Marido infiel escondia o telemóvel, mas a memória traiu-lhe as intenções

Todo homem tem os seus segredos. Uns escondem euros na caixa dos biscoitos, outros inventam tardes de pesca no Tejo. Já o Ricardo Silva era fiel: pousava o telemóvel sempre com o ecrã virado para baixo.

Sempre. E em todo o lado. Na mesa da cozinha, ecrã para baixo. Na mesinha de cabeceira, antes de dormir, igual. No restaurante, em casa dos pais dele em Setúbal, em qualquer canto: o dito cujo, sempre virado de barriga para o tampo.

Inês, a mulher dele, demorou a reparar. Primeiro, só notava. Depois ficou a matutar. Eventualmente, fartou-se, porque pensar nisso era desconfortável. E há um truque muito português nas mulheres para lidar com estas inquietações: deixa-se de pensar até o problema decidir bater à porta.

O casamento dos dois? Certinho. Nada de grandes fogos-de-artifício, mas também nada de panelas e gritaria. Ricardo trabalhava, Inês também. Fins de semana: supermercado, um episódio de novela, de vez em quando jantar com amigos. Amigos, ou melhor, os suspeitos do costume: Tiago e Benedita. Tiago era o melhor amigo do Ricardo desde os tempos da faculdade de Coimbra. Benedita, esposa do Tiago, espalhafatosa, barulhenta, cheia de certezas sobre si própria que por vezes deixava Inês exausta, mas ela fingia-se de nada.

Tudo perfeitamente normal. Tirando o raio do telemóvel dele.

Inês lá ia olhando de lado para o aparelho virado. E suspirava: que seja. O homem já é crescido, pode ter as suas manias.

Mas um dia, enquanto se inclinava na mesa para chegar ao sal, esbarrou no telefone. Zás, escorregou e virou-se ecrã para cima.

Ricardo mais rápido que um pasteis de nata numa festa: escondeu o ecrã debaixo da mão.

Desculpa, disse Inês, meio embaraçada.

Não faz mal, respondeu ele, como se controlasse tudo.

Fizeram ambos de conta que não era nada. Porque, quase sempre, fingimos que nada se passa, precisamente quando está a acontecer alguma coisa.

Inês tinha aquele tipo de inteligência que só lhe trazia dores de cabeça.

Mulher esperta não faz birra por causa de telemóveis. Observa. Vai montando uma tabelazinha mental: coluna dos factos, coluna das desculpas. Enquanto as desculpas colam bem, fica calada.

Inês já andava nisto há uns bons meses. A tabela mental a rebentar de dados.

Primeiro facto: o Ricardo começou a chegar mais tarde do trabalho. Antes, no máximo até às oito. Agora vinha às nove, nove e meia, até uma vez às onze. Sempre com a canção do costume: fim do trimestre, relatório, cliente do Porto.

Segundo facto: andava mais aéreo do que um galo na feira. Olhava para a televisão como quem olha para um prato vazio. Respondia com atraso, tipo Wi-fi a falhar.

Terceiro: ficava tenso quando o Tiago ligava.

E esta é que era gira. Tiago, o compadre de toda a vida, o da partilha de banqueiros e travessuras universitárias e agora, ao ver o nome dele, o ar de Ricardo mudava. Não muito. Mas Inês percebia.

Arriscou perguntar:

Está tudo bem entre ti e o Tiago?

Está, claro. Porquê?

Pareces meio estranho a atender as chamadas dele.

É impressão tua, devolveu Ricardo, pegando (com pose de defesa) no telemóvel.

Benedita, mulher do Tiago, ligou numa quarta ao serão só para tagarelar. Isso acontecia de vez em quando, chá na caneca e duas línguas afiadas até cansar. Benedita era daquelas mulheres que ri alto no café e nunca fica aborrecida, nem numa fila para o banco.

Então, como vão as coisas? atirou Benedita do outro lado.

O Ricardo chegou tarde outra vez.

É o trabalhinho dele respondeu Benedita, com aquela leveza que parece ensaiada.

Na sexta seguinte juntaram-se todos lá em casa de Inês, como de costume. Tiago e Benedita trouxeram vinho do Douro e um bolo de pastelaria; Ricardo metido na cozinha, a grelhar carne como quem não tem preocupações. Inês punha a refeição na mesa e, de olhos semi-cerrados, observava.

Havia ali um estranho silêncio entre Ricardo e Benedita.

Os dois costumavam atirar piadas uns aos outros, agora evitavam trocar olhares ou palavras. Tiago, a debitar histórias do escritório, semblante cansado. Inês olhava para ele, só a pensar: será que sabe? Ou finge que não? Ou anda, como eu, às voltas com teorias dentro da cabeça?

Estás tão caladinha? perguntou Ricardo, quando ficaram sozinhos.

Estou cansada só.

Vai dormir cedo.

Pois…

Foi para a cama e ficou a contar as rachas do tecto. Ao lado, ouvia o som abafado da TV. Ricardo ainda não viera. O telemóvel dele pousado na mesa dele.

Ecrã virado para baixo, claro.

Inês virou-se para o lado.

Ainda tentava não tirar conclusões.

No sábado, o Ricardo disse que ia levar o carro à inspeção, três horitas fora de casa.

