Mário chegou a casa em Lisboa e deparou-se com uma cena digna de novela: a mulher tinha desaparecido completamente. O vazio deixado de um lado e o silêncio de outro sem sinal da esposa ou do pequeno filho de um ano, deixou-o mais espantado do que um lisboeta ao ver chuva em Agosto. Determinado a esclarecer o mistério, Mário foi bater à porta do vizinho do quinto andar, António, para perguntar se tinha visto a sua mulher. Qual não foi a surpresa quando António apareceu com o filhote de Mário nos braços, como se fosse coisa normal.
Parece que a mulher de Mário, Filomena (um nome que, diga-se, não se encontra a norte de Badajoz), deixou o rebento sob a guarda do vizinho enquanto ia resolver uma urgência qualquer. Embora António fosse um mestre a mudar fraldas experiente, diga-se Mário não pôde evitar pensar o que teria obrigado Filomena a sair tão de repente e sem dizer água vai. Mas agradeceu à esposa por lhe ter deixado uma dose de bacalhau com natas no microondas porque até nos piores dias, o estômago tem prioridade.
À medida que as horas passavam meia hora, uma hora, duas, cinco! a ansiedade de Mário crescia mais rápido do que um preço de gasolina. Tentou ligar a Filomena dezenas de vezes, mas ela parecia estar mais inalcançável do que uma mesa livre num restaurante em Alfama. O tempo passava e o nervosismo era tal que Mário até ficou a falar sozinho. Por fim, conseguiu adormecer o filho e ficou à espera de uma resposta, como um pescador a olhar para o mar.
Finalmente, veio o tão esperado telefonema. Mário, entusiasmado, agarrou o telemóvel e disparou perguntas como foguetes no São João: Onde estás?, O que fizeste o dia todo?, Porque não me avisaste?. Filomena, com a calma típica de quem está a apanhar sol numa esplanada, recusou-se a dar explicações. Em vez disso, revelou a bomba: não pretendia voltar para casa e tinha decidido, sem consulta prévia, deixar o filho sob a responsabilidade de Mário para sempre.
Mário ficou em estado de choque parecia um fã do Benfica à espera do último golo incapaz de acreditar no que ouvia. Ficou pendurado no telefone, a pensar se aquilo não seria só uma partida digna de um primo da Covilhã. Mas não, era a dura realidade à moda portuguesa. Agora Mário tinha a terrível (alguns dirão heroica) missão de ser pai e mãe ao mesmo tempo, e preparar-se para todas as aventuras que o pequeno Francisco lhe traria. E pronto, lá ficou Mário, com a vida virada ao avesso e um filho no colo, a pensar que as telenovelas da RTP nem chegam perto.







