Oito anos de ninharias
O telemóvel tocou às sete e meia da manhã, quando eu, Manuel, preparava o pequeno-almoço e olhava a água a ferver no tachinho. O fogão ali era velho, a gás, as grades de ferro fundido ainda com gordura dos outros, uma camada entranhada que nunca consegui limpar completamente. Todos os dias, aquele cheiro lembrava-me que o apartamento não era meu, que aquilo tinha tido outros donos, outros cozinhados e vidas diferentes.
Olhei para o ecrã. Maria João.
Atendi.
Não respondeste à mensagem dele outra vez, disse a minha filha antes de dizer bom dia.
Bom dia, Mariazinha.
Pai, estou a falar a sério. Ele mandou-me mensagem ontem à noite, disse que o ignoraste.
A água estava a ferver. Desliguei o bico e deitei um saquinho de chá no tacho. Daquele barato, marca branca, trinta unidades numa caixa de papel. Antigamente bebia só chá solto, ceilanês, daqueles que a Teresa comprava numa loja perto da Baixa.
Que diga o que quiser, respondi.
Tu percebes o que estás a fazer? Viveste numa casa velha na Ajuda, provavelmente já tens formigas, estás sozinho, fazes sessenta daqui a pouco…
Cinquenta e oito, Maria.
Vai dar ao mesmo! E deixaste uma pessoa simpática, um apartamento bom no centro, uma vida estável. Porquê?
Fui até à janela. Lá fora, um céu cinzento de novembro, uma oliveira sem folhas, um pedaço da fachada vizinha com a pintura toda a descascar. Mais abaixo, um eléctrico passou. Na primeira noite o barulho não me deixou dormir, mas agora já me tinha habituado.
Maria, estou atrasado para o trabalho.
Nunca queres falar disto a sério!
Quero, filha. Mas não assim, nem agora. Queres vir cá sábado? Faço sopa.
Não vou a essa tua toca.
Toca. A palavra já chegara à Maria. Provavelmente ouviu da minha irmã, Graça.
Está bem, respondi já em paz. Falamos depois, então.
Pai…
Maria, gosto muito de ti. Até logo.
Pousei o telemóvel. Peguei no tacho, deitei o chá para um copo antigo, de vidro grosso, daqueles mesmo típicos dos anos 70, que encontrei no armário entre tachos e panelas alheias. Dei um gole; quente e ligeiramente amargo, com o sabor do papel do saquinho.
Bebia encostado à janela, a olhar a oliveira.
Depois vesti-me e saí para a rua.
***
O prédio cheirava a humidade e a gatos. No terceiro andar morava um que nunca vi, mas que ouvia miar todas as noites. Não havia elevador. Quatro lanços de escada, passando pelos marcos do correio com portas partidas e uns patins infantis esquecidos desde o inverno passado.
Na rua, uns cinco graus. Apertei o casaco, segui para o metro. Mesmo depois de seis meses na Ajuda, perdia-me às vezes nas ruas. Alcântara, Belém, Santa Maria de Belém. Era diferente do Chiado: menos pressa, mais árvores, mais silêncio. As pessoas andavam de olhar no chão, como em Lisboa inteira, mas faltava-lhes aquela impaciência do centro, que sempre me irritou.
Na mercearia, comprei iogurte e meio pão. A rapariga da caixa, jovem, sombra verde nos olhos, nem olhou para mim. Conta exata, compras no saco, de volta à rua.
No metro estava quente, apinhado. Ia de pé, a pensar no projeto. Ontem, eu e o João tínhamos terminado o primeiro bloco de esboços, hoje restava descobrir como o teto do rés-do-chão ainda estava inteiro um milagre de engenharia de outros séculos.
A quinta, uma casa senhorial em Marvila. Pequena, final do século XVIII, casa principal, dois anexos, uma velha cocheira que já vira melhores dias. Donos mudavam, a República transformara parte em armazém, depois esteve ao abandono décadas. Agora havia finalmente dinheiro e gente para recuperar aquilo, fazer dali um centro cultural. Eu era o arquitecto principal, o João tratava das estruturas.
Enfim, era trabalho a sério. Não como aqueles projetos pequenos que aceitei nos últimos anos com a Teresa, só para estar ocupado. Isto era diferente, com história ali dentro.
***
O João já estava lá quando cheguei. De pé, no meio do grande salão do primeiro andar, enchumaçado no seu casaco cinzento, fita métrica na mão, olhar preso ao tecto.
Bom dia, cumprimentei.
Olha praqui, disse ele, apontando um canto onde o reboco se soltara, mostrando o tijolo debaixo. Acho que descobri porque o teto cedeu. A viga em cima está rachada de uma ponta à outra. Isto não é restauro, é quase construção.
