A Segunda Sogra

A Segunda Sogra

Uma mulher de bata, cabelos presos à pressa, espreitou em silêncio para dentro do consultório do dono da Clínica de Cirurgia Estética Eclipse. Chamava-se Benedita, e naquele momento tentava falar baixo, para não meter o chefe num daqueles acesos ataques de maus fígados.

Ouvi dizer que está a precisar de uma massagista júnior

Tomás Granito ergueu o olhar e fitou-a com uma severidade digna do Tribunal de Contas. Estava furioso os investidores tinham acabado de lhe cancelar uma reunião importantíssima, e a cabeça latejava-lhe de tensão.

E a senhora, com a esfregona na mão, quer ir tratar do corpo dos nossos clientes? disparou.

Não, claro que não, mas fiz uns cursos online. E até tenho currículo preparado, murmurou, envergonhada, esticando um papel amachucado que sacou do bolso do avental.

Nesse momento entrou o braço-direito de Granito Luís Santos. Tomás esfregou as têmporas e desatou aos berros:

Ó Luís, o que é que esta mulher anda aqui a fazer? Despacha-a do meu gabinete já! Agora as senhoras da limpeza acham-se massagistas de mão-cheia! Despacha-a e explica bem explicado que sem ideias malucas!

Nem esperou resposta. Arrancou o papel das mãos de Benedita, rasgou-o em bocados e atirou-os aos pés dela, como um ditador a desfazer um tratado.

Benedita, com lágrimas nos olhos, calou-se e começou, de cócoras, a apanhar os tristes fragmentos do que restava do seu currículo. Luís pegou-lhe no braço sem cerimónias, arrastou-a pelo corredor, passou por clientes e funcionários, e trancou-a na arrecadação das vassouras.

Lá, sentada à beira de um caixote enferrujado de areia para incêndios talvez do tempo do D. Afonso Henriques , Benedita desfez-se num pranto.

Era recente na Eclipse. Nunca sonhara com uma carreira de limpeza mas ali pagavam mais que noutros locais. E Tomás Granito era tido por um homem respeitado e trabalhador. Diziam dele: workaholic, fez-se à vida sozinho, ergueu a clínica com as próprias mãos.

É verdade. Granito cresceu num orfanato, nunca conheceu os pais, toda a vida os tentou encontrar. Mas conseguiu ser cirurgião e, mais tarde, mestre de estética. As atrizes e socialites de Lisboa vinham em bando, pagavam fortunas. Todos os anos subia os preços e não se privava de nada.

Talvez por isso Benedita arriscou: soube da vaga e pensou: Se não tentar

O sonho era ser massagista. Lia os livros, estudou sozinha por programas de escolas técnicas, o melhor que conseguiu. Não tinha diploma oficial, logo não podia trabalhar. Ia juntando para o curso a sério, mas o marido fugiu-lhe com o magro pecúlio e ficou ela e a pequenina Leonor, sem um tostão.

Depois veio a saber-se que o António tinha cadastro e era um artista do engano: inventara toda uma biografia. O divórcio arrastou-se ele nunca apareceu nas audiências. Por causa da Leonor, Benedita aturou tudo. E aí começaram os calvários.

Com uma filha pequena, ninguém queria saber dela. Partilhavam um T1 minúsculo: Benedita, a filha, e a mãe, D. Madalena. Viviam com dificuldades, às vezes só havia dinheiro para a pensão da mãe. Madalena era uma força da natureza: ex-ginasta, otimista teimosa, cuidava da neta, permitindo à filha trabalhar.

Depois, Benedita fez um curso baratucho de massagem. O certificado estava agora em bocados no lixo, graças ao Granito.

Enxugou as lágrimas, ergueu-se e foi esfregar o chão. Sussurros e olhares desconfiados à sua volta. Mas em casa, Madalena tinha boas notícias: Leonor ganhara o concurso de desenho no infantário. Claramente tinha talento, por isso Benedita esforçava-se para comprar boas tintas e lápis. A filha já frequentava a escola de artes, e isso era um pequeno milagre.

Nessa noite, num momento em que o balde parecia pesar como um camião, apareceu o Sr. Francisco, o jardineiro da clínica único ser humano por ali que ainda reconhecia a dignidade das pessoas. Homem de idade, olhava para Granito com comiseração e, secretamente, divertia-se ao ver o patrão esquecer de onde viera.

