Marido para o Fim de Semana

Marido ao Fim de Semana

O bife estava pousado, certinho, no meio do prato. O José olhava para ele, enquanto sentia o estômago protestar.

Leonor, vou fazer uma sandes, pode ser? Tenho fome.

Zé, o jantar é daqui a vinte minutos. A comida vai arrefecer se te distraíres.

É só uma fatia, despacho-me num instante.

Não consegues esperar vinte minutos? Calculei tudo direitinho. As batatas ficam prontas às sete e um quarto, o frango às sete e vinte. Se comes agora, depois não vais comer direito.

O José suspirou e sentou-se à mesa. A Leonor estava junto ao frigorífico, a arrumar cuidadosamente as compras do supermercado. Cada embalagem tinha o seu local: o leite na segunda prateleira à direita, o queijo na gaveta de baixo, os iogurtes ordenados por validade, os que acabam mais depressa sempre à frente.

Acho que posso ao menos servir-me de chá, não?

Serve. Mas só uma colher de açúcar.

Leonor, eu já não sou criança.

Estás à beira de ser diabético. O teu pai foi, o teu avô também. Uma colher só.

O José ergueu-se para tirar o bule, mas Leonor tomou a iniciativa, serviu-lhe o chá, contou uma colher de açúcar e pôs-lhe a chávena à frente.

Pronto. Bebe.

Olhou para a chávena. Depois para as costas dela, de novo curvada sobre o frigorífico. Então deu um gole. O chá estava morno e demasiado fraco, quase sem açúcar. Ficou calado.

Lá fora o dia tombava. Outubro em Lisboa escurece cedo, e naquele bairro de prédios iguais, apertados como caixas de fósforos, a noite parecia ainda mais rápida. Os candeeiros do jardim estavam todos acesos, os carros paravam nos mesmos lugares de sempre. Tudo seguia igual ao habitual.

Já tinham cinquenta e sete e cinquenta e cinco anos, e trinta partilhados entre a casa meticulosamente limpa e o silêncio de biblioteca.

***

O sábado começava sempre às oito. Não era por falta de sono, mas sim porque, às oito, começava a lista. A Leonor fazia a lista na véspera, de letra pequena e certa, num caderno quadriculado.

Oito horas. Pequeno-almoço.

Oito e meia. Limpeza do pó e chão.

Dez horas. Supermercado. Um na Rua Barata Salgueiro, outro para produtos de limpeza.

Meio-dia. Almoço.

Treze horas. Descanso, uma hora.

Catorze horas. Visita à tia Glória.

Dezassete horas. Regresso a casa.

Dezassete e trinta. Jantar.

Dezoito e trinta. Televisão ou livro.

Vinte e duas horas. Dormir.

O José conhecia de cor essa lista. Não era por a ler, mas porque há quinze anos que não mudava. Variava só a hora da visita aos parentes e, às vezes, o supermercado.

Ia esfregando o chão do corredor, do rodapé à parede, e a mente divagava para a pesca. Não que fosse pescar, só pensava nisso. Há quanto tempo não ia? Uns oito anos, talvez. A última vez foi com o Rui Monteiro, do trabalho, para a Barragem de Óbidos. Pescaram três percas e uma carpa. Ficaram à beira dágua até ao escurecer, fizeram uma caldeirada no fogareiro de campismo. O Rui contava anedotas e riam tanto que os patos fugiram.

Nessa noite chegou já tarde, a Leonor não dormia.

Sabes que horas são?

Sei, amor. Ficámos mais tempo.

Mais tempo. Liguei-te oito vezes. O jantar está no frigorífico. Agora já não presta.

Desculpa.

Tens noção do quanto me preocupo?

Desculpa, Leonor.

Desde então não voltou à pesca. Não que ela proibisse. As coisas foram-se empilhando: tarefas, obrigações, visitas, arranjos. Depois, deixou-se de falar nisso. Era mais simples assim.

Zé, estás a enxaguar bem o pano? Não deixes quase seco, depois fica tudo aos riscos.

