Quando chegou a primavera, meus pais decidiram colocar o terreno à venda. Já eram bastante idosos, e a saúde estava longe de ser a mesma de outros tempos para cuidar do quintal. A filha mais velha cuidava dos filhos e trabalhava sem parar, quase nunca conseguia tempo para ajudar. Os meus pais ponderaram durante semanas, e enfim tomaram uma decisão.
A filha, Leonor, sentiu um alívio enorme: não teria de lidar com novas discussões. Era sempre complicado arranjar tempo para ir a Sintra, onde ficava o terreno, ajudar nas hortas e a viagem era longa. Por várias vezes Leonor pediu aos pais que vendessem o terreno. Com o dinheiro, talvez comprassem um pedaço de terra mais próximo de Lisboa. Não queria passar todos os fins-de-semana a arrancar ervas daninhas. Um espaço de lazer para ler ou para fazer um piquenique era o que desejava. Para mim, aquele terreno era sobretudo uma fonte de conservas caseiras.
Os fins-de-semana voavam para Leonor e o marido, António. Não havia tempo para tarefas domésticas. A profissão de António era exigente e, por vezes, era chamado ao trabalho mesmo ao sábado ou domingo. Leonor sabia bem que o terreno trazia mais preocupações que descanso. Depois de um fim-de-semana lá, era preciso uns dias para recuperar o cansaço.
Leonor ficou satisfeita com a venda. Passaram alguns anos tranquilos. Mas com o tempo, Leonor começou a sentir falta daquele cantinho. Sonhava com um local onde pudesse relaxar. António sugeriu voltarem a procurar um terreno.
O trabalho estabilizou. Aos sábados e domingos, agora era possível ir até ao campo e aproveitar o ar puro. Além disso, seria bom para os filhos mais pequenos. Decidiram que bastavam algumas árvores, ameixoeiras e arbustos de frutos, para dar vitaminas às crianças. Leonor avisou logo os pais: a nova parcela seria só para lazer, nada de cultivar hortas ou correr pelo quintal. Todos concordaram com o plano. Faltava apenas escolher onde seria.
Analizaram várias opções. Por fim encontraram a ideal: uma casa antiga mas digna, com árvores e arbustos de fruta. O vendedor era um senhor idoso, o avô Joaquim, que já não tinha esposa e estava cansado de cuidar sozinho da terra. Assim decidiu vender.
Tudo foi resolvido. Leonor estava radiante: via finalmente o seu sonho tornar-se realidade. A casa era bonita, bem habitada, não precisava de grandes obras ainda. Decidiram começar a melhorar o espaço no verão. E assim foi feito.
Na primeira semana, estiveram em paz. Mas logo depois, o avô Joaquim começou a aparecer. Avisava que vinha buscar os últimos objetos. Ninguém se opôs. Mas logo começaram as queixas. Primeiro, foi preciso explicar por que removeram aqueles arbustos secos. Depois, as calas que já não eram necessárias.
O avô Joaquim começou a lamentar-se que não havia acordo para tal. Afinal, ele e a esposa tinham plantado aquele arbusto há décadas, e os mirtilos sempre deram frutos. Reparou até que, onde havia morangueiros, agora estavam pedrinhas decorativas.
O avô deu a volta ao terreno, encontrando motivos para reclamar em cada canto. Até que António, o marido de Leonor, perdeu a paciência e reagiu. “Pagámos por este terreno em euros. Com os papeis assinados, é nosso. Cabe-nos decidir o que fazemos aqui.”
O contrato não dizia que o antigo dono podia continuar a mexer no terreno. Senão, nunca teriam fechado negócio. O avô Joaquim foi embora. Mas no dia seguinte voltou, trazendo um arbusto nas mãos e já com intenção de replantá-lo onde havia roseiras.
António perguntou o que estava a acontecer. O avô ofereceu devolver o dinheiro e ficar ele com o terreno. Recusaram, mas mesmo assim ele entrou e plantou o arbusto. Depois, chegou uma vizinha, Dona Rosa, surpresa com a presença do antigo proprietário. Joaquim queixou-se dos novos donos. Dona Rosa concordou que Leonor e António tinham direito a gerir o terreno como quisessem. Só não conseguia convencer o avô disso.
Pouco depois, Dona Rosa contou que Joaquim discutia com todos na rua. Desde a partida da mulher, tornara-se excêntrico. Não esperavam uma vida pacífica: o avô continuava a aparecer sem aviso. Dona Rosa sugeriu ir até à Junta de Freguesia para explicar a situação ao senhor.
Durante esta conversa, Joaquim ainda conseguiu plantar um arbusto e saiu em sossego. Voltou para buscar alguns objetos, mexeu nas plantas, e saiu sem alarde.
Na manhã seguinte, António partiu para o trabalho. Era empregado numa empresa de construção civil. Relatou o sucedido aos colegas, que lhe disseram que recebera o terreno com uma bagagem pesada. Mas não hesitaram em ajudar: começaram a erguer uma vedação. Joaquim desapareceu por uns dias. Quando voltou, percebeu que já não podia entrar livremente no quintal.
Ficou furioso, tentou abrir passagem, depois foi à Junta. Lá, já sabiam que não deixava os novos donos viver tranquilos. Não sei o que lhe disseram, mas depois disso só voltou uma vez, para ir buscar os seus últimos pertences.