O Sr. Francisco nunca ofendia Benedita. Pelo contrário, trazia-lhe empadas ao domingo, confortava-a, dava-lhe força. E foi graças a ele que Benedita ganhou coragem para ir ao gabinete do Granito com aquele currículo amarrotado.

Ao vê-lo agora, Benedita desabou de novo.

Não chores, filha. Tudo muda, vais ver.

Não devia ter-me atrevido! Só piorei tudo, fungou Benedita.

O Granito hoje está impossível. Noutra altura, tenta de novo, sugeriu o Sr. Francisco.

Já disseram que nunca mais o tente. Que disparate Fiz figura de parva, sonhei que também podia sair do zero como ele. Mas é só um vaidoso, orgulhoso do diploma.

O jardineiro encolheu os ombros. Benedita arrumou o material e foi para casa, a matutar em como ia fazer render os trocos. Leonor pedia uma boneca caríssima parecia missão impossível.

Ao chegar, percebeu que algo estava fora do normal. Madalena estava na sala, os olhos vermelhos.

Mãe, o que aconteceu? Benedita ficou aflita.

Nada, filha, tentou disfarçar Madalena.

Diz a verdade. Fez-se silêncio. A mãe cedeu e chorou.

Fui à médica. Da junta. Mandaram toda a malta do teatro. Encontraram um problema chato Precisam fazer-me uma operação, senão um ano, no máximo. A lista de espera é brutal. Particular, nem pensar. E o exame tem de ser feito em Lisboa, cá não há aparelhos desses. As viagens, análises, as etapas Filha, acho que chegou a minha hora.

Mãe, não digas disparates! Benedita saltou da cadeira. Alguma coisa havemos de arranjar.

Com o teu salário e a minha reforma? ironizou Madalena. Por muito que dês voltas, de um pano velho não se faz fato novo.

Benedita passou a noite em claro. Ao amanhecer, tomou uma decisão: só havia uma saída arriscar falar de novo com o Granito.

No entanto, nesse dia nem sequer a deixaram entrar na clínica. Informaram-na do despedimento por redução de pessoal. Pagaram-lhe três salários mínimos por inteiro, e rua.

O Sr. Francisco despediu-se, obrigando-a a apontar o seu número de telefone. Benedita digitou, sem saber o que fazer dali para a frente. Um mês aguentava e depois?

Mas Benedita não era mulher de desistir. À mãe disse que fora decisão sua sair da clínica. Depois lançou-se à procura de emprego. Sem qualificações, pagavam pouco. Um dia viu um anúncio: precisavam de cuidadora interna. Não exigiam curso, mas alguém que limpasse, cozinhasse e ajudasse em casa.

Benedita suspirou: Menos indigno do que limpar casas de banho de clínicas. Mandou o currículo. Telefonaram-lhe, passado uma hora. Era uma agência, a cliente, uma senhora rica e solitária.

Pediram-lhe para aparecer com documentos. Logo depois, já estava frente à Dra. Teresa, gestora de recursos humanos.

Vou já avisando, sem ilusões, disse Teresa, glacial. Cliente exigente. Já vai na décima cuidadora. Ninguém aguenta.

Benedita ficou hirta, mas calada. Teresa continuou:

O nome dela é D. Beatriz Almeida. Nome de palco, claro. Mudou de apelido. Ex-prima donna do Teatro Nacional. Muito caprichosa. Dizem que teve grandes amores, deixou-lhe toda a fortuna.

Honestamente, não me faz diferença murmurou Benedita. Não estou em posição de escolher.

Se tem filha, saiba que D. Beatriz não tolera crianças nem animais. Anda de andarilho, mas à frente das cuidadoras exige cadeirinha de rodas.

Percebi.

Período de experiência: três meses. Aguentar, ganha contrato anual e salário a dobrar.

Benedita acenou. Só o ordenado de entrada já era o dobro do que recebia antes. Aquela podia ser a tábua de salvação para a mãe.

Começava já no dia seguinte às sete da manhã.

Ao serão, investigou tudo sobre D. Beatriz. Achou só notícias velhas e fotos de há 10 anos: uma senhora roliça, cabelo preto-piche, olhos águia. Mas foi apanhada de surpresa no dia.

