O Direito ao Silêncio

O perfume no carro era demasiado intenso, adocicado, envolvente. Leonor abriu a janela apenas o suficiente para deixar entrar o ar quente, misturado com o cheiro a terra e alcatrão derretido. Junho este ano chegara escaldante, pegajoso, sem lembrança de chuva.

Outra vez calada disse Miguel, sempre de olhos fixos na estrada.

Não estou calada. Estou a pensar.

Pensar em quê? Está tudo pronto, tudo pago. Descansa, Leonor.

Ela olhou para as mãos dele no volante: mãos elegantes, tratadas, unhas curtas e limpas. Mãos de arquiteto, pensou. Nunca entendeu como é que as mãos de um arquiteto parecem nunca tocar no pó do mundo.

Miguel, a minha mãe no vestido que comprou sabes, foi às feiras comprar. Esforçou-se tanto Mas os teus convidados

Os meus convidados são pessoas normais.

Pessoas normais têm maneiras diferentes de olhar para quem não é do círculo deles.

Ele suspirou pelo nariz, breve, quase impercetível. Leonor já conhecia aquele sopro há dois anos. Era o sinal de que ele achava que lhe estava a explicar o óbvio, de novo.

Leonor, vamos para o nosso casamento. Ao menos hoje não procures problemas onde eles não existem?

Eles existem. Eu sinto.

Tu sentes sempre alguma coisa.

Não era elogio. Mais um cartaz passou pela janela: Restaurante O Trigal de Ouro, 2 km. Leonor ajeitou a renda da grinalda, finíssima, rematada de pequenas pérolas brancas uma escolha da Dona Elvira no atelier da Avenida da Liberdade. Leonor não discutiu. Tanta coisa lhe passava ao lado nos meses antes da boda, ocupada a acreditar que tudo ficaria bem se não pensasse muito.

O pai está nervoso murmurou. Nunca foi a sítios assim.

Leonor.

O quê?

Basta, por favor.

Caleu-se. Encostou a fronte à janela. Os campos despontavam verdes e densos, cheios de vida. Muito além, ficava a aldeia da sua infância, vindas das janelas azuis onde a avó Prazeres bordava em bastidores antigos, dizendo: “Leonor, a agulha fala connosco. Ouve, responde-te em silêncio”.

Miguel parou à porta do restaurante. Saiu, abriu-lhe a porta era exímio em gestos bonitos, palavras exatas nos momentos certos. Leonor pegou-lhe no braço com um sorriso delicado, porque, depois de tudo, que outra coisa havia para fazer?

Os pais já estavam dentro. Leonor viu-os logo ao entrar no salão: Maria das Dores e António Silveira, colados à parede, dois pardais perdidos numa festa de pavões.

A mãe trazia um vestido azul-escuro de renda, saia a cair-lhe pelos tornozelos, o cabelo enrolado com cuidado, os brincos miúdos de safira que o pai lhe dera nos vinte e cinco anos de casados. Segurava a pequena mala com as duas mãos, quase encolhida, os olhos presos no lustre de cristal como crianças diante de prendas impossíveis.

O pai vestia o fato de sempre, escuro, largo nos ombros, comprado numa feira nos anos noventa; vincos aguçados nas calças, gravata torta. Tocou-lhe de leve no ombro, sem a desarrumar.

Minha filha, disse, só isso. Porque em homem de poucas palavras, até um “parabéns” parece demasiado.

Dez minutos depois, Dona Elvira entrou. Atravessou o salão como quem sabe que todos olham para si: vestido de seda grená, fios de pérola, cabelo preso com precisão. Cinquenta e cinco anos, mas passaria por menos, e ela sabia.

Leonor! beijou o ar ao lado do rosto da noiva. Que maravilha de menina. Miguel, não a largues.

Ele sorriu. Era o sorriso social, que Leonor conhecia tão bem dos almoços de negócios.

Dona Elvira virou-se para os pais de Leonor com um olhar sereno e perscrutador. Não era soberba, era avaliação um scanner amável e inevitável.

Dona Maria das Dores. Senhor António. Muito gosto em conhecê-los. O Miguel falou tanto de vós.

Maria das Dores sorriu e acenou. António apertou a mão estendida com firmeza.

