Oleg casou-se com a Nadja só para provocar a sua amada: quis provar-lhe que não sofria por ter sido deixado por ela.

Miguel casou-se com Matilde por despeito à sua antiga paixão. Queria provar-lhe que não estava a sofrer com o fim do relacionamento.

Ele e Mariana namoraram quase dois anos. Miguel amava-a de tal forma que era capaz de mover montanhas por ela: achava mesmo que caminhavam para o casamento. Porém, irritava-o quando Mariana fugia ao assunto:
Para quê casar já? Ainda nem acabei a faculdade, tu também estás a lutar com a empresa da família. Sem carro de jeito, sem uma casa só tua. E eu não quero acordar todos os dias com a minha amiga Cláudia na cozinha. Se não tivesses vendido a casa, podíamos viver lá.
Aquilo magoava Miguel, mas reconhecia que Mariana tinha alguma razão: ele e a irmã viviam no apartamento herdado dos pais, e só agora começava a perceber como gerir o negócio de família. Ninguém lhe disse que teria de assumir tanta responsabilidade antes de terminar os estudos. Lutava por salvar a empresa e acabar o curso.
A casa foi vendida de comum acordo com a irmã, Olívia. Decidiram proteger o negócio; enquanto esperavam pelo inventário, as dívidas não pararam de crescer ambos estudantes, ela a meio do curso, ele a terminar. A venda permitiu pagar as dívidas, investir no comércio e ainda ficou uma reserva.
Mariana, no entanto, defendia aproveitar a vida, não esperar pelo amanhã incerto. Falar era fácil, aninhada na casa dos pais. Mas quando de repente te tornas pilar da família, protetor da irmã, passas a pensar de outra maneira. Miguel via um futuro melhor: casa, carro, até jardim.
Nada fazia prever o desastre. Marcou encontro no Largo do Chiado para irem ao cinema. Mariana pediu para ele não a ir buscar estranho, porque ela detestava transporte público. Viu-a chegar num BMW reluzente.
Desculpa, não podemos continuar. Vou casar-me. Mariana entregou-lhe um livro e virou costas.
Miguel ficou imóvel, digerindo aquilo. O que tinha mudado em três dias fora de Lisboa?
Olívia percebeu tudo quando o viu:
Já sabes?
Ele assentiu, silencioso.
Arranjou um teso qualquer. O casamento é dia vinte e cinco. Convidou-me para madrinha, nem respondi. Que falsidade, andou atrás de ti e fazia isto pelas costas Olívia chorou de raiva.
Vai correr tudo bem para nós, vais ver. Miguel consolou-a, acariciando o cabelo como uma criança.
Trancou-se quase 24 horas no quarto. Olívia insistia à porta:
Anda comer, fiz panquecas
Ao entardecer saiu com um brilho estranho nos olhos:
Veste-te.
O que vais fazer?
Vou pedir a primeira rapariga que conhecer em casamento declarou.
Isso é insensato, Miguel. Vais estragar duas vidas.
Nada o demoveu.
Não vens, vou sozinho.
No Jardim da Estrela havia gente por todo o lado. Uma rapariga achou-o louco, outra desviou-se a medo. À terceira, de olhos fundos e voz serena, ele lançou o desafio:
Como te chamas?
Matilde.
Temos de celebrar o noivado Miguel arrastou Matilde e Olívia a uma pastelaria.
Sentaram-se em silêncio. Ele mal escondia o desejo de vingança. Só pensava que o seu casamento também teria de ser no dia vinte e cinco.
Matilde quebrou finalmente o gelo:
Deve haver uma razão para pedir alguém em casamento do nada. Se é um impulso, não me ofendo se desistires agora.
Não. Deste-me a tua palavra. Amanhã tratamos dos papéis e vou conhecer os teus pais.
Piscou-lhe o olho:
Para começar, tratamo-nos por “tu”.
Naquele mês, viram-se todos os dias. Conversavam, tentavam conhecer-se. Um dia, Matilde perguntou:
Porque fizeste isto?
Todos temos fantasmas. Esquivou-se.
Desde que não atrapalhem a vida.
E tu, porque aceitaste?
Senti-me como uma princesa das histórias antigas, dada em casamento ao primeiro que aparecesse. E essas histórias acabam em felicidade. Quis tentar
Mas não era assim tão simples. Tinha tido uma desilusão, perdeu algum dinheiro, mas ganhou discernimento. Já não se deixava iludir por homens vazios. Matilde queria alguém sensato, determinado. Viu isso em Miguel. Se estivesse com amigos, nem teria parado para falar.
Que princesa és tu? Miguel contemplou-a. Branca de Neve, Cinderela ou Raposa Matreira?
Beija e descobrirás brincou ela.
Nunca passaram disso.
Miguel tratou de tudo nem o vestido confiou a outros. Queria que ela fosse a mais bela.
No dia do casamento, à porta do Registo Civil, cruzaram-se com Mariana e o noivo dela. Miguel forçou um sorriso:
Parabéns, Mariana beijou-lhe o rosto. Sê feliz com o teu cofre ambulante.
Não faças cena sussurrou Mariana, nervosa.
Ela avaliou Matilde: alta, altiva, de uma beleza impactante e postura nobre. Mariana ficou roída de inveja perdeu. Nem a sensação de felicidade a acalmou, sentia-se enganada pelas próprias escolhas.
Miguel voltou-se para Matilde:
Está tudo bem.
Ainda podemos parar murmurou ela.
Não. Vamos até ao fim.
E só no registo, olhando os olhos tristes da agora esposa, percebeu a dimensão do que fizera.
Eu vou-te fazer feliz, prometo disse, acreditando nas próprias palavras.
Veio a rotina. Olívia e Matilde tornaram-se amigas, completavam-se. Olívia acalmou o temperamento, Matilde organizava a casa, implementava o seu talento natural de liderança.
Como boa economista, especialista em contabilidade e impostos, Matilde arrumou logo as finanças. Em seis meses, abriram uma segunda loja; pouco depois, criaram equipas de remodelação: passaram a vender materiais de construção e a fazer obras. Os lucros triplicaram.
Matilde era mesmo uma rainha sábia dava ideias, mas Miguel achava-as dele. Parecia a vida perfeita, mas faltava-lhe a paixão de antes. Tudo era controlado, previsível. Monotonia, que me suga como um charco. Não amo esta mulher, é isso.
Por mérito de Matilde, cresceram e dedicaram-se à construção de moradias. A primeira foi para eles próprios.
Quanto melhor corriam os negócios, mais Miguel pensava em Mariana: Se ao menos tivesse aguentado Se visse o meu carro agora, a casa! Um palácio!. A ideia perseguia-o: E se?
Matilde percebia o desgosto do marido. Lutava para ser amada, mas não se pode arrancar sentimentos ao coração do outro. Nem todas as histórias acabam como nas histórias, pensava, mas não desistia o nome obrigava-a a ter esperança.
Olívia via o vazio do irmão:
Vais perder muito mais do que podes ganhar alertou, ao vê-lo na página de Mariana no Facebook.
Não te metas! Miguel cortou.
Olívia, olhos tempestuosos:
És um tolo. Matilde ama-te de verdade e tu ainda jogas!
Não preciso que miúda nenhuma me dê lições! irritou-se ele. O desejo falou mais alto. Escreveu a Mariana.
Ela queixou-se: vida arruinada, marido atirou-a para a rua, faculdade interrompida, trabalho incerto, agora vivia sozinha num quarto alugado no Porto.
Miguel hesitou dias: Vou não vou?. Mas, coincidindo com Matilde fora, de visita à avó doente em Évora, o impulso venceu.
Apanhou o carro, voando até ao Porto sem dar pelo caminho. Imaginava mil reencontros.
A realidade foi crua.
Estás espectacular lançou-se Mariana aos braços dele.
O odor a corpo sujo invadiu-lhe o nariz. Miguel afastou-se, enojado:
As pessoas olham
Que olhem! Mariana explodia de riso.
Saias curtas, maquilhagem berrante, perfume barato Estava irreconhecível, inferior à sua Matilde em tudo: Ela era sempre assim? Como não vi antes? torturou-se vendo Mariana a entornar minis.
Dá-me dinheiro, eu agradeço-te bem Mariana passou a língua nos lábios.
Nem sabia como fugir.
Olha, tenho de ir levantou-se.
Vens cá depois?
Não creio. Chamou o empregado. Faça o favor de fechar esta conta.
Quero ficar mais um pouco lamuriou Mariana.
Que fique, dentro deste valor largou uma nota de setenta euros.
O empregado assentiu, educado.
Miguel voltou a Lisboa a acelerar. Sou um idiota amaldiçoava-se Olívia tinha razão! Para quê, isto? Ou talvez não
Nunca chamei Matilde de Matilducha. Mas é a pessoa mais próxima que tenho no mundo. Travou bruscamente, espantado com a conclusão. Ficou minutos a rever cada detalhe daqueles anos após o casamento.
Só via os olhos da mulher, olhos azulados tão profundos; lembrava-se dos sorrisos, do carinho quando ela lhe desarrumava o cabelo com os dedos finos e cuidados.
Prometi fazê-la feliz, pensou, olhando a estrada. Ligou o motor, percorreu vinte quilómetros e virou para a estrada rural.
Uma semana é demais. Nem aguento dois dias sem ti sussurrou, quando Matilde correu da casa da avó para ele.
Que doido! chorava e ria a esposa, abraçando-o.
Matilducha, meu amor balbuciava Miguel, e os dois rodopiavam de felicidade.

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Oleg casou-se com a Nadja só para provocar a sua amada: quis provar-lhe que não sofria por ter sido deixado por ela.
Отчим – новият татко в българското семейство