A Filha Muda do Lavrador Rico

A Filha Muda do Proprietário

No inverno de 1932, na aldeia de Vale Queimado, já ninguém contava os dias. Contavam-se os punhados de farinha nas arcas, as cavacas para o lume e os batimentos do próprio coração ainda bate? Não terá parado? O ano tinha vindo de fome, e o frio apertava tanto que a geada não lia os vidros, o vento uivava nas chaminés.

Beatriz Mota morava no limite da aldeia, numa casa pequenina que lhe tinham cedido quando ao pai, Afonso Mota, o ouviram chamar de proprietário e mandaram com a mãe para longe, para os confins de Trás-os-Montes. Tinha ela dezasseis anos. Diziam que a mãe morreu pelo caminho era o que se murmurava e ao pai nunca mais o viu. Beatriz ficou na aldeia por acaso, porque estava internada com pneumonia quando saiu a ordem do embarque. Quando teve alta, não tinha ninguém a quem regressar, nem casa onde ficar. A casa da família estava arrestada e, pouco depois, foi desmontada para lenha. Ela, sendo filha de proprietário, também devia ser expulsa, mas o presidente da Junta, o António Rodrigues, intercedeu: A rapariga trabalha bem, deixe-se ficar e que trabalhe para a aldeia. E assim Beatriz ficou a tomar conta do gado ordenhava as vacas, limpava os estábulos, fazia tudo em silêncio.

Deixou de falar quando levaram o pai. Diziam ser do choque. Abriam-lhe a boca, mas só um sussurro lhe escapava dos lábios, logo engasgado como se alguém lhe apertasse o pescoço com mão gelada. O enfermeiro da terra só encolhia os ombros: Nervos Há-de passar, talvez um dia Mas os anos foram passando e Beatriz continuava muda. Uns tinham pena dela, mas mantinham-na à distância. Sussurrava-se que tinha ficado tocada da cabeça, outros diziam que era dessas que Deus tocava com mão especial. Beatriz não se ressentia. Vivia uma vida pacata, trabalhava do amanhecer ao escurecer e não incomodava ninguém.

António Rodrigues era o oposto dela. Alto, barulhento, forte, irrequieto e de olhar firme, era sempre o centro do bulício. Na Assembleia, a sua voz abafava todas as outras; sabia falar duro e, quando era preciso, batia com o punho na mesa. Aos vinte e seis anos era já presidente da Junta e tinha o respeito (e algum temor) do povo. Vinha de família pobre, sabia de cor a regra: ordem acima de tudo. Quem abala a ordem é inimigo. Fome, frio, não interessa a ordem tem de ficar.

Vivia regulado: levantava-se antes do sol, fiscalizava os celeiros do povo, conferia selos, distribuía tarefas. O povo resmungava, mas fazia-lhe a vontade; sabiam que com o António não valia a pena facilitar. Se era preciso contribuir com os cereais, era entregue. Se era preciso abrir caminhos, ali estavam eles. E António mantinha-se ali, mesmo nestes tempos incertos.

Naquele inverno, quando começaram a correr rumores de que nas aldeias vizinhas já caíam de fome, António andava entre a sede do concelho e Vale Queimado, a tentar arranjar mais alimentos para o povo. Sabia que a aldeia estava no limite, que dali a nada haveria roubos, talvez até motins. E não podia permitir isso. Não era medo dos superiores; era convicção. Se se perdesse o respeito e a disciplina, não sobrava semente para o futuro.

Numa noite, ao voltar da vila, António desviou à volta da estrada principal, encurtando caminho num carreiro de terra batida. A lua pendia baixa, e o nevão reluzia azul e frio. António estava gelado até aos ossos, só queria chegar a casa, beber água quente e dormir.

O cavalo estacou de repente e bufou. À frente, junto à beira do caminho, uma figura escura de saco pequeno na mão.

Ó! Quem vai aí? chamou António.

A figura deteve-se, hesitou, já pronta a fugir. António saltou logo da carroça e, chegando perto, reconheceu Beatriz.

Ali estava ela, magra, a enrolar-se num xaile roto, olhando-o com aqueles olhos grandes e negros. Não era o medo de quem é apanhado em flagrante, era um medo animal, de bicho encurralado.