O segurança abriu-lhe a porta de um palacete magnífico no coração de Lisboa. Benedita sentiu-se uma intrusa entre tanto luxo.

O que é que estás aí a mirar? Já a pensar o que vais gamar? ribombou uma voz áspera.

No centro da larga sala, D. Beatriz entrou, numa cadeira elétrica última geração. Era pequena, seca, branquíssima, olhar de falcão.

Bom dia, D. Beatriz, murmurou Benedita.

Fala mais alto. E mãos fora dos bolsos! E não te esqueças das proteções para os sapatos! O meu chão é de mogno, exclusivo. Está no balde, calça já. Quero o pequeno-almoço!

Benedita apressou-se, calçou as proteções nem eram daquelas azuis plásticas do hospital, mas umas mais chiques, forradas. Seguiu atrás da dona.

Penteia-me, mas com cuidado, ladrava a velha. Não, mulher! Isso é a touca! Tira. Agora o cabelo postiço.

Desculpe, não percebi, engasgou-se Benedita.

Ai Senhor Que escola de asneiras te fabricou? Traz-me o chá, agora!

Benedita foi à cozinha.

Olha lá o barulho, diz? Vais arrebentar o soalho. Anda devagar, mulher, que me azucrinas!

A dona ficou a inspeccionar o chá como se procurasse veneno. De repente, torceu o nariz e atirou-lhe o líquido para as mãos:

Foste tu que me abanaste! Culpa tua!

Benedita respirou fundo.

Onde posso lavar as mãos?

Lá em baixo, onde está o pessoal, ao lado da porta. Não tens resposta? Nem protestas?

Para quê? respondeu Benedita. Estou curiosa, só para ver até onde vai a sua imaginação.

Hmpf. Vai. Os toalhetes estão lá. Podes mudar de pijama, a tua roupa põe a lavar.

Fez tudo o que lhe pediram. E até à noite, D. Beatriz dedicou-se a maltratar a nova cuidadora: embirrou, ofendeu, montou pequenas partidas. Rapidamente, Benedita percebeu o teste: quem aguentasse, ficava. Por isso calou-se e aguentou.

Ao fim do dia, D. Beatriz estava extenuada. Antes de dormir, Benedita fez-lhe uma massagem suave. Quando a patroa adormeceu, arrumou o cabelo postiço e saiu, despedindo-se do porteiro meio estupefacto.

No dia seguinte, o porteiro substituto, de sorriso aberto, perguntou:

O que é que fizeste à dona? Dormiu como uma Sagrada Família. A empregada diz que nunca aconteceu!

Não fiz nada de especial, encolheu os ombros Benedita. Talvez precisasse de descanso.

Na manhã seguinte, D. Beatriz estava em boa forma, mas logo avisou que Benedita se vestia como uma velha solteirona e nunca arranjaria homem porque não se pintava. Benedita acenava, paciente, enquanto preparava os cuidados da manhã.

Depois, D. Beatriz exigiu manicure e uma bata em estilo japonês. Benedicta tratou de tudo.

À tarde percebeu que era por alguém especial: apareceu um senhor elegante, cabelo acinzentado, postura de bailarino. D. Beatriz apresentou-o como meu querido amigo Óscar e pediu café.

Benedita preparou café com todo o zelo temendo danificar a máquina caríssima mas correu bem. Diante dele, D. Beatriz comportou-se.

À noite, perguntou:

O que é que me fizeste ontem, afinal?

Massagem, respondeu Benedita.

És especialista?

Só estudei informalmente.

Podes continuar, anunciou a patroa.

Três meses voaram. Benedita só tinha direito a um dia de folga. Mal via a filha, mas finalmente Madalena já não precisava de trabalhar estava esgotada, e na companhia de teatro carregava pesos como uma estivadora.

A relação com D. Beatriz foi melhorando. Parecia que a velha estava a testar a paciência e a fibra de Benedita. Até que um dia lhe perguntou:

Como é que em casa aguentam estes horários?

Só tenho a minha mãe e a minha filha.

Quantos anos tem a tua filha? Gosta de alguma coisa em especial?

Quase seis. Adora desenhar, disse Benedita, cautelosa.

Traz a tua menina. Quero conhecê-la.

