Postos à prova em família

Provações em família

Nunca me senti tão feliz como a Andreia sentia ultimamente. Foram muitos anos de solidão, em que cada dia parecia igual ao outro, mas agora tudo isso parecia um passado distante. A vida dela mudou quando entrou o Hugo um homem que veio mudar tudo, virar o seu mundo ao contrário. Era diferente de todos os outros que já conhecera: atencioso, bom, meigo.

Aos olhos da Andreia, só lhe via qualidades. Era alguém que sabia apoiar quando precisava, com quem podia conversar sobre tudo e mais alguma coisa tanto temas sérios como disparates. Não se irritava facilmente, não fazia cenas, não tentava impor a sua opinião nem pressionar. Parecia finalmente ter encontrado quem tanto esperou.

Só havia um detalhe que não passava despercebido aos outros: o Hugo era oito anos mais novo que Andreia. Mas para ela isso não fazia qualquer diferença. Sabia que a idade era apenas um número o que realmente aproximava era o respeito e o carinho verdadeiro que sentiam um pelo outro.

As vizinhas, sobretudo mulheres mais velhas, não perdiam uma oportunidade para comentar sobre os dois. Olhavam para a Andreia com desaprovação, especialmente quando a viam passear de mãos dadas com o Hugo no jardim do prédio. Cochichavam entre si, abriam os olhos indignadas e, por vezes, não resistiam a manifestar as suas dúvidas em voz alta.

Olha lá, dizia uma delas, franzindo o sobrolho, olha que isso pode dar para o torto. A tua Mariana já tem quinze anos, rapariga bonita, toda jeitosa. Tens a certeza de que o teu namorado não vai deitar olho nela?

A Andreia suspirava e tentava manter a calma. Sabia bem que tudo aquilo não passavam de más línguas, preconceitos antigos que gostavam de alimentar.

Não digam disparates, respondia, firme. O Hugo é um homem feito, sensato. E gosta de mim.

Dizia-o com confiança, porque acreditava realmente no Hugo, acreditava no que os unia! O que os outros achavam pouco lhe importava, sabia o que tinha.

O Hugo, por mais indiferente que parecesse, também ouvia os cochichos das vizinhas. Limitava-se a levantar uma sobrancelha, como se dissesse não me interessa, e seguia caminho, com ar tranquilo. Mas quando estavam a sós, libertava o que lhe ia na alma, gesticulando enquanto passava nervosamente as mãos pelo cabelo:

Já viste o disparate das pessoas? Como se vivêssemos numa telenovela barata! Não têm mais nada que fazer senão inventar coisas sobre nós?

A Andreia pousava delicadamente a mão no braço dele, tentando acalmá-lo. Respondia com um tom meigo, sereno:

Deixa lá. Só vêem televisão a mais, por isso inventam. Não te conhecem. Um dia hão de pedir desculpa.

Mas enquanto ela e o Hugo já sabiam como ignorar a intriga dos vizinhos, para a Mariana aquilo era um verdadeiro sofrimento. Acostumada a ser sempre o centro da atenção da mãe, sentia que a vida de sempre desaparecia. Antes, a mãe estava sempre ao seu lado, ouviam-se, partilhavam chávenas de chá ao serão. Agora, a maior parte do tempo e da atenção ia para este homem, um estranho que ainda por cima achava que podia censurar as suas atitudes.

Uma noite, depois de o Hugo lhe chamar a atenção por chegar tarde a casa, a Mariana entrou pela sala dentro, cheia de fúria e mágoa:

Mãe, para que precisamos dele? Sempre vivemos tão bem as duas! Agora chegou ele e já manda em tudo!

A Andreia respirou fundo, tentando manter a paciência. Encostada ao sofá, olhou para a filha com firmeza e serenidade:

O Hugo tem razão. Andares na rua à noite nesta idade é perigoso, Mariana. Vês as notícias? Todos os dias se houve falar de desgraças.

Mas eu ando sempre com as minhas amigas! insistiu Mariana, quase a chorar.

E o que fazem as tuas amigas se aparecer algum homem perigoso? retorquiu Andreia.

Mariana não respondeu. Ficou encarnada de raiva, cerrou os punhos, deu meia volta e, já à porta, gritou:

Deixa-te disso. Vou para o meu quarto e não janto!