O que levas aí? perguntou António, já sabendo a resposta.

Beatriz ficou muda. Ele destapou o saco: farinha. Farinha de centeio, cinzenta, a mesma guardada no celeiro do povo, trancada e só distribuída a quem mais trabalhava. O saco tinha talvez três quilos pouco, mas para quem roubava era motivo de castigo severo, talvez expulsão ou coisa pior.

Roubo disse António, seco . Sabes o que te pode acontecer? Em tempo de guerra, há castigo pesado. Deveria prender-te.

Beatriz caiu de joelhos na neve. Não pedia, não chorava, só deixou sair um som rouco e estranho do peito. Olhou António nos olhos, e ele viu tal desespero no fundo deles que ficou sem palavras.

Para quem era? perguntou ele, já sem saber porquê.

Beatriz ergueu-se, trémula, e apontou para a aldeia. Mostrou cinco dedos, depois três, depois cinco outra vez. António percebeu: era para os filhos do Manuel Azevedo, falecido na semana passada com febre. Três crianças pequenas, e a vizinha, a tia Silvana, dizia que estavam há três dias sem comer.

Levanta-te ordenou António, a voz sumida. Anda lá.

Ajudou-a a levantar, deitou o saco na carroça. Beatriz olhava-o sem entender.

Sobe disse bruscamente . Levo-te lá. Mas que ninguém sonhe. Não te vi e tu não me viste.

Beatriz subiu, calada. No caminho não trocaram uma palavra. António deixou o saco no alpendre, voltou à carroça, pegou do seu pão e um punhado de peixe seco, e colocou-os no saco dela. Beatriz quis protestar, mas ele atalhou:

Não digas nada. Que fiquem vivas as crianças. Mas olha, isto não pode voltar a acontecer. Próxima vez não perdoo.

Ela assentiu e ele partiu sem olhar para trás. Beatriz ficou a vê-lo desaparecer no escuro.

Nessa noite António não dormiu. Revolvia-se, fitava o teto e perguntava-se: porque não prendeu? Porque desfez a regra que fazia da ordem a sua vida? Não sabia responder. Só sentia uma dor funda no peito e não esquecia aqueles olhos enormes.

Pela primavera, a fome aliviou. A erva rebentava, os caminhos secaram, e o povo voltava ao campo. António estava de novo atarefado: organizar ferramentas, repartir sementes, vigiar que ninguém faltasse ao serviço. Mas algo lhe rondava o pensamento.

Começou a reparar em Beatriz. Antes via-a como mais uma trabalhadora. Agora, dava consigo a ir ao estábulo só para a ver. Ela continuava silenciosa, mas as mãos ágeis, em tudo o que fazia, encantavam-no. Ela não erguia o olhar, mas ele sabia: ela sentia-o presente.

A vergonha e a consciência lutavam com um sentimento novo, inominável. António era homem de acção, decidido, mas agora perdia-se. E temia esse novo sentimento: era proibido. Afinal, tinha prometida Joana, filha do ferreiro, bela, alta, rija, feita para casar. Estava tudo acertado, ela esperava só a marcação do dia. Era trabalhador e o pai já tinha preparado o enxoval.

António tentava convencer-se: Joana é que lhe convinha. Com ela teria família certa. E a Beatriz? Muda, filha de proprietário despossuído, sem apego, sem nada. Só de pensar já era motivo de vergonha.

Mas continuava a procurar-lhe o olhar.

Numa tarde de maio, ao passar perto da casa de Beatriz, viu-a a cavar a horta. Ia a caminho da forja, mas os pés levaram-no à porta dela.

Queres ajuda? perguntou, surpreendido com a sua iniciativa.

Ela ergueu-se, ajeitou o lenço e abanou a cabeça. Mas António saltou já a cerca, pegou na enxada e começou a cavar, trapalhão, e as orelhas a queimar-lhe. Beatriz ficou a olhar e ele sentiu-se menino.

Deviam tentou falar, sem saber que dizer. Deviam sair mais. Não está certo viver assim sempre só.

Ela ficou calada. Então António largou a enxada, aproximou-se e agarrou-lhe a mão. Era fria e áspera, mas os dedos dela apertaram de volta.

