Fogão a brilhar
Lídia. Vem cá.
Sem um por favor. Sem um quando terminares. Apenas um vem cá, como quem chama um cão.
Ela apoiou a esfregona contra a parede e entrou na cozinha. Manuel estava sentado à mesa, olhos cravados no telemóvel. Ao lado, no seu lugar preferido junto à janela, estava Dona Benedita. Bebia chá. O cheiro da sala era de couve cozida e daqueles comprimidos que a sogra engolia às mãos cheias desde manhã cedo.
A mãe diz que limpaste mal o fogão outra vez disse Manuel, sem lhe levantar os olhos.
Eu limpei-o ontem.
Mal limpaste.
Dona Benedita pousou a chávena no pires com um som abafado.
Não suporto ver porcaria dentro da minha casa disse ela, como se fosse a coisa mais lógica do mundo. Sempre fui arrumada. Vinte anos fui eu que tomei conta disto tudo, e nunca houve este desmazelo.
Lídia já tinha cinquenta e três anos. Estava ali, na cozinha, de luvas de borracha, as mãos molhadas, a ouvir mais uma vez o mesmo discurso.
Mostre, então, onde está sujo disse. Eu limpo.
Mostra, pois intrometeu-se Manuel. Não vês sozinha? Ou queres que te ajoelhe e te aponte?
Disse aquilo baixo, quase sereno. Sempre fora assim: falava baixo, não levantava a voz, mas as palavras acertavam de cheio.
Lídia olhou para o fogão. O fogão brilhava. Ela tinha-o esfregado ainda na véspera, depois do jantar, meia hora a tirar gordura das bocas. Estava limpo.
E foi ali que algo se partiu.
Sem um berro, sem lágrimas. Só olhou para o fogão reluzente, depois para Manuel com o telemóvel, depois para Dona Benedita com a chávena, e dentro dela ficou um silêncio sério. Daqueles que surgem antes de tudo quebrar de vez.
Lídia tirou as luvas. Pousou-as na mesa.
Há vinte e oito anos ouço isto disse. Chega.
Manuel levantou os olhos do telemóvel. Dona Benedita ficou imóvel com a chávena na mão.
O que disseste? perguntou Manuel.
Disse: chega.
Ela saiu da cozinha. Foi ao quarto, pegou num saco grande do Pingo Doce e começou a arrumar algumas coisas: documentos, dois casacos de malha, uma muda de roupa, carregador do telemóvel. Nem as mãos tremiam; surpreendeu-se com tanta calma, como quem toma uma decisão a que foi amadurecendo durante anos.
Ouviam-se vozes da cozinha. Baixo, depois mais alto.
Manuel, estás a ouvir? Vai lá, impede-a!
Vai tu, se queres.
Lídia vestiu o casaco, pegou no saco e foi para o corredor. Calçou-se. Abriu a porta.
Lídia! gritou Dona Benedita da cozinha. Tu lá sabes o que fazes? Para onde vais? És ninguém sem ele! Ninguém!
Lídia fechou a porta. Devagar, sem barulho.
No patamar, cheirava à caixa de areia dos gatos dos vizinhos do segundo e a tinta acabada do rés-do-chão. Desceu e saiu à rua. Era outubro, frio húmido, as folhas por cima do alcatrão. Lídia parou à porta e tirou o telemóvel.
A Sofia atendeu ao segundo toque.
Sofia disse Lídia. Saí de casa.
Silêncio.
De onde?
Do Manuel. Para sempre. Não tenho para onde ir.
Mais uns segundos em silêncio. Depois Sofia disse:
Lembras-te da morada? Em vinte minutos chego a casa. Espera-me à porta, digo-te o código do prédio.
***
Sofia morava num T1 perto do Jardim da Cordoaria. Pequeno, mas dela, comprado com muito esforço quando era rececionista num hotel e guardava cada euro. Havia estantes por todo o lado, jarros de flores, na cozinha uma tábua cheia de ímanes de cidades diferentes. Cheirava a café com canela e bolo acabado de fazer.
