— Estás reformada. O teu lugar é a tomar conta dos netos, — afirmou a filha. A resposta da mãe deixou-a surpreendida

Tu agora estás reformada. É para ficares com os netos, disse a filha. A resposta da mãe deixou-a de boca aberta.

Amélia Ferreira da Silva reformou-se numa sexta-feira. Na segunda, já percebia: aquilo era uma ratoeira.

Sexta foi tudo uma festa os colegas trouxeram bolo de nata com rosas de açúcar, a menina das finanças entregou-lhe um ramo de cravos e um postal assinado por toda a gente, até pelo senhor Manuel da portaria, que em vinte anos nunca acertou no nome dela. A Amélia sorriu, comeu bolo. Estava tudo como devia ser.

Ao domingo à noite, a filha, Beatriz, ligou-lhe.

Mãe, estive a falar com o Rui. Agora que estás reformada, tens imenso tempo livre?

Bem, até tenho, respondeu Amélia, cautelosa, sentindo algo a tilintar-lhe cá dentro.

Óptimo! Podes ir buscar os miúdos à creche mais cedo e ficas com eles até chegarmos.

Todos os dias? perguntou Amélia.

Claro, mãe. Afinal, estás em casa.

Estás em casa. Aquele tom de voz com que se diz não tens mais nada que fazer. Amélia disse:

Está bem, Beatriz.

E foi nesse momento que algo dentro dela começou a ferver, ali por detrás das costelas.

É que naquela segunda-feira, pelas dez, Amélia queria, pela primeira vez, ir à aula de dança do salão Dança para Adultos lá na Baixa, a que já tinha pago adiantado. Tinham sido dois anos a prometer-se: havia visto na rua uma senhora bem erguida, cheia de energia, e pensou quero chegar àquela idade assim.

Mas na segunda lá foi à creche e trouxe os netos.

A Matilde exigiu duas tranças como a Elsa. O Rodrigo entornou o sumo no tapete, mesmo no branco. Ao fim do dia, Amélia sentia-se como um manual de contas em setembro: gasto, de folhas dobradas.

A Beatriz foi buscá-los às oito menos um quarto, deu um beijo de fugida.

Obrigada, mãe, és um anjo!

Pois claro, um anjo, pensou Amélia a olhar para a porta fechada.

E assim passaram-se três semanas. Três semanas podem não ser muito. Depende para quê.

Para obras lá em casa não é nada. Para dieta, também não. Mas para perceber quando nos estão, subtilmente, a usar, sem maldade mas a usar à mesma, três semanas chegam.

O esquema era sempre igual. De manhã, Beatriz ligava, naquele tom leve de quem tem tudo controlado:

Mãe, hoje vais buscar os miúdos?

Nem era pergunta. Era um aviso. Tipo sms do banco: O teu saldo foi usado.

Amélia respondia vou, porque é assim que aprendeu a vida inteira: hábito de não causar problemas. Um hábito prático. Para todos menos para ela.

Cancelou os ensaios de dança. Ligou à escola, explicou que talvez reagendasse. Claro, guardamos o seu pagamento até ao fim do mês, disse a recepcionista. Depois o mês acabou a dança ficou por marcar.

Depois, adiou o cinema com a amiga Rosalina, que se reformara seis meses antes e agora andava na marcha nórdica e fazia doce de pêssego. Tinham combinado ir ver uma comédia francesa Amélia queria há tanto. Não se concretizou.

Não faz mal, consolou-a Rosalina, fica para a próxima.

Para a próxima. Quer dizer mesmo ninguém sabe quando é que haverá próxima.

Os dias eram todos iguais. Depois do almoço, ia buscar os pequenos. A Matilde queria atenção 24 horas. O Rodrigo era mais independente, mas arranjava confusões entornava, partia, deitava tudo abaixo sempre com aquele ar de espanto de quem não percebe por que razão a física existe.

Às seis, Amélia já tinha as costas e a cabeça a latejar. Às oito menos um quarto era uma amálgama de dores.

Obrigada, mãe! És um anjo! dizia Beatriz, a sair apressada. Amélia sentava-se depois no sofá, naquela paz, e pensava: algo não está certo.

Mas não atinava no quê.

Curiosamente, a pista veio da televisão. Num talk show, uma senhora já com alguns anos dizia: Passei a vida a fazer tudo pelos outros. Só aos sessenta é que descobri a minha vida também é minha.

Amélia olhou para o ecrã.

Olha que engraçado, murmurou.

Nesse instante, tirou da gaveta aquele papel o horário das aulas de dança do salão. A época acabava em abril. Restava um mês e meio. Ainda ia a tempo, se quisesse mesmo.

E dessa vez quis.

No dia seguinte, ligou para a escola e inscreveu-se. O horário ficou colado no frigorífico, presa por um íman de Coimbra. Ligou à Rosalina: sábado, cinema marcado.

Rosalina surpreendeu-se, mas ficou tão contente. Combinado!

Era só isto. Dois telefonemas e Amélia já tinha outra vez alguma coisa só dela.

No domingo, foi dar uma volta sozinha. Sem netos, sem sacos, só para respirar. Caminhou junto ao rio, bebeu um café numa esplanada com vista para o Mondego. Ao lado, um casal mais da idade dela ria de alguma piada secreta. Amélia olhou-lhes, pensou a reforma não é o fim. É apenas outro começo. Tens o dossier fechado, agora só vives.

Na segunda foi de novo à creche.

Ao fim do dia, a Beatriz olhou-lhe de modo diferente.

Mãe, que bem disposta estás!

Só um bom dia, respondeu Amélia.

Ah, disse Beatriz, e seguiu sem ligar muito.

Pena dela.