Assim, Leonor começou a visitar a mãe no trabalho. Passava o tempo de olhos postos em folhas de papel e pastéis de cor. Um dia, desenhou um retrato tão certeiro de D. Beatriz que esta mandou emoldurar e pendurar o desenho na sala.

Aos poucos, criaram laços sinceros. Benedita já não temia perder o emprego.

D. Beatriz sofria de artroses invulgares, sem cura eficaz. Quando as dores apertavam, Benedita massajava durante horas e, às vezes, a patroa melhorava. Numa dessas crises, pediu para Benedita e Leonor passarem a noite. Cedeu-lhes o quarto de hóspedes.

A adormecer com o ressonar da filha, Benedita pensou como seria bom viver ali, naquele palácio, onde o tempo parecia suspenso.

No dia seguinte, D. Beatriz sentiu-se melhor. Leonor tomou o pequeno-almoço na sala com ela. Benedita limpava o escritório. Entre tapetes e bibelôs, achou um álbum antigo, todo amarelado. No fim da limpeza, levou-o à sala.

Posso ver, D. Beatriz?

Ah, outros tempos… E que tempos! Anda cá, vamos folhear.

Sentadas à mesa, começaram pelas fotos de infância. De súbito, Leonor exclamou:

Oh, é a minha avó! Temos uma foto igual!

Benedita olhou e congelou: era mesmo Madalena, em jovem.

Como tem esta foto?! sussurrou Benedita.

D. Beatriz semicerrava os olhos, fitou-a uns segundos.

Tu… és filha da Madalena? Só pode! Eu sempre achei-te parecida, ora essa…

Mas por que tem a foto da minha mãe?

Mas é claro que éramos amigas! riu-se D. Beatriz. Quase irmãs, no tempo da Escola dos Olivais. Vivíamos juntas! Até a ginástica começámos juntas. Depois apanhei-lhe o namorado era eu que o devia ter deixado, mas o Ivo ficou comigo. A tua mãe, de desgosto, largou a seleção nacional.

Desconhecia isso murmurou Benedita.

Eu então era Beatriz Silveira. Imagina! E o Ivo era o Marquês… deixou-me o nome e, depois do divórcio, nunca mais larguei.

Desde aquele dia, Benedita só pensava em juntar as duas velhas amigas. A oportunidade calhou logo.

D. Beatriz pediu nova dormida. No dia seguinte, Leonor tinha excursão; Benedita pediu à mãe para buscar a neta.

Madalena, no seu modesto casaquinho, cruzou a entrada daquele palácio. D. Beatriz, já pronta para dormir, apareceu na cadeira elétrica.

Quem está aí? Não estou à espera de visitas.

Olá, Beatriz, disse Madalena, fria. Não posso dizer que me alegro.

O sentimento é mútuo, retorquiu D. Beatriz. Vida dura, hã?

Não mais que a tua, devolveu Madalena. Ao menos tenho filha e neta. E tu, quem te cuida? Estranhos. E os casamentos, valeram?

Tu nem isso, sempre solteira. Vives ainda com o apelido de solteira, hã?

Madalena sorriu docemente.

Oh, Beatriz Segui-te sempre de longe, sabes? Tive orgulho naquela miúda da Graça, que virou uma estrela. Nunca te fiz mal nenhum. Lembras-te de há uns cinco anos? O telefonema anónimo?

D. Beatriz ficou verde.

Quando um patife do teatro te queria sacar o apartamento, continuou Madalena. Ouvi-o no camarim: dizia que te mandava para um lar enquanto trazia para cá a nova amante. Peguei no telefone, disfarcei a voz e avisei-te.

Foste tu? Fui salva nessa noite… contratei um detetive! murmurou D. Beatriz.

Nunca fui capaz de te odiar. Só tive pena. Eu já sabia: artistas são bicho raro. Mas nessa, não aguentei.

A velha baixou os olhos.

Salvaste-me, admitiu. O patife tinha-me virado a cabeça. Compreendo, Madalena.

Agora, chega de passado. Temos que ir, Leonor está a dormir.

Espera, como vives? D. Beatriz tentou reter a amiga.

Numa das casas pequenas do bairro, depois da divisão das antigas ocupações. Não é este palácio, mas cabe-nos.