Na mesa, sentaram os pais de Leonor na ponta afastada, ao lado de um primo de Miguel e da mulher, condenados a uma conversa privada sobre remodelações de apartamentos em Benfica.

Leonor observava de longe a mãe comia devagar, a medo, escolhendo cada talher; o pai bebeu um copo de aguardente e perdeu-se a olhar a noite pela janela. De vez em quando trocavam olhares, tão cheios de tudo que Leonor desviava os olhos, sem coragem.

Discursos, brindes. Primeiro o padrinho de Miguel, ruidoso e de relógio caro. Depois a suposta amiga da noiva Marta, uma rapariga de Lisboa, dos cursos de costura. Depois outros, lembranças e frases feitas. O champanhe era bom, a comida arranjada. Os empregados moviam-se suaves, discretos.

A meio da noite, Dona Elvira ergueu-se, microfone na mão. O salão calou.

Tomo a palavra, começou, voz firme, treinada. O brinde de mãe do noivo é especial.

Alguns riram, cúmplices.

O Miguel sempre foi homem de coração grande, pausou ao jeito de quem fala para uma plateia. Ainda miúdo, trazia gatos para casa e ensinava os mais novos. Isso tem dele e de mim, claro, uma gargalhada calculada. Quando apresentou a Leonor, surpreendi-me. O Miguel podia enfim, nunca lhe faltaram opções. Escolheu-na a ela. Uma menina vinda de aldeia pequena, família simples. Isso é a verdadeira generosidade do coração.

Leonor sentiu Miguel enrijecer ao seu lado. Mas ficou parado.

Os pais da Leonor Dona Elvira alongou o olhar para a ponta da mesa são gente trabalhadora. Respeitamos o trabalho. Limpar, conduzir, são profissões necessárias. Cada um no seu valor. E sejamos sinceros: não é qualquer mãe que, lá da terra, se despede da filha para uma vida diferente. Coragem. Até invejo essa simplicidade. Quando não se exige nada do mundo, a vida é mais leve. Não é assim?

Risadas baixinhas, mal asseguradas. Muitos só olharam o prato.

À Leonor e ao Miguel, levantou o copo. Que nunca esqueças, Leonor, de onde vieste. Isso faz-te especial.

O cristal ressoou.

Leonor não provou o champanhe. Ficou com o copo suspenso, olhos perdidos em frente. Sentia no peito uma frieza funda, como uma promessa de inverno antes de cair o primeiro granizo.

Olhou para a mãe.

Maria das Dores sorria. Era o pior sorriso de toda a noite: rígido, parado, a máscara de quem engole um insulto embrulhado em laço e não encontra nem força nem direito para responder.

O pai fitava a mesa. A gravata sempre torta.

Leonor pousou o copo. E levantou-se.

Posso também eu dizer umas palavras? não falou alto, mas todos ouviram.

Miguel virou-se para ela, nos olhos um reflexo de receio, talvez súplica.

Leonor aceitou o microfone do empregado.

Quero agradecer a todos por estarem hoje aqui a voz não tremia, surpreendeu-se até. Mas agradeço sobretudo aos meus pais. À minha mãe, Maria das Dores, que há trinta anos limpa casas alheias e mantém a nossa casa mais limpa que qualquer restaurante. Ao meu pai, António Silveira, que em qualquer condição pega no carro e percorre quilómetros para que a família nunca falte a nada. Eles vieram, não porque lhes deram permissão. Vieram porque são meus pais. Porque sou filha deles. Não a menina da província, não um objeto de caridade. Sou a filha deles.

O salão ficou em silêncio. Dona Elvira suspendeu o copo no ar, olhava Leonor com uma expressão estranha, indecifrável.

Dignidade, continuou Leonor, não depende da mesa onde jantamos nem do carro que guiamos. Sei-o, vi todos os dias nas pessoas que agora chamaram de simples. Simples repetiu ela, baixo, medindo a palavra. Simples como pão. Como água. Como honestidade.

Devolveu o microfone: não lançou, pousou devagar.

Depois tirou a grinalda. O tule branco e leve caiu sobre a toalha, ao lado do copo intacto.

Miguel, chamou-o apenas pelo nome. E olhou-o.

Ele não levantou os olhos.

Era tudo.

Leonor foi ter com a mãe, pegou-lhe na mão, acenou ao pai. António Silveira ergueu-se devagar, compôs o casaco.

