Para evitar a humilhação, ela aceitou viver com um homem corcunda… Mas quando ele sussurrou um pedido ao seu ouvido, ela se agachou…
Arturinho, és tu, meu querido?
Sim, mãe, sou eu! Perdoa por chegar tão tarde…
A voz da mãe, trêmula de preocupação e cansaço, ecoava no hall escuro. Ela estava ali, de robe velho, segurando uma lanterna como se o aguardasse desde sempre.
Artur, meu coração, onde é que andaste nesta noite comprida? O céu já está negro, as estrelas brilham como olhos de lobos nos montes…
Ó mãe, estive com o Tiago a estudar. Tínhamos trabalho de casa, preparação… Perdi a noção das horas. Desculpa, devia ter avisado. Sei que não dormes nada…
Ou então, será que foste ter com uma rapariga? A mãe semicerrava os olhos, desconfiada. Não andas aí apaixonado, pois não?
Ó mãe, não digas disparates! riu-se o Artur, descalçando os sapatos. Não sou daqueles por quem as raparigas esperam ao portão. Quem é que vai querer saber do corcunda de braços de símio e cabeça de cardo?
Mas nos olhos da mãe havia dor. Não disse que via nele, não um monstro, mas o filho criado na miséria, no frio, na solidão.
Artur não era bonito. Mal media um metro e sessenta, sempre encurvado, com braços longos como os de um macaco, quase a tocarem nos joelhos. A cabeça grande, cheia de caracóis em desalinho, como tufos de dente-de-leão. Em criança, chamavam-lhe macaco, duende do monte, bizarro da aldeia. Mas cresceu tornou-se mais que humano.
Ele e a mãe, D. Filomena, vieram deste lado para o litoral quando tinha dez anos. Fugiram da cidade da pobreza e da vergonha: o pai preso, a mãe abandonada. Ficaram só os dois. Dois contra o mundo inteiro.
O teu Artur não vai durar, murmurava a velha Maria, olhando o rapaz frágil. Um dia desaparece sem deixar rasto.
Mas Artur não desapareceu. Agarrou-se à vida como raiz à rocha. Cresceu, respirou, trabalhou. E D. Filomena mulher de coração de ferro e mãos massacradas da padaria cozia pão para toda a aldeia. Dez horas por dia, todos os anos, até ela própria se partir de cansaço.
Quando caiu à cama, sem se poder mais levantar, Artur foi filho, filha, médico, criada. Limpava o chão, fazia papas, lia revistas velhas em voz alta. E quando Filomena morreu silenciosa, como vento que passa Artur ficou junto do caixão, punhos cerrados, calado. Já não tinha lágrimas para chorar.
Mas o povo não esqueceu. Os vizinhos trouxeram comida, deram-lhe roupa quente. Depois de repente começaram a procurá-lo. Primeiro os rapazes, fascinados pelos rádios. Artur trabalhava no posto de rádio comunitário consertava aparelhos, orientava antenas, soldava fios. As mãos eram de ouro, embora feias de se ver.
Mais tarde começaram a ir lá as raparigas. No início, só para conversar e beber chá com marmelada. Depois, iam ficando. Riam-se. Falavam.
Uma noite, reparou: uma delas Amália era sempre a última a partir.
Não tens pressa? perguntou, depois dos outros já terem saído.
Não tenho para onde ir, disse ela, baixinho, olhando para o chão. A madrasta odeia-me. Tenho três irmãos brutos, maus. O pai bebe, não me ligam. Moro em casa de uma amiga, mas sei que um dia acaba… Aqui é silencioso. Sinto-me tranquila. Não me sinto sozinha.
Artur olhou-a e pela primeira vez na vida percebeu que podia ser necessário a alguém.
Fica cá disse, simplesmente. O quarto da mãe está vazio. Serás a dona da casa. Eu… não peço nada. Nem palavra, nem olhar. Só fica.
Começaram a murmurar pela aldeia:
A bela e o corcunda? Ah, isto é de rir!
Mas o tempo passou. Amália arrumava, fazia sopa, sorria. E Artur trabalhava, calado, cuidadoso.
E quando ela teve um filho, o mundo virou-se do avesso.
A quem sai a criança? perguntavam. A quem?
Mas o pequeno, Simão, olhava para o Artur e dizia: Papai!
E Artur, que nunca pensou ser pai, sentiu um calor abrir-lhe o peito como um sol minúsculo.
Ensinava Simão a consertar tomadas, apanhar peixe, ler por sílabas. E Amália, olhando-os, dizia:
Devias arranjar uma mulher, Artur. Não estás só.