Ele fez como ela dizia, embora não notasse diferença nenhuma. Os soalhos brilhavam. A Leonor orgulhava-se da casa. Uma vez disse ao telefone a uma amiga: Na minha casa, até se podia comer do chão. O José ouviu do outro lado da porta e pensou que nunca desejara comer do chão, limpo ou não.

A ida ao supermercado correu segundo o plano. O almoço também. A tia Glória serviu empadas de batata, estavam um pouco queimadas, mas a Leonor comentou baixinho mas alto para todos ouvirem: Glorinha, a tua fornalha deve estar com calor desigual. O José comeu três empadas e achou-as saborosas precisamente pelo queimado.

Voltaram para casa às cinco e vinte. Dez minutos adiantados.

A Leonor pousou os sacos, pôs água a ferver e tirou a tarte de requeijão do frigorífico. Estava perfeita, cortada igualzinha em seis.

O José sentou-se, olhou para a tarte e sentiu qualquer coisa como um pânico suave. Não era pela tarte. Era por tudo, por saber como seria amanhã. E depois. E na semana seguinte, e no outro ano.

Comeu, bebeu o chá e foi ver televisão.

***

Na quarta à noite, o aspirador avariou. Simplesmente deixou de puxar. O José desmontou tudo na mesa da cozinha e viu logo: o filtro estava entupido e a escova tinha uma peça partida. Nada de estranho. Trabalhava na Fábrica de Instrumentos há vinte e dois anos como técnico, habituado a reparar coisas em minutos.

A Leonor apareceu à porta.

Que estás a fazer?

A arranjar. Olha, filtro entupido e o suporte da escova partiu.

Zé, chama um técnico. Não te metas nisso.

Leonor, isto é fácil de resolver.

Já tentaste reparar um ferro duas vezes sozinho. Da primeira deixou de funcionar de todo, da segunda só aquecia dum lado.

Isso foi diferente. Aqui estou a ver onde está o problema.

Zé…

Leonor, sou engenheiro.

No trabalho, na fábrica. Não és técnico eletrodomésticos. Não troques os pés pelas mãos, depois pagas mais.

Algo mexeu dentro dele. Quase surdo, como uma pedra a tentar rolar. Olhou o aspirador, as mãos, o rosto dela, calmo, seguro.

Eu arranjo isto, Leonor.

Zé…

Eu. Arranjo.

Ela olhou-o, primeiro surpreendida, depois com leve impaciência, e saiu da cozinha.

Ele passou ali uma hora. O aspirador ficou ainda melhor com o filtro limpo puxava mais ar. O José arrumou tudo e ligou o aparelho só para o ouvir funcionar direito.

A Leonor passou, lançou um olhar, assentiu e não disse nada.

De repente percebeu que tinha estado à espera do elogio: Boa, Zé.

***

O anúncio estava num poste ao pé do metro: Arranjem-se aparelhos antigos e cavaletes, técnicas e arte. Contacto no endereço abaixo. Lá estava o telefone e a morada. O gira-discos, um Sónata velho, estava parado na prateleira da entrada há três anos. A Leonor há muito que queria que o atirasse fora. O José respondia um dia, e voltava a guardar.

Comprou aquele gira-discos antes de casar. O pai ajudou a pagar. Ouvia lá vinis do Zeca Afonso, os discos alinhados na janela do quarto de estudante. Quando foram viver juntos, a Leonor arrumou os discos numa caixa guardada na arrecadação: Apanham pó, não vale a pena ficar ali à vista. Ele às vezes abria a caixa, pelo simples gesto de tocar nos discos.

O telefone não atendia. O José decidiu ir lá pessoalmente. O endereço era perto do Príncipe Real, num prédio antigo, com portas pesadas de madeira e paredes descascadas.

Tocou. Esperou. Finalmente, passos, um barulho de vidro, e abriram.

Na porta apareceu uma mulher da idade dele, de avental de linho cheio de manchas de tinta azul e amarela. O cabelo mal apanhado, pontas soltas. Tinha uma mancha verde na face.

