Eu Não Te Odeio

Nada mudou, afinal

Sentei-me no banco de trás do táxi, mexendo nervosamente na ponta do meu casaco e olhando pela janela. As ruas familiares de infância passavam lá fora as mesmas onde corri com o Duarte, de mãos dadas, sempre a rir-nos e a fazer planos para o futuro. Sete anos. Sete longos anos sem voltar a casa.

Já chegámos avisou o motorista com uma voz tranquila, arrancando-me dos meus pensamentos.

O táxi parou em frente ao prédio antigo de três andares, com as fachadas gastas por anos de sol e chuva. Revirei a minha mala, confirmei se tinha o telemóvel e tirei uma nota de vinte euros para pagar ao senhor do táxi. Ao sair, ouvi a porta bater atrás de mim. Fiquei ali uns segundos, parada na calçada, sentindo o cheiro do Rio Ave ao longe, misturado ao aroma do pão fresco vindo da padaria do outro lado da rua. Ainda se sentia o cheiro de relva acabada de cortar, típico das manhãs de Vila do Conde. Tudo isso pertencia a outra vida, e mesmo assim parecia tão meu era casa. O peito apertou-se, ora de dor, ora de alívio, enquanto pensava no que me esperava.

Desta vez, vim só por uns dias. Oficialmente, para ajudar a mãe com umas papeladas, resolver burocracias deixadas para trás. Mas no fundo, queria caminhar pelos sítios antigos, ver se ainda era como lembrava E, lá no fundo, queria ver o Duarte. Talvez fosse só isso. Quem sabe se a vida ainda podia mudar?

Disseram-me que ele morava ali perto, embora eu nunca tenha procurado saber muito sobre a vida dele. Mas os amigos iam deixando escapar detalhes: que mudou de emprego, que conseguiu um posto novo, que comprou um apartamento, que a mãe dele agora vivia com ele Quando ouvia o nome do Duarte, imaginava como estaria, o que fazia. Imaginava sempre mas afastava logo esses pensamentos, com receio de lhes dar espaço demais.

***

No dia seguinte, deixei-me ficar pelo centro da cidade. Não tinha planos; só queria respirar aquele ar, sentir o pulsar da vila à luz do dia, voltar a encontrar os recantos que fizeram parte de mim. Passei pelo quiosque onde comprava revistas, vi a esplanada onde me sentava com as amigas depois da escola, o café onde experimentei cappuccino pela primeira vez (e quase entornei em cima da blusa nova).

Foi então que o vi.

Duarte caminhava do outro lado da rua. Tinha o olhar distante, a cabeça levemente descaída. Fiquei paralisada. O corpo ficou leve ou pesado, nem sei e até esqueci de respirar. Ele não tinha mudado quase nada: alto, magro, com aquela marcha relaxada tão dele, aquele cabelo despenteado a cair para o lado.

Atravessei a rua. Nem olhei para o semáforo; ouvi buzinas, mas continuei. O coração batia tão forte que quase lhe ouvi o eco nas arcadas da vila.

Duarte! gritei, quando o alcancei junto ao supermercado.

A voz saiu trémula. Ele virou-se e nada. Não houve um lampejo de alegria, nem raiva. Absolutamente nada.

Carolina? disse ele, tão serenamente que doeu mais do que qualquer grito ou reprovação.

Esse tom calmo, vazio doeu. Tudo o que guardei nestes sete anos saiu-me em lágrimas. Tentei de tudo para me controlar, mas não consegui.

Duarte, eu… eu estou tão arrependida balbuciei, puxando pelas palavras como quem se agarra a um salva-vidas. Eu sei que não devia ter sequer vindo ter contigo, mas os soluços cortaram-me a voz, e abandonei qualquer tentativa de limpar as lágrimas. Ainda te amo. Amo-te ainda. Desculpa. Só preciso que me perdoes!

As palavras saíram apressadas, desnorteadas, como se achasse que, se parasse, nunca mais conseguiria continuar. As desculpas, explicações, tudo se amontoou, mas só as verdades essenciais vieram ao de cima. As que sempre me custaram guardar.

Abracei-o, encostei-me ao peito dele. Achei, por um instante, que talvez pudesse recuperar o que perdi. Por um momento, ele não me afastou. Senti-lhe os ombros relaxarem, os braços hesitarem, como se também ele quisesse retribuir o gesto. Uma faísca de esperança nasceu: talvez ainda houvesse salvação

Mas o instante acabou logo. Ele afastou-me com firmeza e suavidade, mas sem piedade. A expressão estava calma, até impassível, e o olhar gelado. O rapaz por quem me apaixonei tinha-se transformado num homem adulto, com muralha à volta do coração.

