Há muito tempo, era casada há dez anos. Vivíamos, eu e o meu marido, num apartamento em Lisboa, ainda a pagar o empréstimo ao banco. Sentíamos que ainda não era o momento certo para termos filhos; queríamos primeiro estabilizar a nossa vida financeira e profissional.
Tenho um irmão, o António. Também ele era casado. Viviam num pequeno apartamento T1 em Porto. António trabalhava em dois empregos e ainda arranjava um part-time ao fim de semana, enquanto a esposa dele, Matilde, não trabalhava. Ela dedicava-se apenas à maternidade, trazendo crianças ao mundo como se fosse coelho: já tinham três filhos e ela estava grávida do quarto, com planos para o quinto.
Além dos filhos, acumulavam dívidas, empréstimos para comprar eletrodomésticos e outras necessidades. Eu e o meu marido ajudávamos sempre que podíamos, ora com dinheiro ora com alguma comida. Às vezes, Matilde tinha o desplante de exigir alguma coisa, nem sequer pedir por favor.
Nessas alturas tínhamos de a colocar no seu lugar e recusar. Claro está que ela e António ficavam sentidos, mas passadas umas semanas voltavam com novo pedido. “Como vocês ainda não têm filhos, e nós vamos ter quatro em breve, têm de nos ceder o vosso apartamento,” dizia Matilde.
“E para onde é suposto irmos? Para o vosso apartamento de um quarto?” perguntei, incrédula com tal disparate. “Arranjamos inquilinos para o vosso, e vocês alugam o vosso próprio, assim pagam o empréstimo e a renda por nós,” respondeu ela, convicta. “Estás a sugerir que tenhamos de pagar tanto o crédito da casa como a vossa renda?” “Claro que sim. Quando é que desocupam o apartamento?” insistiu ela.
“Você devia era estar internada num hospital psiquiátrico, não a tirar filhos a este ritmo,” disse-lhe, irritada. “Sai do meu apartamento.” “Pois vou sair, e vou livrar-me da criança também. Depois a culpa vai ser tua,” concluiu Matilde, saindo zangada.
No mesmo dia, de forma silenciosa, Matilde cumpriu o que prometera, estando ainda apenas no terceiro mês de gravidez. Os médicos foram obrigados a intervir de urgência, salvando-lhe a vida. Pelas duas da manhã, António apareceu no hospital, acusando-me de tudo. O meu marido, Rui, travou-o de imediato e pediu explicações. Contei-lhe o sucedido. Rui, já sem paciência, levou António até à cozinha, meteu-lhe a cabeça debaixo da torneira de água fria para o acalmar e expulsou-o de nossa casa.
Desde esse dia, nunca mais tive irmão. Cada um foi para o seu lado, e por vezes ainda lembro este capítulo com tristeza, pensando como as escolhas nos afastam.