Boa tarde. Vem pelo anúncio?

Sim. Disseram que aqui reparam…

Entre, entre. Sou a Mariana. Só Mariana. Olhe cuidado, o cavalete está no corredor, não tropece.

Entrou na casa e parou, impressionado.

Não era parecido com nada do que vira nos últimos anos. Mais parecia os velhos ateliês de colegas quando estudava, há décadas. Estava tudo cheio de telas, umas limpas, outras a meio, outras tantas pintadas por cima. No parapeito, pinceis em copos, bisnagas espalhadas. O chão coberto com jornais pintados de tinta e pegadas. No sofá, um gato cor de laranja com ar de rei, que olhou para ele com desdém.

Cheirava a tinta, óleo de linhaça, café, e algo mais, talvez vida.

Peço desculpa pela confusão disse Mariana estive a pintar de manhã, nem arrumei nada.

Não faz mal respondeu ele. E surpreendeu-se, porque era mesmo verdade.

O que precisa de arranjar?

O gira-discos. Sónata, antigo. Não gira. Tentei ver, mas acho que é do motor.

Ah, olha que conheço. O comando ainda tem pilha? De vez em quando o contacto oxida.

Verifiquei. Não é isso. É mais fundo.

Mariana acenou.

Trouxe-o?

Não, vim saber se realmente reparava. O telefone não atende.

Perco aquele raio do telemóvel todo o dia. Ontem aparecia debaixo do sofá. Traga cá, eu vejo. Mas já que cá está, quer-me ajudar? Faço-lhe desconto, que diz?

***

O cavalete era grande, velhote, junto à janela. As pernas estavam bambas, o suporte da tela escorregava.

Veja aqui Mariana apontou este parafuso partiu, tentei meter um prego, mas está solto.

O José agachou-se, avaliou. Pediu uma chave de fendas. Mariana voltou com três, parecia não saber qual. Ele escolheu, tirou o prego, pediu fita isoladora, encapou, apertou de novo. Ficou certo.

Isto é provisório explicou arranje um parafuso M6, qualquer loja tem. Com porca, melhor.

M6 repetiu ela, decidida, deixo isso por escrito.

Pegou num pincel, molhou em tinta preta e escreveu num dos jornais do chão: PARAFUSO M6 com porca!!.

O José riu-se, surpreendido pelo momento.

Vai deitar o jornal fora e esquece.

Não, vou colar ao frigorífico. Venha tomar um chá, salvou-me o cavalete. Tenho empadas de ontem com couve.

Ia dizer que tinha de ir, que a Leonor…

Com gosto respondeu.

***

Beberam chá na cozinha pequena, janela para o pátio. No parapeito, vasos de plantas de toda a espécie. As empadas estavam numa travessa, umas por cima das outras, sem napron.

O José provou. Estavam de véspera, um pouco embaladas, mas deliciosas. Era couve com ovo, como fazia a mãe.

Uma delícia disse.

Sério? Não sou grande cozinheira, a minha filha ensinou-me antes de ir estudar. Está no Porto, artes plásticas, já tem vinte e dois, bem diferente de mim.

E vive aqui há muito?

Vinte e cinco anos neste apartamento. Antes morava com o meu marido, divorciámo-nos há um ano. Agora sou eu e o Lucas.

O Lucas, ouvindo o nome, levantou a cabeça no sofá, olhou para a cozinha, voltou a deitar-se.

Custou-lhe?

O quê, o divórcio? No início sim. Mas depois… sabe quando anda o dia todo desconfortável com uns sapatos apertados e chega a casa, tira-os e sente que andava ferida há muito? É parecido.

O José olhou pela janela. No quintal, uma árvore já quase despida, só umas folhas amarelas teimavam.

E trabalha onde? perguntou Mariana.

Na Fábrica de Instrumentos, técnico.

Gosta?

O trabalho é o que é. Sabes, sempre gostei de arranjar coisas. Não as grandes, só por gosto. E de ir à pesca.

