Chaves
Eu amo-o! E tu só falas dessas parvoíces! Nem quero ouvir! Estás é invejosa, por isso metes o nariz onde não és chamada! Deixa-me em paz! Vai cuidar da tua vida!
Aurora não gritava. Ela berrava tanto que até o senhor Joaquim, o vizinho do lado já um bocado surdo, parou de mexer no seu carro velho, olhou para trás e ficou a escutar. Curioso nunca tinha sido, e por isso só podia querer dizer uma coisa Aurora estava a gritar mesmo demasiado alto.
Motivos para isso não lhe faltavam…
Pelo menos assim achava ela.
É que para Aurora, estar apaixonada era um estado de alma. As pausas, quando aconteciam, eram tão curtas que só quem conhecia Aurora de trás para a frente as notava. E essas pessoas eram só duas a mãe e a irmã. Mas a mãe já cá não estava, e a irmã, Matilde, recusava-se a entender a Aurora.
E sem esse estado maravilhoso, Aurora não vivia arrastava-se. O olhar perdia-se, os pensamentos voavam em mil direções, a concentração fugia-lhe e o sistema nervoso dava tal nó, que as colegas do trabalho começavam a evitar Aurora com comentários como:
Se calhar precisas de uns calmantes! Estás estranha, Aurorinha…
Aurora encolhia os ombros, cerrava os dentes e lá ia pensando coisas nada simpáticas das outras mulheres.
Essas, imaginava ela, tinham tudo no sítio! Os maridos à espera em casa, filhos felizes pela casa… E ela? Casa, não era dela! Marido, nem vê-lo! E também não se adivinhava… O filho, claro, havia, mas não se podia dizer que fosse um exemplo. Infelizmente, mesmo comparando com os primos, o seu Tiago perdia em tudo. Os filhos da Matilde eram bem mais certinhos. O mais velho, o Miguel, jogava futebol e tirava ótimas notas finalmente alguém provava que se pode ter cabeça e ser bom de bola. A mais nova, a Mariana, dançava e cantava no rancho folclórico, e estava sempre em concursos e festivais pelo país fora. Antes dos dez anos já tinha visto mais mundo do que Aurora numa vida inteira.
E isto custava-lhe. Porquê? Aurora também, em miúda, andara em mil e um clubes e aulas, mas nunca fez nada de especial fartava-se depressa e mudava de atividade. O que havia de fazer? Ao coração não se manda! Quando deixava de achar piada a uma coisa, largava e ia à procura do próximo entusiasmo.
É assim que se deve viver: ouvindo a voz interior! Outra vida não há. E a alegria ninguém nos serve de bandeja: Toma, Aurorinha! É tudo para ti! Nada disso.
Aurora aprendeu esta verdade cedo. Observava a irmã a estudar e, indiferente, tratava de se arranjar para o baile:
Vê lá, Matildinha, sabes a matéria toda! Quem é que vai querer casar contigo? Não te lembras do que dizia a avó que a mulher não pode ser mais esperta que o homem? Por isso é que nenhum rapaz olha para ti!
E ainda bem! Agora não preciso deles para nada. E a avó nunca disse isso dessa forma!
Disse sim, eu lembro-me!
Não é bem isso. Ela dizia que a mulher inteligente nunca faz questão de pôr-se acima do homem que ama. São coisas bem diferentes, olha que sim…
Ai, não me venha dar tanga! Ajuda-me mas é a fazer este penteado! O Zé espera-me!
E lá ia Aurora para mais um encontro, enquanto a Matilde se deixava afundar no sofá com mais um livro. Duas horas de silêncio em casa delas eram uma festa.
Claro que Aurora gostava da irmã, Matilde! Como não gostar? Não havia mais ninguém próximo. E conhecia-a quase tão bem como a si mesma. Aurora não era má, era era um pouco confusa nos sentimentos, desorganizada e insegura, mas má não. Pelo contrário, tinha uma doçura e bondade que até superavam a da Matilde. Aurora infestava a casa de bicharada animais errantes apanhados na rua. Dois gatos e um cão, todos sobreviventes graças aos cuidados dela. Os pais, percebendo que a filha não abria mão dos bichos, deixaram ficar a colecção, desde que a casa não se tornasse num mini-zoo e não entrasse mais nenhum animal. E Aurora, de assumir, não se queixou uma só vez nem pediu à irmã para passear o cão ou limpar a caixa dos gatos. Fazia tudo sozinha. Às vezes a Matilde até pensava que Aurora gostava mais de animais do que de pessoas.
