Deixei de ser Mulher Casada

Já Não Sou (Mais) Esposa

Ó Tó, Tó, já mediste a tensão hoje? Tomaste o comprimido? Almerinda espreitou ao fundo do corredor, limpando as mãos ao avental.

Valha-me Deus, Almerinda, deixa-me em paz com a tua mania da tensão! resmungou ele, sem tirar os olhos do telemóvel. Tenho reunião daqui a uma hora. Onde está a camisa azul, aquela de algodão? Passaste-a?

Olha que ontem passei-te três camisas, e tu disseste que essa era para mandar para a lavandaria, que tinha nódoa…

Trocas-me sempre tudo! Não se pode confiar em nada! Pronto, dá-me qualquer uma então. E faz-me um chá forte, que esse teu de camomila já enjoa.

Os ombros de Almerinda ficaram tensos, mas não disse nada. Foi para a cozinha.

Lá fora, novembro mostrava todo o seu cinzento. Aquele prédio à frente era igual a todos os outros nos subúrbios de Lisboa: janelas apagadas, só duas ou três com luz acesa. Almerinda da Conceição Lagos, cinquenta e seis anos, ficou à frente do fogão e olhou para água a ferver no velho bule de esmalte já lascado. Pensou que o queria trocar desde a primavera. Não trocou. Nunca houve tempo.

Pôs a saqueta de chá preto na caneca, forte, como ele gostava, sem camomila, sem menta. Pegou numa travessa de sandes preparadas às seis da manhã pão com manteiga e queijo, duas fatias, sem côdea porque ele tinha o estômago sensível. Cortou tomate, embora os de novembro não soubessem a nada, só mesmo para dar vitaminas. Pôs tudo num tabuleiro e levou-o para o quarto.

António Duarte Lagos, cinquenta e oito anos, estava na poltrona, absorto no telemóvel. Era chefe de secção há três meses, depois de ter sido simples engenheiro durante mais de vinte anos. O antigo chefe, o senhor Vítor, reformou-se e, por ser o mais velho do grupo, António foi promovido. O novo cargo trouxe mais trezentos euros ao ordenado, uma sala própria, e, ao que tudo indicava, uma perspetiva diferente sobre si próprio e sobre a vida.

Põe aqui, ordenou, sem tirar os olhos do écrã. Almerinda pousou o tabuleiro. Hesitou.

Tó, a sério, toma o comprimido… Ontem queixaste-te da cabeça.

Ontem, sim. Hoje não. Agora deixa-me, preciso de fazer uma chamada.

Saiu. Parou no corredor à frente do bengaleiro, onde estava o sobretudo dele, o seu casaco de penas e um guarda-chuva torto. Ficou ali, a olhar para o vazio. Depois pegou num pano e foi limpar o parapeito da cozinha, sem saber ao certo porquê.

Assim se arrastavam há três semanas. Desde que António fora ao tal seminário da empresa em Sintra e voltara diferente. Mais empertigado, novo corte de cabelo, outro ar no olhar. Ela ficou contente Pelo menos voltou com energia, pensou. Mas depois começou a notar outras coisas.

Passou a criticar a comida. Antes comia calado, agora o caldo verde tinha demasiado sal, os filetes estavam secos, e arroz de frango é comida de estudante, não de chefe. Ela, a medo, perguntou se estava a ouvir bem, ele olhou-a como se dissesse disparate:

Almerinda, já era tempo de cozinhares coisas a sério. Peixe no forno, saladas boas, não esse teu bacalhau à Brás sempre igual.

Ela fez peixe no forno. E várias saladas. Ele comeu calado e ela pensou que estava tudo bem. No dia seguinte, no entanto, entrou de trombas vinda do trabalho e comentou que a esposa do novo colega Jorge, que conheceu no seminário, não trabalha e cuida da casa, e olha para ela: parece uma senhora!

