O que vi da janela da cozinha

O que se via pela janela da cozinha

Miguel, já arrumaste as camisas lavadas? Vi que ainda tens duas na pilha, depois de passadas.

Rita, deixa estar, eu trato disso. Não te preocupes tanto.

Não estou preocupada. Só perguntei. Quando é que partes?

Depois do almoço. Umas três, talvez.

Rita estava junto ao fogão e mexia o arroz doce, embora já não tivesse fome nenhuma. As mãos faziam aquele movimento automático, hábito de anos, enquanto a cabeça pairava algures longe. Da janela aberta vinha o ar húmido de abril, com cheiro a azinheira molhada. Algures nas traseiras, pingava da caleira sobre o pátio, um som compassado, plim, plim, plim, que hoje lhe parecia insuportável.

Vais quantos dias desta vez?

Como sempre. Quatro ou cinco dias. Talvez mais, se as reuniões demorarem.

Pois.

Dividiu o arroz doce em taças. Colocou à frente de Miguel a sua caneca preferida, de barro da Mealhada, encheu de café, leite, nem pediu como, já sabia sete anos bastam para se saber tudo. Duas colheres de açúcar, muito leite. Ele gostava de café cremoso, quase cor da areia fina.

Miguel sentava-se à mesa, olhando o telemóvel. Quase sempre agora estava assim, com aquele ecrã entre eles ao pequeno-almoço. Em tempos, Rita tentava falar, ficava magoada. Depois deixou estar. Era um ritual estranho, café com telefone, rotina que ninguém havia de mudar.

Ó Miguel disse ela, sentando-se de frente , olha que vais outra vez. Eu queria falar de um assunto.

Então? ergueu os olhos, mas o telefone ficou na mão.

Marquei uma consulta. Com a dra. Fernanda Oliveira. Sim, a ginecologista, já te tinha dito. Quero conversar outra vez. Sobre… o filho.

Miguel pousou o telefone na mesa, ecrã virado para baixo. Isso queria sempre dizer que a conversa não lhe agradava. Aquele toque silencioso de negação.

Rita, já tivemos esta conversa mil vezes.

Já sei. Mas eu preciso falar mais uma vez.

Mais uma vez o quê? Tu percebes quantos anos tens? Não é por mal, pareces fantástica, mas

Tenho cinquenta e dois. Não é sentença nenhuma.

Rita. Disse-lhe o nome como quem segura uma criança pela mão, com doçura, mas para pôr fim à conversa.

Pronto, está bem respondeu ela. Pronto.

Pegou na colher e provou do arroz doce. Já morno, sem graça. Mas comeu. O som dos pingos lá fora continuava. Miguel voltou ao telemóvel.

O pequeno-almoço findou sem palavras. Ele agradeceu e foi preparar a mala. Rita, ao lavar a loiça, pensava naquela conversa sobre filhos que já tinha tido com ele umas vinte vezes. Sempre as respostas, só mudava o pretexto: Um dia, se estabilizarmos. Agora não dá, há trabalho. És mais velha, pensa na saúde. Sete anos. Quando casou aos quarenta e cinco, pensou que ainda tinha tempo. Bastava esperar um pouco, que o Miguel, aquele homem gentil, haveria de querer.

Secou as mãos no pano de linho com galos de Barcelos bordados, pendurado há já quase três anos na porta do forno. Pensou: Tenho de comprar outro. Este está já sem cor.

Miguel apareceu no corredor, mala pequena de viagem.

Pronto, quase tudo. Não viste a minha camisola cinzenta?

No armário, segunda prateleira à direita.

Ah, pois é. E lá foi, barulho da porta. Já está!

Vestiu-se, fechou o casaco. Ela endireitou-lhe o colarinho, como sempre fazia, e ele beijou-a na bochecha.

Então, vou andando. Telefono à noite.

Vai com calma.

Sempre.

A porta fechou-se. Rita ficou sozinha, a ouvir o elevador a descer, a porta do prédio a ecoar lá longe. Depois, só silêncio.

Voltou à cozinha, deitou mais café na caneca e ficou à janela. A vista dava para a rua lateral, alinhada com carros encostados, o Dacia cinzento do vizinho do terceiro, um Renault antigo e gastos, outros. Abril estava cinzento, céu branco, a luz sem sombra.

O carro de Miguel estava perto do outro prédio, dois números abaixo.

Rita piscou os olhos. Olhou de novo. Não era ilusão. A matrícula, sabia-a de cor. Era mesmo o carro dele. Mas ele não devia já ir a caminho?