Fendeu mesmo ou só separou nas fibras?
Anda ver.
Subimos as escadas, já parcialmente reforçadas, mas ainda a ranger. Apoiei-me no corrimão, o cheiro ali era de madeira velha, seco, meio doce, com qualquer coisa que não sei explicar. Talvez o cheiro do tempo. Cheiro das vidas passadas ali.
Sempre gostei desse cheiro.
O João mostrou-me a viga. Ajoelhei-me, liguei a lanterna, examinei a fractura.
Não separou nas fibras, confirmei. Vê aqui… é dano mecânico. Devia estar aqui alguma coisa pesada.
Talvez máquinas.
Ou várias. Isto serviu de armazém.
Sentou-se junto. Ficámos a olhar a viga. O vento assobiava nas janelas, já sem vidros.
Temos de substituir, concluiu ele.
Substituir, mas usando as técnicas de origem. No arquivo encontrei uns mapas da madeira usada. Deve ser pinho nacional, bem seco.
Arranjar disso…
Arranja-se. Conheço um fornecedor lá do norte. Usei na restauração do prédio da Lapa. Vou ligar.
Ele acenou. Levantou-se, sacudiu as mãos. Era alto, um pouco curvado, tinha o hábito de escutar com a cabeça baixa parecia sempre pensar noutra coisa, mas na verdade ouvia tudo.
Queres chá? Trouxe termo.
Quero.
Fomos ao corredor. Ele tirou dois copos de plástico, verteu chá.
Hoje estás diferente… disse, mas calou-se.
Diferente como?
Sei lá, muito centrado.
Sorri.
Quando recebo chamada da Maria ou da minha irmã, fico assim.
Mudou de assunto. Estendeu-me o copo.
Era chá a sério, não de saquinho.
***
Com a Graça tinha-me encontrado no domingo. Apareceu de surpresa, ligou do rés-do-chão: Manel, abre que venho aí com bolo. Abri.
Graça era três anos mais velha, morava com o Sérgio em Penha de França, trabalhava em contabilidade numa empresa de obras, com opiniões inabaláveis sobre tudo. Olhou para o apartamento e trouxe logo aquela expressão antiga de pena e triunfo.
Ai que horror, disse, isto é casa de banho ou despensa?
Casa de banho, Graça.
Essa cerâmica toda rachada.
Tu é que trouxeste bolo, senta-te.
Ela pousou o bolo na cozinha, inspeccionou tudo mais uma vez.
Diz-me lá. Explica-me. Tinha casa no centro, três quartos, chão de madeira, homem trabalhador. Ele maltratava-te?
Não.
Traía-te?
Talvez, mas já não me dizia nada.
Então? Estás doida, foste embora à beira dos sessenta, olha a tua vida agora.
Peguei nos pratos.
Deixa-te disso, mana.
Digo sim, sou tua irmã! A Maria chora. Ele pergunta-me por ti. Um homem decente, sabias?
Até era, para outra pessoa. Corta-me antes uma fatia de bolo, vá.
Tu foges sempre. Corta bolo, faz sopa, nunca queres falar disto.
Já te expliquei tudo, várias vezes.
Nunca explicaste nada! Senti-me mal. Toda a gente se sente mal às vezes! Achas que eu e o Sérgio somos o casal perfeito?! Mas não fujo para um quarto alugado só porque sim.
Vivo sozinho, não é condomínio.
Sozinho! exclamou ela. Aos cinquenta e oito, a viver nesta toca, a trabalhar por tostões, achas bom?
Olhei-a. Grande, calorosa, fiel ao seu casaco bege. Na cara, um espanto sincero. Nunca ia entender e não podia zangar-me com ela por isso.
Graça…
Ela passou por mim, murmurou: Sem ti, ninguém me safava, cabeça dura, e eu balancei a cabeça: Morro, mas do meu jeito.
Ela arregalou os olhos.
Estás a delirar!
Nada disso cortei o bolo. Este é de quê?
De couve. Ainda me perguntas se está tudo bem contigo. Vais ao psicólogo, ao menos?
Vou.
E que diz?
Que tomei a decisão certa.
Isso dizem todos, pagas para isso.
Bebemos chá com bolo de couve. Ela divagou sobre o Sérgio, as costas dele, os vizinhos que têm um cão ruidoso. Ouvi-a, o céu escurecendo atrás da oliveira.
Ao sair, parou na porta.
Deviam falar, sabes? Ele preocupa-se.
Está bem.
Sabia que não iria.