Acabou-se! Amanhã vens para cá. Há quartos que nunca mais foram abertos. Queria fazer um para Leonor. E não há discussão. Há muito a conversar. Quem sabe quanto tempo temos as duas?

Madalena cedeu; exausta, sentou-se.

Mais oito meses, talvez.

Como assim? D. Beatriz ficou lívida. Cancro?

Não, coração. O dinheiro não chega para operar, nem para mais exames.

Não se fala mais nisso. Mudam-se, pronto. E depois logo se vê. Não me deves nada, sou eu que fiquei a dever-te, Madalena. Ainda penso no Ivo que te roubei

Olha que podias lembrar-te do Vasco, do liceu! riu-se Madalena. Hoje vamos para casa. Amanhã falamos.

O meu motorista leva-vos. Amanhã, tragam as coisas.

Nessa noite, D. Beatriz esteve acordada, a conversar com Benedita sobre a doença da mãe, sobre juventude, sobre desperdício de vida. O gesto da amiga amolecera-lhe o coração.

Em poucos dias, o palacete virou um estaleiro: rodos de decoradores, tecidos, catálogos. D. Beatriz puxou dos cordões da bolsa para preparar tudo.

À noite, sentava-se à mesa com Madalena, chá à frente, a trocarem histórias e memórias. No final do grande evento, D. Beatriz anunciou:

A verdade é que mostrei os teus exames a um médico meu amigo. A operação vai ser já em duas semanas. O cirurgião é um jovem simpatiquíssimo, filho de um catedrático. Tenta não lhe roubar o coração, Madalena.

Arranjaste vaga? Como? Madalena estava atónita.

Qual vaga! Fui eu que paguei tudo. Agora não há recuo. Vais ao hospital, recuperas, e a Leonor precisa da avó de saúde, já que esta velha aqui está já a cair aos bocados.

Ai, Beatriz! Não devias

Para onde vou eu levar o dinheiro? Para a cova?! É tarde para isso. Vais. E a Benedita trata de ti. Eu cá cuido da Leonor.

Duas semanas depois, Madalena estava em quarto privado da melhor clínica de Lisboa. O médico, Dr. Filipe Ferreira, jovem brilhante, filho de professor mas feito por si mesmo. E um verdadeiro amigo dos doentes.

Ao ver Benedita cuidar da mãe, comentou:

Raramente vejo famílias tão dedicadas. A sua mãe é uma sortuda. Aposto que o marido também seria.

Só tenho a Leonor, corou Benedita. Mas enche-me o mundo.

Acredito. Por acaso, casei cedo demais. Julgava ela que casava com o herdeiro de catedrático, e eu vim parar ao Porto num T0 alugado. A paixão apagou-se.

Ainda vai encontrar alguém, sussurrou Benedita.

Talvez já tenha encontrado, respondeu Filipe, fitando a janela.

Benedita já se apanhava a olhar para o médico com outros olhos. Não era galã à moda antiga, mas tinha uma aura de nobreza e empatia.

A recuperação de Madalena demorou só uma semana. D. Beatriz, em casa, esforçava-se por se aguentar sozinha e por tomar conta de Leonor, que já a tratava por avó Beatriz.

D. Beatriz fazia-se de durona, mas as dores tornavam-se cada vez piores. O alívio das massagens de Benedita era momentâneo.

Um dia, antes de dormir, D. Beatriz disse:

Acabou-se a tua carreira de cuidadora.

Vai despedir-me? Benedita ficou aflita.

Achas? Tretas! Quero é que vás estudar massagem a sério! Com diploma e tudo. Vais conseguir?

Vou!

Eu trato das despesas todas. Quero o melhor para a família. E também me dá jeito: ter massagista particular é um luxo. Sê minha afilhada, está decidido.

Benedita aceitou. D. Beatriz assumiu quase toda a casa, mas Benedita sabia que iria recompensar o investimento.

O curso foi ministrado pelo Prof. Simão Almeida mestre reputadíssimo. Apontou logo Benedita como aluna de exceção. Na festa de diplomas, perguntou-lhe:

Conheces o SPA Vanilla?

Toda a gente quer trabalhar lá! É recente, mas já é o melhor de Lisboa.

Sou o dono, sorriu o prof. Vou focar-me na reabilitação de pós-operatório e lesões. Preciso de gente dedicada. És a minha primeira escolha.

Benedita quase chorou de alegria.