Almerinda calou. Tinha resposta: que está sem trabalho há quatro anos, desde que fecharam o escritório, que acorda sempre antes dele e deita-se por último, que trata da casa, dos remédios, das idas ao centro de saúde, espera na farmácia pelos medicamentos para a tensão e o colesterol, leva os pneus ao mecânico e busca ela própria, porque ele está demasiado ocupado. Podia responder isso tudo. Mas calava, pois assim sempre foi.

Mas há dois dias, algo tornou impossível continuar a calar.

Chegara ele a casa pelas oito da noite. Almerinda tirava do lume uma canja de galinha, sem gordura, tudo por causa do colesterol dele. A casa cheirava a coentros e cenoura.

Que demora? perguntou ela, espreitando da cozinha.

Demorei, atirou, descalçando-se no hall, os sapatos largados no chão, não na sapateira.

A sopa está pronta. Senta-te a comer.

Entrou, pôs os olhos na panela, fez uma careta.

Outra vez galinha.

Tó, tens colesterol, o médico recomendou…

Sei que tenho colesterol, não sou criança. Só que já farto de comida de hospital em casa!

Serviu sopa, cortou pão. Ele comeu, levantou-se, deixou a tigela na mesa. Foi-se para o quarto. Ela lavou loiça, limpou o fogão, sacudiu migalhas. Depois entrou para dizer que havia compota, se quisesse.

Na poltrona, ele mexia no telemóvel. Um vislumbre de algo cor-de-rosa, ela não percebeu. Ele escondeu o écran.

Tó, queres compota?

Levantou os olhos. Olhou-a muito tempo, a ponderar.

Não, disse enfim. Pausa. Almerinda, olha bem para ti.

Ela não percebeu logo.

O quê?

Olha bem para ti. Quando foi a última vez que foste ao cabeleireiro? Olha esses cabelos, essa bata às flores… Pareces uma velha da aldeia!

Na cozinha gota a gota, a torneira pingava. Ao fundo, a televisão dos vizinhos murmurava.

Tó, murmurou ela.

O quê, Tó? Digo-te a verdade. Agora vou a eventos empresariais, há pessoas que vêm cá a casa a mulher tem de parecer uma senhora, e tu… Olha para ti.

Pessoas? perguntou, devagar. Quais pessoas? Em três meses nunca trouxeste ninguém cá.

Porque me envergonho! exaltou-se, a palavra vergonha caiu, pesada como pedra em poço. O colega da contabilidade tem a mulher toda arranjada, elegante. Tu… Gorda, sempre nessa bata, com cabelos brancos…

António. Usou o nome inteiro, coisa rara. Vais fazer sessenta, eu cinquenta e seis. Já não somos crianças.

Justamente! levantou-se como se provasse um ponto. Por isso mesmo era para cuidares de ti. Eu faço ginásio. Tu passas o dia sem mexer…

Passo o dia em casa… repetiu ela. A voz manteve-se estranhamente calma. Está bem, Tó. Percebi.

Saiu do quarto, encostou a porta. Na cozinha, arrumou o pão, apagou a luz. Tudo mecanicamente. Mas cá dentro algo mudou. Não se quebrou, mudou, como quem muda móveis na sala: estranho, por ora, mas depois percebe que fazia falta.

Não dormiu nessa noite. Deitada do lado dela ele adormeceu num instante ficou a pensar.

Pensou nos últimos dez anos, vividos à margem de si, só a servir: levanta-se, cozinha, lava, limpa, vai à farmácia, marca consultas, paga táxis para o hospital (o carro venderam há três anos, ele não aguentava o volante pela tensão). Cuida dos medicamentos: para a tensão, colesterol, das articulações (essa, quase cem euros por caixa). Apontava no caderno para não falhar nada. O médico frisou: não se deve falhar.

E agora ele dizia que era uma vergonha. Que parecia uma camponesa. Que as esposas dos outros eram melhores.

Almerinda ficou ali a pensar. E por volta da uma da manhã, pensou numa coisa tão simples quanto nova: chega.

Não vou-me embora, nem quero divorciar-me, nem vou fazer um escândalo. Só: chega de ser invisível e descartável. Chega de ser recurso disponível como água da torneira: abres, serves-te, fechas. Agora, que faça sozinho.