Lídia estava sentada no sofá com uma chávena quente nas mãos, Sofia à sua frente, pernas cruzadas, um olhar atento e sem pressa.
Conta lá pediu Sofia.
Não há muito para contar respondeu Lídia. Sempre igual. Fogão sujo, sopa mal temperada, chão mal lavado. E aquele olhar Como se eu fosse uma máquina que não funciona bem.
Lídia, sempre foi assim. Mas hoje, porquê?
Lídia pensou.
Olhei para o fogão limpo e percebi: se não for agora, nunca mais saio. Morro ali. Um dia deito-me e não levanto, e eles vão dizer que nem de mim cuidei direito.
Sofia assentiu. Não disse nada. Apenas serviu mais chá.
Nessa noite, Lídia ficou deitada no sofá, embrulhada num cobertor, ouvindo o verdadeiro silêncio. Sem a televisão da sala ao lado, sem a tosse de Dona Benedita através da parede. Sem sentir aquela urgência de se levantar à mínima coisa.
Não dormiu até às três. Não por nervosismo, mas por não saber como se sente alguém a descansar sem obrigações.
Depois acabou por adormecer.
***
O telemóvel ficou em silêncio dois dias. Ao terceiro, Manuel enviou mensagem: Quando voltas? Não desculpa, não precisamos de falar. Apenas quando voltas?, como se ela tivesse ido numa viagem de trabalho.
Lídia leu e guardou o telemóvel no bolso.
Fizeste bem disse Sofia, que estava ali ao lado. Não respondas. Que ele pense.
Não tem nada para pensar disse Lídia. Tem a certeza que volto. Sempre pensou assim. Que eu não saía dali.
Vais mesmo embora?
Lídia olhou pela janela. Lá fora, o quintal de outubro: cinzento, carros molhados, árvores despidas.
Vou. Ainda não sei para onde, mas vou.
As primeiras semanas eram estranhas. Lídia não sabia o que fazer com ela mesma. Sempre acordou às sete, para fazer o pequeno-almoço, limpar, lavar roupa, ir à farmácia buscar comprimidos para Dona Benedita, ao supermercado, cozinhar outra vez, limpar outra vez. Dia após dia. Mesmo assim, pouco, mal.
Agora acordava e o dia estava vazio. Nada para fazer. Quase custava a suportar.
Sofia disse ela uma manhã, quando Sofia já saía para o trabalho Preciso de procurar alguma coisa para fazer. Senão enlouqueço.
Arranja trabalho.
De quê? Passei vinte e oito anos em casa.
Foste pintora.
Lídia riu um pouco, sem graça.
Fui. Em tempos. Depois do curso trabalhei dois anos numa editora, depois casei. Manuel disse que chegava, ele ganhava para os dois. E a mãe reforçou que uma senhora como deve ser trata da casa, não anda em escritórios.
E aceitaste.
Aceitei. Tinha vinte e cinco anos e achei que isso era amor. Que cuidar de mim era isso.
Sofia calçou o casaco em silêncio.
Olha, tenho lá em casa umas aguarelas da minha sobrinha. E folhas. Usa-as. Vai tentando.
Para quê?
Porque ainda sabes como se faz. As mãos nunca esquecem.
***
As aguarelas estavam numa gaveta, embrulhadas num papel velho. Baratas, para criança, numa caixa de plástico com um esquilo desenhado. Papel grosso próprio para aguarela também ali, num bloco começado. Lídia pegou nas coisas, sentou-se à mesa da cozinha e olhou tempo demais para a folha branca.
Depois pegou no pincel.
No início, nada saía bem. A tinta não assentava, a mão tremia, as proporções erradas. Rasgou três folhas. Depois acalmou e começou só a espalhar tinta, sem plano, sem nada. Apenas cor. Apenas forma.