Some daqui sussurrou-me ao ouvido.

Foi tão impessoal e neutro que me calcou ainda mais. Fez-me sentir uma estranha qualquer na rua onde cresci.

Odeio-te acrescentou, desta vez com um desprezo impossível de esconder.

Virou-me costas e foi-se embora, sem olhar para trás. Fiquei de pedra. O mundo continuava a girar: carros buzinavam, crianças riam ao longe, as pessoas apressavam-se a tratar da vida. Um ou outro passante olhou curioso para a rapariga parada no meio do passeio, de rosto pálido e olhos arregalados. Mas eu já não via nada.

Só o som dos passos dele a desaparecer e o meu próprio respirar entrecortado. Cada segundo demorava-se, ecoando uma só ideia: Isto acabou. Para sempre.

Fui para casa devagar, como quem carrega peso dentro do corpo. O caminho pareceu interminável, gastei os últimos passos da infância a arrastar-me pelas ruas vazias. Ao chegar, passei por minha mãe em silêncio, sentei-me na sala e fiquei a olhar para a janela. Ela deve ter visto tudo nos meus olhos; não questionou. Limitou-se a dar um suspiro, um daqueles suspiros de quem já adivinhava este desfecho, e pôs água a ferver para o chá.

O som familiar da chaleira, o cheiro do chá preto a escorrer pela loiça, tudo pareceu tão corriqueiro ao lado do que me ia por dentro. Mas, de alguma forma, a rotina ajudou a recuperar um bocadinho de mim.

Ele não me perdoou sussurrei, apertando a chávena quente entre as mãos. O vapor subia e acertava-me nas faces. Mantive o olhar fixo na infusão, onde as luzes da sala dançavam.

A mãe sentou-se ao meu lado, tocou-me no ombro, com aquele carinho antigo, de quando caía e vinha a chorar do recreio. Por instantes, voltei a ser menina.

Já sabias que podia ser assim disse, sem censura, só com uma tristeza resignada.

Eu sabia acenei, afastando os olhos da chávena. A minha voz vinha da fadiga, de quem já ensaiara aquela resposta vezes sem conta. Mas tinha esperança. Achei que foi estupidez, não foi?

Não é respondeu baixinho. Tu fizeste o teu caminho. Causaste muita dor ao Duarte, filha Demorou muito a recompor-se depois de tudo. Ficou ficou como num conto, como o rapaz do Andersen. Ninguém mais o conseguiu tocar.

Suspirei fundo, deixei a chávena a um canto, recostei-me. Imagens antigas vieram-me à cabeça.

Naquela altura parecia tudo tão simples e tão fácil. Eu tinha vinte e dois idade de achar que tudo é acessível e que a vida há de correr bem a quem lutar. O Duarte era o apoio, o amigo, o namorado. Nunca usou palavras bonitas, mas demonstrava amor em tudo: nos gestos, na atenção diária, na preocupação genuína. E eu sabia disso.

Só que ele era operário, tirava o curso ao serão, sonhava abrir um pequeno negócio. Os sonhos eram bonitos, mas vagos, e eu nem sempre queria esperar. O que eu queria era segurança não luxo só a certeza de que amanhã teria onde cair morta, algum conforto, independência

E foi aí que o convite do meu tio para ir trabalhar em Lisboa pareceu um milagre. Nem hesitei. Era uma oportunidade concreta, o género de sorte que nunca bate à porta duas vezes.

Depois, vem aquela parte do passado que tenho vergonha de contar, até a mim mesma. Logo ao chegar à capital, apareceu o Henrique. Empresário mais velho, cheio de mundo, auto-confiante, sempre rodeado de gente. Conhecemo-nos num jantar da firma, ele sentou-se a meu lado, fez perguntas, elogiou esta e aquela qualidade.

Oferecia-me flores, não buquês vistosos, mas ramos delicados enviados para o escritório. Depois veio o resto: convites para restaurantes onde nunca tinha posto os pés, bilhetes para exposições, pequenos mimos um lenço de seda, uns brincos, uns saltos altos lindíssimos. Cada presente acompanhado pelo discurso: Tu mereces melhor, Carolina. No início, resisti, mas ele era hábil em convencer-me a aceitar. Uma vida confortável e sem preocupações começou a parecer-me irrecusável.

