Rapariga esfomeada! — gritou o pai do noivo à porta do Registo Civil. Mal sabia ele que o filho nunca iria esquecer essas palavras

Pobreta! gritou o pai do noivo na conservatória, voz a ecoar, mais forte que o cheiro a cravos, lã molhada e cera fresca de chão. Mafalda, junto à janela, abraçava a pasta de documentos, encolhia os dedos para dentro do punho do seu casaco bege, onde o rebordo estava costurado com um ponto pequeno e cuidadoso.

João Pedro recordava esse ponto desde casa, enquanto observava Mafalda abotoar-se diante do espelho no corredor apertado. Viu e não disse nada. Naquele fio estava tudo o que ela detestava explicar: não havia dinheiro suficiente para um casaco novo, a mãe doente, a irmã mais nova ainda a estudar, e Mafalda sempre remendava antes de pensar nela própria.

A porta bateu.

António Manuel entrou como quem é sempre dono do espaço: alto, casaco azul-escuro, anel pesado na mão direita, sacudiu os flocos húmidos do colarinho, mirou a noiva do filho dos pés à cabeça, parando no punho.

E disse alto, quase trocista, tão alto que até a senhora do bengaleiro levantou a cabeça:

Coitadinha!

A palavra saltou sobre o azulejo, a estrutura metálica dos guarda-chuvas, o vidro na porta e ficou a pairar, como perfume barato num elevador vazio. Mafalda não se mexeu. Só apertou a pasta com mais força.

João Pedro hesitou ficou em dúvida se tinha ouvido mesmo o pai a dizer aquilo alto. Pensava que ele, como sempre, teria resmungado só para si. Mas a funcionária da conservatória folheou o livro rápido demais. A senhora do bengaleiro desviou o olhar. Ouviram todos.

Pai, disse João Pedro, a voz mais grave do que o costume.

António Manuel olhou para ele como quem se espanta que o filho fale.

O quê, menino? Disse alguma mentira?

Mafalda virou o rosto.

João, anda. Estão a chamar.

Disse serena, sem um tremor, o que tornou tudo pior. Não parecia esperar defesa. Era como se já soubesse que teria de passar por cima daquela palavra, como quem passa por uma poça nos degraus, com resignação.

Leonor, mãe de João Pedro, apressou-se até ao marido, endireitou-lhe o colarinho com gestos pequenos, como se fosse isso que estava mal, murmurou:

António, agora não.

Ele encolheu os ombros.

Quando, então? É para mentir?

João Pedro quis responder. Quis sequer agarrar Mafalda pela mão e levá-la embora dali, encarar o pai de modo a que ele nunca mais olhasse assim para aquela mulher. Mas a chamada já tinha começado, abriram-se as portas, e Mafalda avançou primeiro.

Ele foi atrás.

Foi isso que ficou a pairar na memória para sempre. Não a palavra em si. Mas o facto de o seguir.

Na sala estava abafado. As baterias lançavam um calor seco, as flores cheiravam excessivamente, o tapete branco entre as cadeiras parecia deslocado, como posto ali para outro par, com destino diferente.

Mafalda manteve-se direita. Enquanto a funcionária lia as palavras de praxe, não olhou para João Pedro nem para ninguém. Fixava um ponto acima do ombro da senhora dos papéis. Só quando precisava assinar, desceu ligeiramente o olhar, e os ombros tremeram fracamente, como se o punho do casaco repuxasse outra vez.

João Pedro assinou depressa. A mão firme. Chegou até a pensar que isso era bom assim não se traía.

Mas por dentro estava vazio.

Terminado o registo, depois dos aplausos tímidos, António Manuel foi o primeiro a chegar. Não a Mafalda. Ao filho.

Parabéns deu-lhe uma palmada seca nas costas. Agora desenrasca-te.

João Pedro encarou-o. Já percebia que o pai dava como encerrada a conversa. Foi dito, ficou dito. O mundo não caiu, a noiva não fugiu, a cerimónia não foi interrompida.

E havia nisso um peso pior.

A Mafalda, António Manuel estendeu a mão com atraso, como por obrigação.

Felicidades.

Obrigada, respondeu ela.

Sem perfume extra na voz.