Ao fim de uma hora, na sua frente, havia um pequeno quadrado de papel: o pátio de outubro visto da janela da Sofia. Árvores molhadas, céu cinzento com uma linha cor-de-rosa ao fundo.
Lídia olhou e pensou: está feito. Fui eu.
Não era sopa, nem fogão limpo. Era isto.
Sofia, ao chegar do trabalho, reparou no desenho e parou.
Foste tu que pintaste?
Fui.
Está muito bem. Mesmo.
Não está nada, está tudo torto.
Mas tem vida disse Sofia. Já vi muitos pátios, mas este parece real. Sente-se.
Lídia não respondeu. Nem deitou o desenho fora.
***
Em casa do senhor Manuel Silva, entretanto, aconteceu o inesperado.
Três dias à espera de Lídia voltar. Claro que voltava: para onde iria? Não sabia fazer nada, não tinha dinheiro, nem casa, nem trabalho. Ia voltar, só podia.
Não voltou.
Ao quarto dia percebeu que o frigorífico estava vazio. Completamente. Abriu de manhã, viu um pacote de leite, fechou. Saiu para o trabalho em jejum.
À noite, a mãe estava na cozinha, a olhar para ele com o jeito de quem sempre soube, mas calou por educação.
Já jantaste?
Não.
Eu também não. Foste às compras?
Não deu.
Portanto, não jantaste e nem trouxeste nada disse Dona Benedita. Tenho setenta e oito anos e nunca passei fome nesta casa.
Mãe, vai tu ao supermercado.
Longa pausa.
Tenho setenta e oito anos respondeu ela devagar As pernas já não me ajudam. Tenho tensão alta. Uso bengala. E dizes-me isso.
Estive a trabalhar
E a Lídia? Sempre a dar-te tudo, de manhã à noite, e tu a correr com ela de casa.
Manuel levantou a cabeça.
Eu?! Foi ela que saiu!
Porque já não aguentava! a voz da mãe subiu. Sempre te disse: tem mais calma com as pessoas. Mas tu és sempre o mais sabido.
E a senhora, com as críticas todos os dias! Fogão sujo, sopa ruim, chão mal lavado!
Fazia só observações! Meu direito em minha casa!
Minha casa, mãe! Isto é minha casa!
Ficaram a olhar um para o outro. Primeira vez em muitos anos. Lídia não estava, já não servia de amortecedor para as pancadas mútuas.
Manuel saiu, vestiu o casaco, bateu a porta.
Dona Benedita ficou só na cozinha. Estava escuro lá fora. Levantou-se, acendeu a luz, abriu o frigorífico. Olhou para o leite. Fechou.
Sentou-se.
O silêncio era total, como nunca fora enquanto Lídia vivia ali.
***
Novembro trouxe o frio e os primeiros pingos de chuva. Três semanas depois, Lídia já se sentia outra, como alguém que esteve trancado e voltou a respirar. Primeiro custa, depois habitua.
Pintava todos os dias. Comprou tintas melhores. Sofia encontrou um anúncio: pequeno ateliê para alugar na Rua da Ribeira, ao pé do jardim. Vinte metros quadrados, janela grande a norte, chão de madeira. Barato, mas em mau estado.
Quando Lídia foi ver, percebeu logo: era ali.
Fica? perguntou a senhoria, senhora idosa de gorro na cabeça.
Fico.
Quase sem dinheiro. Vendeu os brincos de ouro que os pais lhe deram no casamento. Custou-lhe. Mas pensou: memória de quê?
O ateliê tornou-se o seu espaço. Ia para lá de manhã, abria a janela, deixava entrar o cheiro a chuva e rio. Cheirava a tinta, óleo de linho, madeira. Arrumava as tintas, abria o bloco ou a tela e pintava. Horas a fio, às vezes esquecia a fome.
Pintava de tudo: paisagens, pátios, naturezas feitas do que havia, uma chávena, uma maçã, uma bota velha. Estava cada vez melhor. As mãos, afinal, não esqueceram, só precisavam de tempo e exercício, depois de vinte e oito anos caladas.