Aurorinha, a mãe pediu para irmos ajudar a avó com a arrumação.
Vai tu, está bem? Tenho que fazer!
Que tens a fazer?
Que te importa? Coisas importantes! O Tobias está coxo, tenho de o levar ao veterinário.
Já anda a coxear há uma semana!
E então?! Achas que é razão para trocá-lo pelos problemas da avó? Ela ainda não é assim tão velha e é capaz de se desenrascar sozinha! O Tobias é o Tobias, não tem culpa nenhuma!
As irmãs discutiam, separavam-se, e lá ia Matilde ajudar a avó, enquanto Aurora pegava na camisola nova do armário. O Zé já estava à espera à porta, e o Tobias era o pretexto perfeito para não estragar o dia com limpezas chatas.
Na escola, as irmãs seguiram caminhos diferentes. Matilde saiu com distinção, Aurora… assim-assim. Nada de especial. Como muita gente.
Quanto à profissão, Aurora nunca teve dúvidas. Sonhava ser pasteleira. A paixão por bolos e doces artísticos vinha da infância. Ficava colada à montra da pastelaria, birrava, e não deixava os pais sair sem lhe comprarem um doce. Mas os próprios bolos não interessavam muito à Aurora. Partilhava-os de boa vontade com a irmã, e depois de admirar os enfeites de creme, ia fazer flores de plasticina iguais.
E voltaram a afastar-se.
Matilde foi viver com a avó, que estava doente e precisava de assistência. A casa dela era perto da universidade onde Matilde estudava, o que dava jeito a todas. A avó tinha quem a cuidasse, a Matilde mais um tempinho de sono de manhã. Além disso, adorava a avó e preocupava-se com ela. Até o namorado, Ricardo, ela apresentou à avó antes de qualquer outra pessoa.
Vivam aqui, filhos! Espaço não falta!
Um casamento simples mas feliz veio logo depois, e a Matilde ficou a viver com o Ricardo na casa da avó. Os planos da avó sobre a casa foram claros:
É justo assim, Matildinha. Para Aurora, o quarto do avô, aquele pequeno naquela andar em Alfama. Para vocês, a casa. Pena não ver os vossos filhos… Gostava tanto!
A primeira bisneta a avó ainda conheceu e até ao colo pegou. Partiu quando o Miguel tinha dois anos. Durante um ano lutou com as consequências de um AVC, tentando andar de novo e recuperar a fala, mas o coração não aguentou. Matilde chorou muito despedindo-se da mulher que lhe dera tanto carinho.
Os pais de Matilde não contestaram os desejos da avó, concordando que a filha merecia ficar com a casa.
Aurora também não fez caso. Na altura estava perdidamente apaixonada outra vez, e pouco lhe importava a quem calhasse o quê. Ela tinha era amor!
Amor, enfim, não se chamava bem aquilo. Aurora ardia de paixão enquanto o eleito olhava mais para outras coisas do que para ela. O que lhe servia bem a ele Aurora ia à casa dele, limpava, cozinhava, passava a ferro, mas nunca ficava sequer a dormir.
Sou um velho solteirão, Aurorinha. É complicado para mim.
Com ar sentimental, pedia-lhe para arrumar o ateliê dele e mandava-a embora:
A arte, Aurorinha, obriga-me a sacrifícios! Preciso de me dedicar totalmente! Mas tu entendes, não é? Há tanto na minha vida! Amor, responsabilidade, compromissos… Estou esgotado!
Aurora assentia, recordando o retrato manhoso que ele pintara dela, e que já ganhava pó no canto do ateliê. Ninguém lhe tinha feito um retrato antes. Era a prova viva podia inspirar um homem.
Foi esse retrato que Aurora pediu de recordação, quando foi à casa dele dizer-lhe que estava grávida.
Nessa manhã vinha ela pela rua, a sorrir para o sol. Os sonhos dela voavam alto, tão alto que lhe custava até respirar. Aquela vida nova que começava assim do nada era um milagre.
O milagre desfez-se num segundo, quando o eleito franziu a testa e cortou-lhe o entusiasmo a meio:
Um filho? Perdestes o juízo?!