No dia seguinte, levantou-se cedo, como sempre. Fez chá para si, sim, aquele de camomila que António detestava. Sentou-se, abriu o telemóvel. Inscreveu-se no cabeleireiro do centro comercial perto do metro, aquele caro, onde nunca ia quarenta euros só por um corte. Marcou para quarta. Depois, encontrou caminhadas orientadas no parque municipal à terça e quinta, de manhã, gratuitas. Guardou no telemóvel.

Quando António apareceu na cozinha às sete, estava lá só a caneca dele. Pão na caixa, manteiga no frigorífico. Que arranjasse.

Onde está o pequeno-almoço? inquiriu.

O pão está ali, manteiga também. O queijo no frigorífico, disse, sem levantar os olhos.

Ele parou. Fez tudo sozinho. Comeu, de pé junto ao frigorífico. Saiu sem palavra.

Ela olhou a porta fechar-se. Sentiu um alívio estranho.

Quarta-feira foi à cabeleireira. A jovem, com um lado do cabelo rapado e muitos brincos, olhou-a e perguntou:

Não pinta o cabelo há muito?

Uns três anos, confessou Almerinda. Nunca calhou.

Tem bom cabelo. Faço-lhe madeixas suaves e dou-lhe forma nova.

Duas horas e meia depois, Almerinda olhou o espelho: não ficou jovem, mas ficou outra. Parecia ela de antigamente.
Pagou cento e vinte euros. No regresso, parou numa perfumaria, comprou creme de rosto a vinte e cinco euros. Pensou duas vezes. Depois, lembrou-se da mulher do colega do marido. Comprou.

À noite, António reparou no cabelo. Não disse nada.

Ela não esperava.

Na semana seguinte acabaram-lhe os comprimidos da tensão. Dantes ela controlava tudo. Agora, viu a caixa vazia, pôs-lhe na mesa de cabeceira. Para que notasse.

Ele chegou, não olhou.

No dia seguinte, ao precisar, reparou e chamou:
Almerinda! Os comprimidos acabaram!

Sei.

Então porque não compraste?

És crescido, Tó. Vai tu.

Pausa longa.

Estou a trabalhar.

Estou ocupada também.

Não adiantou dizer em quê. Agora tinha, de facto, ocupações: caminhava no parque com Nina e Gracinda, duas mulheres quase da sua idade. Nina era professora, risonha, Gracinda reformada, com netos. Caminhavam e conversavam, respirando o ar nunca pensou que seria tão revitalizante estar ali.

António comprou, sozinho, os comprimidos. Veio para casa como se tivesse ido ao fim do mundo. Pousou-os em silêncio, ela não comentou.

Nesse mesmo período, ligou à amiga Zita, de há muitos anos, colega da antiga empresa.

Zita, estás livre sábado?

Porquê, alguma coisa?

Que tal café ou cinema?

Estás bem, Almerinda? Zita estranhou: café, só há uns quatro anos.

Melhor do que nunca, riu-se Almerinda.

Sábado encontraram-se à porta do Colombo. Zita olhou-lhe o cabelo, soltou um Uau, como mudaste!

Fui ao cabeleireiro.

Já era tempo! Eu sempre a pensar quando…

Pronto, cá está, sorriu. E entraram no café.

Sentaram-se com um galão e uma fatia de bolo cada uma, à janela, enquanto lá fora caía a primeira chuva fria do ano, grossa, a derreter-se no passeio.

Conta lá, pediu Zita.

Almerinda contou. O cargo, o seminário, a nova postura do António. O caldo, as críticas, a mulher do colega. “Olha para ti”, “vergonha”. Falou sem lágrimas, com distanciamento parecia até história de outra pessoa.

No fim, Zita perguntou:

E o que decidiste?

Não decidi. Só deixei de fazer o que não lhe faz falta. Não é por maldade. Só porque… não preciso.

Não precisas, concordou Zita.