Em dezembro, Sofia ligou ao ateliê:
Lídia, no hotel querem fazer exposição de artistas locais. Pequena, no átrio. Falei de ti. Envias trabalhos?
Sofia, eu nem artista sou. Recomecei agora.
És artista. Vi os teus quadros.
Aquilo é amador.
Lídia, há trinta anos que te diminuem. Basta. Manda trabalhos?
Lídia hesitou.
Está bem.
***
Foi nessa exposição que conheceu o senhor António Mota.
Entrou no átrio do hotel por acaso, porque tinha feito reserva e calhou passar ali. Alto, cabelo grisalho nas têmporas, camisa aos quadrados, olhos calmos. Parou em frente a um dos trabalhos de Lídia: parque de inverno, banco, pegadas na neve.
Lídia aproximou-se para endireitar a moldura e ouviu-o murmurar para si próprio:
Assim é a vida. Vieram, sentaram-se, foram-se embora.
É por causa das pegadas? perguntou ela.
Ele virou-se, sem ficar embaraçado.
Sim. Fico a pensar: eram dois, sentaram-se, seguiram caminhos diferentes. Não se percebe se estiveram bem ou discutiram.
Pensei que era só uma pessoa disse Lídia. Veio, ficou, voltou para casa.
Uma pessoa não anda assim aos ziguezagues respondeu ele. Vê, as marcas faz curvas? Dois.
Ela olhou com novos olhos.
Talvez, sim.
Ficaram à conversa um bom bocado. Ele era de uma cidade ali perto, viera ajudar o irmão no arranjo da casa. António era daqueles que faziam de tudo: eletricidade, canalização, madeira. Viúvo, dois filhos já crescidos. Falava pouco mas escutava muito, Lídia reparou. Não interrompia. Não mexia no telemóvel. Olhava para ela enquanto ela falava.
Tão diferente, nem sabia como agir.
Antes de se despedirem, ele perguntou:
Tem cartão?
Não faço disso disse ela, encabulada.
Então pode dar-me o número?
Ela deu. Depois pensou; Agora, se calhar, ele quer comprar um quadro.
Três dias depois, mensagem: Boa noite. Sou o António, falámos das pegadas. Gostava de comprar aquele quadro, se não tiver vendido.
Não tinha vendido. Ele foi lá, tomou conta da pintura com cuidado, trouxe saco próprio, e perguntou se não podia ver mais trabalhos.
Foram ao ateliê. Ele ficou ali muito tempo, em silêncio. Comprou mais dois quadros pequenos.
Pinta muito bem disse ele.
Estive muito tempo sem pintar respondeu Lídia.
Porquê?
Deu de ombros. Não explicou. Não já.
A vida levou-me por outros caminhos.
Ele assentiu, aceitou a resposta, sem mais perguntas.
***
Manuel ligou-lhe em janeiro. Lídia já vivia há meses entre casa da Sofia e o ateliê. No papel, ainda casados. Não tinha dado entrada nos papéis.
Ligou quando ela estava a acabar um quadro grande: ramos de pinheiro numa jarra, pinhas, uma vela.
Lídia disse ele.
Sim.
Como estás?
Estou bem.
Silêncio.
A mãe está doente.
Lamento que esteja.
Não ias cá uma vez por semana, ajudar?
Lídia pousou o pincel.
Manuel, saí de casa. Vivo sozinha. Não vou aí ajudar nas tarefas.
Ainda és minha mulher.
Por pouco tempo.
Não digas isso. Volta para casa. Falamos.
Tu nunca falaste, Manuel. Vinte e oito anos. Falavas tu e a tua mãe. Eu escutava e cumpria.
Sempre exageras.
Talvez respondeu calma. Mas não volto.
Desligou. As mãos firmes. Surpreendida de si mesma.
Pensou: para quem olhar de fora, mulher que saiu de casa parece simples. Cá dentro não era nada simples. Era aprender a andar todos os dias.