À mesa do almoço de casamento, as coisas tornaram-se ainda mais difíceis. Escolheram um restaurante barato, rés-do-chão de um prédio antigo, toalha clara e saladas em taças grossas. Alguém enchia jarros com sumo de maçã, alguém abria refrigerantes, a tia de Mafalda ajeitava-lhe o colarinho do vestido, e Leonor tentava conversar ora com um lado, ora com outro, como se a sua voz pudesse apagar o sucedido.

António Manuel discursava muito. Sobre trabalho, sobre o modo como agora se casa à pressa, sobre a necessidade de atuar com cabeça e não só pelo sentimento. Evitava chamar Mafalda pelo nome a noite inteira, como se este também tivesse que ser ganho.

João Pedro apenas bebia água mineral e escutava o tilintar dos talheres nas loiças.

A certa altura, António Manuel ergueu o copo.

Aos noivos! Que não haja disparates, birras nem esperanças vãs. Família é saber o próprio lugar.

Mafalda dobrou o guardanapo com precisão, cantos certos. Só então João Pedro notou os dedos dela brancos de força.

E se o lugar não agrada? perguntou ele.

A mesa caiu num silêncio súbito.

António Manuel sorriu de lado.

Se não agrada, é porque não trabalhou o suficiente.

Ou talvez trabalhou demais a indicar aos outros onde ficar atirou João Pedro.

Leonor pousou o copo logo.

João

Mas era tarde para calar-se. A palavra lançada na conservatória não desaparecera, sentava-se entre eles, entre a taça de salada e o prato de bacalhau.

António Manuel baixou lentamente a mão.

Isso era para mim?

Era.

Debaixo da mesa, Mafalda tocou no joelho de João Pedro. Não apertou, não reteve. Só tocou. E ele calou-se.

Levaram o jantar até ao fim. Já na rua, com o frio a apertar e o céu a encher-se de uma névoa azulada sob os candeeiros, Mafalda perguntou:

Por que disseste aquilo agora?

E quando deveria ter sido?

No momento.

Ele nada respondeu.

Foram até ao ponto de autocarro, entraram num quase vazio, e durante a viagem Mafalda só olhou a janela escura, onde se reflectiam as suas faces e o branco do colarinho. João Pedro apertava nos punhos a pasta vermelha do registo, o canto magoando-lhe a mão.

E percebeu, finalmente, que há palavras que nunca se conseguem devolver, mesmo que nunca mais as repitamos.

A divisão arrendada veio em março. Quarto andar de prédio velho, corredor estreito, cozinha partilhada com outra família, a janela dando para a curva do elétrico. O radiador batia à noite, a torneira gotejava, o parapeito cheirava a humidade, e não havia esfregão que resolvesse.

Mafalda disse:

Não faz mal. É nosso.

João Pedro assentiu, carregava caixas, montava a cama, fixava prateleiras sobre a secretária, sempre com um só pensamento: ao pai, não recorreria. Nem por dinheiro, nem móveis, nem conselhos.

E assim foi.

Leonor vinha de vez em quando com um saco de mantimentos. Trazia arroz, maçãs, toalhas costuradas por ela, e olhava o filho como quem pede desculpa por todos.

O António perguntou como estão disse um dia.

João Pedro nem levantou da frigideira.

E que respondeste?

Que vivem.

Respondeste bem.

Leonor ficou à porta, depois foi à mesa, endireitou uma chávena e murmurou:

Ele não sabe agir de outro modo.

Mafalda levantou os olhos da costura.

Mas nós sabemos.

Desde aí, Leonor nunca perguntou mais sobre esse tema.

Passaram dois anos e nasceu Tomás. Pequeno, louro, olhar sério que fazia todos sorrir, como se já estivesse aborrecido com a vida. João Pedro levantava-se à noite, mesmo com o trabalho cedo, mudava biberões, embalava Tomás ao colo junto à janela ouvindo os primeiros elétricos.

Mafalda nesses meses pouco se queixava. Só uma vez, com Tomás choroso e papas a ferver-se pelo fogão, sentou-se no banco e ficou a observar o pano húmido nas mãos.

João Pedro aproximou-se.

Dá cá.

O quê?

O pano.

Ela passou-lho. Ele limpou o fogão, lavou a panela, e depois demorou-se a tentar segurar uma torneira que vazava outra vez, sem ter jeito nenhum para a coisa.

Mafalda observava-o do vão da porta.

Não tens de consertar tudo sozinho comentou.