Talvez tenha ido despedir-se de alguém. Mas de quem? Não lhes faltava simpatia pelos vizinhos, mas dali a amizades

Largou a caneca, ficou a ver.

Passaram dez minutos, o carro parado.

Do prédio saiu uma mulher. Trinta e muitos anos, não mais. Casaco azul, cabelo escuro atado. Trazia ao colo uma criança pequena, uns três anos, fatinho vermelho, gorro com pompom. Foram parando, a mulher sorria, a criança tocava-lhe no rosto.

Rita nada sentiu, só olhava.

Abriu-se então a porta do carro. Miguel saiu.

Foi até à mulher. Pegou na criança, lançou-a ao ar e o pequeno sorriu. Rita não ouvia, mas via no gesto. Miguel encostou a criança ao peito, a cara a roçar no gorro com pompom. Depois devolveu-o à mãe. Disse algo. Ela respondeu. Ele pegou-lhe na mão e beijou-lha.

Beijou-lhe a mão.

Rita sentiu dentro do peito como se tudo estivesse a descer devagar, devagar, sem rebentar. Como se uma prateleira com objectos lhe escorregasse mansamente de dentro para baixo, sem ruído.

Ficou ali. Viu Miguel abraçar o pequeno de novo, a mulher ajeitar-lhe o gorro. Despediram-se. Miguel entrou no carro e partiu.

A mulher e o filho ficaram mais um pouco à porta, olhando. Depois a criança puxou-lhe a mão, e afastaram-se.

Rita afastou-se da janela, sentou-se no banco. Olhou as suas mãos, deitada sobre os joelhos. Mãos comuns, com aliança no dedo anelar.

Pensou que o café já estava frio.

Levantou-se, despejou-o, abriu a torneira da água quente.

Precisava pensar. Mas primeiro, precisava fazer algo com a prateleira a descer dentro de si. Porque sabia: se se deixasse ir, a chorar, revoltar-se, telefonar-lhe, seria o erro. Não que não pudesse chorar. Só que ainda não sabia tudo. Tinha visto algo, mas não tudo.

E sabia. No fundo, já sabia tudo.

Vestiu o casaco azul-petróleo do cabide, pegou nas chaves e na bolsa e saiu. Precisava de ar. Precisava andar, só andar, enquanto as pernas dessem.

Na rua estava húmido. O asfalto luzidio, poças a reflectir o céu branco. Rita seguiu pelo passeio, sem destino. Passou pelo minimercado da esquina, pela cabeleireira, pela farmácia. À porta dela, uma idosa dava pão à sua cadelinha, minúscula e felpuda, que comia com delicadeza.

Sete anos.

Era nesse número que Rita pensava ao caminhar. Sete anos sem saber, ou sem querer saber. Foram sinais? Alguma coisa que visse e não quisesse ver?

As viagens, mensais, sempre. O trabalho dele tinha essas viagens, reuniões, fornecedores. Nunca lhe passou pela cabeça duvidar. Nunca.

O telefone, que ele nunca largava. Rita achou ser apenas feitio.

As conversas sobre filhos, sempre fechadas com gentileza, mas firmeza. Pensou: idade, cansaço, medo de se comprometer. Pensou sempre que fazia bem em compreender, esperar.

E havia já outra criança.

Pequena, três anos. O que queria dizer que tudo começara há quatro. Quando já estavam casados há três anos.

Rita parou num banco do pequeno largo, junto a tílias ainda despidas. Sentou-se. Mexeu no telemóvel: guardou-o de novo.

Que faria quando ele voltasse? Voltaria dali a quatro-cinco dias, com uma lembrança qualquer, o cansaço do costume. Sentar-se-ia a ver televisão. Perguntaria: Então, como correu por aqui?

Como correu.

Ela ficou ali a olhar os ramos: já com gomos vivos, prontos a rebentar. Mais uma semana e tudo verdejaria.

Estranhamente, não pensava em traição, nem na mulher do casaco azul e criança de fato vermelho. Pensava em si. Em Rita, aquela que esperou sete anos. A que poupou, adiou, suportou. Acreditou que amor verdadeiro aguenta tudo. Que era só preciso esperar.

Esperou.

Agora fazia frio. Ajustou o casaco e foi para casa.

O apartamento, sem Miguel, parecia mais silencioso, mesmo com o pouco barulho dele. Faltava-lhe era aquele calor de fundo, uma presença.