O fim daquela relação foi vazio e triste como um buraco negro. Os sonhos de Aurora partiram-se como vidro, e os pedaços, tão minúsculos, que nem um mestre os restauraria. Nem tentou reconstruir o orgulho destroçado. Só pediu para ficar com o retrato.
Para guardar…
Foi-lhe dado, e nessa noite Aurora desfez o retrato em farrapos, murmurando:
Ainda vou conseguir tudo! Tu é que não!
Nunca soube que razão levou o ex-namorado a desaparecer, mas isso pouco interessava. Tarefas tinha de sobra. O filho por quem tanto sonhara nasceu, mas não foi uma grande felicidade. Procurava no Tiago os traços e o dom do pai, e não encontrava nada. Tiago era um rapaz calmo, tranquilo, sem especial dom para o desenho nem criatividade. Gostava de jogar à bola e de xadrez. Foi ele que procurou um clube, ia lá depois das aulas, encolhendo os ombros à mãe:
O que foste lá fazer? O que gostas tanto disso? Isso é uma seca!
Seca nenhuma! Para o Tiago, o xadrez parecia uma dança simples e bela. Às vezes, estudando um grande jogo, levantava-se e rodopiava pela sala, ao ritmo de uma música só dele. Mas só fazia isso quando a mãe não via. Aurora detestava.
Dança não é coisa de rapaz! Pára já!
A única pessoa que entendia o Tiago era a prima Mariana. Não percebia o afastamento das mães, mas a avó dizia sempre que família é família, não se deixa para trás. Isso não ajudava o Tiago a entender porque a mãe não valorizava a própria irmã, mas nunca esqueceu as palavras da avó. Com o Miguel era relação simples, mas a Mariana era especial conseguia tocar o fundo da alma dele, e adorava ouvi-lo explicar a música da lógica e dos sonhos.
Ouves? Mariana com olhos a brilhar.
Sim. Baixinha e linda…
Eu também ouço. Mostro-te como danço!
E lá dançava ela, mostrando o que sentia. E Tiago percebia: não estava sozinho. Havia sempre alguém que o entendia.
Mas crianças não podem escolher. Os pais é que decidem. E Aurora, muitas vezes, proibia o filho de estar com os primos, só porque discutia com a irmã.
Tiago fez o que podia para aguentar as mudanças de humor da mãe. Fazia birras, recusava-se a comer, só para ouvir:
Fica lá então, faz o que quiseres! Estou farta das tuas lamúrias!
Não sabia porque a mãe discutia tanto com a Matilde. Também não sabia que, depois de nascer, a Matilde ajudou sempre que pôde, até ter sido escorraçada quando Aurora descobriu como a avó repartira as casas.
Isto não é justo! Sou tão neta como tu!
Aurora, nunca pedi à avó nada! Se queres, vendemos e dividimos o dinheiro! Não quero guerras!
Não! Não quero esmolas! A avó sempre te amou mais! Por isso ficaste com tudo! E eu nunca fui amada de verdade!
Aurora, não é verdade! Então e eu? E os nossos pais?
Qual amor? Não me compreendem! Achas que quero a casa? Quero é sentir-me amada na família!
Aurora…
Chega! Não quero ouvir mais nada!
E instalou-se o ressentimento entre as irmãs. Um ninho de mágoa, com recordações doídas penduradas nos dois lados.
Estás a ver, Aurorinha? Lembras-te daquele boneco da Matilde, igual ao teu, mas de vestido rosa? E tu só tinhas o verde… Detalhes? Sim, mas tu querias o rosa! A Matilde não trocou contigo! Lembras-te? E quanto à maquilhagem que sonhavas e foi oferecida à tua irmã! O Ricardo, a casa, o emprego, os filhos tão diferentes do teu Tiago sempre na lua… Tudo são tijolos, Aurorinha! Com eles se construiu a tua casa de esperança e de sonho torta, inacabada. Porque tudo o que podia ter consertado isso calhou à tua irmã! E ela é melhor do que tu? Claro que não! Nela não há voo, sonho, vontade de viver sem pensar em rotinas! Ela não sabe o que é o amor que tu conheceste amor que é voo, amor que guarda as chaves da felicidade e só as dá a alguns! Achas que a Matilde entende dessas chaves? Óbvio que não!
Também a Matilde, às vezes, sentia mágoa, mas ou tinha menos razões, ou o coração era outro, e o ninho sempre lhe saía desconjuntado. Do lado da Aurora, era sólido, nem brechas via; do lado da Matilde, mal aguentava. Bastava um sopro e desmoronava, abrindo espaço à reconciliação. E Matilde soprava, sempre que conseguia, tentando chegar ao que ainda as unia.