Saíram os três juntos. Sem pressas. Erguidos.

Na rua estava calor e cheirava a jasmim. De uma casa próxima vinha música simples, de concertina, música de verão.

Leonor começou a mãe.

Não digas nada, mãe. Está tudo bem.

E agora, filha?

Vamos para casa, respondeu Leonor. Pai, como estás?

António despenteou a gravata, sorriu de lado.

Em perfeito estado, filha.

Entraram no velho Fiat dos anos oitenta, cor de asfalto molhado, tão velho como ela. O pai deu à chave. O motor tossiu e assentou-se ao fim de um instante.

Três horas até à aldeia da infância.

A mãe adormeceu no banco de trás. O pai calado. Leonor olhava os campos pela janela só silêncio, espesso, onde o pensamento mergulha e se perde.

Já de madrugada, quando a aurora roçava o horizonte, o pai perguntou:

Vais arrepender-te?

Leonor ponderou.

Não sei.

Ele acenou. Não tornou a perguntar.

A casa cheirava a madeira antiga e à alfazema do jardim. A gata Tareca sentada nos degraus da entrada, olhar de quem sabia que regressariam.

Na primeira semana, Leonor quase não saiu do quarto. Não, não por vergonha ainda que ali vivesse, sob a pele, denso e estranho mas porque não sabia o que fazer de si. Cinco anos de vida citadina, dois anos com Miguel, tudo terminara em poucas horas, como quando alguém desliga a televisão.

Desligou o telemóvel ao segundo dia. Doze chamadas de Miguel no primeiro dia, depois, talvez, desistiu. Não voltou a ligar para confirmar.

A mãe trazia-lhe chá, não perguntava nada era coisa de mães: saber tornar o silêncio mais leve, só pelo modo de estar presente.

O pai passou dias a arranjar a vedação da horta. O compasso do martelo era seguro e ritmado. Leonor escutava da janela e pensava: é assim, só se começa.

Ao oitavo dia levantou-se antes de todos. Subiu ao sótão.

Lá, numa arca velha sob revistas antigas, encontrou os bastidores da avó Prazeres: madeira gasta e lisa, polidas de décadas, linhas de todas as cores, alinhadas com capricho, como se a avó tivesse saído só por um instante.

Trouxe tudo para a sala, instalou-se junto à janela.

A mãe entrou com o bule, deteve-se na ombreira.

São da avó.

Sim.

Ela ensinou-te bem. Lembras-te, filha?

Tudo.

Pegou na agulha, enfiou a linha. O primeiro ponto saiu torto, trémulo. O segundo mais firme. O terceiro já era dela.

Bordava desde criança, Leonor. Estava-lhe no sangue. A avó dizia que ao bordar, nunca se está calada, que cada ponto é palavra, cada cor um sentimento. Silêncio só fora, nunca dentro.

Nos primeiros dias deixou as mãos mandarem linha vermelha, azul, dourada. Da confusão nasceu folha, depois um pássaro, depois uma flor de oito pétalas. A avó dizia: dá proteção.

A vizinha, Dona Etelvina, apareceu ao fim de oito dias, desculpando-se por vir devolver uma tesoura antiga.

Deixa espreitar, Leonor pediu ela, apontando aos bastidores.

Leonor mostrou.

Dona Etelvina apreciou tempo.

Isto devias vender. Não guardes numa gaveta.

Quem vai querer?

Eu quero. E sei quem queira. Quanto pedes por este pássaro?

Leonor ficou sem jeito.

Oh Dona Etelvina, então

Não me tenhas pena. Estou a comprar, não a esmolar. Lembra-te disso.

Distinguir piedade de apreço verdadeiro faz toda a diferença.

Em setembro, Leonor tinha seis peças prontas: dois panos de linho decorados, uma peça de parede com flores do campo, um quadrozinho com o bosque de memória, duas toalhas com pássaros.

Dona Etelvina comprou um pássaro e um pano. Leonor aceitou pouco dinheiro, quase simbólico. Mas era outra coisa dinheiro vindo do seu trabalho, das suas mãos.

O João apareceu no fim do mês.

Leonor estava à janela com os bastidores. A mãe chamou-a: Leonor, tens visita.