Para mim és como irmã, respondia ele. Primeiro arranjo-te marido. Um bom, de coração limpo. Depois… logo se vê.
E apareceu esse tal homem. Novo, da aldeia vizinha. Honesto. Dedicado.
Fizeram o casamento. Amália partiu.
Um dia, Artur encontrou-a à beira da estrada e disse:
Quero pedir-te… Deixa-me ficar com o Simão.
O quê? surpreendeu-se ela. Para quê?…
Sei, Amália. Quando nasce um filho, tudo cá dentro muda. Mas o Simão… não é teu de sangue. Vais esquecer-te dele. Eu… eu não consigo.
Não mo peças!
Não quero tirar, disse Artur, baixinho. Vem visitá-lo quando quiseres. Só deixa-o morar comigo.
Amália ficou pensativa um instante. Depois chamou o rapaz:
Simão! Anda cá! Diz lá, queres viver com a mamã ou com o papá?
O miúdo correu, olhos brilhando:
Não pode ser como dantes? Mamã e papá juntos?
Não pode, disse Amália, triste.
Então fico com o papá! gritou Simão. E tu, mamã, vem visitar-nos!
E assim foi.
Simão ficou. E Artur, pela primeira vez, sentiu-se verdadeiramente pai.
Mas um dia Amália veio de novo:
Vão transferir-nos para Lisboa. Levo o Simão comigo.
O rapaz chorava, apertando Artur com força:
Não vou! Quero o papá! Só o papá!
Artur… murmurou Amália, olhando o chão. Ele não é teu…
Eu sei, respondeu Artur. Sempre soube.
Fujo para junto do papá! gritava Simão, sufocado de lágrimas.
E fugia mesmo. Vez após vez.
Levaram-no, voltou.
No fim, Amália desistiu.
Que seja, disse ela. Ele fez a escolha dele.
E começou outra história.
A vizinha, Maria do Céu, tinha ficado viúva. O marido, um beberrão, bruto, violento. Deus nunca lhes dera filhos naquela casa nunca houve amor.
Artur começou a ir lá buscar leite. Depois a consertar a cerca, o telhado. Depois, passou só a ir. Tomavam chá. Conversavam.
Aproximaram-se. Sem pressa. Com delicadeza. Como adultos.
Amália escrevia cartas. Contou que Simão tinha agora uma irmãzinha Diana.
Traz a menina, respondeu Artur. A família deve estar junta.
Um ano depois, foram visitá-lo.
Simão não largava a irmã. Pegava-a ao colo, cantava-lhe cantigas, ensinava-a a andar.
Meu filho, dizia Amália, vem viver connosco. Em Lisboa há teatro, escola, oportunidades…
Não, abanava Simão a cabeça. Nunca deixo o papá. E a tia Céu já lhe chamo mãe.
Depois veio a escola.
Quando os outros se gabavam dos pais motoristas, militares, engenheiros, Simão nem pestanejava.
O meu pai? dizia ele, orgulhoso. Arranja tudo, entende o mundo, salvou-me. É o meu herói.
Passou um ano.
Maria do Céu e Artur estavam junto à lareira com Simão.
Vamos ter um bebé, anunciou Maria. Um pequenino.
E… e eu não vou embora, pois não? sussurrou Simão.
Que ideia, rapaz! exclamou Maria, abraçando-o. És como um filho para mim. Por ti esperei a vida inteira!
Meu filho, disse Artur, fitando o lume. Como pensaste isso? És o meu mundo.
Meses depois, nasceu Lourenço.
Simão segurava o irmão com carinho de tesouro raro.
Agora tenho uma irmã, murmurava. Um irmão. Um pai. E uma tia-mãe Céu.
Amália não deixou de insistir.
Mas Simão respondia sempre:
Já cheguei. Estou em casa.
Os anos correram. O povo parou de lembrar que Simão não era filho biológico de Artur. O sussurro desapareceu.
E quando Simão foi pai, contava aos próprios filhos, netos, a história do maior pai do mundo.
Não era bonito, dizia Simão. Mas tinha mais amor que qualquer homem que conheci.
Todos os anos, no dia de festa, reuniam-se – os filhos de Maria do Céu, os de Amália, os netos, bisnetos.
Bebiam chá, riam, recordavam.
Ninguém teve um pai como o nosso! diziam, erguendo as canecas. Que hajam mais assim!
E, como num sonho, um dedo apontava sempre lá para cima para o céu, para as estrelas, para a memória daquele homem que, contra tudo, foi um verdadeiro pai.
O único.







