A sogra exigia que eu trabalhasse mesmo doente, mas pela primeira vez disse não com firmeza e defendi os meus limites

Dona Beatriz, eu juro que não consigo, estou mesmo mal-disposta Mariana quase nem conseguia articular as palavras, os olhos semicerrados por causa da luz forte que entrou na sala ao mesmo tempo que a sogra.

Não consegues? o tom da senhora soou seco, cortante. E quem consegue então? Olha, na minha idade, já com febre alta, ia trabalhar para a fábrica e ninguém me vinha com mimos. Sobrevivi, não foi?

Mariana tentou erguer-se na almofada, mas o mundo girou-lhe. Recuou logo, sentindo o suor frio na testa. Tinha 38,7 de febre de manhã. O corpo todo doía, e até a água magoava a garganta.

Chamei o médico, murmurou. Preciso mesmo de ficar deitada hoje.

Chamar médico! Dona Beatriz ergueu as mãos e foi até à janela, abrindo-a toda. Uma jovem feita, saudável, estendida aí como uma princesa. Na minha idade já tinha dois filhos, casa, trabalho, tudo às costas, e tu nem a ti própria consegues tratar.

Mariana calou-se, sem forças para discutir. Já sabia, de tantas vezes, que era inútil: nunca valia a pena argumentar com Dona Beatriz, que se achava dona não só da casa, mas também da vida dela e do Miguel.

Vi a loiça por lavar, continuou, espreitando à cozinha. E o chão, já não o limpas há quanto tempo? O que achará o Miguel quando chegar? Vai gostar de viver na imundície?

Limpo assim que conseguir levantar-me, Mariana engoliu, o esforço a fazer doer a garganta. Amanhã trato de tudo.

Amanhã! Tudo para amanhã. Mas hoje, estirada aí, não é? Quando era nova, nunca me passava pela cabeça tal coisa. Três turnos, casa impecável, jantar quente ao marido Vocês novos só pensam em vocês! Mal adoece, querem logo que toda a gente ande a servir-vos?

Fechou os olhos, queria abstrair da voz, mas ela atravessava toda a resistência, mesmo no meio do calor e do desconforto. Recordou como, na noite anterior, tinha chegado a casa exausta do trabalho. Passou o dia a apertar o passo por causa do relatório, sem descanso, sem pausa. Nem foi capaz de aquecer a sopa só caiu na cama e adormeceu.

Onde está o Miguel? ouviu.

Está a trabalhar. Vem à noite.

Pois, claro. O meu filho a trabalhar, a ganhar dinheiro, e tu aqui deitada. Boa vida, não se pode negar.

Eu também trabalho, tentou ela.

Trabalhas? ironizou a sogra. Mas não pagam a renda. Vivem aqui de borla. Não me venhas com histórias de pagamos tudo a meias. Esta casa é minha. Se não fosse eu, bem que ainda andavam a fazer contas à vida.

Mariana permaneceu em silêncio. Sabia que era carta sempre jogada, e Dona Beatriz aproveitava cada oportunidade para a lançar. A verdade é que viveram ali porque o Miguel sugeriu, para nos orientarmos, e ela nunca imaginou que enquanto não arranjamos melhor se arrastasse anos e que aquela casa se tornasse numa espécie de jaula disfarçada de abrigo.

Bem, vou ao supermercado, já que não podes, disse a sogra, dirigindo-se para a porta. Mas quero isto em ordem ao fim da tarde! Não gosto de ver o Miguel chegar a este desleixo. E abre as janelas, que isto parece uma sauna.

Assim que ficou sozinha, Mariana deixou-se finalmente chorar. Silenciosa, de cara enfiada na almofada. Não era a dor, nem a febre era sentir que nem o direito de adoecer tinha. Mesmo ali, com o corpo a falhar-lhe, tinha de estar pronta para responder, aguentar recriminações e desculpar-se.

O médico chegou duas horas depois. Uma senhora de bata branca, já com experiência, de um centro de saúde da zona. Olhou Mariana de alto a baixo, abanou a cabeça, passou-lhe uma baixa de uma semana.