***
Gerir dinheiro foi aos poucos. Vendia pinturas, às vezes pequenas encomendas, postais. Com ajuda da Sofia, abriu uma página na internet e começaram a aparecer interessados.
Chegava para viver, mais ou menos. Ateliê, comida, roupa. Sem extras, mas dava.
É estranho como isso parecia riqueza. Era. Porque era dela.
António ia vê-la de duas em duas semanas, quando tinha assuntos na cidade. Tomavam café perto do jardim ou passeavam. Falava-lhe dos filhos, do trabalho, um deles já casado, ia ser avô. Lídia falava da pintura, das ideias, do desejo de experimentar óleo.
Nada de pressas, nada de pressão. Um dia percebeu que esperava a visita dele. Quando ele não estava, a cidade parecia mais quieta.
Sofia disse ela um dia. O António não percebo.
Não percebes o quê?
É tão bom. Assusta.
Porque haverias de te assustar com o bom?
Estou habituada que depois do bom vem sempre o mau.
Sofia ficou a olhá-la.
Se calhar, há pessoas nas quais não vem.
Lídia ficou a pensar nisso. Dias.
Depois mandou mensagem ao António: Queres vir cá sábado? Estou a começar um trabalho novo, queria mostrar.
Ele foi. Viu o quadro, elogiou. Foram beber café, e ali ele perguntou:
Lídia, queres ir dar um passeio no fim-de-semana? Conheço um mosteiro, a meia hora. É lindo no inverno, dizem.
Ela disse que sim.
***
Do que se passava na casa da Rua das Camélias, só sabia por recados. Às vezes recebia telefonema da D. Amélia do terceiro andar, com quem falava nos patamares.
Lídia, como estás? Olha, ali é um inferno. Ouvem-se os gritos. Dona Benedita passa os dias a ralhar com o Manuel por não te impedir de sair. Ele responde-lhe. Outro dia foi tanto berreiro que quase chamei a polícia.
Lídia ouvia e pensava no que isso significava: não sentia nada, a não ser uma tristeza distante. Não era vingança, nem alívio. Apenas: assim é a vida.
Sem ela, estavam mal, não por saudade. Estavam mal porque já não tinham quem apanhasse as pancadas. Sempre dispararam numa direção e agora, sem o alvo, só restavam um ao outro.
Em fevereiro, D. Amélia contou que Dona Benedita foi para o hospital. Pressão, coração. Manuel à cabeceira, acabado.
Lídia fez chá, pensou que talvez devesse ligar. Afinal, vinte e oito anos. Afinal, era uma pessoa.
Pensou mais um pouco e decidiu: não devia. Toda a vida fez o que se deve. Agora, chega. Cada um por si.
***
Março trouxe os cheiros da terra molhada. Lídia atravessava o mercado numa manhã, saco de pano, à procura do almoço. Parou junto aos tomates, pensou que queria pintar o mercado assim, colorido, cheio de movimento.
Nisto viu Manuel.
Andava pelo mercado, saco na mão, olhos no chão. Envelhecido, pareceu-lhe. Ou talvez apenas agora ela via de fora. Ombros baixos, casaco amarrotado, ar cansado.
Ficou a olhar, à espera de sentir algo: medo? Raiva? Vontade de fugir?
Nada disso.
Manuel levantou os olhos, viu-a. Parou.
Ficaram a olhar um para o outro por entre as bancas.
Lídia disse ele.
A voz era igual, baixa. Mas havia nela alguma incerteza. Um pouco de medo.
Manuel respondeu ela.
Aproximou-se. A vendedora fingiu concentrar-se nas maçãs.
Estás bem? perguntou ele.
Estou.
Estás mais magra.
Se calhar.
A mãe está no hospital. O coração.
Já sabia. Lamento.
Calado. Mudou o saco de mão.
Tu nunca vais voltar?
Lídia olhou para ele. Sem ódio, sem pena. Só olhou.
Não, Manuel. Não volto.
