Hoje ao jantar, decidi contar à família: Pai, mãe, vou casar-me. O meu pai soltou um riso discreto e a minha mãe parou de mastigar, olhando-me com espanto.
O que queres dizer com isso? perguntou ela, confusa. Com quem?
É uma rapariga nova. Tão bonita, tão inteligente, tão encantadora suspirei, pousando a cabeça na mão.
Por causa dela andava sem apetite e nada me corria bem nos últimos dias.
Já sabe disso, a tal rapariga? perguntou o meu pai, tentando conter um sorriso maroto.
Sim Disse-lhe hoje e ela respondeu que não se importava, só pediu que eu tivesse um apartamento.
E tu tens um? A minha mãe arregalou os olhos.
Claro que sim, nós vivemos num apartamento. O pai tem um carro, prometi que o emprestaria para o casamento
O pai abanou a cabeça, insinuando que nem se tinha inscrito para tal coisa e que o carro não ia sair da garagem tão cedo.
E ela, tem algum dote? É uma boa noiva? A mãe entrou mesmo na conversa.
Sim, respondeu o filho cheio de entusiasmo. Ela é gentil e fala com muita educação.
A minha mãe já não conseguia deter o riso, apontando para o meu prato.
No fim de contas, nem comes.
Deixa-o, só pensa na futura boda brincou o meu pai. Mas só te deixo casar depois de mostrares as notas de matemática e de português.
Fiquei a olhar para o meu pai, assustado. Passei o dia todo a pensar nela, abandonei os trabalhos de casa e, claro, o ditado de hoje correu pessimamente porque aquela aluna nova da turma não deixou que me concentrasse. Era a rapariga mais bonita que já vi. Não era o único a gostar dela e, por isso, canalizei toda a minha energia para conquistar o seu coração, e ignorei as aulas.
Vá lá, pai!
Agora que já comeste, vai fazer os trabalhos. Não há casamento nem apartamento, nem carro enquanto as notas forem abaixo de quatro.
Fiquei magoado, mas obedeci, levantei-me e fui para o meu quarto.
Ai, estes miúdos do quinto ano suspirou a mãe.
Nem que digas concordou o pai.
No final, percebi que o coração pode ser forte, mas sem esforço nos estudos, não se constrói nada.