Tem uma gripe forte, menina, disse ela, escrevendo o papel. Precisa de repouso, líquidos, nada de esforços. O corpo está a lutar, precisa de energia.

Obrigada, murmurou Mariana.

Vive sozinha?

Vivo com o meu marido. A sogra passa cá às vezes.

Que vos ajudem, não tenha vergonha de pedir. Estar doente não é vergonha nenhuma. E, se não descansa agora, os problemas podem arrastar-se.

Quando o médico saiu, Mariana tentou adormecer, mas a cabeça não parava. Pensava em como iria explicar ao Miguel a baixa médica. Sabia que ele se chatearia, não por ela, mas porque a mãe se iria indignar como sempre. O Miguel evitava confrontos com a mãe, mesmo quando isso significava não a defender.

Miguel chegou cansado, mas bem-disposto. Beijou-a na testa e franziu o sobrolho logo.

Estás a arder. Ainda tens febre?

De manhã estava quase nos 39. O médico passou-me baixa.

Por quanto tempo?

Uma semana.

Sentou-se ao lado dela, calado.

A mãe veio cá?

Veio, respondeu ela, e virou-se.

E disse o quê?

O costume. Que sou preguiçosa, que devia trabalhar em casa, que não passo de uma mimada.

Miguel suspirou.

Sabes como ela é. Tem uma ideia diferente da vida. O tempo dela foi outro.

Miguel, estou mesmo mal, virou-se para ele, mostrando os olhos inchados de cansaço. Nem consigo falar sem dor. E não posso sempre ouvir que sou fraca ou preguiçosa.

Eu percebo, segurou-lhe na mão. Aguenta só mais um pouco, está bem? Não ligues. Logo passa. Ela vai para casa, e ficas em paz.

Foi à cozinha aquecer-lhe sopa, trouxe-lhe chá. Ficou sozinha outra vez. Sabia que ele a amava, via que aquilo também lhe pesava. Mas, quase sempre, Miguel escolhia o silêncio em vez de levantar a voz à mãe. Diziam-lhe para não fazer ondas, para não agravar as coisas. Como se o seu mal-estar, o seu desconforto, não contassem para nada.

Dois dias assim, numa espécie de limbo. A febre não baixava, tudo doía, sentia-se cada vez mais enfraquecida. Miguel saía cedo para o trabalho, voltava tarde, deixava água, chá, remédios Passava grande parte do tempo sozinha.

Ao terceiro dia, entorpecida pela medicação, ouviu a campainha. Achou que era um sonho, mas lá insistiu. Arrastou-se até à porta era a D. Palmira, a vizinha do quinto andar. Uma senhora de cabelo branco, sempre com um xaile colorido aos ombros e um ar preocupado.

Ai filha, estás péssima, não é? Vim pedir um fósforo, mas tu precisas é de mimo.

Fósforos há, disse Mariana, encostando-se ao portal para se aguentar. Eu vou buscar.

Não vás, D. Palmira apoiou-a pelo braço. Anda, senta-te. Ficas cá que eu trato disso.

Ajudou Mariana a voltar à cama, ajeitou-lhe as almofadas.

Estás sozinha?

O Miguel está a trabalhar.

E ninguém para te acudir?

Mariana encolheu os ombros. D. Palmira foi à cozinha, voltou com um chá quente.

Fiz com a compota de framboesa que tinhas lá. Para a febre é um descanso.

Obrigada, sussurrou Mariana, agarrando a caneca.

Sentou-se, ficou ali, só a fazer companhia.

Estás assim há muito?

Terceiro dia.

O médico veio?

Veio, mandou-me estar de cama.

É o melhor. O corpo cura-se a descansar. Quem se cura de pé, arrasta tudo para sempre.

O Miguel faz o que pode. Antes de sair, deixa-me tudo preparado.

Faz como sabe, D. Palmira acenou. Mas às vezes o que precisamos é mesmo presença. Mimos, palavras boas. Homens esforçam-se como sabem, mas não adivinham.

