Tenho dois filhos. Os meus filhos têm pais diferentes. O primeiro é uma filha, chamada Filipa. Filipa tem agora 16 anos. O pai dela paga a pensão alimentícia e está sempre em contacto com ela. Embora o meu primeiro marido já seja casado novamente, com mais dois filhos do segundo casamento, nunca esquece a nossa filha.
O meu filho, por outro lado, não teve a mesma sorte. Há dois anos, o meu segundo marido adoeceu de repente e, três dias depois, faleceu no hospital. Já passou algum tempo e ainda custa a acreditar que ele partiu. Às vezes, imagino que a porta vai abrir e ele vai entrar, sorrir-me e desejar-me um bom dia. Nessas alturas, passo o dia inteiro a chorar.
Durante todo este tempo, estive muito próxima da mãe do meu falecido marido, Leonor. Foi tão difícil para ela como para mim; afinal, o meu marido era o único filho dela. Ficámos juntas, apoiámo-nos mutuamente e passámos esse tempo sombrio de braços dados. Ligávamos uma à outra, visitávamo-nos regularmente e, quase sempre, acabávamos a falar dele.
Certa vez, ponderámos a ideia de vivermos juntas, mas depois Leonor mudou de opinião. E lá se foram sete anos. Sempre tivemos uma relação maravilhosa; poderia dizer-se que éramos amigas.
Lembro-me bem de quando fiquei grávida, Leonor mencionou um teste de paternidade, sem razão aparente. Descobri depois que ela viu um programa na televisão sobre um homem que criou durante anos o filho de outra pessoa sem saber a verdade. Respondi logo que era um disparate.
Se um homem duvida da paternidade, então nunca será realmente um pai, só vai ser daqueles que aparecem ao domingo!
Leonor garantiu-me que acreditava plenamente que eu estava grávida do filho dela. Pensei que, quando o bebé nascesse, ela iria querer fazer um teste, mas Leonor calou-se e nunca tocou mais no assunto.
Este verão, a saúde de Leonor piorou drasticamente. Decidi que devia morar mais perto de mim. Falei com uma agência imobiliária e procurámos um apartamento para ela. Mas Leonor acabou internada no hospital e, para tratar dos documentos da compra, precisava do certificado de óbito do marido dela. Como ela não podia ir, fui eu até ao apartamento procurar o papel.
Enquanto vasculhava as pastas, dei com um documento inesperado: um teste de paternidade. Descobri que, quando o meu filho tinha apenas dois meses, Leonor mandou fazer o teste e o resultado confirmou que ele era filho do meu marido.
Senti-me revoltada. Afinal, Leonor nunca confiou totalmente em mim! Não fiquei calada e contei-lhe o que tinha encontrado. Agora, ela pede-me desculpa, diz que foi um momento de fraqueza, mas não consigo esquecer. Sinto-me traída, porque ela escondeu isto durante todos estes anos.
Agora, não me apetece ajudar Leonor. Mas, ao mesmo tempo, sei que ela não tem mais ninguém e que o meu filho não merece perder a avó.
Não quero privar o meu filho de Leonor, por isso vou continuar a ajudá-la. No entanto, aquela confiança e o calor que existia entre nós desapareceram, dissiparam-se como a poeira num sonho estranho e sem fim onde, por vezes, as portas abrem e fecham sem ninguém entrar.