Não sei se faço bem. Mas só assim consigo.

Ele notou, ao menos?

Que deixei de lhe comprar medicamentos? Sim. Que deixei de passar-lhe tudo? Também. Ontem vestiu a camisa amarrotada e saiu calado.

Nem discussão?

Não. Fica sem saber o que dizer. Afinal, passei anos em silêncio. Agora é outro silêncio.

Zita mirou-a séria.

Já pensaste no divórcio?

Já, mas não agora. Primeiro quero saber quem sou eu sem isto tudo. Acho que já nem me lembrava de mim.

Ainda beberam outro café, depois despediram-se à porta. Zita disse:

Liga. E para a semana, outra vez?

Claro, assentiu Almerinda.

Voltou a casa de metro, a pensar que há seis anos que não se permitia aquelas tardes. Sempre as necessidades do António, a sopa do António, o descanso do António.

Ele estava sentado à televisão. Na cozinha, a loiça da omeleta feita por ele nesse dia, suja na banca. Almerinda olhou, deixou estar.

Onde estavas? lançou ele, sem olhar.

Com a Zita.

Muito demorada.

Sim.

Foi lavar a cara ao wc. Passou o creme caro. Olhou o espelho: um rosto maduro, vivo, rugas de expressão, um certo brilho nos olhos. As madeixas caíam-lhe bem. Era uma mulher de cinquenta e seis anos e estava tudo certo nisso.

Dezembro chegou com frio a sério. Almerinda comprou botas novas de pele genuína, não as de borracha baratas dos últimos anos. Cento e cinquenta euros. Não se arrependeu.

A casa mudou, numa coisa subtil. Continuou a cozinhar, mas não mais em função do homem. Cozinhava o que lhe apetecia sopa rica, batatas com frango, às vezes até raviolis comprados, porque sim. As almôndegas de vapor para ele, nunca mais. Que comesse, já era crescido, o médico já o avisara.

As camisas passaram a lavar-se no ciclo normal, com as restantes roupas. Antes fazia programa especial para as coisas dele. Agora, não.

Ele via e calava. Lançava algumas bocas:

Outra vez massa recheada?

Sim, dizia ela, serena.

Já nem sabes cozinhar?

Ontem havia assado. Domingo também.

Ele saía de trombas. Argumentar? Impossível: Porque já não giras à minha volta? Mesmo para António, seria demais.

Almerinda, por seu lado, continuava com as caminhadas. Conversas com Nina, conselhos sobre médicos. Inscreveu-se na biblioteca num curso gratuito de aguarela às quartas. Nunca sonhou em pintar, mas porque não? Duas horas para si sem mais preocupação.

A meio de Dezembro, António começou a chegar tarde. Outros tempos, isso era angústia, telefonemas, jantares frios. Agora, ela jantava sozinha na hora dela. Ele chegava quando queria. Um dia quase à meia-noite. Não perguntou. Ele não explicou.

Notou que ele tinha alguém, não pelo telemóvel, mas quando um dia voltou a casa a cheirar a perfume doce de mulher. Bingo, pensou.

Estranho, não doeu. Achou que doía mas era, afinal, alívio. Agora, se ele fosse embora, seria escolha dele. Não fracasso seu.

Nada comentou. Dormiu normalmente.

Assim passaram três semanas. Ele trabalhava, chegava tarde, às vezes recebia chamadas no wc. Um dia, ouviu ela: já disse, Leonor, ao sábado. Leonor. Pronto.

Pensava na vida, nos trinta e dois anos juntos, o filho Miguel, agora em Braga com mulher e dois filhos. Em jovem, António fora outro homem: bem-disposto, brincalhão, levava o rapaz à pesca. Mudou aos poucos, como humidade que encharca a cave sem se notar.

Pensava em si mesma. Tantos anos a cuidar dele, esqueceu de cuidar de si por fora? Sim. Mas sobretudo por dentro. Que gostava ela? Que música? Para onde viajaria? Tudo soterrado por anos de caldos e medicamentos.