Rita parou no meio da sala. Olhou em volta. A estante com livros, os dela e uns quantos dele. Os chinelos dele junto à poltrona. A manta axadrezada azul e verde, sobre o braço do sofá. Pegou-lhe: era quente, de lã da Serra, comprara-lhe no último aniversário.

Tornou a pousá-la.

Foi ao pequeno sótão, empilhou a escada. Numa das caixas por abrir do tempo em que se juntaram, estavam coisas do passado: livros, pastas, fotografias velhas.

Pegou nelas. Sentou-se no chão.

Ali estava ela, com trinta anos, num sorriso largo, a olhar de lado. Uma foto com os pais na praia da Figueira, ambos jovens, o mar ao fundo. Com a amiga Teresa, abraçadas num jardim. A Teresa já tinha cinquenta e seis.

Teresa. Deveria ligar-lhe. Um dia destes.

Guardou as fotografias. Foi lavar a cara. Viu-se ao espelho: olhos cansados, boa pele (diziam-lhe isso), primeiras rugas, cabelo escuro com mechas brancas, até aos ombros. Uma mulher de cinquenta e dois como qualquer outra.

A traição deixa marcas devagar. Só tempos depois se nota: és a esposa enganada durante sete anos; a mulher que sonhou um filho enquanto o marido já era pai de outro.

Fechou a água e voltou para a cozinha preparar o almoço. Era preciso fazer qualquer coisa.

Os dias seguintes passaram em modo surreal, quase como outra pessoa. Por fora, tudo continuava: fazia comida, limpava, ia ao supermercado, telefonava à mãe. Miguel telefonava à noite, tranquilo, histórias do trabalho, perguntava: Está tudo bem? Ela respondia: Está, trocou o pano da cozinha. Riam-se. E era isso que mais lhe gelava: como conseguia sorrir.

Por dentro, tudo era diferente.

Pensava, analisava, lembrava. Revia viagens, olhares, regressos mais doces, ou mais ausentes. Sempre desculpava: Ufa, trabalho. Agora sabia: vinha de lá, deles.

Pensava na mulher do cabelo escuro, nova, cheia de força. E a criança. Miguel nunca lhe pegou assim em crianças. Dizia não saber lidar. Ela acreditou.

Ao terceiro dia, ligou à Teresa.

Teresa, podes passar cá?

Claro. Que se passa? Tô a ouvir-te estranha…

Só vem. Faço café.

Teresa vinha dali a pouco mesma vizinhança, amizade de vinte anos, desde os tempos da biblioteca municipal. Vidas que se tocaram e separaram, mas nunca de todo; cafés, telefonemas, encontros.

Teresa tirou o casaco, fitou-a com cuidado.

Rita… estás tão…

Anda à cozinha.

Contou-lhe tudo. Sem rodeios. Teresa ouviu calada, apertou-lhe uma vez a mão.

Meu Deus.

Pois.

Tens a certeza?

Oh Teresa. Conheço aquele carro, e aquele homem. Tenho.

O que vais fazer agora?

Estou a pensar.

Fala com ele primeiro. Olha não carregues isso sozinha

Teresa, eu consigo. Não preciso que tenhas pena. Preciso só que estejas aqui. Assim, já estás.

Teresa abraçou-a forte, abraço de velhas amigas.

Estou sempre, ouves?

Ouço.

Teresa saiu ao anoitecer. Rita lavou as chávenas, apagou tudo, deitou-se na colcha, olhos no tecto.

Pensou em sete anos a construir alguma coisa real. Não perfeita, mas de verdade. Rotinas, hábitos, café e arroz doce partilhados. Pensava que era essa solidez o essencial. Descobriu que Miguel construíra outra vida paralela, ali tão perto.

Cinco minutos a pé.

Fechou os olhos. Lá fora chovia devagar, chuva tímida, de primavera.

Miguel voltou ao quinto dia, à tarde. Tocou à porta (embora tivesse chave). Rita abriu.

Cheguei sorriu, cansado. Pousou a mala, tentou abraçá-la.

Espera disse ela.

O tom dela deteve-o.

Que se passa?

Vai à sala, por favor. Preciso falar contigo.

Sentaram-se: ele no sofá, ela na poltrona. Entre ambos uma mesa baixa, com um vaso de papel, tulipas de artesanato, que fizera num serão aborrecido.

Miguel começou Rita , no dia em que partiste vi-te da janela. Estavas perto do outro prédio. Havia lá uma mulher, uma criança. Pegaste nela ao colo.

