Eu e a minha família vivemos em cidades diferentes há mais de vinte anos. Já nem me lembro da última vez que estivemos todos juntos. Os meus pais dedicaram a vida à música, são artistas e cantam num coro que anda constantemente de cidade em cidade. Desde os meus cinco anos, passei a viver com a minha avó, a Dona Lourdes. Ela achou que seria mais fácil cuidar de mim se estivesse perto dos seus próprios familiares e por isso tivemos de nos mudar para casa da irmã dela, em Coimbra.
No início, a minha mãe e o meu pai vinham visitar-nos duas, três vezes por ano, mas com o tempo apareceram cada vez menos. Aos poucos, parei de me preocupar com eles, até o contacto se perdeu por completo. Quando estava no terceiro ano de Medicina Dentária na Universidade de Lisboa, casei-me com o Duarte.
Hoje, eu e o Duarte temos a nossa própria clínica dentária em Lisboa e ganhamos muito bem. Há cerca de um ano, os meus pais voltaram a aparecer, do nada. Passaram a ligar para a clínica, já que nem tinham o meu número de telemóvel. As conversas resumiam-se a queixas sobre a vida corrida e difícil que levavam.
Eu ouvia tudo com paciência e respondia sempre que foram eles que escolheram aquele caminho, deixando a filha aos cuidados da avó. Às vezes, mandavam alguns euros à Dona Lourdes, mas quase sempre vivíamos só da modesta reforma dela. Contou-me isso vezes sem conta. Eu aceitava, porque compreendia, e porque aprendi desde cedo a poupar dinheiro em tudo.
Na escola, tinha boas notas; para pagar as minhas despesas, trabalhei como assistente noturna num hospital. Hoje sei que tenho a minha vida, e os meus pais têm a deles. Cada um segue o seu rumo, como o destino quis.
Quando perceberam que não pretendia ajudá-los financeiramente, começaram a ameaçar que iam pedir apoio judicial. Essas palavras afastaram-me deles de vez. Se antes me vinha uma hesitação ao coração, se pensava se deveria ajudar um pouco mais, agora já não quero saber deles. Achas que estou certa ou deveria apoiar os meus pais, afinal?