E quem o faz, se não eu?

Há sempre o canalizador.

E com que dinheiro?

Ela suspirou.

Não falo de dinheiro.

Ele limpou as mãos no pano.

Eu sei do que falas.

Não conseguiram acabar a frase, porque ambos percebiam: não era a torneira, nem as panelas, nem o canalizador. Desde aquele dia na conservatória, João Pedro vivia como se tudo na casa devesse ser merecido. O banco de cozinha, o berço de Tomás, até o direito de ser marido de Mafalda.

Na semana seguinte, Leonor trouxe outra vez mantimentos, junto com um cobertor de bebé, novinho, azul, com fita branca.

Fui eu que comprei, disse depressa, no hall. Não foi o António.

João Pedro olhou o cobertor, a laçada da fita, e as mãos dela nas luvas cinzentas apesar do calor.

Mãe, porque é que justificas?

Ela tirou uma luva, alisou os dedos.

Só para o levares.

Levaram.

Serviu muito tempo. Tomás arrastava-o pelo chão, dormia sobre ele, cobria o urso de peluche, fazia tendas. Mafalda remendava os cantos com o mesmo ponto pequeno com que costurara o punho do casaco, e João Pedro notava o ponto antes da própria lã.

Quando Tomás fez dez anos, António Manuel apareceu com caixas grandes. Nessa altura, a família já tinha um T2 nos arredores. O bloco ainda cheirava a tinta, havia bicicletas nas escadas, da cozinha via-se um descampado onde prometeram um parque no ano seguinte.

Mafalda estava a cozer bolo de maçã. Tomás no chão, no mundo dos legos, João Pedro reparava uma porta de armário. Dia normal, até à campainha.

António Manuel entrou sem tirar o casaco, pousou as caixas na mesa:

Então, onde está o aniversariante?

Tomás demorou a levantar-se. Via o avô raramente e mantinha-se à distância, como quem se prepara para não gostar nem detestar.

Boa tarde.

Toma, é para ti.

A primeira caixa, um relógio grande, brilhante, caro de mais. Depois uma mochila marca famosa. E ainda fato de treino, todo listado.

Mafalda limpou as mãos no pano.

António, é demais.

Não é nada. Um rapaz tem que andar bem, e não tropeçou, olhou rápido para Mafalda e corrigiu: Não à toa.

João Pedro pousou a chave de fendas devagar.

Vieste para quê?

Pelo neto.

Pelos presentes ou pelo neto?

António Manuel olhou o filho.

Não é tudo igual, para ti?

Tomás ficou com a caixa do relógio na mão, sem coragem de abri-la de todo, como receio que se estrague algo.

Mafalda murmurou macio:

Tomás, agradece ao avô.

Obrigado, disse o menino.

E não pôs o relógio.

Ficou no armário quase um ano. João Pedro encontrou-o ao buscar as luvas de inverno, segurou na caixa, depois voltou a pô-la onde estava.

António Manuel telefonava ocasionalmente. Perguntava da escola, atividades, preferências. Mas cada conversa media a distância pelo preço das coisas, como se uma prenda suficiente apagasse passado.

Não apagava.

Leonor vinha mais. Sentava-se à cozinha, colocava guardanapos dobrados direitinho, saboreava chá em goles pequenos, perguntava a Tomás sobre leitura, contas, amigos. Nunca entrava na vida deles mais do que lhe era permitido. Talvez por isso era desejada.

Um dia, vendo Tomás a fechar-se no quarto, disse a João Pedro:

O teu pai mudou.

Mudou como?

Está mais mole.

João Pedro riu-se.

Mole? O que queres dizer?

Só mais velho.

Não é a mesma coisa.

Leonor rodou a chávena nas mãos.

Sei.

Não disse mais nada.

No outono de 2018, Mafalda deu por Leonor a falar mais baixo. Não mais devagar, simplesmente mais baixo, como a poupar o pouco de voz. Sentava-se mais vezes, abotoava o casaco devagar, dobrava guardanapos só depois de os sentir com a palma da mão.

João Pedro perguntava:

Mãe, já foste ao médico?

Já.

E então?

Disseram-me para ter cuidado.

Isso era tanto como nada e, ao mesmo tempo, tudo.