Porque sexta, voltou a ligar. Voz tranquila, de quem não se preocupa com nada:

Mãe, na próxima quarta vamos uns dias até ao Gerês. Precisamos mesmo de descansar. Ficas com os miúdos?

Mesmos esses três dias, Amélia já comprara e pagara uma viagem itinerário impresso e tudo. Ao Porto, com a Rosalina e mais duas amigas. Hotel com pequeno-almoço, guia turístico, visita às caves, pastel de nata e vinho do Porto. Tudo tratado.

Amélia olhou para o telefone.

Depois para o horário de dança no frigorífico.

Depois para o itinerário da viagem, mesmo ali à mão como um segredinho. Uma rebeldia ainda muda.

Aquilo que há três semanas fervera dentro dela? Já estava a ponto.

Amélia não respondeu logo.

Antes, teria dito: Sim. Ou Claro. Ou Pois, não há outro remédio. Escolhia um desses, e o assunto morria ali. Mas desta vez fez uma pausa. Três segundos. Três segundos de silêncio ao telefone parecem uma eternidade.

Beatriz, não posso.

Silêncio do outro lado.

O quê? perguntou Beatriz, mais surpreendida que zangada.

Tenho viagem marcada. Nesses dias vou para o Porto com a Rosalina.

Calou-se.

Estás a falar a sério?

Estou.

Mãe! Mas tu estás reformada. O teu papel agora é ficares com os netos, disse Beatriz, como se contasse a coisa mais óbvia do mundo. Reformada é para netos. Não se discute, é como as estações do ano.

Amélia respirou fundo.

Beatriz, sou avó. Não sou ama gratuita.

O que disseste? a voz da Beatriz ficou mais fina, cortante.

O que ouviste.

Mãe, sabes que nós trabalhamos, que contamos contigo?

Sei, assentiu Amélia, calma. E ajudo. Foram três semanas, todos os dias. Não chega?

Mas tu estás em casa!

Cá está.

Estás em casa.

Beatriz, vivi trinta e cinco anos por ti. Sozinha, sem ajudas, sem férias a sério. Não me queixo, foi escolha minha. Agora gostava de viver um bocadinho para mim.

Beatriz não esperava aquilo.

Mãe, isso é egoísmo!

Chama-lhe o que quiseres, respondeu-lhe Amélia.

E desligou.

Nem acreditou que conseguira.

Amélia pousou o telemóvel, fez chá. Sentou-se à janela.

Vinte minutos depois, novo telefonema.

Mãe. Nós agora não sabemos o que fazer.

Percebo. Eu com a tua idade também não sabia. Mas olha, safei-me.

Não é o mesmo!

O que é que muda?

Beatriz calou-se. Talvez não soubesse responder, ou talvez até soubesse, mas sentisse vergonha.

Mas tu estás reformada, insistiu, agora mais baixinho. Vais fazer o quê?

O que me apetecer, respondeu Amélia. Dançar. Passear. Tomar café a ler um livro. Ver comédias francesas. Ou só estar na janela com ar no rosto também posso. Tu também não me explicas o que fazes aos fins-de-semana.

Trabalho!

Eu trabalhei trinta anos.

Ficaram caladas.

Mãe, mudaste.

Mudei sim. Tarde, talvez. Mas antes tarde do que nunca.

Não entendo.

Vais entender um dia.

Despediu-se de forma seca. Sem beijinhos, mãe nem fica bem. Só um adeus curto, como dois estranhos no elevador.

Amélia ficou à janela, a olhar.

Sem pensar em nada. Nem nos netos, nem na Beatriz, nem se tinha feito bem ou não.

Depois, mandou uma mensagem curta para a Rosalina: Vamos. Reserva.

Resposta um minuto depois. Apenas Que alegria!!!

Amélia sorriu. Lá fora, abril fazia brotar as folhas novas das árvores, apressadas, alegres, sem olhar para trás.

Como se abril também tivesse decidido: agora é que é.

A Beatriz não ligou durante quatro dias.

Nesse tempo, Amélia andou pelo Porto, provou vinho do Porto, fotografou as pontes, e riu com a Rosalina de ninharias daquelas piadas que só fazem sentido quando se está mesmo relaxada, sem pressa nem obrigações.

No domingo, regressou a casa ao final do dia.

Segunda-feira, Beatriz telefonou. Ela própria. Falava devagar, pausada como quem ensaiou o discurso mas, mesmo assim, hesita.

Mãe, acho que exagerei. É claro que tens direito à tua vida.

Fico feliz por perceberes.

Estamos habituados a que tu… saibas. Sim, culpa minha também.

Ficaram em silêncio.

Ajudas-me, pelo menos de vez em quando? Não sempre. Só se puderes.

Claro, com todo o gosto, sorriu Amélia. Os meus netos são as minhas pessoas preferidas. Mas de vez em quando não é todos os dias porque estás em casa, percebes?

Sim, respondeu Beatriz, já noutra sintonia. Isso é diferente.

Agora, Amélia fica com os netos às sextas, por escolha. Fazem rissóis, veem desenhos animados, às vezes conta-lhes histórias do Porto das pontes e do vinho do Porto, que até achou docinho, se souber escolher.

Às terças, há dança.

E ao que parece, Matilde e Rodrigo já contam na creche: a avó deles dança. Com orgulho, nota-se.

Uma avó que dança, diz lá se não é muito melhor do que uma avó parada sempre só em casa?

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— Estás reformada. O teu lugar é a tomar conta dos netos, — afirmou a filha. A resposta da mãe deixou-a surpreendida
Tinha a certeza de que já tinha visto o rapaz que a minha filha trouxe cá a casa. E quando me lembrei de onde o conhecia, corri imediatamente para avisar a minha filha.