As aulas de aguarela tornaram-se um prazer novo. Almerinda pintava maçãs, jarras, vistas da janela. No silêncio da biblioteca, levava para casa elogios da orientadora, a professora Natália: Tem mesmo mão para isto, dona Almerinda. Comentário simples, inesperadamente importante, vindo de quem António não elogiava coisa nenhuma há muito.

Em Janeiro, Leonor, ao que parece, chegou ao fim do caminho. Soube pelo ar dele, não por confissão. Voltou aos horários normais, sem telefonemas escondidos, menos animado, mais calado.

Comia a sopa em silêncio. Uma noite, enquanto ela bebia chá, ele entrou na cozinha:

Está frio hoje, não está?

Está, disseram doze graus negativos.

Pois.

Saiu. Fim de conversa.

Só depois soube, por um amigo comum, Carlos Silva, numa conversa sobre a casa de campo: Soube que o teu António andou enrolado com uma rapariga? Deixou-lhe logo. Almerinda respondeu: Pois, ouvi dizer. E mudou de assunto.

Pensou: a tal esperava, por certo, um chefe elegante, jantares e viagens. Apanhou alguém de cinquenta e oito anos, sempre doente, que choramingava as maleitas, exigia chás fortes e camisas passadas. Ninguém aguenta muito.

Não sentiu pena. Foi um alívio como acabar uma dor de dente: não há alegria, só ausência de desconforto.

Em Fevereiro, a saúde dele piorou. Esquecia comprimidos, tomava-os fora de horas, às vezes dois juntos. Almerinda via, mas calava. O médico já o avisara.

A tensão subiu, tinha tonturas, dormia mal. Uma manhã disse:

Estou tonto.

Vai ao médico.

Vais marcar?

Liga tu para o centro de saúde. O número está no cartão.

Ele fitou-a. Ela, calma, sorveu o chá.

Não sei como se marca.

Claro que sabes. És chefe. Consegues.

No fim, ele ligou. Foi à consulta, trouxe nova receita. Novo remédio, para juntar aos outros.

Aqui está, largou a receita na mesa.

Está bem, disse ela.

Vais comprar?

Amanhã passo por lá, dá-me o dinheiro.

Ele ficou baralhado. Antes era ela que comprava tudo. Agora, pediu dinheiro. Ele deu. Almerinda comprou e deixou lá, não explicou regras, não marcou horários como dantes. Ponto.

Março chegou com chuva e degelo. Almerinda passeava sozinha, sem bastões desta vez. Comprou casaco novo, com cinto, bege claro. Virou-se no espelho: não comprava nada só porque sim há anos.

Miguel veio a Lisboa com a mulher, Inês, para uns dias. Trouxeram mel e bombons. No jantar, batatas assadas, salada de bacalhau, gelatina, frio de domingo. António, calado. Miguel contava histórias dos netos. Inês perguntava a Almerinda pelas aquarelas.

Mãe, agora pintas?

Ando a aprender.

Mostra?

Mostrou: maçãs, jarros, paisagens. Miguel sério, Inês elogiou.

Mãe, pareces até mais nova.

Cortei o cabelo, só isso, sorriu Almerinda.

Viu Miguel observar o pai. António calou-se, algo tenso, mas não disse nada.

No dia seguinte, Inês foi às compras, Miguel ficou.

Mãe, está tudo bem?

Porquê?

O pai está diferente. Anda doente?

Tensão. Anda a tomar os comprimidos, já sabe cuidar de si.

Vocês discutiram?

Não, Miguel. E era verdade: não discutiam. Viviam em paralelo.

Se precisares de alguma coisa…

Estou bem, Miguel. A sério.

Ele acreditou. Porque era verdade.

Foram-se embora ao domingo. A casa voltou ao silêncio. Almerinda fez a lida, António viu televisão.

Mais tarde, ele entrou na cozinha para beber água. Olhou pela janela.

O Miguel está bem, não está?

Está, sim.

E os miúdos, começou, não continuou.

Sim.