Beatriz murmurou, sem voz. Eu

Ela olhou-o nos olhos e ele percebeu tudo, sem ouvir palavra. E assustado, recuou, como se queimasse.

Perdoa disse, seco . Não devia. Não devia.

E foi-se sem voltar atrás. Ela ficou junto à cerca, as mãos caídas.

Depois evitou-a. Marcaram o casamento para o dia da Senhora do Rosário, e Joana ficou radiante a preparar o enxoval. A aldeia preparava festa. Só Beatriz ficou ainda mais silenciosa. Não procurava António, mas ele sabia ela sofria. E isso doía-lhe sem saber porquê.

Tudo mudou em setembro. António ficou até tarde na Junta, às voltas com papéis. De regresso, ouviu um choro frágil no alpendre da casa dos Azevedo. Espreitou e viu Beatriz sentada na palha, com a mais pequena das crianças, Mariana, de três anos, de barriga inchada e olhos baços. Os outros dois jaziam ao lado, sem forças.

António correu, abanou-os; estavam vivos, por pouco. Beatriz olhou-o com um desespero seco e ele percebeu: ela não tinha como os levar ao hospital, nem cavalo, nem papel, nem nome. Só ele podia. E levou-os. Passaram a noite na carroça, António a guiar, Beatriz a segurar Mariana. A alma dele estava pesada, mas sentia também leveza.

Salvaram as crianças. O médico disse: mais um dia e morriam de fome. António levou Beatriz até casa e, ao deixá-la, perguntou:

E tu, comeste hoje?

Ela baixou os olhos. António lançou um palavrão, entrou pelo casebre, acendeu o lume, ferveu água, deu-lhe pão duro e uma caneca de água quente. Ela sorveu de vagar, e António olhava-lhe o rosto pálido e pensava: perdi-me.

Beatriz disse, rouco , não caso com a Joana. Não posso Não sei ser sem ti.

Ela estremeceu, pousou a chávena, abanou a cabeça. Depois tomou-lhe a mão, encostou-a à face e chorou, sem ruído, só os ombros tremiam. Ele abraçou-a, sentiu aquele corpo frágil e, nesse tremor, encontrou razão para viver.

O escândalo foi grande. Joana soube pelos mexericos ainda antes de António falar. Invadiu a Junta, aos gritos:

Tu, António, vergonha! Vais casar com a muda filha do proprietário? Vais perder o lugar, todos te vão virar costas!

António calou-se, dentes cerrados; sabia que tinha razão. Andar com uma filha de expulso era desgraça certa. Quando a viu a insultar Beatriz ali perto, percebeu que tudo mudara.

Vai-te disse, calmo . Poupa-te.

Eu, a envergonhar-me? espumou Joana. Vais pagar-me!

Uma semana depois, caiu uma denúncia: o presidente da Junta encobre filha de proprietário, vive com inimiga, desbarata a farinha do povo. António foi chamado à sede do concelho, contou tudo não omitiu nada, nem as crianças, nem Beatriz. O secretário ouviu, calou-se, depois disse:

És tolo, António. Arranjaste sarna para te coçares. Tiro-te o cargo, mas não te levo a tribunal. Vai trabalhar para a serralharia, já que queres ser carpinteiro.

Assim, António deixou de ser presidente. E em finais de outubro, sem boda nem folia, casou no registo com Beatriz. As testemunhas foram o velho zelador e a vizinha tia Silvana. Beatriz vestiu um vestido de chita, António uma camisa lavada. Foram para casa dela, onde uma vez ele lhe dera água quente.

Beatriz não acreditava. Sentava-se no banco, torcia o lenço e olhava-o como se fosse um fantasma. António pegou-lhe na mão:

Pronto, Beatrizinha. Agora é a nossa vez. O teu falar talvez volte, com tempo. E, se não voltar, vivemos sem palavras. Eu entendo-te.

Ela encostou-se-lhe ao peito.

Em 1934, tiveram um filho. Deram-lhe nome de Tiago, por respeito ao avô, pai de António. Era um rapaz loiro, olhos cinzentos como o pai. Beatriz, ao pegá-lo ao colo, sorriu como nunca. António, ao ver esse sorriso, soube que não se arrependia de nada.

