A minha mãe sussurrou-me um segredo havia comprado um apartamento.
O apartamento ficava quase à beira da cidade, numa rua onde até os gatos pareciam desconhecidos. Pediu-nos para não partilharmos a morada com ninguém, para evitar visitas indesejadas eram os pais da minha esposa, que bebiam mais vinho do que água.
No início, não sabia se devia zangar-me ou sorrir. Ninguém me consultou. Como ladrões na madrugada, mudámos as nossas coisas em segredo para o nosso novo recanto. Eu precisava encontrar trabalho perto, a minha mulher tentava adaptar-se à nova casa. Por dentro, cada um sentia um frio estranho, como se o coração estivesse a vaguear pela bruma. E se os pais dela voltassem a encontrar-nos e viessem bater à porta, carregados de vinho e palavras confusas?
Arranjei emprego como operador de elevador. No segundo dia, eu e o colega, Mário, tivemos de resgatar uma mulher presa entre dois andares.
Abrimos a porta, libertámos a senhora. Ela mostrou-nos uma gratidão com olhos molhados de susto. Falei-lhe com doçura, palavras que pareciam brotar de um sonho. Sentia que ela não era como os outros. Queria ficar naquele instante, quase sem fôlego.
A partir daí, acreditei em amor à primeira vista. Decidi acompanhá-la até casa; segurei-lhe o braço, pois tremia como se fosse feita de brisas. As lágrimas refletem a luz amarela do prédio, e eu só queria abraçá-la e acalmar os seus medos. Entrou, fechando a porta devagar atrás de si, como se quisesse suspender o tempo.
Ao deitar a minha filha, Ana Flor, naquela noite, enquanto a minha esposa, Margarida, ia à casa de banho, recordei o episódio com mistura de tristeza e encanto. Era impossível tirar aquela mulher do pensamento, como se tivesse sido feita de sonhos e saudades. Não resistia, era bela, delicada, profundamente vulnerável.
No outro dia, terminada a jornada, voltei à porta dela. Disse à vizinha, Dona Augusta, que era primo distante, vindo de Aveiro. Em dez minutos, soube que o marido era alcoólico e preguiçoso, e que tinham dois filhos.
Fiquei radiante. Afinal, podia voltar à minha casa, junto da Margarida e da Ana Flor, com a consciência tranquila. Não queria carregar os problemas e crianças dos outros; queria viver o estranho sonho da minha família, entre murmúrios, moedas de euro e promessas de paz no apartamento desconhecido.
Suspirei de alívio…






