No ano passado, uma velha amiga minha ligou-me e pediu, com bastante insistência, que recebesse em minha casa os melhores amigos dela durante uma semana. Tinham decidido passar férias à beira-mar na nossa aldeia. Senti algum constrangimento em recusar, então acabei por aceitar. No entanto, avisei logo:
Estamos no pico da época alta, não posso oferecer um quarto de graça. Contudo, também não me sinto à vontade para cobrar aos teus amigos.
Ao que a minha amiga respondeu: Mariana, eles vão pagar. O dinheiro não é problema, só têm receio de cair em esquemas sabes, pessoas que recebem o pagamento antecipado mas depois não deixam os hóspedes entrar ou, a meio da estadia, põem-nos fora.
Para meu azar, caí na armadilha. Se soubesse os custos que teria, nunca teria aceite.
Fiquei desconfortável, então fiz-lhes um desconto generoso. Acabaram por receber o quarto a metade do preço.
Chegou o dia! No lugar da família anunciada, veio uma adolescente portuguesa e um rapaz de dez anos. Difícil, mas eram amigos. Só que não se sentiam propriamente bem num quarto de três!
A receção foi cordial. Preparei um jantar típico, e depois mostrei os monumentos do nosso povoado. Desejei-lhes boas férias e fui dar as minhas aulas.
No segundo dia, o filho dos hóspedes disparou uma pistola de água contra o televisor ligado. Os pais estavam no quarto, mas nem isso o conteve. O casal pediu desculpa e prometeu pagar o arranjo do televisor, que, infelizmente, ficou inutilizado (ainda está por reparar). Dei-lhes um televisor de outro quarto, perguntando-me: Como irão passar as noites?
A seguir, a adolescente deixou o bule ao lume sem água e queimou-o por completo.
Depois, começaram a redecorar o quarto (afirmando que era pequeno), e duas pernas se partiram uma da mesa, outra do criado-mudo. Para eles foi motivo de riso Ah ah, tens muita mobília destas! Vamos colar a perna da mesa com fita adesiva e fica tudo certo. Ponho algo debaixo do criado-mudo nada de grave.
O auge foi uma festa barulhenta que acabou às duas da manhã, com gritos e risos de gente embriagada. Pedi às onze que baixassem a música, e ouvi: Relaxa, para o nosso dinheiro. É certo que depois abaixaram o som, mas só após a segunda chamada de atenção.
Não valia a pena discutir com gente bêbada, preferi esperar até o dia seguinte. Então tive uma conversa aberta com o casal, explicando que aquele comportamento era inadmissível. Não eram os únicos hóspedes de férias. Também os lembrei de cuidarem dos aparelhos elétricos.
Eles encolheram os ombros, insatisfeitos: Já pagamos. Fiquei aborrecida: Obrigada por terem vindo por serem amigos de uma amiga, porque se não, nem estariam aqui!
Depois das minhas palavras, passaram a portar-se melhor, e nada mais se estragou. Porém, a amizade chegou ao fim.
Deixámos de nos falar. Isso não os impediu de levar os presentes e lembranças que preparei para eles e para a nossa amiga comum. Juntamente com eles, desapareceram dois grandes toalhões de banho e um lençol de algodão.
Vale dizer que eram os melhores amigos da minha amiga. Mariana e eu fomos companheiras durante todo o secundário, até ela casar e mudar-se para outro município. Sempre descrevia os amigos como pessoas educadas e gentis. Se fossem mesmo assim, poderiam vir passar férias aqui todos os anos.
Mas não foi o caso. Mariana ficou calada durante muito tempo, mas um dia, numa conversa, confidenciou que eles não gostaram das férias: Diziam que as minhas críticas lhes estragavam o ambiente. E isso apesar de terem pago um bom dinheiro!
Lamento, mas o dinheiro deles não chegava para comprar um televisor novo, um bule, uma mesa, um criado-mudo, lençóis e toalhas. Ainda por cima soma-se o meu desgaste emocional e o desconforto dos outros hóspedes. Isso afeta também a reputação do alojamento, e no próximo ano, talvez a escolha recaia noutro lugar.
Hoje, aprendi algo valioso: às vezes, o melhor é simplesmente dizer não, mesmo que isso nos custe um pouco. A vida ensina-nos que preservar a nossa paz vale mais que alguns euros ou amizades mal cuidadas.