Pela porta coaxava um homem de trinta e cinco anos, jaqueta simples, botas. Alto, moreno, mãos de trabalho, não de gabinete.

Boa tarde. Sou o João, dos Olivais. Ouvi dizer que fazes panos de linho com mão de artista.

Faço, sim.

Queria um pano grande, para a minha mãe. É o aniversário dela em Novembro. Gosta de coisas feitas à mão, não de loja.

Leonor fitou-o. Homem simples, olhar direto, sem altivez.

Entre. Mostro o que há pronto. Ou faço ao gosto.

João demorou-se a examinar os bordados. Tocava nas linhas, nos pontos, valorando o tempo.

Este padrão? apontou para um com vermelho e preto.

É do Alentejo. Símbolos de fertilidade e casa segura. Aprendi com a avó.

É daqui?

Sim. Vivi uns anos na cidade. Voltei cá.

Ele acenou, não perguntou mais. Leonor agradeceu o silêncio.

Este e aquele, por favor. Um para a mãe, outro para minha filha, Matilde. Oito anos, apaixona-se por tudo o que seja arte.

Como se chama ela?

Matilde.

Discutiram preço. João não regateou, nem fingiu achar caro, e Leonor agradeceu por isso.

À porta, perguntou:

Só faz para conhecidos ou posso encomendar outra vez?

Claro que pode.

Então, volto. A Matilde adora cavalos. Se conseguir, fazia-lhe um?

Ela sorriu.

Faço, sim.

João reapareceu duas semanas depois, com a Matilde. Menina tímida, cabelo escuro, olhos grandes, atentos. Agarrou-se logo aos bastidores inacabados de Leonor.

Isto é um cavalo?

Ainda não. É só o começo.

Quando vai ser cavalo?

Dentro de uma semana, se quiseres vir ver.

Matilde acenou, solene.

João bebia chá com Maria das Dores, falando do tempo, das colheitas, das folhas do Outono.

Isto não é só bonita, Leonor. Sente-se a alma comentou João. Já pensou vender mais longe? Há sítios na Internet. A minha falecida vendia cerâmica. Corria bem.

Leonor pensou um pouco.

Não sei por onde começar.

Ajudava-a, se quiser. Tenho um amigo que percebe disso.

Porquê?

João olhou, calmo.

Porque é desperdício ficar só aqui.

Disse-o simples, Leonor gostou disso.

Outubro foi de trabalho calado. Leonor bordava oito horas por dia. Matilde vinha vezes com o pai, outra só, de bicicleta, campo fora. Sentava-se e ficava a ver os pontos surgirem, num silêncio bom, de criança.

João criou-lhe uma página online. Leonor colocou fotos, breves descrições. Primeira encomenda três dias depois, de fora do distrito. Sete até final do mês.

Quase não pensava em Miguel quase. Às vezes, à noite, era como amargura de remédio. Via o rosto dele na penumbra, os olhos abaixados, o silêncio não as palavras, mas o vazio delas. Isso doía mais.

Em novembro, com o chão a gelar, apareceu um jipe alemão, enorme para a aldeia.

Leonor viu pela janela.

Achou que se tinham enganado.

Mas saiu Dona Elvira. Casaco comprido, botas altas, logo a enterrar no lodo. Atrás, Miguel.

Leonor não abriu a porta. O pai saiu, ficou no alpendre.

Bom dia disse Dona Elvira. Queríamos falar com a Leonor.

Ela está em casa.

Pode chamá-la?

Pausa.

Leonor! Estão aqui para ti.

Leonor saiu, junto ao pai. Usava um velho pulôver e calças de ganga, cabelo entrançado, dedos cheios de calos de linha.

Leonor, começou Dona Elvira, e a voz era diferente da do restaurante, mais calorosa, até suplicante. Viemos falar. Com calma.

Fale.

Podemos entrar?

Ela espreitou Miguel; ele fitava a sebe, afastado.

Fale aqui.

Dona Elvira respirou fundo, dançou nos saltos presos na lama.

Sei que aquela noite correu mal. Talvez tenha dito de mais. Tu és inteligente, sabes que na vida há palavras a mais, emoções a mais. Não é razão para destruir o que se construiu.

O que se construiu?

A tua vida com o Miguel. A casa está pronta, bonita. Trabalho também te arranjámos, num atelier de costura, como criadora, não simples costureira.