Pesca? Conte-me.

Estremeceu. Quando falava de pesca, mudavam sempre de assunto. A Leonor dizia: Que tem para contar? Sentar e esperar… Agora Mariana fitava-o com curiosidade genuína.

Em miúdo ia sempre com o pai. Iam cedo, ainda escuro. Quando chegavam, já era dia. Lembro-me do cheiro da manhã à beira-rio. E o silêncio, só se ouvia saltar os barbos junto aos caniços.

Mariana, de queixo na mão, ouvia.

Depois, com o Rui. Uma vez apanhámos um barbo enorme no rio Almonda, pensámos que era um tronco continuou.

Foi falando, esquecendo-se do tempo. Quase nove da noite.

Meu Deus levantou-se tenho de ir.

Vá, claro. Obrigada pelo cavalete. E pela história da pesca.

Da pesca?

Sabe transmitir aquela água toda.

A caminho do metro, José pensava: há quantos anos ninguém o ouvia assim?

***

A Leonor estava na cozinha quando chegou. Jantar frio, tapado. O rosto dela era daqueles momentos antes das conversas longas.

Onde estiveste?

Fui ver do gira-discos ao anúncio. Era uma artista, pediu-me ajuda com o cavalete. Demorei.

Não avisaste.

Não imaginei demorar tanto.

Esperei-te às sete. Fiz bifes. Já arrefeceram. Aqueço já duas vezes, agora secaram.

Olhou para o prato e para ela.

Desculpa os bifes.

Não é pelos bifes! Temos regras. Se sais, avisas. É uma questão de respeito.

Entendi. Não pensei.

Nunca pensas. É exatamente isso. Nem nos pequenos detalhes. Olha, na terça compraste o queijo errado. Eu escrevi magro, trouxeste curado. Tive de deitar fora.

Tirou o casaco, pendurou lentamente. As mãos firmes, mas por dentro sentia-se apertado, como uma mola.

Comi com ela. Tinha empadas.

Empadas.

Sim.

Zé, foste procurar um gira-discos velho e só voltaste às nove da noite depois de comer empadas. Parece brincadeira.

Ajudei-a, tomámos chá. Mora lá uma mulher, é pintora, divorciada, sozinha. Pediu-me ajuda, só isso.

Que mulher é essa?

Chama-se Mariana. Tem cinquenta e quatro, dá aulas de pintura, divorciada há um ano.

Investigaste-lhe a vida.

Conversámos à mesa, Leonor. Só conversámos.

Leonor guardou os restos no frigorífico. Mexeu-se apressada.

Aquece sozinho se quiseres. Vou deitar-me.

Saiu. O José ficou à mesa no silêncio, a ouvir a chuva. Pensava: também a chuva não obedecia a listas.

***

Depois foi mais vezes. Levou o gira-discos; Mariana pediu dois dias. Voltou lá, estava arranjado, de facto era do motor. E repetiram o chá. Desta vez levou ele um bolo de cereja da pastelaria. Depois, foi só para saber se ela já tinha conseguido o tal parafuso M6. Comprou, mas errado trouxe M4. Riram-se. Ele levou os dois, só para garantir uma solução.

Não contava à Leonor sobre estas idas. Às vezes dizia à oficina, mas nunca detalhava tudo. Ela perguntava uma, duas vezes, ele respondia curto. Talvez não quisesse ouvir mais. Ou bastava-lhe saber que regressava para jantar.

Uma noite chegou novamente tarde. Estiveram a ver álbuns de pintura do Cézanne, Mariana explicava a luz, e o tempo desapareceu. O José ouvia e pensou como nunca pensara na luz de um quadro. E era fascinante.

A Leonor estava à espera.

Bifes…

Leonor, ouve-me.

Ela fitou-o. Havia algo novo: inquietação, verdadeira, quase medo.

Zé, o que se passa?

Nada se passa. Vou à Mariana, falo com ela, ajudo. Gosto de lá estar.

