António era vizinho há vinte anos. Um homem calado, de poucas falas, que antes trabalhava como mecânico numa oficina e agora estava reformado, a arranjar pequenas coisas para os vizinhos por umas moedas. Não bebia. Não armava confusão. Depois da morte da mulher, ficou ainda mais silencioso, como se tivessem baixado o volume uns quantos números. A Sofia levava-lhe compotas no Ano Novo, e ele dizia sempre a mesma coisa: «Ó Sofia, não precisava, olha que não.» E aceitava. E no ano seguinte voltava a dizer «não precisava».

Não parecia homem de afogar gatos.

Mas o saco mexia-se. O Tomás viu.

A Sofia tirou o carro da garagem. O Tomás sentou-se ao lado, apertou o cinto e ficou a olhar pela janela, como se a gata pudesse aparecer na estrada. Não sabiam para onde ir – não sabiam que caminho o Sr. António tinha tomado. Para o rio? Para o mato? Para a estrada principal?

– Para o rio, – disse o Tomás com convicção.

– Porquê para o rio?

– Porque a avó dizia que iam sempre para o rio.

A Sofia virou para o rio. Não porque acreditasse nas histórias da avó. Mas porque não tinha outro plano, e o Tomás olhava para ela com aquele olhar dos miúdos quando esperam que um adulto resolva tudo.

A estrada para o rio passava por um campo, depois por um bosque de bétulas, e depois descia a pique até à ponte. Uma ponte velha, de madeira, que só se usava no verão. Agora a maior parte das pessoas dava a volta pela aldeia do Freixo, um desvio de oito quilómetros, mas ao menos era alcatroado.

O Fiat do Sr. António não estava junto à ponte.

– Ele não está aqui, – disse a Sofia.

O Tomás não respondeu. Olhava para o rio. Não gelara porque fevereiro estava ameno, e a corria uma água turva, cinzenta-acastanhada, com manchas escuras junto às margens.

– Vamos voltar, – disse a Sofia baixinho.

– Pelo Freixo, – pediu o Tomás.

Foram pelo Freixo.

Viram o Fiat no caminho de volta. Estava parado na berma, à saída do Freixo, em frente a um edifício comprido de um só piso com uma placa: «Clínica Veterinária». A placa era antiga, as letras desbotadas. Ao lado da porta, um cartaz A4, mas de longe não se percebia.

A Sofia parou.

– Tomás, espera no carro.

– Não.

– Então vou contigo.

Não discutiu.

Dentro, cheirava a lixívia e a qualquer coisa doce, como cheira nas farmácias. Ao balcão, uma mulher de bata azul escrevia num livro. No corredor, cadeiras vazias. De trás de uma porta fechada com o letreiro «Consultório», ouvia-se uma voz. A Sofia reconheceu-a logo.

O sr. António.

Aproximou-se da porta e parou. O Tomás ficou ao lado, agarrado à mão dela.

A porta estava entreaberta.

O sr. António estava sentado num tamborete, diante de uma mesa de metal. Em cima, sobre uma toalha limpa, estava a gata. A cinzenta, com a mancha branca no peito. Viva. O veterinário, um homem novo de óculos, apalpava-lhe a barriga. A gata estava quieta, só a cauda a tremer.

– Quando reparou? – perguntou o veterinário.

– Há três dias. Deixou de comer. Depois começou a esconder-se. Meteu-se debaixo do tanque e não saía. Tirei-a como pude.

– O que trouxe para a transportar?

– Um saco. Não tenho caixa de transporte. Queria comprar, mas na nossa loja não há, e ir à cidade… Fiz-lhe uns buracos no saco para respirar. E pus uma almofada por baixo.

O veterinário acenou. Apertou a barriga da gata e manteve a mão.

– Sr. António, a sua gata não está doente. A sua gata está grávida. Daqui a uma semana, talvez dez dias.

O sr. António tirou o boné. Passou a mão pela testa. Voltou a pô-lo.

– Grávida?

– Três ou quatro crias, pelo que sinto. Ela não é velha, está saudável, o parto deve correr bem.

– Pensei que estava a morrer, – disse o sr. António em voz baixa. – Não comia. Escondia-se. Miava de noite, baixinho, como quem se queixa. Pensei que era o fim.

O veterinário sorriu.

– Não é o fim. É o contrário. É o princípio.

O sr. António olhou para a gata. Ela virou a cabeça e semicerraram-se os olhos para ele, como a dizer: «Então, já percebeste?»

Ele estendeu a mão e fez-lhe uma festa entre as orelhas. Uma vez. Outra. A gata encolheu as orelhas e começou a ronronar, e o som vibrou na mesa de metal.

O Tomás, do lado de fora, deixou de respirar. Ouvira tudo. A Sofia pôs-lhe a mão no ombro e sentiu o miúdo a relaxar, como se lhe tivessem tirado o eixo que o segurara na última hora.

