Da sombra à luz.
Outra vez a ver essas telenovelas parvas? A voz do Vítor soou atrás dela com tal surpresa que Leonor estremeceu e quase deixou cair a chávena de chá. Já te disse, isso só serve para te atrofiar o cérebro. Porque não pões a cozinha em ordem ou pensas em ter um filho, hã? Andas sem nada que fazer, é por isso que vives com essa melancolia.
Não respondeu. Limitou-se a carregar no botão do comando e a televisão apagou-se. No silêncio, ouviu-se então o riso das crianças do prédio vizinho. Um aperto na garganta quase não a deixava respirar.
Estou a falar contigo continuou Vítor Manuel, enquanto tirava o casaco e o pousava, meticuloso, nas costas de uma cadeira. Os gestos dele eram sempre calculados, cada movimento no sítio certo. Até a raiva lhe saía fria, contida, sem nunca levantar a voz. O tom era calmo, e era isso que tornava tudo tão pior. Ouves-me ou estás a fazer de conta?
Ouço, murmurou Leonor, levantando-se do sofá. Era hábito antigo, enraizado desde criança, lá em casa da tia Augusta: não te sentes se um mais velho estiver de pé. Nem contestar, nem argumentar.
Ainda bem. O jantar está feito?
Sim, está no forno. Frango com legumes, como tu gostas.
Vítor acenou e foi até à cozinha. Leonor ficou imóvel no meio da sala larga, onde o frio nunca desaparecia, por mais tapetes caros e móveis de designer que trouxessem para ali. Olhou pela janela: lá fora, o lusco-fusco de fevereiro cobria os prédios de um subúrbio de Lisboa com um manto de luz laranja dos candeeiros que aqui e ali iluminavam os quintais cheios de relva húmida. Vinte e oito anos, pensou. Já vivi metade da vida e sinto que nunca vivi nada.
***
Os pais de Leonor morreram quando ela tinha sete anos. Um acidente de carro numa estrada molhada, fim imediato para ambos. Lembrava-se de si miúda, sentada num banco de corredor do hospital de Santa Maria, uma qualquer senhora a passar-lhe a mão no cabelo e a repetir: Coitadinha, coitadinha da menina.
Depois apareceu a tia Augusta, prima afastada do pai, que até aí Leonor só vira em casamentos ou batizados distantes. Mulher dos seus cinquenta anos, cabelo puxado para trás num carrapito, lábios finos e sempre apertados, pegou logo nas rédeas da situação.
A menina tem de ser encaminhada, dizia ela aos assistentes sociais, e Leonor, sempre por perto, sentia-se tratada como uma trouxa de roupa. Para uma instituição não vai, sangue do meu sangue.
Dona Augusta conseguiu a tutela e mudou-se para a casa dos pais de Leonor. Morava até então num quarto alugado numa casa partilhada em Almada, e não escondia o contentamento com a súbita ascensão social.
Devias estar grata, dizia à pequena logo desde a primeira semana. Dei cabo da minha vida por ti, podia estar casada, bem instalada, mas carrego-te às costas. Vais lembrar-te disso.
Leonor nunca se esqueceu. Desde esse dia até adulto. A dívida ficou entranhada, colada aos ossos, sempre presente. Tentava ser invisível, perfeita, um peso leve. Tirava boas notas, ajudava nas lides, jamais pedia algo a mais. Dona Augusta não lhe batia, raramente gritava, mas pingava-lhes todos os dias uma dose nova de veneno no ouvido.
Outra vez negativa a Educação Física? Ingrata és tu. Faço tanto e tu?
Foste comprar pão? Disse que era de mistura, não de trigo! Não acertas uma.
Agora recebes amigas? Chá atrás de chá, mas o quarto é para arrumar quem?
Com dezasseis anos, Leonor já nem se lembrava do que era carinho gratuito. Os abraços da mãe, o riso do pai tinham-se tornado memórias distantes, quase inventadas, engolidas por um mar de pequenas críticas diárias.
Foi estudar para o Instituto Politécnico local, via ensino, porque dona Augusta insistiu: Ao menos que não me dês despesa. Depois ficou a trabalhar como auxiliar numa creche, com um salário que era uma anedota, mas do qual ainda tinha de dar parte à tutora para a casa.
Onde pensas que vais sem mim? ouviu aos vinte e três, quando sugeriu tremendo que podia morar sozinha. Não sabes fazer nada. Vais perder-te. Além disso, eu é que te criei. Vais deixar-me, ingrata? Não tens vergonha?