Miguel fitou-a silente. Não defendia, não mentia.

Miguel.

Rita murmurou.

Não quero drama atalhou ela. Não vou gritar, nem pedir explicações. Só quero saber: é teu filho?

Silêncio.

É.

Ela assentiu. Já sabia, agora tinha certeza.

Quantos anos tem?

Três.

Estão juntos há muito?

Rita, não vale a pena…

Estou a perguntar.

Miguel baixou a cabeça.

Cinco anos.

Cinco. Dois antes da criança. No início do casamento deles.

Percebi murmurou Rita.

Rita, não te queria magoar. Não estava previsto, aconteceu

Sim, aconteceu. Durante cinco anos.

Sei o que achas.

Duvido.

Rita, eu

Miguel ergueu-se. Não digas mais nada. Chega. Vi o suficiente. Não preciso das tuas palavras.

Estranhamente, não chorava. Nem queria.

Vou fazer as malas disse. O essencial. O resto venho buscar depois.

Vais para onde?

Para casa da mãe. Depois logo vejo.

Rita, espera. Podemos falar.

Já falaste.

Na mala foi célere: roupa, documentos, bolsinha de cosmética, camisola quente, livro de cabeceira, foto dos pais, perfume, carregador.

Miguel estava à porta, sem saber o que dizer.

Rita, ao menos diz-me algo. Não saias assim, muda.

E como é então?

Sem resposta.

Fechou a mala, passou para o corredor. Vestiu o casaco azul, botas confortáveis. Pegou na mala.

Foi ao sofá, deixou a aliança junto ao vaso de tulipas. Sem raiva, pousou-a com cuidado.

Na entrada, tirou o molho de chaves, deixou as de casa em cima da cómoda.

Rita, tentou Miguel.

Miguel, desejo-te tudo de bom. De verdade.

E saiu.

No elevador, a imagem dela na porta era fantasmagórica, metálica, quase desconhecida. Desceu.

A rua fria. Ficou parada com a mala. Depois rumou ao autocarro. Ia para casa da mãe, noutro bairro, quarenta minutos de caminho.

Nenhum escândalo. Nenhum grito. Só muito depois percebeu o importante que foi sair em silêncio. Não porque tivesse aceitado ou perdoado, mas porque partir assim era o seu acto. A sua decisão.

No terminal, soprava o vento. Apertou o casaco até ao pescoço.

Passou um ano.

A vila pouco mudou. As mesmas tílias, agora verdejantes na avenida principal; a mercearia, a farmácia, a velha com a cadela. Vida de aldeia, devagar, e Rita passou a gostar disso.

Arrendou um pequeno apartamento no outro lado da vila. Dois quartos, terceiro andar, vista para um jardim cuidado por uma senhora idosa no rés-do-chão. Flocos perfumavam as manhãs, Rita adorava abrir a janela cedo, só para respirar.

Tinha agora o seu próprio negócio: abriu uma oficina. Não logo ao início: primeiros meses de confusão, conversas com a mãe, Teresa, consultas de advogado para papeladas de divórcio. Só no Outono, quando tudo serenou, se recordou das tulipas de papel.

Sempre fizera coisas de mãos: costura, tricô, barro, vime. Por passatempo. Até que um dia percebeu: porque não a sério?

Ligou à Teresa.

Teresa, vou abrir uma oficina.

De quê?

De artesanato. Decoração, peças para casa. Sei fazer de tudo. Pensei arrendar um espaço, pequenino, e…

Oh Rita, sabes o que isso custa? Renda, material?

Tenho algum de lado. E posso começar só eu. Nada de empregados, pequenino.

És mesmo capaz.

Teresa riu.

O espaço apareceu fácil: uma sala no rés-do-chão de uma casa no centro, preço baixo, paredes brancas, prateleiras, uma mesa grande de trabalho, boa luz. Chama-se simplesmente: Oficina da Rita.

Primeiros clientes: conhecidos, vizinhas, amigas da mãe. Compravam coroas de flores secas, quadros, velas, bases de crochet. Depois, alguém escreveu num grupo da terra, outros vieram. Rita criou página online, fotos, encomendas. Chegavam, não em enxurrada, mas suficiente para pagar renda. Não pensar em dinheiro com angústia.

O mais importante era outro.

Cada manhã, Rita acordava sabendo: o dia era dela. Só dela. Ela decidia o que criar, quando abrir loja, com quem conversar, que inventar. Não sabia explicar isso a quem nunca sentira. Só sabia: era seu. O café, o plano, a agenda. Era vida.