Bebeu água, saiu. Ela ficou a olhar lá para fora, para a rua iluminada.

Em Abril, António teve uma crise hipertensiva. Não grave mas suficiente.

De manhã, levantou-se, zonzo. Chamou:
Almerinda! Sinto-me mal.

Ela saiu, viu-o encostado à parede, suado.

Anda, encosta-te aqui, disse. Ajudou-o à cama, trouxe o aparelho. A tensão, duzentos e tal. Grave.

Toma o captopril, está na mesinha. Deita-te. Volto a medir daqui a meia hora.

Vais para onde?

Para a cozinha.

Decorrido esse tempo, ele melhorou. Almerinda foi medir, já mais baixo.

Fica deitado. Não saias hoje.

Mas tenho de ir trabalhar…

Liga, diz que estás doente. Não vais.

Ele ficou. Ela trouxe-lhe chá e torradas. Não porque pediu, mas por fazer diferença. Entre não quero cuidar e não vou deixar alguém sofrer há fronteira.

Ele ficou a olhar para o tecto.

Almerinda, ao fim de muito calado.

Hum?

Acho… Acho que tenho sido parvo nos últimos meses.

Ela demorou. Sentou-se na beira da cama.

Pois tens, Tó.

O cargo subiu-me à cabeça. Quis mudar tudo, como se agora fosse importante.

Fizeste por merecê-lo. Tu és chefe agora.

Pois. Mas tu… continuaste engasgou-se. Não era isso.

Sei o que querias dizer, disse ela, calma.

Levantou-se, levou a caneca. Para a cozinha. Sem dramas, sem reconciliações. Apenas: reconheceu e ponto.

Passou Abril, veio Maio. Continuou com as caminhadas e aulas de aguarela. Aproximou-se de Nina, que a convidou ao teatro. Foram ao Dona Maria, lugares bons. Almerinda não ia ao teatro há dez anos. Sentada, de sumo na mão, achou aquilo maravilhoso: ver história viva, sem obrigações.

Tinha cinquenta e seis anos e sentia que aquilo não era fim nenhum. Era outro início.

Com António, convivência paralela. Já não criticava comidas, nem mencionava esposas de colegas. Às vezes conversavam, outras vezes ficavam em silêncio ele a ver televisão, ela a ler o último livro sugerido por Nina. Era calmo, rotineiro, mas pela primeira vez ela não se sentia em dívida.

Certa vez ele pediu para ela encomendar medicamentos pela net, porque saía mais barato:

Não percebo dessas coisas, tu fazes melhor.

Tó, é simples. Procuras o nome, pões no carrinho, escolhes a farmácia.

Mas tu fazes melhor.

Eu sei, mas tu também podes aprender.

E aprendeu. Sentou-se, chamou-a só uma vez. Ela explicou. Ele fez.

Ela soube que era importante: deixar que cada um resolvesse o que podia. Antes, ajudar era fazer tudo. Agora, era não substituir ninguém.

Veio o calor de Junho. Almerinda comprou um vestido de flores, o primeiro há anos. Vestiu-se, sentiu-se bem. Não como velha de aldeia. Mas mulher.

Os casais velhos vivem os problemas cada qual à sua maneira. Uns em guerra, outros companheiros, outros nem se falam. Com António era outra coisa: nem guerra, nem apatia, só divisão sob o mesmo tecto.

Às vezes pensava no divórcio, na pergunta da Zita. Não rejeitava, mas não tinha pressa. Primeiro, era saber quem realmente era.

O verão passou devagar. Foi a Braga visitar o filho durante duas semanas, só ela, pela primeira vez sem António. Ele ficou, disse que tinha trabalho. Levou na mala uma almofada bordada para a neta aprendeu sozinha num vídeo na internet.

Foram dias felizes. Cuidou dos netos, levou-os ao parque, ajudou Inês. Cuidou, mas daquela maneira boa, sem esgotamento.

Miguel, à noite, conversava. Não pressionava nada. Bom filho, pensava ela.