Ou negligência no carácter, ou excesso de peso na dívida, Leonor ficou.
***
Conheceu Vítor Manuel num jantar de aniversário de uma colega da creche. Ele tinha quarenta e sete anos, ela vinte quatro. Alto, cabelo grisalho certinho, relógio suíço no pulso, destacava-se logo entre os convidados. Descobriu-se depois que era tio da aniversariante e tinha passado só para deixar um presente.
Pareces-me daquelas raparigas de antigamente, disse-lhe quando se cruzaram na cozinha. Tímida, sossegada Hoje em dia é raro.
Leonor corou, sem saber que responder. Ele sorriu, pediu-lhe o número de telefone. Ela, surpreendida da própria coragem, deu-lhe.
Vítor começou a cortejá-la. Chamava-a para jantar, levava-a a restaurantes caros (até sushi, imagine-se!), dava-lhe flores. Dizia que ela era especial, diferente das mulheres modernas cheias de manias e objetivos, que precisava era de uma senhora a sério para casa.
És uma flor, tenho de cuidar de ti, disse-lhe uma vez, e Leonor derreteu-se só de pensar que finalmente alguém a queria tratar bem.
Dona Augusta aprovou logo o pretendente.
Ao menos uma coisa certa fizeste tu, comentou, de braço dado com Vítor quando veio conhecê-lo. Homem trabalhador, de cabeça no lugar. Vais viver em condições. Como auxiliar de creche não vais longe, minha rica menina.
O casamento foi modesto, apenas familiares e uns vizinhos. Vítor não queria demoras: Para quê perder tempo?. Leonor mudou-se para o apartamento dele: três quartos, ainda a cheirar a novo, em Oeiras. Ele determinou de início:
Não precisas de trabalhar. Eu trato de tudo, tu dedicas-te à casa, depois logo vês de me dar um filho.
Ela aceitou. Pareceu-lhe que era isso a vida de alguém amado. E Vítor, de facto, tratava de tudo: comprava-lhe roupa (escolhia sempre ele, dizia que ela não percebia nada de moda), dava-lhe dinheiro para as compras (contado, e queria os talões) e levava-a de carro onde ele decidia.
Nos primeiros meses, Leonor andou suspensa num nevoeiro. Casa bonita, móveis brilhantes, exaustor ultramoderno, sofá de pele Mas nela não havia nada de seu, nada que dissesse aqui vives tu. Tentou animar o lar: comprou almofadas coloridas, plantou jarros na varanda. Vítor torceu o nariz:
Isso é tralha. Gosto é de minimalismo. Tira isso.
Ela tirou.
Depois começaram as críticas. Pequenas, rituais.
Pões sal demais no arroz.
Esse vestido faz-te gorda. Usa o outro.
Outra vez esqueceste a tampa da pasta de dentes? É sempre a mesma coisa.
Diárias, infindáveis, sempre rotativas. Por muito que se esforçasse, havia mais alguma coisa a falhar.
Fazes de propósito para me irritar? atirava ele, quando, segundo a avaliação, errava outra vez. Estou sempre a ensinar-te, tu insistes nas tuas teimosias. Ainda bem que és bonita, senão não valias nada.
Ela calava-se, engolia as lágrimas, incapaz de contrariar. Conhecia aquele sentimento de culpa desde sempre. Fora culpada com dona Augusta, era agora com o marido.
Depois de um ano, Vítor passou ao capítulo E então, e filhos?
Já foste ao médico? Será que tens algum problema?
Leonor foi. Médicos diziam estar tudo certo, que às vezes é só aguardar. Vítor franzia o sobrolho, insinuava que ela é que não queria.
Egoísta. Só pensas em ti.
Mas Leonor pouco pensava em si. Os dias viravam semanas, uma fileira igual de refeições, limpezas, estratégias para o contentamento do Vítor. Chegava tarde do trabalho, comia em silêncio ou com ar de frete, via notícias, enfiava-se na cama. Ao fim de semana era almoço de negócios ou pesca com amigos. Sozinha não queria que ela fosse.
Não tens nada lá que fazer. Fica por casa.
Ela ficava em casa, olhava pela janela, via as crianças da praceta, os vizinhos a passear o cão. Às vezes ligava as novelas, mas sempre desligava antes que o homem aparecesse. Ele não queria ver disparates.