***
Com a Teresa, vivi oito anos. Não casámos: para ela o casamento não fazia sentido, dizia que era só papel passado. Isso já queria dizer muito percebi tarde.
Os primeiros tempos foram diferentes, talvez. Ela era atenta, levava-me a restaurantes, ao teatro. Fomos a Itália e a Sevilha. Dizia que eu tinha bom gosto, via inteligência em mim. Depois as coisas foram mudando sem se sentir, como uma fissura numa parede antiga.
Começou com coisas pequenas. Uma vez fui com uma camisa verde a um jantar da empresa dela, sentia-me eu próprio. À porta, ela olhou-me e disse: Tens a certeza? Só isso. Fui trocar de roupa.
Depois, começou a opinar sobre tudo: a comida, os amigos, até a minha carreira. Manel, sabes que restauração é carreira de quem não tem ambição, não? Não se chega a lado nenhum.
Tenho ambições.
Claro. Mas és só um bom técnico, nunca um génio. Nem todos têm que ser geniais.
Não respondi. Fui para a sala, tentei entender porque me fazia mal ouvir aquelas palavras ditas com bondade.
Ela nunca gritou, nunca bateu. Fazia outra coisa: passava anos a convencer-me de que, sem ela, eu não era nada. O meu trabalho era irrelevante, os meus amigos desinteressantes, os meus gostos provincianos. Era como se lhe devesse tudo. Pensava na sopa, no sal, se ligava demais para os outros, se parecia convencido nas reuniões. O meu pensamento começava a ganhar o som da voz dela.
Até que aconteceu aquela noite.
Estávamos em casa de amigos dela, os Luíses, um T2 bonito em Arroios. Falou-se de um novo prédio em Alvalade, comentei o projecto do ponto de vista arquitectónico, tudo normal.
Ela olhou para mim por cima do copo e sorriu daquele jeito que já conhecia.
O Manel é especialista, disse ela ao anfitrião. Só que há especialistas teóricos e práticos. O Manel é mais teórico. Não faz nada relevante há tempos.
Por segundos ninguém disse nada. Sorriram por cortesia. Continuei a conversa, acabei o jantar, bebi vinho. Chamei um Uber. Enquanto ela falava do trabalho, olhei a cidade e pensei algo simples: já não aguento mais.
Não ela é má pessoa, não sou infeliz. Simplesmente: não consigo mais. Como bater contra uma parede.
Três meses depois fui-me embora. Encontrei este apartamento, fiz as malas em dois carros. Ela estava a trabalhar. Deixei as chaves e um bilhete: Desculpa.
Ainda pensei porque tinha escrito “desculpa”. Não sabia. Escrevi.
***
Novembro na Ajuda é diferente. O parque por perto acalma tudo, e às vezes, ao voltar do trabalho, dou uma volta mais longa, passo entre as árvores. As folhas já caíram, os caminhos molhados, o ar com cheiro a folha apodrecida e casca molhada respiro e quase sinto como se fosse preciso.
Em casa estava frio. Sistema antigo, aquecimento às vezes vinha, às vezes não. Os radiadores ou ferviam ou não aqueciam nada. A torneira da cozinha pingava. Liguei várias vezes ao senhorio, prometeu canalizador, nunca veio.
Acabei por ir ao AKI comprar a anilha, mudei-a sozinho. Levei quarenta minutos, dois arranhões e uma asneira quando a chave inglesa escapou. No fim fechei tudo e o pinga-pinga tinha acabado.
Aquilo soube-me a orgulho. Pequeno orgulho, mas era meu.
À noite trabalhava na mesa da cozinha. Espalhava desenhos, acendia o candeeiro de abajur verde que trouxe, que comprei nos anos 90 numa feira da Ladra. A Teresa detestava o candeeiro, dizia que era feio. Na casa dela vivia na despensa. Aqui ocupava o centro.
O projecto avançava devagar: levantamento, pesquisa nos arquivos, análise dos danos, depois a concepção. Gosto do processo: não se fazem atalhos. Ou o prédio aguenta, ou não. Ou a história existe, ou inventa-se.
Achei num arquivo umas pastas sobre a quinta. Descobri que foi de uma família de industriais, depois herdada pela filha, que instituiu uma escola improvisada. Depois Revolução, depois armazém. A filha chamava-se Graça também, curiosidade. Numa das fotos, já nos 50, com o queixo erguido, olhar conhecedor.
Fiquei a olhar para essa foto muito tempo.
Depois arrumei e voltei aos desenhos.
***
O João perguntou-me um dia como é que me meti nisto da reabilitação.
Estávamos dentro do carro dele, motor a aquecer, lá fora caía o primeiro frio do ano.