Tiago crescia saudável e traquina; nada dava mais alegria aos pais que vê-lo correr pelo quintal, mandar nos outros meninos e perguntar por tudo. Beatriz continuava muda, mas com o filho comunicava por gestos, olhos e gargalhadas. Tiago percebia tudo sem ser preciso falar.

António voltou ao trabalho da madeira para o povo. Respeitavam-no pelas mãos de ouro e pela honestidade. Do passado já poucos se recordavam, embora Joana, agora casada com o Manel lavrador, olhasse Beatriz sempre de esguelha. Ela evitava cruzar-se.

Depois veio a guerra.

António foi chamado logo no princípio. A aldeia saiu à rua para se despedir, Beatriz ficou à beira do caminho, apertando Tiago, então com sete anos. António subiu à carroça, e acenou: Cuida do menino! Ela assentiu com a cabeça, e ficou de olhos postos na estrada muito depois da partida.

Raras vinham cartas do António primeiro do norte, depois do Alentejo, depois o silêncio. Beatriz trabalhava no hospital de campanha no concelho, a vinte quilómetros da aldeia. Tiago ficava com a tia Silvana, bem vigiado. Ela ia durante a semana, voltava aos fins de semana, lavava, cozinhava, e voltava.

No inverno de 1943, tudo mudou.

Beatriz devia ir a casa poucos dias, mas o hospital recebeu um comboio de feridos, teve de ficar três dias. Naqueles dias, a linha foi bombardeada por alemães. Caiu uma bomba na estação e também onde viviam refugiados.

Tiago estava com a tia Silvana, mas pediu ao rapaz vizinho para irem ver os comboios de guerra. E foi aí que os apanhou o bombardeamento.

Beatriz chegou a correr no meio da destruição: destroços, cinza, terra revirada. Corria entre soldados, perguntava em gestos, ansiando saber do filho. Mandaram-na ao hospital; procurou entre os feridos, mas Tiago não estava. Ao terceiro dia veio a notícia: Tiago Mota, 1934, morto; corpo não reconhecido, enterrado em vala comum.

Beatriz não gritou. Ficou de pé, depois caiu devagar ao chão. Do peito saiu-lhe um som rouco, inumano, como aquele que António ouvira anos antes.

Regressou a Vale Queimado, trancou-se em casa. Não saiu três dias; tia Silvana chamava, ninguém respondia. Ao quarto dia, sentou-se à porta de casa e fixava o vazio. Ficou magra, de pele escura, com olhos de uma tristeza de fazer desviar olhares.

A partir desse dia, nem sequer sussurrava. Fechou-se no silêncio, só o trabalho a salvava da loucura.

Mas Tiago estava vivo.

No bombardeamento, perdeu-se do vizinho, refugiou-se debaixo de um vagão. Atordoado, andou a vaguear até ser encontrado por Joana. Ela trabalhava também no hospital evacuado. Reconheceu logo o filho de António, iguais os traços ao pai. A raiva antiga reavivou-se em Joana.

Agarrou-o, levou-o ao hospital e, quando veio a altura dos reconhecimentos, escreveu Tiago Mota como morto, escondendo o rapaz. Mandou-o para a irmã, que vivia numa aldeia longínqua. Disse que era órfão, sem ninguém.

Oito anos, ferido, sem memória, Tiago tornou-se Tiago Carvalho nome da tia adotiva. Cresceu noutro meio, com outros pais, e assim se foi esgotando a recordação.

Joana regressou à aldeia, olhou Beatriz a definhar-se e sentiu um gosto amargo e vingativo: perdeste o marido, pagaste com o filho.

***********
António voltou da guerra em 1945, inválido o braço esquerdo já não respondia. Caminhou pelo povoado sem saber ainda da perda do filho. Beatriz esperou-o no alpendre e, só pelo olhar dela, percebeu a verdade, antes até de ver a carta militar.

Abraçaram-se no meio do quintal, calados; o vento mexia nos cabelos deles.

Porque não murmurou ele, porque não salvaste?

Ela não respondeu. Ele sabia: ninguém salva do destino da guerra. Dói, mas é assim.