***
Um dia, num junho soalheiro, quando Leonor fez vinte seis anos, foi ao Pingo Doce das Amoreiras comprar mercearias. Parada à frente das prateleiras do arroz, confrontava o infame papelinho com o aprovado por Vítor, quando escutou:
Nôni? Leonor Rocha? És tu?
Virou-se. Uma rapariga alta, cabelo curtíssimo e t-shirt cheia de cor estava a olhar para ela com um sorriso enorme. Segundos depois reconheceu: era a Vera, colega de liceu, que fora viver para o Porto ainda no 9.º ano.
Vera! Que surpresa, sorriu, atrapalhada, Leonor. Estás por cá?
Voltei no mês passado! Os meus pais mudaram-se outra vez, e como trabalho remotamente, vim com eles. Olha, e tu, como vais? Casada, filhos?
Casada, sim. Filhos, não.
Temos de combinar um café e pôr a conversa em dia, sim? Toma aqui o meu número.
Vera tirou do bolso o telemóvel, Leonor tomou nota. Trocaram mais umas palavras e lá se despediram com entusiasmo à portuguesa.
Nessa noite, enquanto Vítor ressonava, Leonor olhava para o número da Vera no próprio telefone. Apetecia-lhe tanto ligar, mas tinha medo. O que havia de dizer se o marido perguntasse onde ia? Ele não gostava que tivesse vida própria. Mas sempre podiam encontrar-se uma vez, só para um café.
No dia seguinte, ganhou coragem e enviou SMS à Vera. Ela respondeu logo e combinaram um lanche num café no Saldanha, à hora que Vítor estivesse a trabalhar.
Tenho de passar na farmácia, explicou Leonor, e ele assentiu, alheio.
***
Encontraram-se no café, junto ao jardim. Vera já estava lá, a apanhar sol na esplanada com o portátil aberto. Assim que viu Leonor, saltou e deu-lhe aquele abraço que só se vê entre amigas antigas.
Que bom rever-te! Senta, já pedi dois galões.
Vera falava sem travão: explicou que se licenciou em engenharia, que agora fazia freelancer em tratamento de dados e sites, que gostava do que fazia, era dona das horas. Falava com brilho nos olhos, e Leonor escutava, sentindo um estranho ciúme bom: uma inveja de liberdade.
E tu, a que te dedicas? perguntou Vera no fim.
Estou em casa. O meu marido não quer que trabalhe.
A sério? E tu queres?
Leonor hesitou. Queria? Nunca se atrevera a pensar nisso.
Não sei. Nunca me perguntei.
Vera olhou-a de alto a baixo, pensativa.
Olha e se te ensinasse umas coisas básicas de edição de fotografias para lojas online? É trabalho que podes fazer de casa, umas horinhas por dia serve para receber uns trocos. Tenho encomendas a mais, até te repassava algumas. Queres experimentar?
Não percebo nada disso, confessou Leonor, assustada.
Eu ensino-te, é fácil. Só precisas de vontade.
Vontade era coisa que não lhe faltava, percebeu de repente. Sentiu-se a estremecer, como se dentro de si alguém finalmente desse sinal de vida.
Mas não tenho computador.
E o teu marido?
Tem portátil.
Pronto! Usas quando ele estiver fora. Eu mando-te tudo, programas, explicações. Experimenta. Se não gostares, deixas.
Leonor titubeou, mas aceitou. Sentia-se outra: havia ali faísca de futuro, um segredo só dela.
***
Dois dias depois, Leonor arriscou: ligou o portátil do Vítor às escondidas. As mãos tremiam-lhe, parecia um crime. Tinha quatro horas até ele chegar. Instalou os programas da Vera, viu tutoriais, experimentou. Tudo lhe parecia chinês, mas era divertido. Tanta informação nova, ferramentas, mundos coloridos.
Fechava tudo antes de ele chegar, limpava até o histórico (Vera ensinara), voltava a pousar o portátil como se nunca lhe mexesse. Preparava o jantar, mantinha o ar normal. Mas dentro dela, um pequeno segredo iluminava-lhe os dias.
Ao fim de um mês já fazia uns trabalhos pequeninos: cortar fundos, alinhar cores, redimensionar imagens. Vera elogiava o empenho, elogiava os resultados. Pagava pouco para padrões de Vítor uma miséria diria ele mas para Leonor era a primeira vez que via dinheiro que poderia chamar seu.
Abriram uma conta em nome de Vera para receber pagamentos.
Depois dou-te em dinheiro, explicou a amiga. Guarda bem, não deixes o teu descobrir. Vais ver que um dia até dá jeito.