Os pais partiram quase juntos, no mesmo ano como se tivessem combinado. E o desespero abraçou as irmãs.
Matilde, como é possível?! Ainda eram tão novos! Tinham tanta vida pela frente!
Mana, não manda a sorte. A saúde, às vezes, não se segura. Fizemos o que podíamos. O resto não está na nossa mão… Matilde abraçava a irmã aos gritos.
Isto é tão injusto!
A vida nunca é justa, só parece que podia ser. Mas na verdade…
Lá isso tens razão… Na prática é muito diferente…
Matilde cedeu a casa dos pais à irmã e cuidou da burocracia quando Aurora acalmou.
Estava à espera que ficasses também com esta casa.
Aurora deixou cair a frase, ajeitando o capuz sem olhar para Matilde.
As duas estavam à porta do notário à espera do Ricardo.
Porque dizes isso, Aurora? Somos estranhas?
Nem sei, Matilde. Até somos família. Mas nunca me compreendeste.
Nem tu a mim… Mas será assim tão importante?
Claro que sim! Se as pessoas não se entendem, para quê estarem juntas?
Talvez para tentarem entender-se. Não se recebe nada nesta vida sem esforço. Deverias saber!
Isso eu sei. Diferente de ti! Tudo te corre bem marido, casa, filhos. Eu, sozinha. Sempre sozinha!
Não digas isso… E o Tiago?
O Tiago é mais teu filho do que meu. Quase não está em casa. Trabalho o dia todo, ele desenrasca-se! Até passa mais tempo contigo do que comigo!
Está cá bem. Está em paz…
Vês?! É disso que falo! Matilde, és insuportável! Chamas-me má mãe?! O que fiz eu para ti?!
Aurora, não grites! Quando é que eu te chamei isso?!
Sempre! Tu és exemplar! Os teus filhos são perfeitos! Eu e o Tiago nunca somos nada de especial! Em vez de estar em casa está no mundo!
Ó Aurora… Ouve o que dizes!
Ricardo chegou para buscar a mulher e encontrou-a sozinha e em lágrimas.
Porque é que ela me trata assim? O que lhe fiz?
Abraçando-a, Ricardo sussurrou:
Ela tem mau feitio. Ainda não aprendeu à força.
Ao ouvir isso, Matilde até parou de chorar:
Não digas isso! Não digas isso! E se alguma coisa lhe acontecer? Ricardo, tenho pena dela…
Isso é bom.
O quê?
Que tenhas pena dela. Ainda não percebeu quem a ama de verdade. E pode ser que nunca perceba.
Talvez. Mas é minha irmã! E por isso vou amá-la! Matilde limpou as lágrimas irritada. Mais ninguém o faz! O Tiago é ainda pequeno.
Mais vale paz. Matilde fez tudo para fazer as pazes. O fio entre elas ficou fino, desbotado, mas lá estava. E Matilde não o deixava partir.
Os homens iam e vinham na vida da Aurora, sem deixar nada de bom, só mágoa e incompreensão porque é que, dando tudo, eles respondiam só com sorrisos convencidos:
Aurorinha, não compliques! Somos livres, lembraste? Foi o que combinámos.
Era verdade. Todos os namorados avisavam:
Ainda não estou preparado para uma relação séria. É complicado. Tu percebes?
Claro que Aurora dizia que sim, quase acreditando. Mas depressa esquecia as regras e nunca percebia porque era deixada sem aviso.
A alma sofria. Aurora queria ser única para alguém, pronta a dar tudo o que pedissem. Adaptava-se, esforçava-se. O namorado gostava de caça Aurora aprendia a atirar, sabia tudo sobre licenças e cães de caça. Se era pesca aprendia iscos e técnicas.
Ela tentava, tentava entregar as chaves da felicidade mas o estranho era que ninguém as queria…
Tiago, durante as paixões da mãe, vivia quase sempre em casa da tia. Nem Ricardo nem Matilde se importavam. Consideravam-no como filho. O quarto do Miguel tinha cama de beliche, e a secretária feita pelo Ricardo dava para dois computadores; às noites os rapazes jogavam online aos gritos para a porta:
Mariana! Assim não vale! Tu és muito rápida! Joga em equipa, senão é impossível!