Pouco a pouco, fui-me habituando. As noites em restaurantes bonitos, viagens de táxi, sentir que finalmente era alguém. E o mais assustador comecei a menosprezar o Duarte, a achar que nunca passaria dali.

Quando voltei a Vila do Conde naquele verão, não era para reencontrar o Duarte nem para pedir desculpa. Fui para lhe mostrar o quanto estava bem. Queria que visse que eu tinha escolhido bem, que tinha saído do imobilismo da nossa vida de projectos adiados.

O cenário foi montado de propósito. Escolhi o café-cool do centro, vesti o vestido caro que o Henrique me deu pelos anos, um anel enorme no dedo, mala de marca acabada de comprar. Quando o Duarte entrou, olhei com ar triunfante. Ele olhou-me com espanto e tristeza, mas eu sustive-lhe o olhar convencida do meu sucesso.

Por breves instantes, achei que aquilo era vitória. Tinha vencido a insegurança, agora era gente. Mas quando o vi sair incómodo, compreendi imediatamente que não ganhara nada. Olhei ao redor, para os objetos caros, para o sorriso plastificado do homem ao meu lado, para aquilo tudo… E um vazio gelado apoderou-se de mim. Tudo tão belo; tudo tão oco.

***

Demorei tempo a entender o quão amarga foi essa vitória. Ao início, o Henrique manteve o charme e a generosidade. Mas com o tempo, o interesse esmoreceu, como se tivesse gasto a última gota de verniz.

Primeiro foram os comentários casuais em vez dos elogios. Depois, os presentes pararam; as mensagens passaram a ser Compra qualquer coisa para ti. O tom tornou-se mais crítico: Se calhar devias perder uns quilos, Onde aprendeste a rir assim? Nem parece de Lisboa. O círculo de amizades foi considerado provinciano. Vi-o desaparecer, noites inteiras sem chegar a casa, ficando eu sozinha, perdida naquela casa luxuosa que ele arrendou para nós.

Quando tentei expor os meus sentimentos, ouvi: Tens o que querias. O que te falta?

Tentei desculpá-lo: Tem tanto trabalho, está cansado. Mas a verdade é que para ele, eu era apenas um brinquedo novo. Assim que perdeu a graça, perdeu o interesse.

Fui suportando tudo, com medo de admitir o pior que me enganei. Se admitisse que aquela vida brilhante era falaciosa, teria de admitir também que traí aquele que me amava de verdade. O Duarte, por mais pobre e inseguro que fosse, era genuíno. Ele queria-me pela pessoa que era, e não pelo que representava.

Agora, até as roupas caras perderam cor. Os acessórios de luxo parecem-me de plástico. O perfume forte, sinal de nova vida, passou a causar-me enjoo.

Comecei a olhar para as janelas e pensar: E se?. Nunca acabava a ideia, porque sabia que não havia resposta.

Nestes serões vazios na capital, percebi: toda a minha busca por estabilidade era só fachada. Sem uma pessoa lá dentro, nada fazia sentido.

Pensava vezes sem conta no Duarte. Via mentalmente as mãos dele, endurecidas do trabalho, mas sempre quentes e seguras. Lembrava aquele riso discreto, que me dava tanto conforto, os sonhos sem promessas, mas com esperança. E quando falava do nosso futuro, era com uma convicção real, como se o destino estivesse garantido se estivéssemos juntos.

***

Ao terceiro dia, andei até ao jardim onde costumávamos estar. Sentei-me no banco ao pé do velho plátano. Lembrei-me de quando ele disse: Gostava de ter uma casa com janelas grandes para que o sol entrasse logo de manhã e fosse sempre um lar cheio de luz. Ri-me então porque achei ingénuo. Agora, soava a poesia perdida.

Oiço uma voz familiar:

Carolina?

Era o Miguel, amigo de ambos, sempre disposto para uma boa conversa. Parecia surpreendido, mas sorriu logo:

Não esperava ver-te por cá. Está tudo bem?

Quis responder casual, mas a voz hesitou. Vim ver a mãe respondi, conseguindo sorrir por instinto.

Falamos um pouco; ele sugeriu sentarmo-nos. Miguel contou novidades, coisas do trabalho e da vila. Aquilo acalmou-me, como quem volta a uma conversa antiga.

Calou-se, e depois perguntou diretamente:

Já viste o Duarte?

Olhei para as folhas caídas, hesitei antes de responder. Pensei no olhar dele de ontem, nos gestos, nas palavras frias. Por fim, disse muito breve:

Sim. Ontem.

E então? quis saber Miguel.