Nos anos 90 só fazia habitação nova, contei. Era bem pago, o ritmo bom. Um dia por acaso fui à restauração de uma igrejinha perto de Sintra com um amigo. Não voltei a ser o mesmo.
Como assim?
Decidi que era aquilo que queria. Era importante.
Ele pensou.
Isso é raro. Saber o que se quer.
Perguntou-me se eu soubera sempre. Neguei. Também demorei tempo a perceber.
E seguimos para o arquivo, o cheiro a café e couro do carro.
***
A Teresa apareceu numa quarta-feira.
Não a esperava. Tocou às oito da noite, enquanto eu trabalhava nos desenhos, a comer um iogurte grego pelo copo. O toque era daqueles antigos, estridentes. Achei que era o senhorio.
Ela apareceu à porta, casaco de lã, um ramalhete pequeno. Crisântemos. Nunca gostei. Ela nunca aprendeu isso.
Olá, disse.
Fiquei calado uns segundos.
Como sabes onde moro?
A Maria disse-me.
Maria, pensei. Guardei isto para mais tarde.
Que queres?
Falar contigo, aquele meio sorriso. Deixas-me entrar?
Hesitei e recuei. Ela entrou, olhou a entrada, as paredes manchadas, o cabide torto, as minhas botas.
Moras mesmo aqui, constatou.
Moro.
Manel… Pegou-me na mão. Afastei-a. Não ficou chateada, apenas trocou as flores de mão. Ouve. Sei que quiseste tempo para pensar. Já chegaram os seis meses. Já chega, não?
Chega do quê?
De estar sozinho, essa pausa. Não sei o nome.
Entrou na cozinha, inspeccionou os desenhos.
Estás a trabalhar?
Sim.
Em quê?
Reabilitação de uma casa senhorial.
Sim, faz-te bem, para ti.
Para mim e para a cidade. O lugar é bonito.
Pousou as flores em cima do desenho. Tirei-as dali.
Manel, percebes bem onde te enfiastes? Nisto? Abanou a mão pelo apartamento.
Sei onde vivo.
Quero que voltes para casa.
Olhei-a. Era elegante, objetivo. Sessenta e tal, parecia menos. O casaco assenta-lhe bem.
Para quê? perguntei.
Desconcertada com a pergunta.
O quê?
Para quê voltaria eu? Porque é que queres?
Sinto a tua falta.
Falta de quê, Teresa?
Irritada, disfarçou com paciência.
Tua falta, como pessoa. Foram oito anos juntos.
Lembro-me.
E pronto, acabou assim?
Não foi pronto. Levei oito anos a ir-me embora. Tu é que nunca viste.
Não percebo.
Sei. Já tentei explicar.
Olha, lembras-te da noite em casa dos Luíses?
Qual noite?
Disseste que eu era teórico, que não fazia nada relevante, à mesa, à frente de todos.
Ela hesitou.
Só estava a brincar. Nem me lembro, sinceramente.
Talvez. Mas não foi só essa vez. Foram muitas. E lembro-me de todas.
És sensível demais.
Tal e qual.
Não era para te magoar.
Pode ser. Mas doeu.
Por tão pouco.
Por oito anos de pequenas coisas.
Calou-se. Olhou para a minha cozinha. Viu o copo de vidro, o candeeiro verde.
E estás bem aqui? perguntou com desconfiança.
Pensei. Só para mim.
Às vezes custa, sinto solidão, o aquecimento falha. Mas estou melhor aqui do que lá.
É uma ilusão.
Talvez. Mas é minha.
Ela pegou no casaco.
Não sou um estranho para ti.
Não, respondi. Mas também já não és de casa. Teresa, vai.
Ficou mais um segundo. Saiu. À porta disse:
Vais arrepender-te.
Não soou a ameaça. Antes quase pena.
Talvez, concordei.
Fechou a porta. Fiquei ali, a olhar a porta estofada de pele artificial. Voltei para a cozinha. Pus as flores numa jarra improvisada. Não gosto de deitar flores fora.
Voltei aos desenhos.
O eléctrico fazia-se ouvir na rua. O barulho, antes incómodo, tornou-se paisagem.
***
A defesa do conceito ficou marcada para meio de dezembro. O cliente queria ver o plano: conservar, restaurar, mexer. Preparei tudo a sério. O João também. Ao telefone à noite, tirava-mos dúvidas, discutíamos detalhes, até discordávamos.
Uma noite discordámos sobre uma viga e estivemos uns quarenta minutos ali, cada um a puxar pelo seu lado, até rirmos: ambos estávamos certos, só que de pontos de vista diferentes eu da estética, ele da segurança.