Sabes o que estás a dizer?

Sei. Não há nada… calou-se nada do que pensas. Só conversamos.

Conversam só.

Sim.

Zé, estamos juntos há trinta anos. Trinta anos de casa, cuidado, contas, horários, saúde. Trabalho, faço tudo por nós.

Sei, Leonor.

Então porquê procurar uma artista em vez de estar em casa?

Não respondeu. Ou talvez soubesse, mas não tinha coragem para dizer sem ferir.

***

Na sexta à noite, fez uma mala: duas camisas, a máquina de barbear, um livro há muito por ler. A Leonor estava à porta a ver.

Vais para onde?

Preciso de ficar sozinho. Pensar.

Zé, isso é disparate.

Se calhar. Eu vou.

Vais para ela.

Vou pensar.

Zé!

Fechou a mala, virou-se. Ela mantinha-se rente, de braços cruzados, robe impecável e limpo, aspeto perdido. Não era fria, nem zangada. Parecia alguém que já não sabia usar as ferramentas.

Eu ligo disse ele.

E saiu.

***

A Mariana não fez perguntas. Quando ele ligou a pedir para ficar uns dias, respondeu: Claro, tens o sofá, aparece. E foi só isso.

Dormiu na sala entre as telas. O Lucas encostava-se aos pés. De manhã, Mariana fazia café numa cafeteira, com cardamomo. Sentavam-se a ouvir a rádio, falando da chuva lá fora, do café ou do Lucas, que teimava em comer as ervas do parapeito.

A Leonor telefonava. Ao início, de hora a hora, depois menos. O José atendia algumas vezes, e ouvia a voz, calma, organizada.

Zé, tomaste o comprimido da tensão? Levaste contigo?

Sim, Leonor.

E o casaco quente? Esta semana vai estar frio.

Levei.

Não te esqueças que tens consulta depois de amanhã, marquei em janeiro.

Está bem.

Zé, não podes simplesmente voltar para casa? O que é que está a faltar aí?

Silêncio breve.

Leonor, depois ligo.

Depois recebeu uma mensagem da amiga dela, a Teresa: Zé, ficou tudo maluco? A Leonor está tão em baixo. Depois ligou-lhe o chefe, inesperado: Ó Zé, o que se passa aí? A Leonor ligou-me, diz que andas desaparecido. Depois SMS do primo dela, Luís, com quem só falava no Natal.

Lia isso tudo e percebia: a Leonor mobilizava sempre todos, em qualquer emergência, distribuía tarefas ao exército, sempre eficiente agora, a missão era ele.

Como estás? perguntou Mariana numa noite.

Estranho confessou Assusta um bocadinho. É novo.

Normal.

Reparei numa coisa: hoje de manhã vesti uma camisa só porque me apeteceu. Não foi a branca, nem a cinza. Esta azul-escura, porque sim. E pensei: há vinte anos que não escolho a minha roupa.

Era ela que escolhia?

Sim. Deixava-me preparada de véspera. Dizia que senão saia com roupa fora do tempo ou da cor. Habituei-me.

Mariana não disse nada.

Ela gosta de mim disse. Ama-me, isso sei.

Acredito.

Mas junto dela… deixei de existir. Fui desaparecendo no meio das rotinas todas.

***

No domingo, a Leonor apareceu. Descobriu a morada pelas chamadas do telemóvel, era metódica. O José abriu a porta e por uns segundos ficaram a olhar seriamente.

Posso entrar? perguntou.

Ele afastou-se.

A Leonor mirou tudo. Viu logo os sapatos tortos da Mariana, o cachecol colorido pendurado, a velha gabardina manchada de tinta. Pela porta do quarto avistava-se uma ponta de tela.

A Mariana saiu da cozinha. Cumprimentaram-se.

Boa tarde disse a Leonor.

Boa tarde respondeu Mariana baixo.

A Leonor virou-se para o marido:

Estás bem?

Estou.

Tomaste o comprimido?

Leonor…

Só pergunto.