Matilde, ao dar novidades do Tiago à irmã, suspirava:
Ele é tão esperto, Aurora! Devia ir para uma escola de matemática.
Fica bem assim! Dá jeito estar com o Miguel na mesma escola. Sei sempre dele. E tu vigilas!
O Tiago tem de andar muito, se dorme contigo nem dorme bem.
Que fique aí uns tempos. A minha vida está agora a reencontrar-se.
Está bem. Que fique.
Obrigada! O Rui é um espetáculo! Aceitou o Tiago, quer mesmo que sejamos uma família!
Já te pediu em casamento?
Ainda não. Mas está a ir nesse caminho! Agora, não me atrapalhem! Ajudem-me! É a minha oportunidade de ser feliz!
Claro, Aurora, claro…
Matilde não gostava do noivo da irmã. Achava-o arrogante e com piadas de gosto duvidoso, sempre a fazer insinuações que a deixavam desconfortável. Para ela e para o Ricardo pouco importava, mas e o Tiago? E quanto à Aurora? Ela respirava o Rui, ignorando o afastamento do filho.
A Matilde protegia o sobrinho, evitava discussões com a irmã, mas o fim não demorou. Desde o início era claro que Rui queria algo da Aurora.
Matilde só soube do pedido de vender o apartamento que herdara dos pais por acaso.
Chegou a casa cansada do trabalho, viu os sapatos dos rapazes atirados à entrada, cheios de lama, e exasperou-se.
Meninos! Quem está em casa?! O que é isto?!
A Mariana, que aparece vinda do quarto dos rapazes, assustou-se e fechou logo a porta atrás de si.
Mãe…
Que se passa? Matilde ficou preocupada. A filha tinha cara estranha, entre o medo e a culpa.
Mãe, não fiques nervosa, ok? Aliás…
O quê?! Mariana, fala! Ai, que me vai dar uma coisa!
É o Tiago… Mariana começou a chorar, agarrando-se à mão da mãe. Fomos buscar gelo, mas ele ainda está inchado…
Matilde não ouviu mais. Apertou a filha, soltou-a e continuou:
Onde está ele?
Tiago estava deitado na beliche, de costas, a apertar à cara um saco de gelo improvisado.
Tiaguinho chamou baixinho. Que se passa?
Nada…
A voz soava abafada e magoada; Matilde percebeu que a coisa era séria. O Tiago não era de guardar mágoas. Sempre dissera tudo o que pensava, e a tia era como segunda mãe.
Matilde subiu à cama e sentou-se ao lado, tocando com cuidado no rosto inchado.
Anda cá. Fala comigo, vá lá…
Não quero!
Aquilo era a sério. Matilde suspirou, desceu e mandou os outros para a cozinha, arrumar os mantimentos e preparar o jantar. Depois foi mudar de roupa, vestiu algo confortável e fechou-se no quarto dos rapazes.
Chega para o lado! subiu às cambalhotas, deitou-se junto ao Tiago e abraçou-o, tocando levemente o olho negro. Foi o Rui?
A resposta era óbvia. Tiago chorava, agarrado àquela que queria ouvi-lo, com a certeza de que ela o entenderia. Sabia bem: não há justiça nenhuma no facto de, ao defender a mãe de um homem, levar uma chapada de um adulto com berraria do tipo:
Vais-me dar lições?! Quem és tu? Limpa o nariz! Não te metes entre adultos!
Nunca tinha visto o Rui assim. Toda a máscara caiu, mostrando quem ele era de verdade e Tiago percebeu: aquele homem também não amava a sua mãe. Só tinha interesse. Mariana dizia sempre:
Quando se ama, nota-se. Será tão difícil, Tiago?
Muito…
Estranho. Tu vês música. Eu sei.
Vejo?
Não sei explicar! Sentes isso, chegas lá… O amor é como música. Quando ouves, sabes para onde ir na dança, como andar…
Não é para todos…
Achas que tua mãe não percebe?
Nem ouve, nem vê. Gostava, mas não consegue.
Tenho pena dela…
Eu também!
Tiago tentou enfrentar o Rui, mas foi logo travado e ficou tonto com a bofetada. Depois só me lembro dos olhos preocupados da mãe e ela a murmurar:
Tiago, porquê?
