DO AMOR AO ÓDIO VAI UM PULINHO
Sempre odiei a Magda Coutinho desde o primeiro ano por causa da sua magreza de nascença. Aquela magricela irritante era a minha melhor amiga.
O repetente Zé Barata, ainda no nono ano, inventou-nos alcunhas. Chamava a Magda de Maria do Carmo. Sempre que ela entrava no corredor da sala, ele juntava as mãos como se aquecesse numa mufa e cantarolava divertido:
Cinco minutos, cinco minutos! Será muito ou será pouco?
O rosto da Magda iluminava-se num sorriso cheio de si. Ela atravessava as filas de carteiras num balançar exagerado das suas ancas ossudas.
Já eu tentava sempre entrar depois do toque, sorrateira e quase de cócoras. Nem sempre conseguia. Quando falhava, o parvalhão do Zé berrava com voz esganiçada:
Booooom dia, Maria da Graça!
E depois afinava-se a cantar:
Ó linda Lisboa à beira do Tejo!
A minha cara corava num incêndio, as lágrimas desciam pelas bochechas e sumiam-se no meu peito, nada delicado para uma rapariga. Magda defendia-me. Atirava livros ao Zé, chamava-lhe burro, e ria com aquele riso desafiante que só as mulheres certas da sua beleza sabem rir.
Toda a gente sabia que Zé era apaixonado pela Magda. E ninguém percebia porque é que a cabritinha da Magda era amiga da vaca da Margarida Saldanha. Eu era a Saldanha.
Nem eu percebia porque é que a Magda queria a minha amizade. Ela irritava-se e, para explicar, acabava a gritar:
És mesmo tola, Saldanha! Tirar só notas máximas e não sabes que a amizade não é pelo corpo nem pelos olhos bonitos. És boa pessoa. Magda, olha, ninguém pode ser todo magro! Vê lá a quantidade de famosos barrigudos! E todos os adoram!
A mim, os famosos não me interessavam. Na verdade, nada me interessava a não ser o Barata. Mas o Barata só tinha olhos para a Magda. Eu via como a olhava. A mim nunca me olhava. Olhava-me como se olha para quem pede moedas no metro: quando não tens trocos nem queres dar nota grande. Ou gozava comigo, ou simplesmente virava a cara.
Antes do Natal, convenci os meus pais a mudarem-me de escola. A minha mãe preencheu a papelada, levantou os documentos na secretaria. Depois das férias esperava-me outra vida. Da antiga restava apenas a Magda.
A Magda, no entanto, zangou-se feio comigo. Ficou magoada, chamou-me de traidora e saiu batendo à porta. Mas logo se arrependeu. Voltou, e começou a carregar no nosso campainha do prédio.
Eu abri a porta de rompante, contente e sorridente, e congelei. No patamar estava o Barata: furibundo, de casaco de lã aberto e sem boné, coberto de chuva miudinha:
O que é que se passa contigo, Saldanha? Mudar de escola a meio do ano porquê? Faltam cinco meses para os exames finais e vais fugir assim? Estou-te a perguntar, Saldanha!
Na verdade, ouvia-o sem perceber. Não! Não é isso! Ouvia, mas só conseguia fixar a magia do instante: o próprio José Barata à nossa porta. Tão bonito, meu Deus! As bochechas rubras do frio, os olhos acesos. E desse espanto ganhei coragem e respondi entredentes:
Que foi? Tens medo de não encontrar outra parva submissa para gozares?
O que disseste? Não percebi. Onde é que eu vou encontrar outra igual, Saldanha? Só há uma tola assim no mundo inteiro! barafustou ele entre dentes. Agarrou-me o braço, puxou-me para o patamar e abraçou-me.
Não! Aquilo não era abraço! Abraços só são assim nos sonhos, delicados e quentes, e o que ele fez foi de desespero. Como se alguém lhe tirasse o que é dele e ele não quisesse deixar. Uma mão enorme encostou a minha cabeça ao seu peito coberto de lã áspera, segurando-me firme, e a outra prendia-me as costas. Fiquei debaixo do seu escudo. Estranhamente, não tive medo. Senti-me bem. Bem daquele jeito que só se sente em sonhos. Ou talvez em devaneios. Mas como é que ele sabia do que eu sonhava? Ou queria só fazer troça? Não podia adivinhar. Será que adivinhou? O medo cresceu e desatei a chorar. Chorei desalmadamente, tempo sem fim. Quando as lágrimas secaram, fui acalmando. Funguei uma ou duas vezes sem perceber bem o que acontecia. O Barata já me abraçava com ternura e embalava-me como uma criança:
Chora, Margarida. Se te apetece, chora. A minha mãe diz sempre isso. Diz também que sou um tolo. Que, se gostas de alguém, tens de ir dizer na cara. Margarida, estou aqui a dizer-te que sou tolo. Mas, Margarida, eu gosto de ti, ouves?
E continuo a ter vergonha de ti. Tu és aluna brilhante, vais para medicina, e eu? Eu, se passar para o curso técnico de automóveis já vou com sorte.
E se os teus pais não permitirem um namorado como eu? Para quê à filha uma cabeça dura como eu? Só que não sou burro! Não me importo com senos e cossenos… quero ser mecânico, gosto de carros e… gosto de ti.
E a Coutinho?
Olha, a Coutinho daqui a uns anos é a madrinha do nosso casamento! ouvi, levantei a cabeça, encarei o meu torturador e murmurei:
Odeio-te…
Ainda bem! Do amor ao ódio vai um pulinho! Vais acabar por amar! respondeu o meu futuro marido e sorriu.
Passaram trinta anos.
Raramente celebramos o aniversário de casamento. Festegamos sim o dia em que a família começou. Já lá vão trinta vezes. Ao início era só nós os dois. Depois três, quando nasceu a nossa filha. Quatro anos depois, já éramos quatro, com o filho.
Logo à noite, vamos reunir-nos de novo com os mais íntimos. O filho vem com a namorada. Espero também a minha eterna amiga Magda, com o marido e o filho. Só quem não estará à mesa será a nossa filha. Está ocupada com missão importante desde ontem: preparou-nos o melhor presente. Esta manhã nasceu uma menina, a Magdinha Coutinho. Fez de nós e da minha amiga, avós.