Nesses meses, António Manuel também mudou. Passava sozinho. Sentava-se à janela, via o pátio, falava pouco. O anel já não brilhava. Por vezes levantava-se só para aproximar a chávena de Leonor à borda da mesa, mesmo sem necessidade constante, como se já não soubesse permanecer quieto.

Uma noite, enquanto Mafalda arrumava pratos, Tomás fazia trabalhos no quarto, António Manuel demorou-se à porta.

João Pedro.

Sim.

Lá naquele dia na conservatória

O filho ergueu o rosto.

António Manuel olhou para as próprias mãos.

Não devia.

João Pedro ficou ali, à espera. Pela primeira vez em anos, esperou palavras diretas e não evasivas. Mas António Manuel não concluiu. Nem nomeou Mafalda, nem mencionou aquela palavra, nem o próprio rosto daquela manhã.

Não devia, repetiu e pegou na maçaneta.

É só isso? retorquiu João Pedro.

António Manuel virou-se.

O que queres escutar?

Foi ali que ficou tudo suspenso.

Um mês depois, Leonor faleceu.

A casa ficou estranha, nem barulhenta, nem silenciosa, simplesmente vazia, como quarto sem armário e o retângulo nítido nas paredes. António Manuel sentava-se na janela da sua casa, a arranjar uma cadeira invisível à mesa, sem ninguém a incomodar.

Um dia, Mafalda levou-lhe sopa e toalhas limpas. Voltou tarde.

Então? perguntou João Pedro.

Mafalda tirou o casaco, demorou a pendurá-lo no cabide.

Está velho.

Melhor definição não existia.

Desde esse dia, João Pedro passou a ir ao pai uma vez por semana. Medicineira, compras, só verificar, nada de especial. As conversas curtas: sobre o tempo, a pressão, a luz do átrio. Nenhum tocava no que importava. E aquilo ganhava corpo: havia entre eles não só passado, mas hábito de evitá-lo, como fissura no chão.

Até 2025, Tomás tornou-se adulto, tanto que João Pedro viu-lhe a determinação. Trabalhava, alugava casa junto ao centro, usava um casaco escuro com gola gasta, falava direto, firme. Herdara a contenção de Mafalda, a memória de João Pedro.

Em novembro, apresentou-se em casa com alguém.

Carolina entrou primeiro no corredor, tirou o casaco cinzento, sorriu a Mafalda, estendeu-lhe logo uma caixa de pastéis, como velha conhecida. Professora do 1° ciclo, voz clara, sem rodeios, os dedos ainda manchados de giz, mesmo depois de lavados.

Mafalda viu logo. Sorriu-lhe.

Força. Vai haver chá.

Tomás ficou ao lado, a rodar as chaves no bolso. João Pedro notou o gesto, recordando-se imediatamente do próprio gesto naquele velho fevereiro da conservatória.

António Manuel chegou mais tarde. Já sem bengala, mas lento a tirar o cachecol. Ao ver Carolina, parou um momento. Não disse nada. Só olhou o casaco dela, o punho, e o ponto miúdo, meticuloso, no avesso da manga.

João Pedro antecipou antes de qualquer palavra. O ambiente de repente voltou anos atrás; o aroma do chá cedeu ao de lã molhada e cera.

Esta é a Carolina, anunciou Tomás. Vamos casar em fevereiro.

Mafalda ficou imóvel de chaleira na mão.

António Manuel sentou-se à mesa, pôs as mãos ao lado do prato e perguntou:

Trabalhas onde?

Na escola, respondeu Carolina.

E pagam bem por lá?

Tomás fitou o avô.

Chega.

Não perguntei a ti.

Carolina não desviou o olhar.

Dá para viver.

Ele assentiu com a cabeça, pesado:

Dar, dá Quando se é novo, diz-se muito isso.

João Pedro pousou a colher.

Pai.

Ele ergueu o olhar.

Não disse mais nada.

A mesa toda noite tensa. Não rebentou mas tilintava. António Manuel foi polido. Até de mais. Questionava sobre a escola, as crianças, os pais da Carolina. Ouvia, assentia. Mas João Pedro percebia como olhava, repetidas vezes, o punho, tentando adivinhar no fio todo o futuro daquela menina.

Quando saíram, Mafalda lavava as chávenas em silêncio. A água corria fina. Cheirava a baunilha e chá.

Viste? perguntou João Pedro.

Vi.