Jeito para quê? perguntou Leonor.
Chama-se fundo de emergência, nunca se sabe.
Não entendia bem porquê, mas guardou as primeiras notas num livro de poemas antigos, herdado dos pais, onde também ficava a fotografias deles.
Gradualmente, foram aparecendo mais pedidos. Leonor já não só recortava fundos, mas retocava, montava colagens simples. Vera dizia que ela tinha talento. E aqueles elogios? Quase chorava só por não vir nenhum mas atrás do parabéns.
Vítor continuava alheio. Jantava, via televisão, resmungava a rotina. Às vezes perguntava o que ela fizera o dia todo.
Tratei da limpeza, fiz compras, pus a roupa a lavar.
Assim é que é. Mulher ao lar.
Ela assentia, olhar no chão. Mas por dentro, ia na cabeça a pensar como melhorava o próximo trabalho.
***
Passou um ano. Leonor fez vinte sete. Vítor tocava cada vez mais no assunto filhos, mas já vinha mais irritado.
Tens mesmo a certeza de que está tudo bem contigo? Ou simplesmente não queres engravidar? Anda lá, confessa.
Quero, respondia ela, talvez meia mentira. Sonhara um dia em ser mãe, mas agora, trazer uma criança para ali, para aquela vida, assustava-a.
Então qual é a tua?! Eu dou tudo, faço tudo, e tu nem um filho!
A palavra inútil ficava-lhe cravada no peito. Mas agora já não vinha choro só cansaço.
Depois de crises destas, Leonor refugia-se no portátil. No mundo digital, conseguia fazer alguma coisa direita, corrigir erros, ver um resultado. Aquilo acalmava-a.
O dinheiro ia-se acumulando. Vera passava-lhe pedidos de clientes internacionais, ajudou-a a inscrever-se em sites de freelancers. Em poucas horas por dia, Leonor já ganhava algum. Os clientes elogiavam profissionalismo, rapidez, criatividade. Era novo, estranho, muito bom.
Certa noite, Vítor deitou-se mais cedo porque tinha dores de cabeça. Leonor aproveitou e contou os poupados: mais de dois mil euros. Com isso, podia estar uns meses sem fazer contas, sobrevivia enquanto não arranjasse um trabalho fora.
O pensamento e por que não sair? apareceu. Assustou-a, tentou afastar. Ir para onde, como, sozinha…? Ele pagava tudo, era bruto mas… todos os homens são assim, não? Ela é que devia ser melhor?
Mas o bichinho ficou, cada dia mais audível.
***
No inverno, o desastre. Vítor chegou mais cedo num dia, Leonor ainda no portátil.
O que fazes TU no meu computador? A voz era fria como gelo.
Eu só estava Ela levantou-se, tapou o portátil.
Viste-me autorizar-te a mexeres nas minhas coisas?
Não, mas
Portanto, não. Achas que tens direitos aqui?
Desculpa, não volta a acontecer.
O que estavas a fazer? Abriu o portátil, encontrou janelas com sites de freelancer.
Leu, fitou-a.
Trabalhas às escondidas? Atrás das minhas costas?
Queria ajudar Ganhar um pouco…
Ajudar-me? riu alto. Achas mesmo que eu preciso do teu saláriozinho de miúda? Eu sou o chefe desta casa!
Eu só queria…
Cala-te. Foste tu, outra vez, a estragar tudo. Dou-te tudo, confio em ti, tu fazes escondidas. Em vez de ficares é quieta como uma mulher normal, a criar o filho que devia cá estar.
Fechou o portátil, pegou-lhe e levou-o com ele.
Acabou-se. Nunca mais lhe toques. Ah, e a partir de amanhã vens-me dizer onde foste e o que fizeste. Vejo que a liberdade só te faz mal.
Saiu, deixando Leonor no meio da sala. Finalmente chorou, desabou no tapete, os joelhos contra o peito. O aperto no peito era feroz.
De noite não dormiu. Ouvia o ressonar de Vítor e pensava: não dava mais. Sentia-se a sufocar. Aquilo não era vida, era sobrevivência com um tapete em cima da boca. Lembrou-se das conversas das psicólogas na televisão, sobre dependência emocional, violência psicológica. Afinal, era sobre si.
Na manhã seguinte, quando Vítor saiu, com o portátil debaixo do braço, Leonor ligou à Vera.
Preciso de ajuda.
***
Encontraram-se outra vez no café do parque. Leonor contou tudo: o computador, o controlo, as exigências. Vera apertou-lhe a mão:
Tens de sair daí. Não é vida. Ele só te destrói.