Nada mais disse. Tiago nem ouviria. A dor, afiada, cortou-lhe a alma, apertou-o numa bola e, a custo, saiu do quarto para não chorar à frente de ninguém. Ao rapaz não é suposto chorar, dizia-lhe o Rui sempre que mostrava emoção:
Não és homem? Pára de chorar e arruma!
Passada a primeira mágoa, Tiago pegou nos livros e alguns pertences e foi para casa da tia. Lá entendiam-no.
Matilde ligou à irmã assim que o ouviu. Enquanto os toques se prolongavam, tentava acalmar-se: discutir não servia de nada, mas tinham de resolver a situação. O Tiago amava a mãe e sentia-se traído.
Sem resposta, ligou ao marido:
Ricardo, onde estás? Ótimo! Não subas, desce e leva-me à casa da Aurora. Vou já.
Mandou os miúdos ficarem com o Tiago e desceu.
O que aconteceu? perguntou Ricardo, preocupado enquanto ela entrava apressada.
Explico no caminho! Anda!
A conversa começou torta. Aurora, já na rua, chorava e lamentava a vida, pois o Rui, ao sair de casa, deixou-lhe só insultos.
Tu não entendes! Eu amo-o! gritava à irmã, sem saber o que responder pelo que se tinha passado.
Mas quem, Aurora?! O homem que bateu no teu filho?! Mas tens juízo? Até podes andar perdida atrás do teu sonho, mas o Tiago, que culpa tem? É teu filho!
Já nem é meu, é teu! Quase não está comigo! Tudo por tua culpa! Roubaram-me tudo!
Roubei o quê?!
A minha vida! As minhas chaves!
Que chaves?
Matilde não entendeu logo, mas ficou ali, de repente a ver-se e à irmã no meio da rua, a discutir. Era isto que os pais e a avó lhes tinham ensinado? Onde ficou tudo o que as unia? A qualquer momento, via-se que o fio se partia para sempre. E aquilo não era justo.
A voz acalmou, serena, perguntando de novo:
Que chaves, Aurora?
As chaves da felicidade… Aurora disse agora num tom mais baixo Tu tens, e eu?
Só aí Matilde percebeu. Respirou fundo, e depois puxou a Aurora para um abraço apertado, como fazia a mãe com elas.
Vem cá! Ó Aurora… Como é que és assim…
Parva, é isso? Queres dizer isso? Aurora quis soltar-se, mas Matilde não deixou.
Não! Não inventes! Só és muito sensível. Muito frágil… Precisas sempre de amor… Compreendo. Só não me peças para aceitar que troques um filho por alguém. Isso é errado, Aurora, sabes bem! E quanto a chaves… Nunca te roubei nada! Tenho dificuldade em usar as minhas! Para que quero as tuas? Mas diferenças há entre nós.
Quais?
Tu passas a vida a tentar dar as tuas chaves a alguém; eu guardo comigo.
E qual o certo?
Não sei. A vida dirá.
Já mostrou… Aurora chorou. Como vou viver agora? Ninguém precisa de mim!
Eu preciso. Chega? O Tiago precisa! Não basta?
Não sei…
Começa por aí. O resto virá.
E se não vier?
Então é porque essas chaves não são das portas certas. E a porta certa fica fechada para sempre. Querias passar a vida no corredor, sem abrir a porta?
Não!
És esperta! Vais ver o filho?
Não me vai perdoar…
Aurora! O Tiago percebe mais da vida do que a mãe. Não vai ser uma conversa fácil. Está muito magoado.
Imagino…
Então faz alguma coisa! És mãe, ou só tia?
Matilde!
O quê? Bora lá! Ricardo dá-lhe uns lenços, estão no porta-luvas! Que se limpe e vamos! Os filhos esperam!
O Tiago terá padrasto, mas mais tarde. A Aurora conquistará finalmente aquilo por que tanto lutou. E mesmo que o filho prefira viver com Matilde e a família dela, mesmo com uma meia-irmã que lhe chora o tempo todo, Aurora vai fazer tudo para ele saber: é amado e é esperado. O homem que viverá com Aurora será mais sábio e dará tempo ao rapaz, construindo uma relação forte com ele, maior que qualquer laço de sangue.
E quando chegar o dia de ir para o serviço militar, na estação, Tiago abraçará a família, apertará a mão ao padrasto e pedirá:
Cuida bem da mãe!
E o homem alto, grisalho, confirmará com seriedade, apertando a sua mão.
E tu, cuida de ti, filho! Estamos à tua espera!
Eu sei!







