Essa é filha do Frederico…
Olha, vou-te contar o que me aconteceu há pouco tempo, aqui no meu apartamento confortável no quarto andar dum prédio de nove andares. Eu, a Clara, já reformada e ainda a trabalhar, vivo sozinha. Vida normal, sabes como é: reforma, um trabalho a recibos verdes numa clínica privada, amigas de café, visitas aos netos e aquela ajuda básica à minha mãe, que já está velhota e mora sozinha.
Aquele dia era igual aos outros. De manhã, liguei à minha mãe para saber como estava. Era fim de semana, tinha folga, mas o ritual era o de sempre: ir até à minha mãe, a dois quarteirões de distância, ajudar, trocar dois dedos de conversa. Cozinha não era problema ela ainda tinha sopa de ontem e uns bolos. Mas subir até ao quinto andar dela, sem elevador… Isso já é outra história.
E depois havia as queixas dela, coitada. Passava tempo a queixar-se das dores, dos sintomas histórias intermináveis, diagnósticos revistos um cento de vezes, misturados com recomendações das vizinhas e conselhos que via nas manhãs da televisão, daquelas doutoras que tudo sabem. Os meus conselhos? Nunca colavam mesmo tendo sido eu enfermeira no bloco operatório quase quarenta anos, para a minha mãe só contava o que ela própria achava certo.
Bem, voltando a mim, estava quase pronta para sair: pus o saco do lixo ao pé da porta, ajeitei o cabelo curto que agora está mais cinzento, pus um bocadinho de batom. O que tinha mesmo jeito era o rosto ainda simpático, só uns vincos à volta dos olhos, e uns brincos grandes que gosto de usar. Faltava-me só pegar no pão centeio para levar à minha mãe, quando tocaram à campainha.
Cá no prédio temos videoporteiro, não é habitual tocar sem avisar. Abri a porta sem pensar muito, o batom ainda na mão, e deparo-me com uma rapariga magrinha, cabelo apanhado, camisola às riscas, mochila às costas. Trazia um bebé, enrolado numa manta castanha, nos braços. Nem tive tempo para pensar, só me lembro dela a avançar e, num tom meio seco:
É para si!
Passei a ter o bebé nas mãos, como por reflexo. Assim que levantei os olhos, já a rapariga descia as escadas a correr. Ainda lhe ouvi dizer, de relance:
É filha do Frederico, e eu preciso de estudar…
E zás, bateu a porta do prédio. Fiquei parada, a pensar se era mais um daqueles pedidos para segurar a criança enquanto ela ia buscar qualquer coisa ali abaixo. Esperei uns segundos, ela não voltou. Entrei para dentro com o bebé, respirei fundo. Havia também um saco plástico, que nem reparei quando ela o pôs ali.
Olhei para a criança, cobertor de lado, um fato de algodão bege, chupeta verde em forma de sapo, tão pequena que devia ter um mês, talvez nem isso. Dei-lhe uma festinha, ela acomodou-se, voltou a adormecer. Abri o saco: duas mamadeiras, leite em pó, fraldas, roupinha… Nada demais.
Mas aquela sensação de espera, sabes? Como se alguém viesse dar explicações e levasse o bebé embora. Fui até à janela, nada. Voltei ao espelho, acabei de me compor. O tempo a passar, eu sem resposta, e a dúvida a crescer: terá dito Frederico? Mas o meu filho chama-se Duarte, casado, mora em Coimbra, com a família. O marido morreu-me há cinco anos, era António. Nada ali fazia sentido.
Mas a bebé continuava. Tive que lhe mudar a fralda, preparar a papa. Mexia-se, gemia baixinho. E, ao fazê-lo, começou-me a pesar a responsabilidade. Ter-me-iam deixado ali uma criança?
O meu Duarte era dado a namoricos em novo, sim, já teve os seus amores, trouxe algumas cá a casa. Mas depois casou, acalmou, sempre dedicado à mulher e aos miúdos, e agora estavam bem, acabaram de pagar o crédito e até compraram carro novo.
Tentei não pensar em dramas. E até liguei à minha mãe, que nunca perde uma oportunidade para pedir mais fruta do mercado:
Compra-me umas peras, mas daquelas docinhas, como as que trouxeste há duas semanas, não as duras de agora, está bem?
Enquanto tratava da bebé, pensava: será que a rapariga foi iludida e o pai é o Duarte a fingir-se de Frederico? Seria capaz de uma coisa assim? A cabeça dava mil voltas… Não sabia se ligava à polícia, se ligava ao filho, não sabia nada!
Fui indo sempre à janela, de olho na rua. Quando consegui, liguei ao Duarte inacessível. Falei com a nora, a Sofia:
Diz-lhe para me ligar logo que possa!
Disse-lhe que tinha torcido o pé, para não ir à casa da mãe. Ela ainda refilou, mas larguei-me no sofá, já em roupa de casa, a olhar para aquela fofinha e a pensar no que raio devia fazer.
No fundo, tinha medo de ligar à polícia e envolver o filho nalguma confusão, por mais improvável que fosse. E depois, não queria abandonar ali aquela bebé, que tão inocente era no meio deste caos.