Bateu a porta com tal força que o barulho ecoou por toda a casa. Andreia ficou sentada, invadida pela tristeza. Não entendia porque a filha lhe fazia aquilo, o que teria feito de errado.

Repetidamente lhe vinha à cabeça a pergunta: onde teria falhado? Era tudo tão simples, achava ela. Tinha encontrado alguém que lhe devolveu o direito a sentir-se mulher, amada, desejada. Após tantos anos de solidão, era como ar fresco.

Porque é que a Mariana se recusava a aceitar o Hugo? Tentou pôr-se no lugar da filha. Quinze anos, tudo é vivido com intensidade, cada mudança sentido como uma ameaça. Antes, a mãe era só dela a amiga, a confidente. Agora, havia um estranho em casa, a exigir regras e a dar opiniões.

Será que ela não percebia que uma mãe também tem direito ao amor? Andreia pensava, ao olhar para o lusco-fusco do final do dia. Queria tanto que a filha visse quem era realmente o Hugo: atento, responsável, seguro. Mas em vez disso só recebia portas batidas, mágoas e acusações.

Recordava com nostalgia os serões de há uns meses atrás, entre bolos caseiros e conversas sobre a escola ou os sonhos para o futuro. Agora, a filha fechava-se no quarto, evitava conversar.

Andreia respirou fundo. Precisava encontrar palavras, não para desculpar-se, mas para ser ouvida para que a filha percebesse que continuava a ser a mãe de sempre, apenas havia outra pessoa que também precisava de afeto.

Como abrir aquela conversa? Como derreter aquele gelo doloroso? Não sabia. Esperava apenas que a paciência e o tempo trouxessem alguma paz.

***************************

A manhã amanheceu cinzenta. Andreia mal tinha aberto os olhos quando a Mariana apareceu junto à cama, despenteada e furiosa.

O Hugo não me deixa ir ao monte com a Leonor! gritou, a voz a tremer. O Hugo não tem direito de me proibir nada!

O Hugo estava à porta do quarto, braços cruzados. Via-se a decisão nos olhos dele. Ficou calado, percebendo que era melhor não intervir mais.

Andreia sentou-se na cama, pôs as ideias no lugar.

E faz muito bem, disse, controlando a irritação. Eu própria não te deixaria ir. A Leonor é conhecida pelas noitadas. Julgas que te vou deixar andar com esse grupo?

Já tenho quinze anos! Faço o que quero! respondeu, batendo o pé.

Andreia levantou-se, vestiu o roupão, e olhou a filha nos olhos:

Quando acabares a escola, tiveres trabalho e fores independente, farás o que entenderes. Mas enquanto te sustento, segues as minhas regras.

A Mariana ficou boquiaberta. Os olhos encheram-se de lágrimas.

As tuas regras?! Só pensas em ti! Para ti só importa que o Hugo esteja feliz!

A Andreia mordeu o lábio, procurando forças.

Preocupo-me é contigo! Não quero ver-te meter-te em problemas.

E eu só quero viver a minha vida! Mas a tua felicidade é mais importante, não é? Só queres agradar ao Hugo!

O Hugo deu um passo em frente, mas Andreia fê-lo parar com um gesto.

Filha, insistiu, esforçando-se por ser mais suave, não quero tirar-te a liberdade. Só quero que tenhas juízo. Tu, nesta idade, não imaginas o que pode acontecer.

Mas eu quero que tu pares de decidir tudo por mim! gritou Mariana. Não tentas sequer perceber-me!

Saiu disparada, mas antes de fechar a porta, olhou por cima do ombro:

Vou na mesma! Não preciso da vossa autorização!

Andreia afundou-se na cadeira, sentindo uma exaustão profunda. O Hugo aproximou-se e pousou-lhe a mão no ombro.

Achas que devo ir atrás dela? disse ele, baixinho.

Andreia abanou a cabeça:

Agora não adianta. Precisa de tempo para acalmar. Depois falo com ela.

Olhou pela janela, onde o tempo começava a abrir. Por dentro, alimentava a esperança de que aquele dia trouxesse alguma paz à casa.