Empurrou a porta.

O sr. António voltou-se. Viu a Sofia. Viu o Tomás. Ficou surpreendido.

– Sofia? O que é que estás aqui a fazer?

A Sofia abriu a boca e fechou-a. Porque dizer «pensámos que ia afogar a gata» era vergonhoso, parvo e impossível. Mas o Tomás antecipou-se.

– Sr. António, eu vi-o a meter a gata num saco. Pensei que ia… pronto.

Não acabou a frase. O sr. António olhou para o miúdo, e na cara dele aconteceu qualquer coisa lenta e complicada, como se juntasse palavras soltas para formar um quadro.

– Pensaste que eu a ia afogar?

O Tomás acenou que sim.

O sr. António ficou calado. Depois levantou-se, aproximou-se do miúdo e agachou-se. Os joelhos estalaram, e o sr. António fez uma careta, mas não se endireitou.

– Tomás. Eu não faria isso. Ouviste? Nunca.

– Sei. Agora sei.

– O saco, porque não tenho caixa. Ela não gosta que a segurem. Foge. No saco fica escuro e calma. Meti lá um casaco velho para ficar macio.

– Eu vi o saco a mexer-se. Assustei-me.

O sr. António pousou a mão no ombro do miúdo. A mão era grande, pesada, com calos amarelos.

– Fizeste bem em assustar-te, – disse o sr. António, sério. – Fizeste bem em correr. Se fosse a sério, ainda ias a tempo.

A gata, em cima da mesa, deixou de ronronar e olhou para eles, como se percebesse do que falavam. O veterinário escrevia qualquer coisa no processo, em silêncio.

A Sofia virou-se para a janela. Lá fora, começara a cair a primeira neve, miudinha e seca, e o candeeiro junto à entrada da clínica parecia um sol baço numa nuvem branca.

A caixa de cartão que o sr. António pusera no carro depois do saco estava no chão, ao pé da mesa. Aberta. Lá dentro, uma toalha velha, uma tigela de água tapada com um plástico para não entornar, e um pacote de ração. De gato. Daquela que só se vendia na mercearia da tia Lúcia, e que era cara. O sr. António comprara-a antes.

Foram para casa no escuro. O Tomás ia no banco de trás, calado. Não dormia, só estava calado, como um adulto a quem as palavras se acabaram mas os pensamentos ainda não.

– Mãe, – disse ele já a chegar a casa, – posso ir a casa do sr. António quando os gatinhos nascerem?

– Podes. Se ele não se importar.

– Ele não vai importar-se.

A Sofia não perguntou donde vinha tanta certeza. Porque vira o olhar do sr. António para o miúdo no consultório do veterinário, e naquele olhar havia qualquer coisa que há muito não via no vizinho. Não era gratidão. Era mais simples e mais importante. Como se pela primeira vez em três anos o tivessem visto não por cima da vedação, mas de perto.

Os gatinhos nasceram nove dias depois. Quatro. Três cinzentos e um branco, com uma mancha escura no lombo, parecida com uma nódoa.

O Tomás foi logo nessa noite. O sr. António abriu a porta e deixou-o entrar sem dizer nada. O miúdo sentou-se no chão, ao pé da caixa onde a gata estava com os gatinhos, e ficou assim meia hora, sem se mexer.

– Este parece-se contigo, – disse o sr. António, a apontar para o branco. – Também é maluco.

– Ele está quieto.

– Espera.

O sr. António arranjou a cancela. O Tomás ajudou, a segurar a dobradiça enquanto ele apertava os parafusos. O ferrolho novo foi a Sofia quem comprou. Trouxe-o num saco, juntamente com um frasco de compota. O sr. António disse: «Ó Sofia, não precisava, olha que não.» Mas aplicou o ferrolho nesse mesmo dia.

Agora a cancela fechava bem, e o vento já não a batia de noite. Mas o Tomás continuava a entrar por ela todos os dias depois da escola. Abria, entrava, fechava atrás de si. O ferrolho estalava certo e curto, como um ponto final.

O gatinho branco o Tomás levou para si quando cresceu. Chamou-lhe Branquinho. O sr. António ouviu o nome, resmungou e não disse nada. Só fez uma festa à gata, que estava no peitoril da janela a ver o miúdo levar o filho dela pelo quintal.

A gata acompanhou-os com o olhar até à cancela. Depois virou-se e enrolou-se no peitoril.

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Zé enfiou o gato no saco – o miúdo vizinho viu sem quererAgora o miúdo corre para casa a gritar pela mãe, enquanto o gato mia desesperado dentro do saco.
A cunhada apareceu para aproveitar tudo feito, mas desta vez encontrou a mesa vazia