Mariana não respondeu, só bebeu o chá, grata pela paz. Não havia críticas, não havia cobranças, só ali, a presença cálida.

A D. Beatriz passou por cá?

Mariana hesitou.

Passou.

E ajudou?

Acha que eu estou só a fazer fita

D. Palmira suspirou.

Conheço-a há anos. É mulher de fibra, mas tem o coração endurecido. Sempre fez tudo, não sabe viver de outra maneira. Mas isso não é razão para exigir o impossível dos outros. Todos têm direito a fraquejar, a cansar-se, a precisar de colo.

Ela diz que no tempo dela não havia mimos, que ninguém ligava à febre.

Pois, concordou a vizinha. Mas de que vale tanto orgulho de sofrimento? Eu também trabalhei uma vida, criei filhos, vi de tudo. Mas sempre quis coisa melhor para os mais novos. Não é para todos terem de passar pelo mesmo.

Mariana sentiu as lágrimas de novo, pelo alívio de ouvir finalmente aquela compreensão.

Faço tudo que posso disse, baixinho. Trabalho, trago dinheiro, limpo, cozinho Nunca basta.

Ouve bem, menina, D. Palmira chegou-se para perto. Não tens de provar nada a ninguém. Nem à tua sogra, nem a mais ninguém. A tua vida é tua. A tua saúde, os teus sentimentos, isso são teus. Ninguém tem o direito de decidir como deves sentir-te.

Mas vivemos na casa dela

E então? Isso não lhe dá direitos para te magoar. Casa são paredes, família há-de ser respeito, não humilhação. Discussão de sogra e nora há em toda a parte, mas ninguém é obrigado a tolerar tudo.

O que posso fazer? Se reclamo, piora. O Miguel pede sempre para não criar problemas. Ela amua, depois passa meses sem nos falar.

Não cries discussões. É inútil. Faz uma parede dentro de ti, percebes? Tudo o que ela disser bate nessa parede e cai ao chão. Vais ouvindo, fazes um sorriso, mas por dentro nada daquilo te toca. Aquilo é dor dela, raivas dela. Não são tuas.

Mas como?

Olha, imagina uma porta de vidro entre vocês. Ela fala, mas não te chega. Tu vês, ouves, mas não sentes. O problema é com ela, não contigo. Não deixes que te caia em cima.

Mariana ficou a pensar. Era tão simples e tão difícil ao mesmo tempo não justificar, não engolir tudo. Só proteger-se.

E o Miguel? Ele pede sempre para ter paciência. Fica a meio, não me defende, não quer conflitos. Mas dói ver que nunca fica do meu lado.

D. Palmira sorriu.

Os homens muitas vezes preferem evitar chatices. Dói menos dizer-te para aguentar do que enfrentar a mãe. Mas, acredita, quando começares a defender-te a ti própria, a impor respeito, ele vai ver-te diferente. Passas de ser uma rapariga frágil a uma mulher que sabe o que vale. Ele vai perceber.

Acha mesmo?

Tenho a certeza. Já vi muita coisa na vida. O mais importante mesmo é gostares de ti o suficiente para não aceitar menos do que respeito.

No fim, D. Palmira ajeitou-lhe o edredão.

Vá, minha querida. Descansa e lembra-te levanta essa parede. Protege-te.

Quando ficou sozinha, Mariana ficou a matutar na conversa. A pressão psicológica da sogra era mesmo assim: acusações, exigências, nunca se sentir suficiente. E ela sempre a tentar justificar-se, convencer sem resultado. Talvez só precisasse de aceitar que nunca ia agradar, e proteger-se.

À noite, quando Miguel chegou, Mariana chamou-o.

Preciso falar contigo.

Então?

Decidi. Não vou ouvir mais a tua mãe tratar-me assim. Não faço barulho, mas não permito que me trate mal. Se ela começar com insultos ou críticas, vou sair, ou peço-lhe que saia. Sem discussões, mas com respeito por mim mesma.

Miguel olhou-a surpreendido.

Mas…

Não quero empurrar-te a escolher entre nós. Eu respeito que seja tua mãe. Mas a minha saúde e paz de espírito também contam.