Inês foi bebendo café, leu umas coisas, depois meteu-se na limpeza. Aspirador, panos, lá ia ela de canto em canto. Chegou à sala e eis que vê o telemóvel.

Em cima da almofada. Ecrã para cima.

Esquecido!

Em três anos, Ricardo nunca esquecera o telemóvel. Era capaz de sair sem carteira, sem chaves, uma vez até deixou o casaco no escritório e veio para casa em Novembro só de camisa mas o telemóvel? Jamais.

Inês estacou, trapo na mão.

Aquele aparelho ali, a luzinha a piscar. Só isso. A piscar.

Deixou cair o pano e aproximou-se.

No ecrã, uma notificação poucas palavras. Inês nunca bisbilhotava mensagens do marido. Não era por confiar cegamente, só achava que, já adultos, cada um tinha direito à sua gaveta privada. Princípio dela. Prático para toda a gente, menos para ela.

Fez força para não ler.

Mas estava ali a foto do contacto.

Um círculo pequeno, típico das apps de mensagens. Cara de mulher, cabelo escuro, sorriso conhecido.

Era a Benedita.

Ficou a olhar aquela carica digital. Um, dois, cinco segundos. O telemóvel apagou-se sozinho, a tela ficou preta. Inês nem se mexeu.

Foi à cozinha. Serviu-se de um copo de água.

Benedita. Esposa do Tiago. Companheira de sexta-feiras partilhadas, de saber alergias a marisco e decorar aniversários (vinte e dois de Março, nunca esqueceu). Inês lembrava-se do aniversário de Benedita. Os dois sempre escolhiam presentes juntos.

No ano passado também escolheram.

Voltou à sala. O telefone brilhava de novo, mais uma mensagem. Depois, silenciou-se.

Inês recusou ler.

Sabia que, ao ler, alguma coisa rebentava que já não se podia colar. Enquanto não lesse, ainda havia esperança de que fosse coisa miúda. Parabéns atrasados, um pedido de receita, qualquer dúvida sobre o Tiago. Já a hipótese de trocar de contacto… As apps já mostram nomes.

Não, não era engano.

Sentou-se ao lado do telemóvel. Fitou-o como quem olha um velho cúmplice que sabe demais mas não fala.

Na mente começaram a encaixar-se aquelas peças soltas os atrasos, o olhar perdido, a tensão nas chamadas do Tiago, aquele jantar tão estranho, a justificação apressada da Benedita para as ausências do Ricardo.

É. Benedita sabia. Porque era ela.

Inês limitou-se a sentar-se e a sentir a casa remexer-se por dentro.

Vinte anos de amizade do Tiago e do Ricardo.

Será que o Tiago sabia? Suspeitava? Ou anda, como ela, a fazer que não vê?

A porta do prédio bateu, ouviu passos na escada.

Ricardo voltou cedo inspeção rápida ou lembrança súbita do telefone?

Inês ficou sentada.

Ele entrou, viu-a e o telefone à mão dela. O rosto mudou, só um segundo. Mas Inês já estudava aquele rosto há meses.

Esqueci-me disto, murmurou, com um aceno para o telefone, tentando que não parecesse nada.

Sim, reparei, respondeu Inês.

Levantou-se, saiu para a cozinha, agarrou o outro copo de água, bebeu de um só trago.

Atrás dela, silêncio.

Inês, chamou Ricardo.

Agora não, disse ela, serena. Ainda não consigo.

E era verdade. Não estava pronta para conversas, choradeiras, explicações que nada mais mudariam. Só pronta para aquilo que agora sabia.

No domingo à noite tiveram a conversa.

Sem gritos, sem pratos partidos nem cenas dignas de novela. Só os dois sentados na cozinha, Ricardo a começar porque percebeu que ela não ia perguntar mais nada.

Nem sei explicar, admitiu ele.

Não vale a pena. A foto da Benedita explicou tudo.

Silêncio. Depois:

Tu já sabias?

Suspeitava. Fui colecionando hipóteses.

E agora?

Agora? Não faço ideia dos teus planos. Os meus passam por ponderar o divórcio.

Contou logo à Benedita Inês própria ligou. Curto e directo:

Benedita, sei tudo. Não tens de explicar nada. Diz ao Tiago ou não digas, isso é contigo. Mas não preciso que me voltes a ligar.

Lágrima nenhuma no fio. Um Inês do outro lado. Inês desligou.

O Tiago descobriu no dia seguinte. Nem quis saber como. Ricardo chegou com o ar de quem viu o Benfica perder o campeonato, sentou-se na poltrona, ficou a olhar para o nada e, no fim, soltou:

O Tiago ligou.

Sim, compreendo, disse Inês.

E foi isso. Nada mais a dizer.

Três anos de casamento. Vinte de amizade. Um avatar com sorriso alheio a rebentar dois lares, como castelos de cartas. Sem drama, sem fogo de artifício.

Uma semana depois, Inês arrumava a vida. Uns livros, roupa, uns tachos que já trazia de solteira. Ricardo, na sala. Ela ouvia-o mexer-se no sofá, nervoso.

No corredor, hesitou. O telemóvel dependurado na mesa.

Ecrã virado para baixo.

Inês fechou a porta.

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