Eu e a minha noiva, Leonor, amamo-nos imenso. Ambos temos vinte anos. Somos amigos desde o quarto ano da escola primária e, já no sexto ano, começámos a namorar. Tivemos um filho ainda muito jovens.
Claro que não era aquilo que os nossos pais esperavam de nós. Mas aconteceu. O nosso filho é um verdadeiro tesouro! Hoje faz três anos. Temos já o nosso próprio apartamento e tomei a decisão de casar com a minha querida Leonor.
Convidámos cerca de cem pessoas para o casamento. Grande parte são familiares de várias regiões de Portugal. Mesmo que não tenhamos grande proximidade com todos, uma ocasião destas merece um bom reencontro.
Assim que anunciei o casamento, a minha mãe começou a insistir que seria melhor não levarmos o nosso filho, mas deixá-lo com uma ama.
Devemos pensar no bem-estar dele, como ele se vai sentir, e não sobrecarregar ninguém. Afinal, toda a gente quer aproveitar e divertir-se. Olhar constantemente pelo nosso filho acaba por se tornar uma preocupação. Não teremos tempo para nos dedicar a isso. Ele ainda é pequeno e não percebe nada do que se passa.
Eu e a Leonor somos dos poucos que acreditam que o nosso filho deve estar presente num momento tão importante da nossa vida. Um dia que não se vai repetir. A minha tia, irmã da minha mãe, prontificou-se a tomar conta dele durante a cerimónia, por isso não há motivos para inquietação. E toda a família pode estar à vontade.
A única que se mantém estranha é a minha mãe, que anda sempre a lamentar-se e a dizer que o nosso filho não devia ir ao casamento. Acabei por perceber o verdadeiro motivo de ela não querer ver o neto presente.
Acontece que os meus pais decidiram esconder do resto da família que já tínhamos um filho. Agora estão perdidos sem saber como justificar tudo. Têm vergonha que o segredo venha ao de cima.
A minha mãe diz que ia ser embaraçoso para ela descobrirem que tive um filho antes do casamento. Pouca gente tem filhos tão cedo. Temem as risadas, querem que o segredo fique guardado.
A verdade é que o que mais preocupa a minha mãe é a reacção dos familiares ao seu comportamento. De vez em quando falam com alguns familiares, mas nunca contam a verdade.
Fiquei bastante magoado com ela. E ela também ficou zangada comigo.
Agora, sinto-me desconfortável, parece que nos tornámos pais de forma ilegal. Já conversei várias vezes com os meus pais sobre tudo isto. Mantenho a minha decisão e eles continuam a insistir na deles.
Os que nos são mais próximos não nos apoiam. A minha mãe está sempre a ameaçar: se não fizer como ela diz, deixo de ser filho dela. Nunca imaginei que isto pudesse acontecer comigo.