Ele recomeçou.

Mafalda fechou a torneira.

Não. Não recomeçou.

Então, o quê?

Enxugou as mãos.

Estava a medir.

João Pedro ficou à janela. Lá fora, alguém ligava o carro, faróis amarelos na estrada húmida.

Não vou deixar disse.

Não deixar o quê?

Não respondeu. Mas ela percebeu.

Em janeiro, António Manuel ligou.

Passa cá.

João Pedro apareceu à noite. No ar: cheiro a rebuçados de menta, mobília usada, roupa engomada. Na parede, a foto de Leonor perante a cerca da casa de campo. A cadeira era a mesma que ele sempre ajeitava.

Sobre a mesa, um envelope.

Para o Tomás, disse o pai. Pelo casamento.

Dinheiro?

Sim.

João Pedro não tocou.

Entrega tu.

António Manuel sentou-se pesado.

João Pedro, não sou inimigo do miúdo.

Nem disse.

Mas pensas.

Penso é que sabes estragar o maior dia, com uma palavra só.

O pai olhou fixo a mesa.

Levas isso ainda contigo?

E tu não?

António Manuel ergueu a vista. Os olhos, já sem dureza, só cansaço e teimosia.

Estive mal.

Foste arrogante.

Talvez.

Não talvez. Foste.

No silêncio que restou havia medida. Contava cada suspiro, cada queixa guardada.

António Manuel passou a mão sobre a mesa.

Cresci diferente. Medíamos as pessoas pelo que tinham atrás. O pai, o emprego, a roupa, o falar. Achava que era o certo.

E agora?

Respondeu, por fim.

Agora vejo que olhei demais para o pano e pouco para as pessoas.

João Pedro desviou-se para a foto da mãe.

Tarde demais.

Tarde, concordou António Manuel. Mas ainda não perdido.

O envelope ficou. Ao sair, João não o levou. Já de casaco pronto, na porta, ouviu:

Filho.

João Pedro virou-se.

Não me deixes dizer nada a mais.

E isso era quase sincero. Quase.

No dia catorze de fevereiro de dois mil e vinte e seis, a neve caía desde manhã. Pequena, fria, agarrando-se aos colarinhos e derretendo devagar. A nova conservatória, moderna, cheia de vidro, portas amplas e vasos altos à entrada. Lá dentro, o mesmo cheiro: lã molhada, flores, ar quente.

João Pedro chegou cedo. Levava a pasta de documentos de Tomás, nova, bordô-escuro. Mas os dedos agarravam-na com a mesma força do passado.

Mafalda acertava o colarinho de Carolina. Tomás caminhava da janela à porta, simulando calma. Carolina trazia novamente o punho cosido, desta vez num casaco cinzento com cinto macio. Vê-se que também ela não trocava um casaco por uma simples linha remendada.

João Pedro olhava e sentia o frio de sempre subir-lhe por dentro. Não o da rua o outro.

António Manuel chegou por fim. Casaco escuro, sem anel. João Pedro percebeu logo, era de propósito. Por respeito. Ou memória.

O pai parou na porta, olhou de Tomás para Carolina e murmurou:

Está bonito aqui.

Mafalda assentiu.

Está.

Tomás aproximou-se do avô.

Olá.

Olá.

Apertaram as mãos. Normais. Nem calor, nem espinhos. Por um momento, João Pedro acreditou que aquele podia ser só um dia normal, sem frases a mais, sem sombras.

Mas António Manuel voltou a olhar o punho. E João Pedro viu-lhe o queixo vacilar dentro dele, já a frase de sempre, gesto pronto, alma acostumada a pesar as costuras antes das pessoas.

Era suficiente.

João Pedro aproximou-se e interpostou-se, entre o pai e a porta.

Não, disse baixo.

António Manuel olhou-o.

Não o quê?

Não digas nada.

Nem ia dizer.

Então, fica e cala-te.

Tomás virou-se.

Pai?

Mafalda parou. Carolina baixou o ramo de cravos.

António Manuel empalideceu de consciência, não fraqueza.

Queres mandar em mim?

João Pedro sustentou-lhe o olhar.

Tardei a fazê-lo uma vez. Agora é a tempo.

O pai endireitou as costas quanto pôde.

Já não sou esse homem.

Mas eu sou o filho que ouviu.