Ainda liguei à minha amiga Marta, a mulher despachada que tudo resolve:
Marta, tu nem vais acreditar, deixaram-me um bebé aqui à porta!
Ela, sempre prática:
Calma, Clara! Não faças nada já, vê lá se não foi engano, tenta descobrir quem é o tal Frederico no prédio. Mas liga ao Duarte!
Passaram as horas, tratei da bebé como sabia, arrumei o que consegui, cantei-lhe uma canção, fiz um chazinho para mim. Até que a Marta, ao sair do trabalho, veio ajudar na investigação de porta em porta. Descobriu que no sexto andar havia um Frederico mas era um rapaz novo, informático, e sem filhos.
Fomos lá, a senhora idosa abriu a porta:
Ó Frederico, é outra vez para ti!
Ele, meio despenteado, pensava que era por causa de um tablet em segunda mão. Quando lhe falámos do bebé, ficou com cara de parvo:
Bebés? A mim? Nem namoro tenho, minha senhora…
Ficou tudo esclarecido, engano nosso. Voltámos para baixo a rir, mas com o problema ainda nas minhas mãos.
O Duarte ligou finalmente à noite:
Mãe, estás bem? Que história é essa de um bebé? Chama a polícia, por amor de Deus!
Não te preocupes, filho, está tudo controlado…
Mas nada estava. Passei a noite a cuidar da pequena, pouco dormi. De manhã, a minha mãe já me estava a ligar, com a lista de compras acrescentada. Decidi sair: improvisei um sling com um lenço grande, arranjei a bebé, sentei-a na cadeirinha e lá fomos as duas ao supermercado.
Quando cheguei a casa da minha mãe, ela ficou de queixo caído:
Que é isto agora?
Nada, mãe, é a neta da dona Lurdes, só a estou a tomar conta um bocadinho.
E assim se passou o dia, ambas entretidas com a bebé, e sem dramas de doenças ou lamentações.
Ainda a pensar no destino daquela pequenina, ia mentalmente escolhendo-lhe um nome português talvez Madalena? Catarina?
Cheguei a casa, finalmente consegui falar com o Duarte:
Olha, mãe, já te disse, não tenho nada a ver com isso! Liga é à polícia, rápido!
Mas como ia eu abandonar aquela menina assim?
Deitei-a, adormecemos as duas, já só queria descansar.
De repente, deram à porta. Abri, era a rapariga de ontem: camisola, olhos inchados de chorar, nervosa.
Onde está? Diga-me, onde a deixou? Por amor de Deus!
Eu, meia atarantada, convidei-a a entrar. Estava em estado de desespero, procurava a filha como se lhe tivessem arrancado metade do coração.
Levei-a ao quarto, mostrei-lhe a criança, e ela atirou-se ao chão, a chorar como se o mundo lhe tivesse acabado.
Sentei-a, meti-lhe chá quente e um quadradinho de chocolate nas mãos. Aos poucos, foi contando a história.
Chama-se Beatriz, a bebé chama-se Leonor. A Beatriz é do interior, veio estudar para Lisboa, num curso de enfermagem. Apaixonou-se perdidamente no verão pelo Frederico, estudante cá, promessas feitas, muitos sonhos. Mas ele, depois do Natal, evaporou-se. Telemóvel desligado, ninguém sabia dele, nem número, nem morada.
Ela ficou grávida e sem apoio: a família, só a tia materna a ajudava com algum dinheiro. O pai, ao descobrir, virou-lhe as costas.
Quando Leonor nasceu, a vida complicou-se ainda mais: fora do lar, poucas amigas, estava desesperada com a aproximação dos exames, sem saber o que fazer à criança e recordando as palavras do Frederico: A minha mãe ajuda. Foi bater à porta daquela casa, mas enganou-se no prédio. Deixou a menina comigo e fugiu em lágrimas.
Passou a noite em claro, chorando pela filha, estudando como podia. Quando finalmente percebeu que ninguém sabia de nenhuma bebé, caiu-lhe tudo.
Achei que tinha perdido a Leonor para sempre! soluçava ela.
Segurei-lhe a mão, sentei-a ao meu lado na cozinha e disse-lhe:
Olha, Beatriz, ainda bem que voltaste. Anda, fica cá um tempo, não tens de ir já embora. Eu estou sozinha, a minha casa não é rica, mas chega para as duas. Prepara-te para os exames, eu olho pela Leonor enquanto estudas. Vamos resolver isto juntas, pode ser?
Ela olhou-me como quem vê um anjo, chorou mais um bocadinho e acabou por ficar.
E assim passaram os dias. Beatriz estudava para a época de exames, eu ajudava com a Leonor, a minha mãe passou a adorar as visitas das duas, a cozinha ganhava vida de novo. Ajudámo-la a preparar-se para tudo, e quando tudo terminou, passou com boas notas.
Depois, graças a uns amigos meus do hospital, arranjámos uns turnos para ela na equipa de enfermagem. O Frederico nunca mais apareceu, mas sei que a Beatriz ganhou coragem, arranjou casinha para ela e para a Leonor, e seguimos as duas muito amigas.
A vida dá voltas, sabes, basta abrir a porta uma vez às vezes até quando menos se espera.