Leonor silenciou.

E carro, acrescentou Dona Elvira, último trunfo.

Miguel olhou para ela.

Leonor pensa bem. Podemos começar de novo.

Ficou calado, disse Leonor.

Eu?

Lá no restaurante. Baixaste os olhos e ficaste calado.

Ele abriu a boca e fechou novamente.

Não soube o que dizer.

Eu soube. Disse. Sem ti.

Silêncio. Um corvo crocitava ao longe. O pai erguido, ombro ao lado do dela, tinha o peso de muralha.

Dona Elvira Leonor falou serena desejo-lhe saúde. Ao Miguel também. Mas não volto. Não é orgulho, nem mágoa. Agora sei o que quero.

E o que queres?

Viver à minha maneira.

Dona Elvira encarou-a por uns segundos. Acenou, não soberba, mas como quem aprende uma lição.

Pois.

O jipe arrancou de novo, quase atropelando o canteiro.

O pai resmungou:

Vai-se lá saber…

Voltaram para dentro. A mãe à porta, emocionada.

Fizeste bem, filha.

Leonor sentou-se à mesa de trabalho, pegou na agulha. Continuou o bordado.

Dezembro e Janeiro passaram de trabalho e encomendas. Em Fevereiro, vinte e três encomendas de várias cidades. De Braga recebeu carta de uma mulher a agradecer, dizendo que o pano fora o maior presente dos seus vinte anos de casamento porque era vivo.

João passou a vir todas as semanas. Com a Matilde ou sozinho. Nunca de mãos vazias: um jarro de leite, um favo de mel, ou simplesmente lenha à porta.

Conversavam. Da filha, de saudades da mãe dela, morta há anos, de projectos, do festival de artesanato prestes a abrir no concelho.

Tens de ir lá dizia João. Pessoas gostam destas coisas.

Tenho medo.

De quê?

Do que digam: rapariga da aldeia, que graça.

Ele olhou, com seriedade.

Se disserem, são tolos. O teu trabalho vale mais que tudo isso.

Em Fevereiro, arriscou a feira.

Levou oito peças. Expôs sobre linho puro. Esperou.

Ao fim de cinco minutos, ali estava a primeira cliente: senhora de idade, saco ao ombro.

Feito por ti?

Por mim.

Vê-se. Isto tem alma.

Comprou dois panos e um quadro.

No fim do dia, ficavam-lhe três peças. No bolso, dinheiro não salário, nem oferta, mas o valor do seu trabalho.

No regresso, João ao volante do camião pequeno.

E então?

Correu bem.

Riu-se. Ele também.

Matilde sentava-se no meio, mordendo um bolinho.

Leonor, ensinas-me a bordar um pássaro?

Ensino, sim.

Lá fora nevava. A estrada era branca, desaparecendo na noite. Leonor olhava para diante, para o brilho dos faróis, sentindo-se, por dentro, cheia de algo novo fogo manso numa lareira fechada.

A Primavera trouxe o que não se anuncia de rompante.

João apareceu uma noite, fora do hábito. A mãe encontrou desculpa para desaparecer na cozinha as mães têm sempre antenas.

Sentou-se frente a Leonor. Silêncio longo.

Eu sou de ir direto ao ponto, tu sabes. Não trago pressas. Mas gostava que soubesses contigo, e a Matilde contigo, sinto-me bem. Não proponho nada de precipitado. Só queria que soubesses.

Leonor olhou-lhe as mãos: tranquilas, sem pressa.

Sei.

E?

Também me sinto bem.

Ele assentiu. Levantou-se.

Então, volto amanhã. Se quiseres.

Quero.

Em maio, Leonor mudou-se para os Olivais.

Casaram em Junho, um ano depois daquele primeiro junho. Leonor reparou no acaso, mas guardou só para si.

Festejaram à beira-rio. Mesas sobre a relva, toalhas de linho. A mãe de Leonor fez empadas e tartes de maçã, vizinhas trouxeram sobremesas, a mãe de João Dona Antonieta, baixinha, rija, olhos risonhos comandou a cozinha sem dar descanso a ninguém.

Poucos convidados. Os pais de Leonor, vizinhos da aldeia, família de João, Dona Etelvina. Matilde num vestido azul, carregava um ramo de flores silvestres como se fosse tesouro.