O José apareceu à porta da cozinha, trazia uma taça de salada com rodelas de pepino grossas, miúdas, todas tortas. A Leonor ficou sem ar ao ver aquilo: os pepinos cortam-se direitos.

Leonor, não precisavas de vir.

Zé, dediquei-te a vida, a voz trémula Cuidei de ti trinta anos. Percebes? Era sempre por ti!

Eu sei.

Então porquê?

A Mariana, da porta:

Leonor, posso dizer algo? Não por intriga, só como observadora.

Diga, deixou Leonor, sem olhar.

Cuidar é quando é fácil estar ao lado. Quando se pode respirar. Se ao lado de nós se respira mal, isso já não é cuidado. Não o deixava respirar, Leonor.

A Leonor demorou a responder.

Não conhece a nossa vida, murmurou.

Não, assentiu Mariana.

O José pegou-lhe na mão. Ela não afastou.

Leonor, vou pedir o divórcio. Decidi. Não é por não te amar, mas porque não posso mais.

Ela olhou a mão presa na dele, depois afastou suavemente. Virou-se, apanhou a carteira, as costas direitas, coluna perfeita, passos calmos.

Não te esqueças dos comprimidos. Estão na caixa azul, primeira gaveta à direita.

Fechou a porta.

***

O processo demorou seis meses. O apartamento ficou para ela, ele não contestou. Arrendou um quarto perto do Príncipe Real, mesmo na mesma rua de Mariana.

A vida mudou devagar, como um edifício antigo a ser restaurado.

Os primeiros meses foram cheios de pequenos absurdos: escolhia pão a gosto, não pelo tipo certo. Às vezes comia de pé, frente ao frigorífico. Ia para a cama fora das dez. Uma noite ficou a ver um filme até à uma porque lhe apetecia, sentindo aquela alegria travessa de miúdo a quebrar regras.

Com Mariana as coisas cresceram sem pressas. Ambos sabiam que era sério, e por isso não tinham pressa nenhuma.

Na primavera foram pescar.

O José alugou canas, foram no carro velho da Mariana, um Renault 5 vermelho que bufava nas subidas, até à Lagoa de Óbidos. Mariana nunca tinha pescado: avisou logo.

Sentaram-se à beira da água. Manhã fria, relva com orvalho. O José percebeu que esquecera o termo de café. Lembrou-se quando já procurava no saco.

Esqueci o termo. Que chatice.

Não faz mal disse ela olha só a neblina sobre a lagoa.

Viu o nevoeiro: branco, leve, sopra sobre a água feito véu. O sol mal nascia, luz rosa, quase horizontal.

Lindo, não? cochichou Mariana.

Muito.

Pescou uma perca pequenina. Mariana exclamou, riu, e assustou-se com o peixe a saltar.

Deixa ir, deixa! Ele é tão minúsculo!

Libertou-o.

Voltaram sem peixe, cheios de lama, porque ele escorregou e caiu, levando Mariana consigo, ambos sujos mas a rir tanto que assustaram todos os patos.

O casaco ficou arruinado.

Não importa riu-se Mariana foi uma manhã e tanto.

Zé olhou-a: o braço enlameado, a cara suja e alegre, cabelos soltos do gorro. E pensou: era aquilo a vida, finalmente não um regulamento, mas sim lama e nevoeiro cor-de-rosa.

***

Casaram-se no outono, ano e meio depois de sair de casa. Casamento simples, só uns amigos, o Rui Monteiro da fábrica, a amiga da Mariana, a Inês, com a máquina fotográfica, e o Lucas no parapeito a fingir que nada era com ele.

A nova vida era real, às vezes caótica. Mariana gastava metade do orçamento em tintas e esquecia-se do pão. Ele passava horas a mexer numa antiga rádio a válvulas que comprou num mercado de velharias, espalhava peças por todo o lado. Ela perdia as chaves, ele esquecia o gás aberto.

Discutiam, às vezes a sério dinheiro, pincéis secos, ferramentas deixadas provisoriamente nos sítios mais estranhos. Uma vez ela achou uma chave inglesa no frigorífico. Ele nem se lembrava.