Continuaram. António, mesmo aleijado, nunca deixou a carpintaria arranjava casas, portas, janelas. Beatriz seguia no estábulo do povo, como antes. A casa tornou-se silenciosa não de tranquilidade, mas de ausência.

Joana vivia perto, agora sozinha com duas raparigas. O marido morrera em 1943. Tinha gado, vestia-se bem, conservava uma postura altiva. Cumprimentava António com simpatia aparente, mas ele pressentia o fingimento.

E passaram dez anos.

Numa tarde de verão de 1955, António arranjava uma cancela na extremidade da aldeia. O sol batia forte, trabalhava devagar sem camisa, quando ouviu vozes. Dois rapazes caminhavam, modernos, mochila às costas. Um moreno e baixo; outro alto, loiro, ombros largos.

António levantou a cabeça e ficou imóvel.

O loiro coxeava ligeiramente, mas o rosto Era o António jovem espelhado: olhos prateados, as maçãs do rosto iguais, as sobrancelhas. Só a boca tinha doçura de mãe.

Caiu-lhe o martelo das mãos.

Ó rapaz chamou, voz trémula.

O rapaz olhou, desconfiado.

Como te chamas? engoliu António.

Tiago respondeu o jovem. Porquê?

Os joelhos de António cederam. Sentou-se no banco, sem fala. Os rapazes entreolharam-se.

Está doente? perguntou o moreno.

Ano de nascimento? sussurrou António. És de que ano?

Trinta e quatro respondeu Tiago, a desconfiar. Quem é você afinal?

António cobriu o rosto. Sentiu-se desabar por dentro. Chorou baixinho.

Eu sou teu pai conseguiu dizer. Sou o teu pai, filho.

Tiago recuou. O amigo ainda riu, mas Tiago ficou a olhar António; um odor longínquo, feno, colo seguro, mulher de sorriso mudo, invadiu-o suavemente.

A tua mãe era Beatriz disse António . Nasceste em trinta e quatro, cá na aldeia. Dado como morto na guerra. Mas estás vivo.

Tiago empalideceu. Sabia ser adotado a tia nunca escondeu, mas contava que a mãe morrera na explosão e o pai perdido. Sempre viveu com nome alheio, sem saber a verdade.

Anda disse António. Vamos até tua mãe.

Beatriz estava sentada no quintal, debaixo do pessegueiro velho, a descascar cenouras. Fazia-o de olhos postos no infinito. António chegou com Tiago, parou à entrada.

Ela já não fala. Não penses nisso.

Tiago avançou. Viu a mulher de lenço escuro. Ela ergueu o olhar e ficaram ambos a olhar-se, como se o tempo parasse.

Beatriz levantou-se de um salto, deixou cair as cenouras, e só teve tempo de abraçar o filho. Passou-lhe as mãos no rosto, nos ombros, nos braços, a certificar que era real. Respirou fundo, e do peito saiu um som entre choro, riso, canto.

Mãe disse Tiago, e mesmo sendo estranho, pareceu-lhe certo.

António ficou atrás, a enxugar os olhos.

Logo todos souberam que haviam encontrado Tiago. Joana, ao saber, empalideceu e fechou-se em casa. Mas não escondeu por muito tempo. Tiago recordou como foi levado, como lhe disseram que ficaria ali, como chorou querendo voltar. Recordou vaga a mulher que o afastou da estação.

Na Assembleia, pouco se falou. A aldeia ouvia, espantada. Joana ficou calada, pálida, as filhas choravam. O zelador perguntou-lhe, sério:

Porquê, Joana? Porquê tirar o filho a uma mãe? Roubar à criança os anos de família?

Joana levantou o olhar, seco, ainda a luzir com a mesma raiva.

E ela, porque me roubou o homem? Porque me envergonhou diante do povo? Que sofresse como eu sofri.

Beatriz pôs-se em pé. Pequena, magra, alma forte. Aproximou-se de Joana e parou perto. Joana estremeceu, não recuou.

Beatriz pousou-lhe a mão no ombro. E esse simples gesto continha tanto perdão que calou todos. Virou costas e foi para casa, onde a esperavam marido e filho.

Joana ficou parada, lágrimas nos olhos talvez pela primeira vez em muitos anos.