Desde então, estudou mais ainda. Parte do segundo módulo foi patrocinado pelo prof., a título de bolsa. Depressa passou a atender clientes no Vanilla. Horário útil: manhãs ocupadas, tardes com a mãe, Beatriz, e Leonor na escola de artes.

Em poucos meses, houve lista de espera só para as mãos de Benedita.

Entretanto, crescia a amizade e depois algo mais com o Dr. Filipe. Ao começo era só conversa, depois surgiram passeios, saídas pelo Jardim da Estrela, pela Baixa, matinés no circo e no teatro. Leonor gostava do médico. Madalena voltara ao teatro. Mas D. Beatriz já só saía raramente, e as dores venciam.

Filipe enviava-lhe pacientes a recuperar: ela especializou-se em reabilitação cardíaca. Tinha cada vez mais assuntos para partilhar com Filipe.

Ele ia frequentemente ao velho palácio que já era casa de todos. E um dia, D. Beatriz, rindo no seu jeito rabugento, declarou:

Nem penses em magoar as minhas meninas!

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A Segunda Sogra
Ja viem najlepšie – Čo je to zase, – Dmitrij si unavene kľakol pred dcéru a pozoroval ružové fľaky na jej líčkach. – Zase… Štvorročná Sonička stála uprostred izby, trpezlivá a akosi dospelo vážna. Už si zvykla na tieto prehliadky, na ustarané tváre rodičov, na nekonečné mastičky a tabletky. Mária pristúpila, sadla si vedľa manžela. Prstami jemne odhrnula dcére prameň vlasov z tváre. – Tie lieky nezaberajú. Vôbec. Ako by sme jej dávali obyčajnú vodu. A lekári v poliklinike… tí nie sú žiadni lekári, ale ktovie čo. Už tretíkrát menili liečebnú schému, ale výsledek nulový. Dmitrij sa postavil, potrel si koreň nosa. Za oknom sa zmrákalo, a deň sľuboval byť rovnako pochmúrny ako ten predchádzajúci. Rýchlo sa zbalili – Soničku zababušili do teplej bundy a o pol hodiny už sedeli v byte jeho mamy. Olga vzdychala, krútila hlavou, hladila vnučku po chrbte. – Taká maličká, a už toľko liekov. To je záťaž na organizmus, – posadila Soničku k sebe na kolená, dievčatko sa jej automaticky schúlilo do objatia. – Je mi to ľúto. – Aj by sme jej nič nedávali, – Mária sedela na okraji gauča, spiatymi prstami. – Ale alergia neustupuje. Už sme všetko odstránili. Všetko. Je iba základné potraviny – a aj tak má vyrážky. – A čo hovoria lekári? – Nič konkrétne. Nedokážu to lokalizovať. Robíme testy, dávame vzorky, ale výsledok… – Mária mávla rukou. – Toto je výsledok. To má na líčkach. Olga si vzdychla, upravila Soničke golier. – Hádam to prerastie. U detí to býva, že časom prejde. Ale zatiaľ nič povzbudivé. Dmitrij mlčky pozoroval dcéru. Maličká, chudá. Veľké, vnímavé oči. Pohladil ju po hlave, a v pamäti sa mu objavilo vlastné detstvo – ako kradol z kuchyne koláče, čo mama piekla v sobotu, ako prosil o sladkosti, ako mal rád mamine domáce lekváre rovno z pohára. Jeho dcéra… Varená zelenina. Varené mäso. Voda. Žiadne ovocie, žiadne sladkosti, žiadne normálne detské jedlo. Štyri roky – a diéta prísnejšia ako má mnohý pacient s vredmi. – Už nevieme, čo ešte vyradiť, – povedal potichu. – V jedálničku už vlastne nič neostalo. Domov cestovali mlčky. Sonička vzadu zdriemla a Dmitrij na ňu občas mrkol do zrkadla. Spí pokojne. Aspoň teraz sa neškriabe. – Mama volala, – ozvala sa Mária. – Prosí, aby sme ju priviezli na budúci víkend. Má lístky do bábkového