A neve fora engrossava. Gente murmurava no corredor. Lá dentro, uma porta chamava outro casal.

António Manuel baixou a cabeça.

Pensas que não me lembro?

Lembras, disse João Pedro. Mas não muda, se falares sempre antes de sentires.

O silêncio perdurou. Depois, António Manuel fez o que João Pedro nunca esperou. Não rebateu, não acusou dramatismo, não sofreu. Só recuou um passo à parede e sentou-se no banco junto à entrada.

Vão, pediu. Este é o vosso dia.

Tomás olhou de um para outro.

Avô

António Manuel ergueu a mão.

Vão. É vosso.

Carolina suspirou. Mafalda foi a primeira a tocar João Pedro no cotovelo. Não prendeu. Só tocou. Como há muitos anos sob a mesa do casamento.

O significado era novo.

Entraram na sala luminosa, alta, diferente da antiga, de tapete branco, mas as flores cheiravam igual e a neve derretia no peitoril.

A funcionária leu as fórmulas. Tomás respondeu seguro. Carolina sorriu escrevendo. João Pedro olhou para as mãos deles e pensou não em alianças, nem fotografias, nem convivas. Pensou em portas.

Que, às vezes, andamos a vida toda para atravessar a mesma porta duas vezes.

Quando tudo acabou, quando os noivos assinaram e se abraçaram, Mafalda limpou discretamente uma lágrima, Tomás riu-se, Carolina apertou o ramo, e alguém bateu palmas com aquele calor que merece o lar.

João Pedro saiu primeiro.

António Manuel ainda sentado. Mãos caídas, ombros baixos. Sem anel, pareciam pequenas. O gorro ao lado, neve liquefazendo-se no chão.

Levantou a cabeça.

Então?

Está feito.

Casaram-se?

Casaram.

Ele assentiu, olhando as portas fechadas.

Pronto.

João Pedro sentou-se, perto, mas não distante.

Silêncio breve.

Chamei-lhe aquilo, murmurou António Manuel. E ela nunca mo cobrou. Nem deixou de me servir chá.

João Pedro observou-lhe as mãos.

Porque era melhor que nós.

Sei.

Na voz não havia dureza, só cansaço e uma revelação tardia impossível de eliminar.

Fizeste bem disse. Hoje.

João Pedro voltou-se.

Devia tê-lo feito antes.

Eras novo.

Não, era fraco.

O pai esboçou um sorriso amargo.

Eu era burro.

Talvez, finalmente, a primeira palavra certa ninguém quis completar.

As portas abriram-se. Tomás e Carolina vieram. No punho do casaco dela reluzia a mesma linha. Já não feria os olhos. Estava apenas lá, como cicatriz antiga que não se apaga, mas sustenta o tecido.

António Manuel levantou-se, com esforço. E, quando Carolina chegou ao lado, disse:

Parabéns, Carolina.

Ela acenou.

Obrigada.

Ele hesitou um segundo, acrescentou:

O teu punho está muito bem cosido. Trabalho sério.

João Pedro estranhou, mas compreendeu. O velho não procurava beleza nas palavras, só conseguiu ir até àquele sítio onde estragara tudo e ali tentou estar diferente.

Carolina sorriu.

Foi a mãe que coseu. Sabe fazê-lo.

Nota-se, disse António Manuel.

Mafalda olhava-o, tranquila, sem vitória, sem contas antigas. Só com aquele olhar limpo de quem aprendeu a não esperar nada além do essencial.

A neve lá fora quase acabou.

Tomás pegou no gorro do avô para este fechar o casaco. João Pedro segurou a porta. No corredor o cheiro era ao mesmo tempo o de sempre: lã molhada, cravos. Mas agora, não era aroma de vergonha era cheiro de um dia que se cumpriu.

Ao saírem, Mafalda parou no degrau, ajeitou o cachecol de Carolina, e João Pedro, olhando-lhe as mãos, reconheceu o velho ponto no rebordo da luva.

Lembrava-se desse ponto há demasiado tempo.

Mas desta vez, não caminhou atrás.

Desta vez, ficou ao lado.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

13 + ten =

Rapariga esfomeada! — gritou o pai do noivo à porta do Registo Civil. Mal sabia ele que o filho nunca iria esquecer essas palavras
Алина, осиновила 2 момчета, а след това Бог ѝ изпрати дъщеря!