Nunca conheci o meu pai, e a minha mãe raramente me visitava. Muito tempo depois, foi pelos tutores que descobri como fui parar ao orfanato. Tinha cerca de um ano quando apanhei uma pneumonia. Exausta pela doença, parei de chorar completamente. Ficava deitada, silenciosa, num berço empoeirado durante dias, morrendo devagar, enquanto a minha mãe melancólica bebia aguardente na sala ao lado.
Nasci numa família marcada pela presença constante do álcool. A minha mãe passava dias a beber, e o som dos seus copos ecoava pela casa, impedindo-me de dormir. Os vizinhos já se queixavam do choro constante da criança. Num dia estranho, a minha mãe decidiu levar-me ao hospital. Quando a enfermeira entrou e viu-me, o incrível aconteceu: eu estava envolta por chamas, as minhas roupas a arder como se fossem velas de aniversário. Foram precisas três pessoas para abafar o fogo. Levaram-me para uma sala de emergência, e ali trataram as minhas queimaduras. Durante a minha estadia no hospital, a minha mãe não apareceu, nem uma única vez, para me visitar.
A felicidade meio mágica que encontrei no orfanato continuou após o nascimento do meu primeiro filho. Recebi uma boa educação e conquistei um emprego seguro, o nosso apartamento era grande e repleto de azulejos coloridos e móveis antigos, tudo parecia saído de um capítulo surreal. Essa casa dava-me uma alegria tranquila, como se flutuássemos todos no meio de milagres familiares inventados. Só havia uma ausência: a nossa criança própria…
O meu marido e eu decidimos adotar uma menina de dois anos de um orfanato lá de Lisboa. Muitos aconselharam-nos a não o fazer, mas não demos ouvidos. Trouxemo-la connosco quando mudámos de cidade, sem saber se ela poderia herdar alguma doença estranha. Até agora, tem estado perfeitamente saudável!
Hoje, agradeço a Deus todos os dias por me ter dado a capacidade de pensar por mim e de não aceitar as opiniões dos outros como verdades absolutas. Nenhuma das previsões dos médicos se confirmou a menina é saudável e cresce feliz. Para mim, é até demasiado fácil culpar os chamados maus genes por tudo o que vai mal na vida de uma criança. É como dizer que não é a nossa dedicação nem as condições em que vivemos que provocam a doença, mas sim os pais biológicos e as suas heranças invisíveis. O que uma criança precisa, verdadeiramente, é de amor e do sentimento de que é importante, para crescer e tornar-se alguém especial.
Estamos a caminho do quinto aniversário da adoção, e isso deixa-me com o coração apertado. Amo o meu filho tanto quanto amo a minha outra filha, aquela que nasceu de mim ambos são a minha família inteira. Mas uma parte de mim teme o dia em que Rosa descubra que foi adotada e reaja mal à notícia. Não sei como começar essa conversa sonhada e estranha se ela descobrir antes de eu lhe contar. Será que ela compreenderá? Esse medo é ainda maior do que o temor de que alguém lhe conte antes de mim.