A vida tem de continuar
A tua, sim. Eu já comecei a minha.
Ficou sem resposta. Ela pagou os tomates e seguiu caminho.
O coração batia sereno. Eis a vitória: não em ter saído, nem em não voltar, mas em poder olhar de frente e não ter medo, não se encolher, não sentir devo ser mais simpática, não responder mal, talvez ele tenha razão. Simplesmente falar como a qualquer outro.
Ainda comprou umas ervas, pão, e foi para casa. Casa, que agora era o ateliê.
***
Em abril tratou do divórcio. Fez tudo sozinha, preencheu os papéis. Manuel não discutiu. Encontraram-se uma vez para assinar, e cada qual foi à sua vida.
Ficou sem casa, Manuel ficou com a dele. Não quis discutir bens. Sofia disse que devia ter lutado, Lídia abanou a cabeça.
Não quero aquela casa, quero é seguir.
O dinheiro podia ajudar.
O meu virá. Outra forma. Meu.
Pelo verão, via António todas as semanas. Às vezes no ateliê, outras na casa dele. Pequena, num bairro sossegado, com jardim de groselhas e uma macieira. Numa ida lá, em maio, ficou tempo a olhar a macieira em flor.
Bonito disse ela.
Foi a minha mulher que plantou disse ele, sereno. Faz oito anos que partiu. Mas a árvore continua.
Ficaram a olhar a árvore.
António perguntou Lídia não sente medo? De voltar assim a ligar-se a alguém?
Ele demorou.
Sinto respondeu. Mas gosto de si. E acho que o medo não chega para pararmos de viver.
Ela riu-se, sem dar por ela.
Sabedoria.
Aprendi com uma martelada bem dada. Sem rodeios.
***
No outono, fez um ano que Lídia saiu de casa na Rua das Camélias. Estava com António na cozinha, tarde, ele a arranjar uma gaveta, ela a desenhar no bloco com uma caneca de café.
A casa quente. Silenciosa. Cheiro a madeira e café.
Lídia disse António, sem tirar os olhos da gaveta mudavas-te para aqui?
Ela ergueu o olhar.
Para cá?
Para minha casa.
Ela pensou. Ele calado, a mexer na gaveta.
Tenho o ateliê lá.
Sei. Aqui também tenho um quarto bom, janela grande, sol da manhã. Já te disse?
Já.
Então?
Ela olhou o bloco: ali estava desenhada a cozinha, homem com chave de parafusos, mulher com chávena. Janela. O jardim.
Preciso de pensar.
Pensa.
Não me vais pressionar?
Não.
Porquê?
Ele fechou a gaveta, experimentou. Perfeita.
Porque tempo não falta. E adultos sabem o que querem. Não se apressa.
Ela voltou ao desenho.
Então, está bem.
Está bem que pensas, ou que vens?
Está bem que venho.
Ele assentiu. Sentou-se ao lado dela, pegou no chá. Ficaram sentados, a saborear o silêncio, aquele silêncio bom.
***
Mais seis meses passaram.
Lídia vivia com António, mas manteve o ateliê na Rua da Ribeira. Ia lá três vezes por semana. O quarto com janela a nascente na casa de António era agora o seu segundo estúdio: ali fazia esboços de manhã cedo, antes de ele sair.
Os quadros vendiam cada vez melhor. Não, não era famosa, mas já era procurada. Aliás, gente que a procurava a ela, pedindo trabalhos com a sua assinatura. Não era grandioso, mas era seu.
Ouvia falar de Manuel às vezes, pela D. Amélia. Dona Benedita quase não saía mais do quarto; Manuel contratara uma empregada. Ia trabalhar, voltava ao entardecer. Era a vida dele.
Lídia ouvia e pensava: outrora, aquele homem era o seu céu. O humor dele era o clima do dia. As palavras dele, as suas regras. Chamavam aquilo de mulher de família, mas cá dentro era uma gaiola sem cadeado a pior, pois é aquela cujo portão se segura por dentro.
