Leonor e Bernardo casaram-se há um ano, numa cerimónia luxuosa organizada pelos pais de ambos. Sendo ambos filhos únicos, as famílias decidiram que o casamento tinha de ser realizado com o máximo de pompa e circunstância. Quando a Leonor e o Bernardo sugeriram uma celebração mais simples, com churrasco entre amigos, nem sequer foi considerada. As mães sonhavam com a boda tradicional, vestido branco e uma carruagem elegante.
Sem conseguir evitar o grande baile, o casal mergulhou nos preparativos da boda, levando tudo muito a sério. Havia mil detalhes: manicure, maquilhagem, compra do vestido e do fato, além de inúmeros pormenores essenciais. Os pais assumiram todas as despesas, exceto o vestido da noiva e o fato do noivo. Escolheram o melhor restaurante de Lisboa, definiram o ramo da noiva e ficou decidido que o bolo seria feito por uma amiga experiente da mãe do Bernardo, especialista em pastelaria.
A lista de convidados foi elaborada com rigor, pois queriam reunir toda a família, incluindo aqueles com quem já pouco falavam. Os argumentos eram sólidos: eram pessoas endinheiradas, podiam oferecer presentes generosos e, com o dinheiro recebido, o jovem casal compraria um carro novo ou pouparia para o primeiro apartamento. Depois de discussões acaloradas, optaram por não convidar familiares demasiado distantes. Alguns, alegando motivos convincentes, declinaram o convite. No fim, a maioria dos convidados eram amigos próximos, como Leonor e Bernardo desejavam.
No dia do casamento, o tempo mostrou-se perfeito apesar das ameaças de chuva na manhã. Leonor brilhava num vestido de seda adornado com renda portuguesa, tão elegante, que Bernardo não conseguiu desviar o olhar dela durante toda a cerimónia. O dia foi inundado de alegria. O fotógrafo, energicamente, capturava todos os instantes com a sua máquina reflex, e os convidados antecipavam com ansiedade o banquete no restaurante.
Após a sessão fotográfica, o casal embarcou numa carruagem branca e dirigiu-se ao restaurante. Champagne fluía e os cumprimentos eram abundantes. Os presentes eram, sobretudo, envelopes com euros, pois avisaram a todos que preferiam dinheiro. Mesmo assim, alguns convidados mais antigos não resistiram e ofereceram cobertores, roupa de cama e pratos.
O bolo, com três andares, impressionou até os convidados mais exigentes pela beleza e pelo requinte: decorado com renda dourada, flores suaves e pérolas. A festa de casamento foi um sucesso. Só de manhã, exaustos, os convidados foram dispersando para casa, enquanto os noivos seguiram para o quarto de hotel reservado previamente.
No dia seguinte, ao regressarem à casa dos pais de Leonor, a mãe informou que um dos envelopes estava vazio. Era o envelope de uma amiga próxima do casal, Sara. Era fácil identificar porque, ao contrário dos outros, este não estava assinado. Leonor sentiu o coração apertado.
A situação tornou-se ainda mais delicada porque, antes do casamento, Sara tinha declarado que, nos dias de hoje, era impensável dar menos de mil euros aos noivos, e garantiu que ajudaria generosamente a amiga.
Menos de um ano depois, Sara tornou-se ela própria noiva e convidou Leonor e Bernardo para a sua boda. A conselho da amiga, só queriam dinheiro, pois esperavam que os presentes cobrissem as despesas da festa. O casal ficou num dilema doloroso. Leonor sugeriu devolver o gesto com um envelope vazio. Bernardo achou melhor dar uma quantia maior para provocar constrangimento. A mãe de Leonor aconselhou que só desse o valor mínimo, para evitar confrontos e manter-se digna. Com a festa a chegar, Leonor não conseguiu decidir-se sozinha sobre o que fazer.