És teimoso, disse sem maldade.
No trabalho, sim.
Isso é bom.
Não disse mais nada. Fiquei a sorrir sozinho.
***
Três dias antes da apresentação ligou a Maria mas dessa vez já ao fim da tarde.
Pai, disse com outra voz, calma, quase frágil. Posso ir aí?
Podes, filha.
Chegou com uma garrafa de vinho e ar decidido, mas sem jeito de como falar. Parecia-se comigo em jovem: o perfil angular, os dedos iguais. Tinha trinta e dois, era designer, morava com o namorado em Campo de Ourique.
Sentámo-nos na cozinha. Vinho em dois copos comuns cálice só tinha um, mas ela achou bem.
Ele falou contigo depois de ir aí? perguntou.
Não. Às vezes manda mensagem.
O que diz?
De tudo. Nem sempre respondo.
Rodou o copo nas mãos.
Pai, fui eu que dei a morada. Não te zangas?
Não.
Achei que talvez se entendessem. Achava que tu precisavas de regressar a uma casa normal. Tive pena dele, parecia… tão sozinho.
Ele sabe parecer.
Pois. Olhou-me nos olhos. Só percebi agora. Ligou-me depois de sair daqui e disse… disse que foste sempre um pouco fora deste mundo, que teve paciência contigo, que quase te fez um favor.
Assenti.
São ideias velhas de quem não escuta.
Pai… Pela primeira vez, nos olhos dela não vejo julgamento ou distância. Estiveste mal, tanto tempo?
Muito.
Porque é que nunca disseste nada?
Pensei.
Talvez porque não sabia como. Quando não te batem, não te traem, nem te põem na rua, é difícil explicar porque se sente mal. Especialmente à filha, que o vê sempre pelo melhor lado.
Ela levantou-se, veio abraçar-me. Repentino, forte. Não soube como reagir; abracei-a de volta. O cabelo dela cheirava ao mesmo champô perfumado a pêra que usava desde a adolescência.
Não és parvo, sussurrou. A tia Graça não tem razão.
Soltei uma gargalhada seca.
Sabe bem ouvir isso.
Acabámos o vinho. A Maria olhou os desenhos, perguntou pela quinta, mostrei-lhe a foto da Graça original. Diz ela: Parece-se contigo. Olhei outra vez. Talvez.
Saiu quase à meia-noite. Prometeu voltar sábado seguinte.
Lavei os copos, guardei os papéis, fiquei à janela.
O eléctrico já não passava era muito tarde. O pátio era azul do candeeiro. Numa janela do prédio em frente alguém passava.
Pensei que devia ligar ao João para discutir um detalhe da viga, mas já era tarde. Ficou para amanhã.
***
A defesa fez-se no auditório da empresa. O cliente era exigente, trouxe advogados e um consultor de património que fez perguntas complicadas. Respondi. O João completava. Perguntaram sobre prazos para as vigas do segundo andar, disse a verdade: se encontrarmos já a madeira certa o trabalho faz-se a tempo; se não, atrasa três semanas. O consultor franziu o sobrolho. Acrescentei: Mais vale dizê-lo agora do que explicar o atraso depois.
Assentiu. Aquilo pareceu agradar-lhes.
Saímos. O João com a pasta nas mãos, satisfeito.
Acho que vão aprovar, disse ele.
Acho que sim.
Olhou-me. O corredor cheio de gente, pastas, passos.
Queres jantar ali perto? Para celebrar?
Olhei-o.
Quero.
Caminhámos Lisboa em dezembro, Marvila com luzes acesas, neve a cobrir beirais. O João ia ao meu lado, cabeça levemente inclinada. Falámos do projecto, do consultor, da pressa com que Lisboa agora escurece.
Fomos a um restaurante pequeno, calmo, mesas de madeira, cortinas grossas. Pedimos um prato quente e um copo de tinto. A conversa rodou não só trabalho, também livros, a cidade, memórias. Não reparei nas horas.
Quando saímos, segurou-me o casaco enquanto o vestia. Gesto simples, natural. Não liguei. Ou então liguei, mas só o tempo dirá.
Cá fora, disse:
Gosto de trabalhar contigo.
Respondi:
Também gosto.
Fomos para lados opostos do metro.
***
Hoje, ao escrever isto, percebo: levei oito anos a sair, mas tudo mudou nos últimos oito meses. A liberdade pode parecer ilusão, mas o espaço que ganhei é meu. E, seja na solidão ou calor de um dia novo, aprendi uma coisa: ser feliz não é maior ninharia. É coragem.