divadla, chce zobrať vnučku. – Do divadla? – Dmitrij prepol rýchlosť. – To je dobré. Aspoň sa zabaví. – Aj ja si myslím. Trochu rozptýlenia jej neuškodí. …V sobotu Dmitrij zaparkoval pred domom svokry, vybral Soničku z autosedačky. Dcérka rozospato žmurkla, trela si oči päsťami – zobudili ju skoro, nebola vyspatá. Zdvihol ju do náručia, okamžite mu schúlila nos do krku – teplá a ľahučká ako vrabček. Tatiana Mihailovna vyšla na schody v pestrých šatoch, rozprestierajúc ruky, akoby uvidela obeť stroskotania. – Och, zlatíčko moje, slniečko, – privinula Soničku k obrovskej hrudi. – Taká bledá, chúďatko. Líčka vpadnuté. Vy ste ju umučili tými diétami, celkom ste ju zničili. Dmitrij strčil ruky do vreciek, zadržiaval podráždenie. Zase to isté. – Robíme to pre jej dobro. Nie zo záľuby, sama vieš. – Aké dobro, – svokra nespokojne stisla pery, prezerala vnučku akoby sa práve vrátila z koncentráku. – Samé kosti a koža. Dieťa musí rásť, a vy ju hladujete. Zobrala Soničku do domu, ani sa neobzrela, a dvere sa za nimi ticho zavreli. Dmitrij zostal stáť na schodoch. Niečo mu v podvedomí zaškrabalo, akási tušená myšlienka sa snažila zhmotniť, ale rozplývala sa ako ranný opar. Potrel si čelo, ešte minútu stál pri bránke, načúvajúc tichu cudzího dvora. Potom mávol rukou a išiel k autu. Víkend bez dieťaťa – podivný, takmer zabudnutý pocit. V sobotu išli s Máriou do hypermarketu, tlačili košík pomedzi regály, nakupovali na týždeň. Doma sa tri hodiny boril s kvapkajúcim kohútikom vo vani, čo už druhý mesiac pretekal. Mária triedila skrine, vyberala staré veci, balila do vriec na vyhodenie. Bežný domáci zhon, ale bez detského smiechu byt pôsobil akosi prázdno. Večer si objednali pizzu – tú, s mozzarellou a bazalkou, ktorú Sonička nemohla jesť. Otvorili fľašu červeného vína. Sedeli v kuchyni, rozprávali sa o ničom – ako už dávno nie. O práci, o plánoch na dovolenku, o rekonštrukcii bytu, ktorú stále nevedeli dokončiť. – Je to fajn, – povedala Mária a vzápätí sa zasekla, zahryzla si do pery. – Teda… no, vieš ako. Je tu ticho. Kľud. – Jasné, – Dmitrij jej prekrýl dlaň svojou. – Aj ja sa mi cnie. Ale oddýchnuť nezaškodí. V nedeľu išiel po dcéru až podvečer. Slnko zapadalo, ulice zalievalo oranžovým svetlom. Dom svokry stál v zátiší za starými jabloňami, v lúčoch zapadajúceho slnka pôsobil takmer útulne. Dmitrij vystúpil z auta, otvoril bránku – pánty zavŕzgali – a na polkroku stuhol. Na schodoch sedela jeho dcéra. Vedľa nej na stupienku Tatiana Mihailovna, naklonená k vnučke s absolútnym šťastím v tvári. V rukách držala koláčik. Veľký, dozlatista upečený, lesklý od oleja. A Sonička ho jedla. Líčka mala zapatlané, na brade omrvinky – oči žiarili radosťou, akú pri nej už veľmi dlho nevidel. Niekľko sekúnd len stál a díval sa. Potom ho vo vnútri zaliala horúca, zlostná vlna. Výkrikom sa rozbehol dopredu, za tri kroky bol pri nich, vytrhol koláčik z rúk svokry. – Čo to má znamenať?! Tatiana Mihailovna sa mykla, ustúpila. Tvár jej zaliala červená až po krk. Zašermovala rukami, akoby sa chcela odohnať od jeho hnevu. – Veď to bol len kúsoček, maličký! Nič sa nestalo, len koláčik… Dmitrij ju nepočúval. Zdvihol Soničku do náručia – dcérka jazykovo stíchla, schúlila sa mu v bunde – a niesol ju k autu. Posadil do sedačky, pripútal pásy. Ruky