Miguel esfregou o rosto.

Mas se ela se zangar, pode mandar-nos sair de casa. Agora não temos condições para pagar renda, Mariana.

Se acontecer, encontramos uma solução. Vai ser caro, mais complicado, mas prefiro isso a viver assim. Fiz contas apertando um bocado, conseguimos. Não é vida passar por isto todos os dias.

Não queria que fosse tão radical…

Foram três anos à espera que as coisas se resolvessem sozinhas. Não vão. Ou defendes-me, ou eu defendo-me sozinha.

No fim, Miguel não respondeu nada, só vou pensar. Mariana percebeu que ia ter de tomar decisões por si, pois ele talvez nunca se decidisse. Mas, de momento, estava demasiado fraca para pensar nisso.

Ao fim de cinco dias, a febre baixou. Conseguia já andar pela casa, comer alguma coisa. Decidiu que no dia seguinte daria um passeio para ganhar força. O médico dissera que em breve já poderia voltar devagar à rotina.

No sábado de manhã, mal Miguel saiu, tocaram à porta. Mariana já sabia quem era.

Então, já estás boa? Dona Beatriz entrou sem cerimónia. Chega de preguicite, que o campo chama!

Bom dia, Dona Beatriz, murmurou Mariana.

Sim, sim. Tenho batatas para arrumar na adega da quinta, o Miguel nunca tem tempo. Vais comigo, despachamos num instante.

Mariana ficou a olhar para ela.

Hoje?

Então não? Se está bom tempo, não se perca. Daqui a uma hora, a andar.

Dona Beatriz, ainda mal consigo andar direito. O médico proibiu esforços por mais uma semana.

Proibir! fez um esgar. Estás é mal habituada. Basta de preguiça, Mariana! Já chega de ficar de molho.

Não posso, desculpe. Preciso de mais tempo para recuperar.

A sério? E eu, com estas costas e a tensão alta, posso fazer tudo? Não ando aí a chorar nem a esticar-me à sombra. Faço porque é preciso.

Mariana lembrou-se da lição de D. Palmira. Paredes. Respirou fundo.

Dona Beatriz, não vou. Preciso mesmo de repouso.

Ela ficou pasmada.

O quê?

Não vou. Estou doente ainda, preciso de tempo.

Vais-me negar ajuda? Logo eu, que vos dou casa?

Agradeço muito. Mas a minha saúde é minha responsabilidade, não posso sacrificá-la, nem sequer por gratidão.

Bem visto! a sogra quase gritava. O Miguel sempre foi um molengas contigo, eu bem dizia. Deixou-te virar dona da casa!

A casa é sua. Mas a minha saúde é minha. Não abro mão disso.

Então é assim? Contrarias-me aqui, na minha casa?

Não. Só estou a dizer que não posso trabalhar. Se precisa de ajuda, peça ao Miguel, ou contrate alguém. Posso ajudar a pagar. Mas não vou.

Silêncio. Dona Beatriz ficou a olhar para ela como se a visse pela primeira vez. Mariana aguentou a expressão calma, embora o coração lhe batesse desgovernado. Estava pronta para uma cena, mas a sogra virou costas e saiu.

Logo falamos. Quero ver o que o Miguel vai dizer!

Assim que a porta bateu, Mariana caiu numa cadeira, pernas a tremer. Mas fizera-o. Pela primeira vez dissera não. O mundo não veio abaixo.

Quando Miguel chegou a casa, logo percebeu o ambiente.

O que aconteceu? A mãe disse que lhe faltaste ao respeito.

Não faltei. Só não fui à quinta.

Só te pediu para ajudar…

Pediu ou mandou? Porque foi mais uma ordem do que um pedido. E quando não aceitei, insultou-me.

Ela ficou aborrecida, só isso.

Miguel, acaba aqui. Não volto a justificar-me por estar doente, nem a levar com recriminações. Não sacrifico mais o meu bem-estar pelo orgulho da tua mãe.

Ela é a mãe, não posso tratá-la assim.