Para onde vou? Não tenho nada.
Tens. O que tens poupado, e tens o teu trabalho. Eu ajudo-te. Mas tens de sair já.
E se ele tiver razão? E se eu não valho nada?
Ouve o que estás a dizer. Estás a repetir-lhe as palavras. Ele pôs-te isso na cabeça para ter o poder todo. Tu és capaz, és valiosa. Se já aprendeste uma profissão sozinha, como podes ser inútil?
Leonor ficou em silêncio. As palavras de Vera eram um jorro de água fresca.
Tenho medo.
Eu sei. Mas é mais perigoso ficar.
Passaram ali uma hora a traçar um plano: Vera ofereceu-lhe sofá lá de casa até arranjar quarto, ajudou-a a procurar apartamentos no OLX, ensinou como levantar o dinheiro da poupança sem chamar a atenção do marido.
Deves também pensar em apoio profissional, psicólogo, insistiu Vera. Vais precisar.
Leonor acenou. Psicólogos, pensava, eram para gente fora da casca. Agora via: para quem mais?
***
Saiu uma semana depois. Vítor foi três dias a Madrid em trabalho. Leonor arrumou duas mochilas só com o essencial: roupa, documentos, a foto dos pais, o livro com o dinheiro. Não quis mais nada.
Deixou um bilhete: Vou-me embora. Não me procures. Desculpa.
Ao fechar a porta, a mão latia de tanto tremer. Baixou de elevador, saiu cá fora. Estava um frio de rachar, fevereiro inteiro a gelar a cidade. Leonor inspirou. O ar ardia-nos pulmões, mas sentiu-se leve. Como se alguém lhe levantasse um peso de cima.
Vera esperava por ela à porta, ajudou-a com a mala. Um T1 simples na Pontinha, mas Leonor sentiu-se em casa de ver o sofá florido da amiga. Vera fez-lhe chá, sentaram-se na sala.
E então?
Não sei, confessou Leonor. Tenho medo. Mas também sinto que é o caminho certo.
Os primeiros dias foram penosos. Vítor mandava mensagens furiosas: Ingrata, Deitei tudo a perder por ti!, Vais arrepender-te. Depois, mansinho, Volta, prometo mudar, Desculpa, anda para casa. Leonor não respondia, cada mensagem era uma facada. Dividida entre regressar ou continuar.
Vera ajudou-a a bloquear-lhe o número, a mudar de cartão. Eventualmente, Vítor desistiu.
Duas semanas depois, Leonor alugou um quartito a uma velhota a quem os filhos pagavam para dormir fora. Pequeno, mas só dela. Pela primeira vez na vida sentia que tinha espaço só seu.
Vera ofereceu-lhe um portátil usado:
Trabalha, recebe, constrói-te.
Leonor trabalhou. Agora sem clandestinidade, sem contar horas ou esconder. Ganhava o suficiente para despesas, para comer e até para juntar um pouco. Aprendia a gostar de pequenas rotinas: fazer compras sem listas impostas, preparar refeições para o próprio paladar, ver filmes na sala sem temer ouvir para com isso.
Apenas o vazio e o medo continuavam lá. E o sentimento de dívida.
***
Dona Augusta soube logo. Vítor deve ter tentado abordá-la para resgatar a mulher. Ligou, furiosa:
Tu enlouqueceste? Deitas fora um homem daqueles? Ele dava-te tudo, sua ingrata! Eu criei-te, agora envergonhas-me desta maneira!
Leonor só ouvia o peso velho do passado.
Não volto, respondeu com firmeza. Nem para ele, nem para ti.
Tu não tens vergonha! Fiz tanto por ti!
Aproveitaste-te da casa e recordaste-me todos os dias que era tua dívida. Mas não te devo nada.
Desligou, as mãos a suar, o coração disparado. Mas, pela primeira vez, sentiu um alívio novo, um passo decisivo.
Dona Augusta nunca mais ligou.
***
Vera foi implacável: Leonor ia mesmo era à psicóloga.
Tens de te reconstruir explicou. Não podes carregar essa culpa para sempre.
Leonor foi à consulta com a doutora Margarida, mulher de meia-idade, sentada num consultório que cheirava a cidreira.
No início mal sabia explicar porquê. Só me separei, agora vivo sozinha, tudo normal, não?, tentou.
E como se sente? devolveu Margarida.
Nem sei. Parece que faço sempre tudo mal. Sempre me culpei.