Não quer sequer falar comigo murmurei, quase sem conseguir forçar a voz a sair. Odeia-me.

Ele suspirou, ficou um tempo em silêncio, a olhar para longe.

Sabes, demorou muito a recuperar disse ele, calmo. Tu desapareceste sem aviso. Foi como se lhe tivessem tirado o tapete debaixo dos pés.

Doía ouvir aquilo, mesmo sabendo que era verdade.

Sei, sei bem. Fui eu que falhei.

Miguel não julgou, não tentou convencer ou desculpar. Só esteve ali, dando-me espaço. Depois falou de novo, baixinho:

Tentou esquecer-te. Esteve com outras, mas nada pegou. Disse uma vez que só te amou assim. E depois daquela tua aparição em grande, arrebentou de vez. Chegou a afundar-se, achei mesmo que não se levantava.

Limitei-me a fazer que sim. Imaginei o Duarte a esforçar-se para continuar, a viver todos os dias como se eu nunca tivesse existido. Fiquei mais triste ainda não por ele ter sofrido, mas por ter sido eu a causa dessa dor.

Nunca pensei que fosse assim murmurei. Achei mesmo que fazia o certo. Queria só ter certeza de que a vida correria bem.

Miguel não discutiu isso comigo. Aceitou o silêncio, tal como o abraço, com aqueles modos simples, de quem não complica.

Ele talvez nem precise de saber que te arrependes disse, no fim. Carolina, deixa-o em paz. Se voltares a este ciclo, só fazes pior. Ele levou anos a reconstruir-se. Ontem, por tua culpa Olha, ligou-me completamente bêbado. Nunca o vi assim. Não estragues mais.

Tive de concordar. Nem uma palavra.

***

À noite, sentei-me junto à janela do quarto da minha mãe. O céu escuro salpicado de luzes amarelas da vila, como se fosse noite de festa. Mas não havia nada para festejar dentro de mim. Revivia tudo em loop, de olhos abertos tudo o que poderia ter sido, de tivesse ficado. Senti o quanto perdi: cada pequena vitória que podíamos ter partilhado, cada abracinho dado à pressa, cada piada sem graça.

No dia seguinte regressei a Lisboa. Arrumei a mala devagar, como a adiar uma despedida que sabia que era definitiva. A minha mãe, resignada, despediu-se com um beijo, aquele abraço longo e um Cuida de ti, filha.

Na estação, comprei bilhete para Santa Apolónia. Haveria tempo para pensar no caminho. No comboio, temi olhar para trás, medo de ver a minha infância inteira a desaparecer janela fora os prédios velhos, os parques, a padaria do bairro, as pessoas do dia a dia. Tudo ficou mais pequeno à medida que nos afastávamos.

E ali, lá atrás, ficou alguém que eu amei realmente. Alguém a quem não soube pedir perdão, nem me despedi decentemente. Agora, a porta fechara-se para sempre. Dizia a mim mesma que talvez não fosse o fim, mas sabia que era.

***

Seis meses depois, continuei em Lisboa. Trabalho, cafés com amigas, almoços de colegas, idas ao cinema. Por fora, nada tinha mudado mas por dentro, sentia que era outra. Já não fugia do passado, nem tentava esconder-me atrás de trabalho ou de compras. Aceitei tudo: o erro, a mágoa infligida, o arrependimento verdadeiro.

Aprendi a levantar-me e pensar A vida segue. Dizia a mim mesma: Fiz mal, mas já não posso voltar atrás. Sentia algum alívio, ainda que discreto; ao menos deixei de me esconder.

Uma tarde, a cozinhar o jantar, ouvi o telemóvel vibrar. Era um número estranho. Só uma frase, curta: Não te odeio. Mas também não consigo perdoar.

Fiquei sem ar por um segundo, agarrei o telemóvel com ambas as mãos e encostei-o ao peito. Não sabia o que aquilo queria dizer se uma despedida definitiva, se um ponto de reticências. Mas, pela primeira vez em muito tempo, fui capaz de sorrir entre lágrimas. Pelo menos, ele ainda pensava em mim, do outro lado do país. Alguém, apesar de tudo, deixou uma porta entreaberta na casa da nossa história.

Talvez isto não seja o fim. Talvez um dia voltemos a conversar em paz, sem desculpas forçadas, sem culpas. E talvez, um dia, consigamos seguir cada um o seu caminho mais leves, sabendo que fizemos parte um do outro.

Por agora, bastava-me saber que, algures, ainda existia uma pequena ligação. E isso era suficiente.

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