Como uma avó portuguesa deixou o neto recém-nascido à porta de uma maternidade

Leonor já contava com 60 anos. Embora a reforma estivesse à porta, não sentia pressa em largar o trabalho. Nesse dia, terminou o turno, trocou de roupa com movimentos lassos e saiu para a rua. Chovia copiosamente; as nuvens pareciam chorar pelo próprio céu, e ela não tinha guarda-chuva. Puxou o capuz até cobrir-lhe metade da testa e caminhou em direção à paragem do autocarro. De repente, entre o ribombar da chuva e os faróis dos carros distorcidos pelas poças, ouviu um choro débilum choro de recém-nascido a desprender-se de um banco solitário, no meio do nada húmido.

Aproximou-se e encontrou um embrulho franzino, tão pequeno como uma sardinha, largado sobre a tábua de madeira encharcada. Tomou-o nos braços, embalou-o devagar até os soluços diminuírem. Voltou sobre os próprios passos, a água a entrar-lhe nos sapatos, e regressou ao hospital do qual acabara de sairo menino estava gelado, envolto naquele casulo de roupa ensopada.

Chamou um pediatra, que veio apressado, ainda com a bata manchada de café. É um raparigo. Parece ter duas semanas, pouco mais. Está saudável. Não percebo por que o desapegaram assim estas crianças precisam de mimo, precisam de colo murmurou, os óculos embaciados de preocupação.

Com o coração a tamborilar, Leonor decidiu ficar no turno da noite, sabendo que o sono não viria de qualquer forma. Não largou o menino nem por um segundo; o lugar ficou impregnado de um silêncio húmido, apenas cortado pelo som distante das rodas de ambulância.

De súbito, a polícia apareceu, com lanternas que pareciam faróis de barcos perdidos em nevoeiro. Tomaram a sua declaração, anotando palavras na cadência própria dos sonhos. Leonor continuava de sentinela, protegendo a criança como uma mãe-galinha no nevoeiro.

Duas horas depois, regressaram, arrastando consigo um casal novo. A rapariga, Olívia, chorava sem meias-medidas; o rapaz, Tomás, tinha a palidez de quem sonha acordado.
Vamos ver o bebé pode ser nosso soltou Olívia, a voz a ecoar como se viesse de um túnel inundado.

Vestiram batas emprestadas e seguiram até à ala das crianças. Olívia reconheceu o menino à primeira vista e desfez-se em pranto, agarrando-o como se pudesse impedir o tempo de avançar. A mãe apertou o filho nos braços e não queria largá-lo. Leonor, desorientada, espreitava pelo véu trémulo deste sonho pouco nítido.

Um dos polícias, com sotaque de Trás-os-Montes, sussurrou-lhe a história toda, enrolando cada palavra como se a soltasse num novelo: A Olívia e o Tomás iam-se encontrando às escondidas dos pais, porque não aceitavam o namoro. Os pais da Olívia ainda torciam o nariz, mas era a mãe do Tomás que não suportava a ideia. A esperança era que, com o nascimento do filho, a avó se amolecesse e aceitasse o laço. Nada disso. Convicta de que Olívia teria tido a criança com outro homem, aproveitou o pretexto para os mandar ao cinema e deixou o bebé aqui, ao relento, junto ao hospital.

Assim giram as rodas deste sonho estranho. Ninguém sabe o que será do pequeno rapaz, mas talvez nunca venha a ver a avó na vida real, salvo nos sonhos, debaixo de chuva miudinha e bancos vazios.

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