Mas nunca ninguém fazia listas de falhas. Nem contava pontos. Discutiam, zangavam-se, calavam-se. Depois, alguém punha um bule ao lume e esse gesto bastava. O outro chegava logo à cozinha. Voltavam ao café à mesa.

***

A Leonor soube do casório pela Teresa, sempre informada.

Nos primeiros tempos, viveu em piloto automático. Casa impecável. Jantar às horas. Trabalhava na construtora, fazia contas, respondia a telefonemas.

Mas à noite, sentia a casa insuportavelmente vazia. Grande demais. Sentava-se na cozinha com duas chávenas e dava conta, tardiamente, do gesto automático. Guardava uma. Doía.

No emprego, a chefe, Maria da Luz, mulher de cinquenta, dura mas justa, chamou-a à parte.

Leonor, anda tudo bem?

Sim, doutora.

Não anda, nota-se. Famílias?

O marido foi-se embora.

Percebe-se. O meu também se foi há dez anos. Um conselho? Não comece pela limpeza geral. Comece pelos sentimentos. Procure alguém para conversar. Não uma amiga. Um profissional.

Leonor quis recusar, mas ficou em silêncio.

***

Encontrou psicóloga num consultório perto do Campo Pequeno. Primeiras três sessões quase em silêncio, só respostas curtas, sentia-se exposta. À quarta, ouviram-na perguntar:

Leonor, quando sentiu verdadeiro medo? Não pelo marido por si.

Demorou.

Quando lhe vi a fazer as malas. Quando senti que ia embora e eu não controlava.

Por que razão esse controlo era tão fundamental?

Pensou. Lá fora nevava suavemente.

Porque senão tudo desanda. Sempre foi assim. A minha mãe dizia: Leonor, segura tudo ou eles fogem. O meu pai também fugiu, mas ela não largava nada.

Houve silêncio.

Sempre receou perder, se largasse?

Sim.

E afinal?

Afinal, se se aperta demais, perdem-se na mesma.

Custou-lhe, mas ao dizer, sentiu um certo alívio.

***

Foi à associação cultural por insistência da Teresa: Vais adorar, há uma exposição de aguarela. Foi por ser domingo, pela solidão do apartamento.

E gostou mesmo. Nunca percebeu de arte, mas aquelas aguarelas eram transparentes, leves, cheias de luz.

Estava, distraída, diante dum quadro de um rio, quando um homem parou ao lado. Mais velho, cara afável, olhar algo perdido. Olhava o mesmo quadro.

Repare, disse baixinho o pintor deixou aquele canto em branco. Vê? Só papel. E é isso que dá graça à pintura.

Leonor olhou.

Não tinha notado.

Poucos notam logo. Sou o António.

Leonor.

Era trapalhão. Ao sair, prendeu o fecho da gabardina, não conseguiu fechá-lo sozinho.

Dê cá disse ela deixe-me tentar.

Viu onde o fecho descarrilara, alinhou e fechou. Sorriu, sem saber porquê.

Obrigado, disse, muito grato, já lutava com isto há semanas.

Precisa de nova gabardina.

Pois… vou sempre adiando.

Ficaram a conversar. Ele dava aulas de guitarra no mesmo centro cultural. Ia a todas as exposições aos domingos.

Passe por cá quando quiser, sugeriu no domingo estarei cá.

Ela não prometeu. Mas no domingo seguinte apareceu.

***

Com o António era tudo estranho. Viúvo, a mulher morrera três anos antes. Vivia só, bebia chá, tocava guitarra, nunca sabia que dia era e podia demorar meia hora a falar do crescimento das árvores do bairro.

A Leonor tentou organizá-lo. Sugeriu uma agenda. Apontou desordem no frigorífico, tentou arrumar-lhe as latas do armário.

Pegou-lhe pela mão.

Leonor, deixa estar. Aqui gosto assim.