Miguel quase nunca lhe vinha à mente. Às vezes, um casaco de homem numa montra, cheiro a tabaco antigo. Sentia: passou, deixou-te isto. Não raiva, nem amarga tristeza. Só uma saudade tranquila do que não foi. Do filho que não chegou. Dos anos passados a esperar.

Mas era uma tristeza silenciosa, fácil de suportar.

Num fim de tarde de abril, um ano depois, voltava Rita a casa da oficina. O ar, cheirando a tílias e terra molhada. Trazia um saco de materiais e planeava um móbile para bebé, pedido por uma jovem cliente. Já via em mente: a madeira clara, pompons de lã pastel a balançar suavemente.

À porta do café, um homem já mais maduro, cabelo grisalho olhou-a.

Rita? És tu?

Ela pensou, reconheceu.

Filipe?

Não posso crer! Vinte anos ou mais!

Filipe Silva. Tinha trabalhado com ele no tempo de outra vida, noutra cidade. Depois, cada um seguiu o seu caminho.

Vinte anos, sim, disse. E tu?

Oh, voltei há três anos. Cansado de Lisboa. E tu?

Nunca saí daqui.

És mesmo da casa. Olha, entras comigo para um café?

Por um instante, hesitou. Mas o saco pendia, era tarde, mas porque não?

Vamos.

Sentaram-se. Pediram café ela cappuccino, ele bica. Filipe contou da vida, idas e vindas, casamentos, separações, rindo da própria história.

E tu? Foste casada, não é?

Fui. Mas acabou.

Custa?

Rita segurou na chávena morna, decoração de folhas.

Custa. Mas sabes, há coisas ruins que, passadas, deixam-nos melhor. Não que fosse mau antes. Só que agora é melhor.

Mudaste?

Pensou.

Não sei se mudei. Acho que só estou mais eu.

Filipe anuiu, atento.

E fazes o quê agora?

Oficina. Decoração, peças manuais, tudo eu.

Mesmo? Sempre tinhas coisas tuas, lembro bem, as tuas miniaturas uma garrafa pintada que toda a gente elogiava!

Era um frasco de perfume, pintado à mão! Rita riu-se.

Ficaram calados, calados bons.

Estás bem? perguntou Filipe.

Olhou a rua, quase noite, luz morna, candeeiros do passeio.

Estar bem não chega. Isso é para sopa ou sapatos. O que sinto é outra coisa. Cada manhã é minha. Na oficina, com as mãos, nasce algo do nada. E ninguém me o deu, nem pode tirar. Isso é viver.

Filipe sorria.

Pois. É bem isso.

Na rua, a luz era dourada. Lá dentro, alguém punha um disco antigo a tocar. Restava pouco café, frio.

Filipe, vou indo. Amanhã cedo começa logo.

Claro. Ajudou-a com o saco. Soube bem rever-te.

A mim também.

Como se chama?

Oficina da Rita.

Simples.

Eu sou assim.

Não digas isso, riu-se ele.

Despediram-se na porta. Cada qual seguiu a sua rua.

Em casa, flores da vizinha já recolhidas, Rita abriu mesmo assim a janela. Entrou o ar de abril, límpido e fresco.

Pôs a água ao lume, arrumou o saco: lãs pastel, pauzinhos de madeira. Visualizou os pompons: macios, pendurados, a oscilar na aragem da janela aberta. Algures ficaria sobre o berço de um bebé.

A chaleira apitou.

Fez chá, pegou na caneca, foi à janela. Olhava o quintal escuro, árvores ao vento, um retângulo amarelo iluminava a casa ao lado, alguém ainda acordado. Ao longe, o motor discreto de um carro.

Pensava que a vida, após tudo, não era ruína nem derrota. Não era nada de heróico, só facto. Cinquenta e dois anos, nova vida depois dessa idade, casa alugada, pequena vila que conhecia e amava. Simples, talvez modesto mas era seu.

Cada café da manhã era só dela. Cada decisão, cada contato, cada pompom de lã menta.

As árvores agitavam-se, não muito; o vento mexia folhas jovens. Longe, chuva começava outra vez.

Rita segurava a chávena quente nas mãos. Olhou a noite através do vidro e pensou que amanhã precisava comprar mais lã bege. Estava a acabar, e as encomendas não paravam.

Tinha de comprar lã bege. E, talvez, um novo pano de cozinha. O velho já não tem cor.

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