O acordeonista, Mestre António, animou a noite. Já velho, bigode ruivo, música que fazia dançar até as pedras.

Leonor levava um vestido branco de linho, bordado por ela todo o inverno: pássaros, folhas, a flor-de-oito-pétalas. Grinalda também feita pelas suas mãos, com hastes finas de azul e folhas pequenas.

Não era a grinalda da loja, mas uma sua, de verdade.

António Silveira levou-a ao rio, onde João esperava, o rosto sério, emocionado. A mãe procurou um lenço na mala, mas logo recordou que havia mais empadas para trazer.

Dona Antonieta, ao acolher Leonor, disse-lhe baixinho:

Eles precisam de ti. A Matilde e o João. Mas, o mais importante, tu precisas de ti. Guarda isso.

Leonor abraçou-a.

O acordeonista tocou baixinho, as pessoas dançaram na relva. João segurou Leonor com a delicadeza de quem sustém algo valioso. Matilde dançava sozinha, orgulhosa e feliz.

O rio brilhava. O sol descia, cor de cobre, tudo parecia dourado e inteiro.

Maria das Dores sentava-se ao lado do marido, mão dada, olhar húmido pousado na filha. Não chorava apenas olhava.

Era uma daquelas histórias impossíveis de inventar, apenas de viver.

No Outono, Leonor abriu um atelier.

João transformou a antiga arrecadação. Ficou luminosa, aquecida, a janela aberta a sul. Instalou uma mesa longa, estantes cheias de linhas e tecidos, boa luz. Matilde desenhou um passarito na porta, vermelho e pernalta, mas vivo.

Leonor aceitou duas aprendizes: a Beatriz, filha adolescente de vizinhos, olhos brilhantes; e Dona Olga, professora reformada, toda uma vida sem nunca aprender a bordar, por falta de tempo.

Abriram uma loja pequena junto ao atelier. Encomendas online, turistas da serra, gente da aldeia.

Um dia, veio uma equipa da RTP local. O programa passou no canal regional, depois nacional.

Leonor soube disto pela Dona Etelvina, que lhe telefonou: Leonor, estás na televisão! Liga rápido!

Mas Leonor continuava no atelier, com as alunas.

Tinha um pedido urgente um grande pano de casamento para entregar na sexta.

A duzentos quilómetros, num décimo segundo andar no Porto, uma mulher via televisão.

O apartamento era amplo, moderno, decorado por designers. Quadros de pintores reconhecidos, móveis caros. Vasos de orquídeas brancas frescas, trocadas a cada semana.

Dona Elvira sentava-se na poltrona, de robe macio, chinelos de camurça. Um copo de vinho tinto na mão, quase intacto.

Miguel estava fora, em negócios. Ou não. Ela já não perguntava. Desde Leonor, algo mudara nele era mais ausente, distante.

A televisão palrava, um programa sobre artesanato, aldeias, artistas. Dona Elvira mal ouvia, só para combater o silêncio.

Até ouvir uma voz de mulher, calma, quase musical. Levantou os olhos: era Leonor.

No ecrã, Leonor de pé num atelier luminoso, com bastidores entre as mãos. O cabelo apanhado, mangas arregaçadas. Ao lado, duas aprendizes. Numa ponta, Matilde desenhando num bloco.

Conte-nos de onde veio esta paixão, pedia o repórter.

Veio da minha avó, sorriu Leonor. Ela dizia que a agulha é conversa.

A sua oficina existe há um ano. Encomendas de todo o país. O que é o mais importante para si?

Leonor pensou:

Que é vivo. Cada peça leva consigo esperança, calor. É isso para mim.

A câmara afastou-se, aparecia João ao fundo. Pôs a mão no ombro de Leonor, gesto habitual, terno. Matilde acenou.

Leonor ria uma risada funda, inteira.

Dona Elvira ficou imóvel.

O vinho permaneceu intocado.

O programa continuou padrões, conversas, outros artesãos. Dona Elvira olhava, mas não via.

Pegou no comando, desligou o televisor.

Silêncio.

Um silêncio profundo, habitual nestes dias. Dona Elvira pensava que já se habituara.