A Mariana trancou-se no quarto, atirou-se para a cama, toda consumida pela mistura de mágoa e raiva. Mantinha-se ali, horas a fio, ouvindo o que se passava pela casa e recusando-se a sair, nem mesmo de barriga a dar horas. Orgulho não lhe deixava ceder.

Quando à noite finalmente a fome falou mais alto, dirigiu-se à cozinha, preparou um lanche, e apanhou-se a assobiar uma melodia, quase sem querer.

Foi então que entrou Andreia, surpreendida ao ver a filha de bom humor.

Vejo que já te passou o mau feitio, comentou, calma. Não queres pedir desculpa?

A Mariana lançou-lhe um olhar com um sorriso de escárnio:

Não tenho nada a pedir desculpa.

Andreia apertou os lábios, manteve compostura:

Tens a certeza disso? o tom era firme, avisando que não havia conversa. Vamos sair, eu e o Hugo. Ficas em casa. Reflete melhor.

A Mariana encolheu os ombros:

Como quiseres. Aproveitem enquanto podem.

Andreia ainda a viu murmurar, ao sair:

Disseste alguma coisa?

Não, deves ter ouvido mal.

A Mariana continuou a comer, mas o assobio perdeu a vida. Já tinha um plano e não pretendia desistir. O Hugo em breve deixaria de incomodar.

Aproveitem, enquanto podem…

*************************

Andreia estava no escritório a rever uns relatórios quando o telefone vibrou no bolso do blazer. Estranhou: o Hugo nunca a incomodava em horário de trabalho.

Atendeu com pressa:

Hugo? Aconteceu alguma coisa?

Mas, em vez da voz dele, ouviu uma mulher, calma e profissional:

Daqui fala a enfermeira do Hospital de Santa Maria. Recebemos um senhor, proprietário deste telemóvel. Pode vir cá?

O chão pareceu fugir-lhe dos pés. Agarrou-se ao telemóvel para não tremer.

Sim Vou já.

Levantou-se de um salto, agarrou na mala e saiu de imediato. Para o seu lado, os colegas lançavam olhares espantados. Só lhe vinha à cabeça: Que esteja tudo bem

Meia hora depois já estava no hospital. Levaram-na até ao quarto onde entrou e viu o Hugo deitado, o rosto com escoriações, um olho roxo, sangue nos lábios. Mas consciente, que até tentou sorrir ao vê-la.

Hugo! exclamou ela, correndo para o lado da cama. O que aconteceu? Quem te fez isto?

Ele suspirou, virou a cabeça com esforço:

Nem percebi bem o que queria, murmurou. Disse algo sobre a Mariana. Não sei

Não foi preciso mais, Andreia percebeu logo quem tinha sido. O Ricardo. O seu ex-marido, de quem fugia há anos para proteger-se e à filha.

Vou tratar disto prometeu, apertando-lhe mais a mão.

O Hugo sentou-se com esforço, insistindo:

Por favor, não vás sozinha. Liga ao teu irmão. Não podes resolver isto sem ajuda.

Ela parou, sensibilizada de ver que ele pensava nela, mesmo dorido.

Está bem, prometo. Fica sossegado.

Telefonou ao irmão, explicou tudo. Enquanto esperava, ficou ao lado do Hugo. Ele fechou os olhos, cansado, mas manteve a mão dela apertada.

Tudo se vai resolver sussurrou ela, para si própria.

*********************

Quase arrombou a casa do ex-marido. O Ricardo estava no corredor, com um ar desafiante.

Achas-te muito valente? atirou ela, com olhar seguro. Vais ver o que é bom para a tosse.

O Ricardo ficou vermelho, aproximou-se furioso:

Devias ter pensado na Mariana antes de trazer esse tipo para casa!

Pensei nela durante quinze anos, muito antes de ti! disparou Andreia. Abandonaste-nos quando ela era bebé, e agora vens armar-te em bom pai?

O Ricardo bateu com o punho na parede.

Não vês que ele anda a olhar para a tua filha! Eu sou gajo de lhe dar uma lição!

Andreia cruzou os braços, encarou-o friamente:

Nem tempo tiveram para isso. Nunca ficaram sozinhos em casa, e ele chega sempre depois de mim. A Mariana não gosta dele, só isso.