Ela olhou o armário, depois a mão dele. Não estava zangado. Nem pacientemente cansado, como o José estava no fim. Só a mão dela, calma.

Desculpa. Tenho este vício.

Não é vício nenhum. Só que esta cozinha é minha.

É admitiu.

E deixou tudo no sítio.

Foi um gesto quase invisível, mas notou-o. Mais vezes sentiu as mãos a quererem corrigir. Sabia travá-las. Nem sempre, mas cada vez mais.

A psicóloga disse-lhe uma vez:

Não se pode controlar outro. Só a si. E talvez seja mais interessante assim.

Pensou nisso por dias.

E pôs-se a fazer bolos. Era esquisito sempre cozinhou à risca. Mas um dia, a Teresa deu-lhe a receita de tarte de maçã: Põe canela a gosto. A gosto? Ela ficou a medir, hesitante.

Despejou canela, demais talvez. O bolo ficou forte, quase amargo, mas o cheiro era de infância, comeu metade junto ao fogão, em pé.

Aprendeste a fazer bolos? surpreendeu-se a Teresa.

Estou a aprender disse Leonor. Pode correr mal, mas é divertido.

Estás diferente.

Se calhar.

Ao sair à rua, Leonor descobriu-se a sorrir sem motivo, para a calçada molhada de outono.

***

Encontraram-se dois anos depois, por acaso no Parque Eduardo VII. O José e Mariana iam a caminho do lago, Leonor lia sentada num banco, o António tinha ido buscar chá ao quiosque.

Viu-o primeiro. Ele ia à frente, aquela camisa azul-escura. Mariana ao lado, a rir e a dizer qualquer coisa.

Leonor fechou o livro.

O José notou-a. Ambos pararam. Olharam-se um segundo. Ele aproximou-se.

Leonor. Olá.

Olá, Zé.

A Mariana recuou discretamente. Leonor reparou.

Estás bem notou ele, sinceramente. Pareces outra.

Obrigada. Tu também.

Silêncio. Outubro calmo, folhas nos caminhos amarelos.

E tu? perguntou ela.

Bem. Eu e a Mariana vamos ao sul, de carro, sem planos. Parar onde apetecer.

Para onde exatamente?

Ainda não sabemos, sorriu essa é a graça.

Ela anuiu, olhou Mariana, que examinava as árvores e sorria.

E tu?

Bem. Estou… a aprender a fazer tartes. Sei lá, soa estranho.

Nada disso.

Falhei a receita, pus demasiada soda, inchou que parecia bolo-rei. Mas comeu-se.

Isso é bom.

E estou com o António. Dá aulas de música. Muito esquecido! riu Estou a aprender a não arrumar tudo.

O José olhou-a.

Não é fácil para ti.

Não. Mas… hesitou …mas tem graça.

O António chegou com duas chávenas de chá e um saco de pastelaria.

Leonor! Trouxe croissants, um com chocolate, outro com canela, não decidi por ti, trouxe os dois!

Ela riu-se, leve.

O José olhou.

Ris-te disse.

Rio. admirou-se dela própria.

A Mariana chegou.

Vamos andando, não vos incomodamos.

Está tudo bem respondeu Leonor, sinceramente.

Despediram-se. Ele acenou, ela sorriu. Mariana acenou de volta, num gesto doce sem vaidade.

Leonor viu-os caminhar juntos. Ele disse algo, Mariana riu, agarrou-lhe o braço.

O António sentou-se e estendeu-lhe os dois croissants.

Escolhe.

Ela escolheu o de canela. Deu uma dentada. Estava quente, desfez-se na mão.

O parque ouvindo folhas secas. Crianças ao longe. Nuvens a deslizar no céu, lentas.

Sentada, com aquele croissant quente, Leonor pensou: podia nunca ter descoberto como era amar, sem mandar em tudo. E nunca teria sabido, se ele não tivesse ido.

O António encontrou no saco o de chocolate; afinal não gosta.

Quer? ofereceu tímido.

Ela aceitou.

Quero.

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