Mas eu também mereço respeito. E se o preço do conforto for aturar insultos, prefiro outra solução.

Miguel suspirou, sem saber o que fazer. Mais uma vez a prioridade parecia ser a paz da mãe, não a dela.

O resto do dia passou em silêncio. Mariana teve medo que a relação se estivesse a desfazer. Mas, por estranho que pareça, não a assustava tanto quanto antes. Sentia-se aliviada por, finalmente, se pôr em primeiro lugar.

No dia seguinte decidiu sair um pouco, tomar ar. Foi dar uma volta a pé no bairro, sentiu-se a ganhar força. No regresso, encontrou D. Palmira no prédio, cheia de sacos.

Precisas de ajuda, menina?

Venho ajudar eu! sorriu Mariana, pegando num saco.

Enquanto subiam, a vizinha contou novidades do mercado e falaram da vida. À chegada, olhou para Mariana.

Já estás melhor?

Muito, graças a si.

E com a sogra, as coisas acalmaram?

Disse-lhe que não ia. Ela ficou furiosa, o Miguel não gostou. Mas ganhei um pouco de paz.

Fez bem, querida. Os homens irritam-se porque não querem mexidas. Mas você precisa de se defender.

No final do dia, Miguel chegou diferente, mais sério.

A mãe ligou. Disse que estou a deixar-te mandar cá em casa, que preciso de te pôr no lugar.

Mariana ouviu, à espera do costume.

Pela primeira vez, percebi que ela está errada. Nunca devia ter deixado isto chegar aqui. Desculpa se nunca te defendi. Deixava passar porque era mais fácil, mas percebo que te magoei. Vou falar com ela.

Pela primeira vez, ouvi aquilo que sempre quis. Alívio, emoção, lágrimas. Sentiu finalmente que não estava sozinha. Miguel abraçou-a.

Vamos arranjar a nossa casa, Mariana. Chegue, o que chegar, vamos juntos. Prefiro uma vida mais apertada do que ver-te sofrer.

No sábado seguinte, Dona Beatriz apareceu diferente. Mais calma. Pediu para conversar, disse que percebeu. Falou da vida sofrida, do medo de ser posta de lado, das saudades de ser necessária.

Se quiserem ficar, tentamos fazer diferente. Mas de respeito, de verdade.

Miguel e Mariana fixaram uma regra: a partir de agora, respeito era obrigatório críticas e ordens, só se pedido. E, à primeira recaída, sairiam.

Não foi perfeito, mas tentou-se. Dona Beatriz esforçou-se por mudar, recuou em muitas coisas. Mariana sentiu, finalmente, algum alívio. Começou a acreditar em si novamente.

Um dia, D. Palmira cruzou-se com ela.

Então, tudo mais sossegado?

Bem mais, sorriu Mariana obrigada. As suas palavras fizeram toda a diferença.

Importante é nunca deixar de se proteger.

Mariana sorriu, subiu as escadas para casa. Sabia que, mesmo assim, a vida não era cor-de-rosa. Havia dificuldades, inseguranças, conflitos por resolver. Miguel não mudaria de um dia para o outro, nem Dona Beatriz seria perfeita. Mas, finalmente, Mariana aprendeu a dizer não. Aprendeu a defender-se. O medo dissipou-se.

Entrou em casa, ouviu a voz do Miguel na cozinha:

És tu? Senta-te, fiz o jantar.

Mariana sorriu, pendurou o casaco e entrou na cozinha. Viu a mesa posta, comida quente, chá servido. O marido abraçou-a e beijou-lhe a face.

Como correu o dia?

Bem, muito bem.

E foi sincera. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu paz cá dentro. A casa ainda era da sogra. Mas agora tinham uma vida deles baseada no respeito, naquela muralha invisível, e num amor que, aos poucos, voltava a crescer.

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A sogra exigia que eu trabalhasse mesmo doente, mas pela primeira vez disse não com firmeza e defendi os meus limites
DcéraJej oči žiarili odhodlaním, keď opustila dom a vydala sa hľadať tajomstvo, ktoré ich rodinu sprevádzalo po celé generácie.