Regressou a Lisboa bronzeada. António, ao recebê-la, só disse: Já cá estás. Ajudou com a mala. Só isso.

Em Agosto, um calor abafado. Comprou um pequeno ventilador para o quarto, trouxe melancia, comeu metade, deu-lhe o resto. Ele comeu e disse obrigado. Primeira vez em muito tempo que agradeceu um prato.

Em Setembro, já arrefecia. Os plátanos lançando folhas douradas no chão.

Numa sexta-feira, António chegou pelas oito, de cara pálida, andar cauteloso. Ela estava na cozinha a ler.

Almerinda, não estou bem.

O que foi?

Deve ser a tensão. Dói a cabeça, e aqui, mão no peito. Aperta.

Ela observou-o, séria.

Há quanto tempo?

Desde a hora do almoço. Pensei que passava.

Tomaste o comprimido?

Tomei às três. Não fez muito.

Senta-te.

Ele obedeceu. Ela trouxe o aparelho. Cento e noventa por cento e quinze. PIOR que em Abril.

Tó, é grave. Vais precisar do INEM.

Achas mesmo necessário? Talvez mais um comprimido…

Não. Com estes valores e dor no peito, não se espera. Precisas de médico.

Podes tu ligar…

Aqui, ela parou. Ficou com o medidor na mão, olhando-o de frente.

Viu-o a cara cinzenta, os olhos assustados, a mão no peito. Viu um homem doente. Teve pena, sim, da séria. Ele não era mau, só estava doente e perdido.

Mas também lembrou tudo: que ele olhou para ela sem a ver tanto tempo. Que lhe disse coisas impossíveis de esquecer. Que ela deixou de ser gente para ele muito antes de deixar de se esforçar.

E soube o que faria. E o que já não podia fazer.

Tó, disse baixinho. Tens aí o telemóvel. Conheces o número do INEM.

Ele olhou-a sem entender.

Como assim?

Liga tu para o INEM. Marca cento e doze. Diz o endereço, explica a tensão e a dor no peito. Eles vêm já.

Almerinda… o tom dele era infantil, inseguro. Não me ajudas?

Já ajudei. Medi a tensão, disse o que era preciso. Agora és tu.

Mas…

Tó, pousou o aparelho. És crescido. Chefe. Vais conseguir.

Deixou a cozinha, foi ao quarto. Fechou a porta sem barulho.

Da cozinha ouviu-se o murmúrio dele, hesitante:

Alô. Sim, uma ambulância. Rua… pressão alta, dor no peito…

Foi buscar o seu chá. De camomila, porque sim. Passou pelas costas dele, ainda ao telefone, sentado, olhos aterrados. Olhou-a de esguelha. Ela seguiu até à janela, onde ficou a olhar o escuro lá fora.

A rua em baixo estava deserta. O candeeiro amarelo iluminava o passeio molhado. As folhas dos plátanos, já quase todas caídas, jaziam no chão, encharcadas. No banco, ninguém.

Ouviu-o acabar o telefonema. Silêncio.

Estão a caminho, disse.

Está bem, ela respondeu.

Queres vir comigo para o hospital…

Ela voltou-se devagar.

Não, Tó. Vais bem acompanhado. Os médicos tratam de ti.

Almerinda…

É o trabalho deles.

Pegou a caneca. Voltou ao quarto, fechou suavemente a porta. Sentou-se à janela. Lá fora, luzes do outro prédio brilhavam. O velho plátano balançava na brisa noturna. Da cozinha, sons de movimento. Depois, silêncio. Depois o elevador.

A ambulância chegou em vinte minutos. Ouviu-lhe a porta, passos céleres, vozes atarefadas. Palavras: pressão, ecocardiograma, talvez internamento. Ele respondia, voz baixa, envergonhada.

Depois ouviu:

Tem família aqui em casa?

E ele:

Tem sim… a minha mulher, mas… não vem.

Pausa. O médico, profissional:

Está bem. Venha daí. Leve casaco.

Porta. Elevador. Silêncio.

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