sa mu triasli od zlosti. Sonička sa naňho dívala veľkými očami, pery sa jej triasli – už-už sa rozplače. – Všetko je v poriadku, zlatíčko, – hladil ju po hlave, snažil sa, aby hlas znel pokojne. – Počkaj tu chvíľku, ocko sa hneď vráti. Zatvoril dvere a vrátil sa k domu. Tatiana Mihailovna stála na schodoch, žmolila okraj šiat, tvár posiata škvrnami. – Dima, ty nerozumieš… – Ja nerozumiem?! – zastavil sa dva kroky od nej a vybuchol. – Pol roka! Pol roka sme nevedeli, čo sa deje s našou dcérou! Vyšetrenia, testy na alergény – vieš vôbec, koľko to stálo? Koľko nervov, koľko bezsenných nocí?! Tatiana Mihailovna cúvla k dverám. – Ja som len chcela dobre… – Dobre?! – spravil krok dopredu. – Pol roka je na vode a varenej kuracine! Všetko sme jej zakázali! A ty jej tu v kútiku podsúvaš koláče? – Chcela som jej vybudovať imunitu! – osmelila sa svokra, zdvihla bradu. – Po troške som jej dávala, aby si zvykala. Ešte chvíľu, a všetko by prešlo, vďaka mne! Ja viem, čo robím, tri deti som vychovala! Dmitrij sa na ňu díval a nespoznával ju. Žena, ktorú roky trpel kvôli manželke, kvôli pokoju v rodine – ona jeho dcéru vedome trápila. Lebo si myslela, že vie lepšie ako doktori. – Tri deti, – zopakoval tiše, Tatiana zbledla. – No a čo? Každé dieťa je iné. A Sonička nie je tvoje dieťa, je moja. A už ju neuvidíš. – Čože?! – svokra sa chytila zábradlia. – Na to nemáš právo! – Mám. Obrátil sa a kráčal k autu. Za chrbtom zazneli výkriky. Dmitrij sa neobzrel. Sadol za volant, naštartoval. V zrkadle sa mihla svokrina postava – vybehla za bránku, mávala rukami. Pridal plyn. Doma ich Mária čakala vo vstupnej chodbe. Spatřila mužovu tvár, uplakanú dcéru – pochopila všetko bez slov. – Čo sa stalo? Dmitrij jej povedal. Krátko, stroho, bez emócií – tie už vybuchli tam pri dome. Mária mlčky počúvala, jej tvár tvrdla so sekundu na sekundu. Potom vzala telefón. – Mama. Áno, Dmitrij mi povedal. Ako si mohla?! Dmitrij odviedol Soničku do kúpeľne – umyť z tváre omrvinky z koláča aj slzy. Za dverami znel Márin hlas, ostrý, cudzí. Napomínala matku, ako ju nikdy predtým nepočul. Nakoniec jasne počul: „Kým nevyriešime alergiu – Soničku neuvidíš.“ Prešli dva mesiace… Nedeľný obed u Olgy sa už stal tradíciou. Dnes na stole žiaril torta: piškótová, s krémom a jahodami. A Sonička ju jedla. Sama, veľkou lyžicou, úplne zababraná. Na líčkach – ani jediný fliačik. – Kto by si pomyslel, – Olga pokrútila hlavou. – Slnečnicový olej. Taká zriedkavá alergia. – Doktor povedal, že je to jeden z tisíc, – Mária si natierala chleba maslom. – Keď sme ho úplne vyradili a prešli na olivový – za dva týždne bolo po vyrážke. Dmitrij sa nevedel na dcéru vynadívať. Ružové líca, žiariace oči, krém na nose. Šťastné dieťa, ktoré konečne môže jesť normálne jedlo. Torty, sušienky, všetko bez slnečnicového oleja. A toho sa, ako sme zistili, dá nahradiť v množstve jedál. So svokrou vzťahy ochladli. Tatiana Mihailovna volala, ospravedlňovala sa, plakala do telefónu. Mária s ňou hovorila stručne a sucho. Dmitrij nehovoril vôbec. Sonička sa natiahla po ďalší kúsok torty, Olga jej posunula tanier bližšie. – Jedz, drobček. Jedz zdravo. Dmitrij sa oprel o operadlo stoličky. Vonku pršalo, ale v dome bolo teplo a voňalo po koláčoch. Jeho dcére je lepšie. A na ostatnom nezáleží.