O meu vizinho adorava ouvir rock às duas da manhã. Comprei uma viola para a minha filha e começámos a praticar escalas logo às oito da manhã, quando o vizinho acabava de cair no sono.
Precisamente à uma e meia da madrugada, o teto do meu quarto ganhava vida própria. Primeiro vinha um barulho surdo, como se uma trovoada estivesse prestes a explodir no Porto, depois as frequências baixas entravam em ação, e o basismo era tal que o cristal do meu aparador vibrava nervosamente com o ritmo dos tambores.
O meu vizinho do andar de cima era o Manuel. Um apaixonado pelo “talento” de ouvir toda a discografia dos Moonspell e da banda Xutos & Pontapés, acompanhada de cerveja Sagres duvidosa, em qualquer hora do dia ou da noite.
Eu sou uma pessoa pacífica por natureza. Trabalho como contabilista, crio sozinha a minha filha de sete anos, Inês, e o maior desejo do meu coração é simplesmente dormir como gente. Mas quando acordas com a sensação de que o Fernando Ribeiro dos Moonspell está a berrar Alma Mater ao teu ouvido, até o mais zen perde a compostura.
Na primeira vez subi até ao Manuel perto das duas da manhã de robe e chinelos. Abriu-me a porta um homem de trinta e poucos anos, despenteado, olhar de zombie, cheiro forte de cigarro e o rock a estourar de fundo.
Manuel, tenha paciência, disse eu, tentando manter a calma. É noite, amanhã tenho de ir trabalhar, a Inês à escola.
Eh, não é nada demais, admirou-se ele, encostando-se ao portal. Não está alto, o som é de qualidade, os baixos são suaves.
A minha lâmpada está a balançar, respondi.
Pronto, vou baixar, resmungou ele, batendo com a porta.
O silêncio durou exatos dez minutos. De seguida, tudo voltou ao habitual.
No dia seguinte decidi seguir as regras. Liguei à PSP. A patrulha apareceu quase duas horas depois, quando o concerto já tinha acabado e o Manuel dormia como um anjinho. Os agentes encolheram os ombros: Não há barulho, não podemos agir. Escreva ao delegado de freguesia, ele fala com o vizinho.
De facto, o delegado falou com ele só uma semana depois.
Já tive uma conversa com ele, disse-me ao telefone. Prometeu ser mais calmo, mas veja, as multas são simbólicas, ele não se importa.
Tudo continuou igual. Cada noite a batida bam-bam-bam arrasava-me os nervos. Comecei a tomar chá de camomila, ia trabalhar com cara de segunda-feira, e odiava a casa, o Manuel, e a minha impotência.
A Inês tem talento há que desenvolvê-lo
A ideia surgiu sem aviso, num sábado de manhã. Estava na cozinha com um café expresso, a olhar para as olheiras da minha filha. A Inês também andava mal dormida.
Mãe, posso aprender violino? perguntou de repente, enquanto navegava no telemóvel.
Já ouviram um violino nas mãos de um principiante? Não é música. É um som de emergência, um grito agudo, como se a realidade estivesse a rasgar.
Claro, querida, respondi, e pela primeira vez em semanas sorri um sorriso de mãe-loba. E vamos comprar um instrumento do melhor.
Fomos à loja de música nesse mesmo dia. O vendedor, um senhor reformado e muito polido, demorou a escolher-nos um quartinho.
A menina tem ouvido? perguntou.
Tem uma motivação de ouro, respondi eu.
Entretanto, li tudo sobre a Lei do Ruído regional. Nos dias úteis, barulho permitido a partir das 8h. Nos fins de semana, um pouco mais tarde.
Manuel calava-se às quatro da manhã. Às oito dormia em sono profundo.
Segunda-feira. De manhã. Eu e a Inês no meio da sala.
Força, filha, escala em Ré maior. Alto e com sentimento.
O que se seguiu não tem vocabulário possível. Parecia o miar de um gato atropelado, misturado com um prego a riscá-lo numa janela. O violino, livre e potente, ressoava pelas lajes de betão, saudando o vizinho lá em cima.
Dez minutos depois houve um estrondo acima. Devia ser o Manuel a cair da cama. Cinco minutos depois, pancadas na canalização. Nós não parámos a lei estava do nosso lado.
Às 08:20, toca à campainha. Abri a porta. Na ombreira, Manuel, de t-shirt e boxers, olhos vermelhos e cara de quem sobreviveu a um terramoto.
Que raio é isto?! disse, rouco. Oito da manhã! As pessoas estão a dormir!
Bom dia, Manuel! sorri eu com energia. Estamos a ensaiar. A Inês tem talento, o professor recomenda prática matinal. Mínimo uma hora.
Estão a gozar comigo? A minha cabeça está a explodir!
Que estranho, comentei, espantada. Não está alto. Aliás, gostou de Alma Mater esta noite? Achei os baixos um pouco fracos.
Olhou para mim, para a Inês, que segurava o violino e o arco como quem vai para batalha.
Foi de propósito?
É arte, Manuel. A arte requer sacrifício.
Paz através da música
Ensaiámos por uma semana, todos os dias às oito. Ao terceiro dia, os concertos noturnos em cima desapareceram Manuel achava que se ficasse calado, nós parávamos também. Mas toda mãe sabe que quem começa a aprender violino não pára assim.
Na sexta-feira à noite, ele desceu. Sóbrio, de jeans e camisa.
Olha, vizinha, suspirou vamos fazer um acordo. Não aguento mais. Esse chiado já me atormenta até de dia.
Estou a ouvir, disse eu, convidando-o para a cozinha.
Pus papel e caneta na mesa.
Regras simples. Silêncio absoluto depois das 22:00.
E se tiver visitas? tentou negociar.
E se a Inês ficar inspirada às sete da manhã de domingo? ripostei eu.
Manuel tremeu de leve.
Ok. Depois das dez, silêncio. Fechado. E o violino vai vender?
De jeito nenhum, garanti. Fica na prateleira, à vista, pronto a usar. Serve de garantia.
Assinámos um pacto do silêncio improvisado. Já dura há meio ano. A Inês abandonou o violino agora joga xadrez.
O prédio está em paz. Por vezes, eu e o Manuel cumprimentamo-nos no elevador. Ele olha para a minha filha desconfiado, e para mim com respeito. Parece ter percebido: uma contabilista silenciosa com uma filha educada pode ser mais perigosa do que um roqueiro à solta.