Tiago não ficou logo em Vale Queimado. Ia e vinha, teve de se habituar. Criara modos citadinos, trabalhava no concelho, num moinho. António não apressava, nem Beatriz. Ela alimentava-o, sorria ao vê-lo comer.

Um dia, Tiago trouxe uma menina, a filhota ao colo.

Aqui tens, avó disse, entregando a menina , chama-se Madalena.

Beatriz abraçou a neta e as palavras chegaram-lhe aos lábios.

Ma-da-le-na sussurrou. A voz rouca, arranhada, mas era palavra.

Tiago ficou paralisado. António, sentado na soleira, endireitou-se. Beatriz repetiu:

Madaleninha.

Chorou, neta ao peito.

1980, Vale Queimado

Beatriz Afonso sentava-se no velho banco, à sombra do pessegueiro. A árvore já só dava poucas frutas, mas nunca foi cortada testemunha silenciosa das noites em que António a visitava, das lágrimas da Beatriz, dos risos do Tiago e dos serões calados em partilha íntima.

Tiago tinha agora quarenta e seis, vivia ao lado, numa casa construída ali por perto, era carpinteiro do povo, mestre aprendido do pai. Era dito que as mãos do Tiago eram de ouro, como as do pai. Tinha mulher Margarida e três filhos: Madalena, em homenagem à avó, e dois rapazes, ambos loiros, iguais à família Mota.

António partira há dois anos, dos bons, serenamente: sentou-se ao fim da tarde no banco, respirou o ar, e de manhã não acordou. Beatriz não chorou. Ficou sentada, de mão gelada na dele, a acariciá-lo, revendo a vida como num filme velho. Lembrou-se do inverno e do saco de farinha, do rosto bravo de António, e de como ele dissera: Não te vi. E de quando entrou em casa para lhe dar água quente. Achou-se então no paraíso, ali mesmo; agora ele partira mesmo, e ela ficou para verem juntos os últimos instantes do sonho.

As palavras voltaram devagar. Primeiro sussurros, mais tarde voz clara, ainda que rouca. A primeira palavra, em voz alta, foi Tiago quando o filho regressou de vez. Depois vieram mais, e a quem a tratava por muda, Beatriz virou conversadora, sempre pronta para uns dedos de conversa à soleira da porta.

Às vezes, no silêncio mais fundo, calava-se por dentro e ali ressurgia a Beatriz de antes, olhar cheio do nunca dito.

Joana falecera cinco anos antes. Antes de partir pediu a Beatriz. Ficaram sozinhas muito tempo; ninguém soube o que falaram. Quando Beatriz saiu, tinha o rosto sereno, pálido. Dizem que Joana, depois disso, sossegou, deixou de se queixar, morreu tranquila.

Nunca contou nada do que se disse. Só uma vez, a Tiago, comentou:

Custou-lhe muito. Pediu perdão. Mas eu já tinha perdoado há muito. O mal, filho, pesa mais ao peito de quem o carrega. Eu, o meu, varri como se arranca erva daninha do quintal. Por isso cá estou.

Agora, sob o pessegueiro, Beatriz sabia que a vida, afinal, deu certo. Apesar da fome, da guerra, da dor, dos anos sem voz, havia também esperança. António. O toque das mãos de madeira cortada. O carinho calado. O Beatrizinha da primeira vez. O filho ressuscitado. Os netos na vida, e a bisneta.

Lembrou a infância: o pai dizia-lhe, de mansinho: Aguenta, Bia. Deus sofre nós também. Com o tempo, tudo se transforma, e do grão sai o pão. Só agora percebeu. Tudo se amassou. E a farinha que saiu já não era amarga, mas pão verdadeiro, nosso de cada dia.

O sol punha-se ao longe, o vento agitava as folhas do pessegueiro. Mais além, mugiam vacas a regressar do pasto, cheirava a lume e erva cortada. Beatriz manteve-se escutando os sons e cheiros, sentindo finalmente a paz que procurou toda a vida. Não o mutismo imposto, mas uma serenidade pura aquela que existe quando todas as dores ficaram para trás, todo o rancor lavado, e tudo o essencial já cumprido.

Suspirou, ajeitou o lenço, e entrou em casa o tempo de acender o lume para um chá.

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