Culpada de quê?
De tudo.
Agora as palavras saltavam. Da infância, da dona Augusta a lembrar-lhe a dívida, do Vítor a dizer-lhe inútil, parva, ingrata, da luta incessante por agradar e nunca acertar.
A psicóloga ouvia, sem pressa. Quando Leonor acabou, disse em voz baixa:
Sabe como se chama isto? Violência emocional. Em criança e depois no casamento. Fizeram-na sentir-se dependente, pequena, com medo da vida sozinha. Isso não é verdade mas acreditou.
Mas às vezes é mesmo tudo culpa minha!
Não existe fazer mal na vida doméstica. Só formas diferentes de fazer. Encostaram-na a um modelo impossível para manter o poder.
Leonor saiu dali baralhada, mas sentindo um ponto de luz na escuridão.
Continua a ir a Margarida semanalmente. Foi descascando o novelo da culpa, do medo, das dependências instaladas desde criança. Custa, dói, mas finalmente via as coisas por outro prisma: não viveu para si, mas para servir outros.
Margarida ensinou-lhe a dizer não. Fácil? Quando chegou à prática, quase pedia desculpa por recusar.
Uns dias depois, a senhoria pediu-lhe para tomar conta do neto durante umas horas:
Eu não posso, disse Leonor, com a voz a tremer. Tenho trabalho.
A senhora ficou de boca aberta, mas desenrascou-se. Leonor, no quarto, entre vergonha e orgulho, sentiu orgulho a ganhar.
***
Um ano depois, Leonor fez vinte e oito. Já não lhe faltavam trabalhos, mudara-se para um pequeno estúdio a sua primeira casa independente. Decoração toda ao gosto dela: almofadas berrantes, plantas, quadros. Tudo aquilo que Vítor proibia.
Vera tornara-se confidente, presente nas conquistas e nos fracassos. Leonor agradecia todos os dias aquela conversa ocasional no Pingo Doce por ter mudado o seu destino.
De Vítor nunca mais teve notícias. Às vezes, um pensamento fugaz: Como estará ele agora?. Rapidamente afastava-o. O passado é para ficar quietinho no passado.
Com dona Augusta também nada. Por vezes, Margarida perguntava:
E a casa dos seus pais? Pensa em recuperá-la?
Não sei. Seria justo, mas só de pensar em contactar a Augusta, arrepia-me. Que fique com ela. Eu prefiro a sanidade.
Isso é libertar-se do passado. confirmava a psicóloga.
Sim. É mesmo.
***
Agora vivia. Mesmo. Ia ao cinema, explorava parques, conhecia colegas pela internet, outros freelancers. Valorizava os detalhes: o café quente, um romance bom, uma tarde de chuva vista da janela. Coisas simples, mas que tinham um sabor inédito.
Ia continuando a terapia. Para aprender a pôr as velhas culpas em perspetiva, a aceitar emoções. Era lento. Às vezes queria voltar à segurança do papel da vítima. Outras, sentia-se finalmente solta, dona de si.
A independência financeira, descobriu, não era só dinheiro. Era poder escolher. Dizer não. Respirar. Ser.
***
Numa dessas tardes de abril passou à frente de uma loja de belas artes na Baixa e viu uma caixa de aguarelas numa montra: cores brilhantes, pincéis novos, papel de algodão. Ficou a espreitar, imersa numa saudade do tempo em que, miúda, adorava desenhar. Dona Augusta dizia-lhe: É perder tempo, menina! Mas agora era livre.
Entrou, comprou. Chegou ao estúdio, abriu o estojo com as mãos a tremer. Fez uma bola amarela no papel o sol. Não interessa se ficou bonito; só lhe importava a satisfação de ter criado por vontade própria.
***
Um ano mais tarde, já confortável no consultório da Margarida, Leonor contou-lhe:
Ontem comprei aguarelas só porque sim. E pintei um círculo amarelo. O sol. Nem pensei se era bonito.
Isso é um passo gigante para si, sorriu a psicóloga.
Leonor sorriu de volta. Ainda havia sombras, mas a luz era cada vez mais sua, mais forte, mais quente.
E a casa da Augusta? lembrou Margarida.
Deixo estar com ela. É o preço para ficar finalmente livre de uma dívida que, afinal, nunca existiu.
O que sente agora?
E continuaram a conversa, o chá a arrefecer lentamente na chávena, enquanto Leonor aprendia, pouco a pouco, a viver à sua maneira.