Pousou o copo. Olhou para as mãos. Na direita, um anel com brilhante comprado por si, para si mesma, quando fez aniversário. Porque podia. Porque ninguém lho oferecia.

O diamante brilhava na luz do candeeiro, um foco breve no teto.

Pensava em Leonor? Não. Não era bem Leonor.

Lembrava-se de si jovem: queria o quê? Já não sabia. Achava que com dinheiro teria tudo. Quando tivesse empresa, teria tempo. E tempo para quê?

O dinheiro veio. A empresa cresceu. O tempo, agora, sobrava sobretudo nestes longos serões onde Miguel não liga, as orquídeas brilham falsas, o silêncio permanece mesmo quando a televisão se apaga.

Amigas? Tivera. Sócia, colegas, conhecidos dos eventos. Agora telefonemas em feriados.

Lembrou o jantar do casamento. O brinde sobre caridade e simplicidade, sentindo-se inteligente mas o salão riu pouco, desconfortável.

Depois, aquela menina ergueu-se.

A tal menina do vestido branco e grinalda de loja, ergueu-se e disse o que sentia. Sem ser rude mas direto. E saiu.

Nessa noite pensou: tola, jovem, recusa a felicidade.

Hoje pensava noutro tom. Não que tivesse estado errada seria fácil, demasiado simples.

Pensava: “O que fiz com as minhas mãos, alguma vez? Não comprei, não mandei fazer fiz?”

A empresa? Papelada e reuniões. Cálculos, bons investimentos. Mas e mãos?

Miguel? Criou-o, educou. Mas sempre como diretora-geral, nunca só mãe. Quando confiaram o último segredo, o último silêncio?

As orquídeas eram de porcelana, frias.

Dona Elvira percorreu a casa, sala em sala sempre perfeita, arrumada, mas fria.

Ficou à janela. Mil luzes pingavam do Porto. Em cada uma, uma vida: alguém come, ri, sonha. Algures, numa oficina branca, uma rapariga conversa com os tecidos.

Que tola, murmurou.

E não soube, afinal, se era a Leonor ou a si própria que dizia aquilo.

Regressou ao sofá. Deu um gole minúsculo no vinho.

Era bom, caro, para quem entende.

Pousou o copo.

E então? disse baixo, sozinha. E de que vale?

Tinha feito tudo certo, livros de regras só seus: trabalha. Luta. Não deixes que te olhem de cima. Sê a primeira. Compra o que mostre isso.

Comprara tudo.

E agora sentava-se em robe de caxemira, sozinha.

O anel brilhou. Frio. Pequena centelha.

E tu, a brilhar assim para quê? perguntou ao anel. Sem mágoa.

Numa rua qualquer, alguém ria, vozes jovens e livres. Não foi ver.

Pensou na mãe.

Morreu cedo, quando Miguel era ainda menino. Mulher de aldeia, mudou-se jovem para a cidade, trabalhou no supermercado. As mãos, gretadas, sempre escondidas.

Lembrava: aos fins de semana, a mãe punha pão e queijo na mesa, o olhar de orgulho brilhoso. “Filha, és crescida. Vais longe.”

Chegara longe.

O que diria a mãe hoje?

Tentou imaginar: a mãe, vestida de azul, na cozinha com cheiro a cebola refogada. Que dizia a mãe? Nada. Talvez só chá, posto na mesa, sentada ao seu lado.

Sentiu algo na garganta. Não lágrimas. Não chorava há muito. Seca, densa só.

Pronto, murmurou. Pronto.

Levou o copo para a cozinha. Viu-se refletida no vidro negro: rosto cansado, inteligente, solitário.

Não estava infeliz.

Mas também não era feliz.

Era um rosto que sabia o preço das coisas e ignorava o valor do que não se compra.

Apagou a luz. Foi deitar-se.

No atelier dos Olivais, a última vela extinguia-se. Leonor guardava as linhas, dobrava panos, organizava a mesa. Na sala ouvia João a adormecer a Matilde, lendo-lhe alto, entre risos sonolentos.

Apagou a vela.

O escuro era acolhedor, cheirava a linho, cera, um pouco a feno.

Parou à janela.

O céu claro, estrelas de outono. Cada uma no seu lugar. Cada uma a arder.

Foi para casa, com o seu próprio caminho, para a família e a vida que escolheu para si.

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