Agora, havia outro céu.
Um dia, em dezembro, Lídia chegou cedo ao ateliê. Ligou o lume, preparou chá. Lá fora, um nevão calmo.
O telemóvel tocou. Sofia.
Lídia, então? Como estás?
Bem. A trabalhar.
Tenho uma novidade. Uma amiga disse-me que uma galeria no centro procura artistas para a exposição de primavera. Pequena, mas séria. Viu as tuas pinturas na internet e quer falar contigo. Vou já mandar o número.
Lídia anotou.
Sofia, eles devem querer nomes. Eu não tenho currículo, nem prémios.
Estiveste cinco anos sem pintar. Recomeçaste, já tens cento e tal quadros. Isso é um currículo.
Pois
Liga, só para conversar.
Está bem.
Guardou o papel, olhou pela janela: os flocos caíam grande, tornavam o pátio branco como papel novo.
Foi buscar chá, pegou nos pincéis e começou a pintar. Ligar depois: primeiro, era preciso apanhar este branco.
***
À noite, António foi buscá-la ao ateliê. Tocou à porta, entrou, viu-a sobre a tela.
Pronta?
Só mais cinco minutos.
Sentou-se num banco ao fundo, sem pressões. Observava-a pintar. Ela sentia-lhe o olhar: tranquilo, atento. Assim se olha quem se preza.
Cinco minutos, guardou pincéis, fechou tintas.
Pronto disse.
Está bom apontou para o quadro.
Não sei. Neve é difícil. Não é branca, afinal: azul, cinzenta, cor-de-rosa, qualquer cor menos branco.
Nunca teria pensado respondeu sério. Parece sempre branco.
Pois é. Olha-se, mas não se vê.
Saíram. Na rua, o ar limpo, neve parada.
António disse Lídia, caminhando na noite ligaram-me da galeria sobre a exposição.
E então?
Não sei se devo ir.
Queres ir?
Hesitou.
Quero. Mas tenho medo.
Medo de quê?
Que digam não presta, não é arte, que não sou artista verdadeira.
António caminhava ao lado, mãos nos bolsos.
Lídia, sabes o que é não ter medo?
O quê?
É saber que o mais difícil já passou. Viveste anos a ouvir que és nada. Saíste de lá só com um saco. Isso é coragem. Se a galeria disser que não, não muda nada.
Ela parou.
Dizes as coisas como são, sem floreados.
Tento.
Ela riu-se. Ele sorriu de leve.
Vamos. Está frio disse ele.
Foram-se. Neve a ranger nos sapatos. As luzes dos candeeiros distorciam-se nas poças geladas. As janelas das casas ao fundo.
António Mota disse Lídia.
Sim?
Obrigada.
Porquê?
Por nunca me dizeres tens de nem devias.
Ele pensou.
Uma pessoa adulta sabe o que quer. Só preciso lembrar às vezes, mais nada.
Chegaram à casa. Ele abriu a porta, deixou-a entrar. O cheiro a maçãs do outono guardava-se na cave.
Lídia entrou, tirou os sapatos, foi até à cozinha, acendeu a luz.
Tudo no sítio: mesa de madeira, duas cadeiras, a janela para o jardim. O seu bloco de desenho ali, no parapeito.
Abriu o bloco e ficou a olhar para o esboço de ontem: cozinha, homem a arranjar, mulher com chávena, janela. O jardim além.
Agora faltava a neve.
Pegou no lápis.
Hoje, o que aprendi foi isto: Tantas vezes procuramos ser o que nos exigem, esquecendo que basta ser o que somos. Quanto mais tempo nos demoramos a viver para os outros, mais difícil lembrarmo-nos do que é verdadeiramente nosso. O frio dói, a mudança assusta, mas mais duro é nunca sairmos. E quando, finalmente, nos permitimos só existir no próprio tempo, há qualquer coisa que começa a brilhar: como o fogão, como a manhã limpa, como um pedaço de neve mesmo não sendo branco.






