Considero que somos pessoas modernas sugeriu ele viver juntos, mas com a condição: despesas 50/50, e as tarefas domésticas ficam a teu cargo, porque és mulher… Nesse momento, caiu um silêncio Fiquei completamente estupefacta…
Éramos namorados há cerca de seis meses. Esse foi o tempo em que as pequenas imperfeições do outro eram quase encantos únicos e o futuro parecia, à distância, apenas cheio de promessas e cores. O Vítor parecia-me um homem perfeito: inteligente, bem sucedido, culto, impecavelmente vestido. Passávamos os fins de semana em cafés acolhedores de Lisboa, passeávamos por jardins, debatiamos filmes e, naquela altura, parecia-me que as nossas ideias e interesses se alinhavam.
Mas nem demorou muito para percebermos que olhávamos para lugares diferentes. Eu imaginava uma relação como uma parceria equilibrada; ele via nela uma oportunidade de conforto sem esforço.
A conversa sobre viver juntos surgiu num jantar simples. Ele servia chá e, de repente, soltou: Olha, já estamos fartos de andar de uma casa para outra. Alugar duas casas é uma despesa inútil. Que tal mudarmos-nos juntos? Vamos procurar um T2 agradável, perto do centro.
Sorri, já lhe tinha dado a entender esse passo há muito. Mas as palavras que se seguiram fizeram-me pousar a chávena e olhar com mais atenção para o homem que, pensava eu, conhecia bem.
Só que temos de definir as regras, continuou em tom sério, quase como se assinássemos um contrato e não iniciássemos uma vida a dois. Somos pessoas modernas, acho que o orçamento deve ser separado, despesas partilhadas: renda, contas da luz, compras de supermercado, tudo metade.
Acenei, pensando que era justo. Afinal, igualdade é igualdade.
E quanto ao dia a dia em casa? perguntei, esperando ouvir o mesmo metade.
Vítor hesitou um pouco, depois com um sorriso desarmante respondeu: Nisso, a natureza já decidiu: és mulher, o conforto corre-te nas veias. Cozinhar, limpar, lavar roupa isso fica contigo. Eu ajudo quando apetecer: levo o lixo ou conserto uma prateleira se precisar, mas a responsabilidade é tua. Não queres ser dona da tua própria casa?
Silêncio. Olhei-o, tentando encaixar esse quebra-cabeças.
Para quê pagar a uma empregada se há uma mulher amada em casa?
Não discuti. Resolvi falar-lhe na mesma linguagem.
Vítor, entendi o que dizes respondi calmamente. Queres igualdade nas contas, faz sentido. Queres um lar cuidado: jantar delicioso, camisas limpas, chão impecável. Mas, tal como tu, trabalho todo o dia. Não tenho energia, nem vontade, de passar as noites a cuidar de tarefas domésticas.
Ele ficou tenso, mas ouviu-me.
Daí a minha sugestão, continuei. Dividimos as despesas? Façamos isso com civilidade. Contratamos uma empregada duas vezes por semana: limpeza, passar a ferro, preparar refeições para alguns dias. Pagamos ambos, metade cada um. Assim a casa estará limpa, a comida fresca e ninguém se sobrecarrega. O resto, o aconchego que tanto gostas, eu trato: velas, cortinas, é comigo.
O seu rosto foi mudando: primeiro surpresa, depois irritação, finalmente, afastamento. Vi bem o calculador a trabalhar na mente dele, e a soma final não lhe agradou nada.
Para quê outra pessoa em casa? retrucou. É dinheiro a mais. És mulher, será assim tão difícil fazer um jantar para o companheiro? Isso é carinho, não é trabalho.
Quando o assunto era o real valor do trabalho doméstico feminino, passava de carinho para amor e destino. Cozinhar para ele era cuidado, mas pagar metade das despesas era apenas negócio.
Vítor, disse suavemente, se eu preparo o jantar depois de um dia de oito horas, enquanto tu jogas ou vês séries, não é carinho, é exploração. Assumimos um orçamento dividido; dividimos tudo em igual medida. Ou as tarefas também ficam a meio, ou contratamos alguém e pagamos os dois. Não aceito uma situação em que pago tanto quanto tu, mas trabalho o dobro.
Ele ficou em silêncio. O jantar decorreu com alguma tensão, ouvi apenas que precisava pensar.
No dia seguinte, não veio a habitual mensagem de Bom dia. Ao final da tarde recebi um texto seco: ia atrasar-se no emprego. Passados três dias, desapareceu por completo. Não respondeu a chamadas nem mensagens.
Uma semana depois, soube através de conhecimentos comuns: separaram-se porque és interesseira e não cuidadosa. Que só me importava o dinheiro, não estava preparada para a vida familiar.
Dói ao início. Seis meses de planos, ilusões. Mas depois senti alívio.
O seu desaparecimento foi a resposta mais clara a todas as dúvidas. Não queria a mim, queria o conforto de um lar pronto, sem ter de se esforçar.
Vítor sumiu e ainda bem. Contratei uma empregada só para mim. Chego agora a casa e encontro tudo limpo, faço o meu chá e percebo: é uma felicidade não cuidar de quem não valoriza.