A minha filha não mente! gritou, ameaçador.

Vais obrigá-la a viver contigo? Nem dinheiro tens para lhe dar tudo o que quer. Fugia de ti em menos de uma semana.

Um brilho de satisfação apareceu nos olhos do Ricardo.

Não foge. Diz que quer viver comigo. Que tem medo do Hugo.

Andreia hesitou um segundo, mas controlou-se logo.

Então deixa estar. Faz o que ela quiser. Eu espero. Vai ver que volta sozinha.

Não volta, disse ele, mas com menos certeza.

Andreia foi até à janela. Lá fora, ouvia-se o som das crianças. Conhecia bem a filha, os humores, os caprichos. Mas pedir ao pai para ir viver com ele era grave.

Já pensaste no que estás a fazer? perguntou, de costas. Vais usá-la só para me magoar. Mas ela é uma pessoa, tem só quinze anos.

Ele encolheu os ombros.

É minha filha. Tenho direito.

Ela virou-se, olhos de aço:

Então prova que queres mesmo ser pai! Mostra que te importa a felicidade dela.

O Ricardo ia responder, hesitou. Havia um temor, uma dúvida. Mas terminou num sorriso cínico.

Tu a falar de felicidade Cheirasias ao menos perceber o que fizeste?

Andreia respirou fundo:

Só quis uma vida normal para mim e para a Mariana. Tu só queres estragar tudo.

Isto ainda não acabou, atirou ele. A Mariana é quem decide com quem fica…

*********************

O Hugo saiu do hospital num dia cinzento e húmido. Respirou fundo, saboreando a liberdade, feliz apenas por poder andar de novo ao ar livre.

Andreia esperava-o à porta, de casaco apertado. Mal o viu, apressou-se a ir ter com ele, mas parou antes de o abraçar com medo de lhe magoar as feridas. O olhar dela dizia tudo: alegria misturada com receio e gratidão.

Livres outra vez, sorriu ele, pegando-lhe na mão. Só quero chegar a casa e descansar.

No caminho não mencionou o passado, não mostrou mágoa. Tentava apenas acalmar Andreia, que continuava inquieta.

Não tens culpa de nada, mesmo, afirmava, resoluto. Isto podia ter acontecido a qualquer um.

Quando comentavam porque não fazia queixa à polícia, o Hugo era sempre calmo:

Se me dissessem que um homem andava atrás da minha filha, fazia igual. É só um pai a proteger o que é seu.

Não guardava rancores. Aceitava que tinha sido um momento mau, mas estava ultrapassado.

Passados uns dias apareceu a Mariana em casa. Entrou devagar, os olhos no chão, com um saco de fruta nas mãos gesto tímido mas sentido.

Vim precisava de falar convosco murmurou.

Olharam um para o outro. O Hugo fez sinal à Andreia para começar.

Filha, começou Andreia, delicadamente, queres…

Fui eu que inventei tudo, atirou Mariana, a olhar agora para o Hugo. Do princípio ao fim. Só queria que ele se fosse embora. Não pensei que acabasse assim. Nunca desejei que batessem nele. Fiquei com medo e vergonha.

O Hugo foi ter com ela, devagar:

Não te guardo rancor, Mariana. Estavas perdida, assustada. Fizeste o melhor possível. O importante é admitires a verdade.

Ela chorou, envergonhada.

Não percebia Achava que me roubava a mãe. Agora vejo que não era assim.

Andreia abraçou-a:

Vai ficar tudo bem. Vamos resolver isto juntos.

Mariana acenou, abraçando-a em lágrimas.

Depois falou, à noite, sozinha com a mãe:

Vou viver com o pai. Preciso de tempo para pensar. Quero ver se formamos família. Uma família de verdade.

Andreia apertou-lhe a mão, emocionada.

Sabes que tenho orgulho em ti?

A Mariana sorriu, com lágrimas.

A tua felicidade também é a minha. Se fores feliz com ele, está certo.

E naquela noite a casa encheu-se de silêncio, mas não um silêncio pesado um silêncio confortável, promissor. Como quem sabe que um novo começo se aproxima, e que as feridas sararão com o tempo.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

eighteen − 4 =