A Segunda Mãe

– Os papéis que a senhora quer que eu assine, já vi, dona Augusta Soares. Da segunda vez não vai conseguir.

Ela nem pestanejou. Estava ali de pé, à porta da minha própria cozinha, no seu casaco bege de botões perolados, mala pendurada no antebraço, como se tivesse vindo para um chá elegante e não para tentar destruir a vida alheia. Cheirava a perfumes caros, aqueles que o João lhe trouxe de Lisboa no aniversário e que ela adorou, elogiando-lhe o gosto ao contrário de alguns, segundo comentou na altura.

– Marisa, estás a interpretar isto tudo mal, – disse com aquela voz de quem finge doçura por fora mas é granito por dentro, uma voz que já aprendi a decifrar como quem lê um livro antigo. – Só quero o teu bem. Só e apenas o teu bem.

Pousei a chávena na mesa. As minhas mãos não tremiam, e achei aquilo incrível. Ainda há um ano, bastava-me um olhar dela para encolher os dedos dos pés.

– Já me desejou tanto o bem, dona Augusta, que passei um ano fundo numa depressão. Chega, não acha?

Ela semicerrrou os olhos. Depois disso, vinha sempre algo desagradável. Sabia-o de cor, sete anos a conhecê-la deram para aprender.

– Estás exausta, percebo. Esses tratamentos, médicos para aqui e para ali, clínicas sem fim. Por isso vim ajudar. É só um simples papel, para transferirmos…

– Transferir o quê?

– Pronto… uns documentos. Os das finanças, para te proteger caso algo aconteça.

Fitei-lhe as mãos finas, cheia de anéis fininhos. E a pasta que apertava como se fosse um ramo.

– Dê cá isso, – disse.

E pela primeira vez, hesitou um segundo.

Depois lá me passou a pasta. Abri-a ali mesmo, sem me sentar. Primeira folha. Segunda. Na terceira, li duas vezes de tão absurdo que era.

Era um pedido de divórcio. Pronto a assinar. O meu nome ali impresso. Só faltava a minha assinatura.

Ouvi-se um silêncio tão fundo na cozinha que, lá fora, percebi um carro a passar e, ao longe, o choro de uma criança.

– A senhora… nem consegui logo falar Veio para eu própria assinar o pedido de divórcio do meu marido? E chama a isto desejar o bem.

– Marisa, não entendes. O João precisa de uma família. Uma de verdade. Filhos. E tu não lhos podes dar. Já são anos, tanto dinheiro, tantas esperanças. Nada. Só desgastas a ti mesma. E a ele. Se gostas dele, liberta-o. Serás nobre.

Fechei a pasta, pus devagar na mesa como se fosse frágil. Dentro, ardia.

– Saia da minha casa, por favor.

– Marisa…

– Saia. Por favor.

Saiu. Fiquei só na cozinha, com a pasta e o cheiro do perfume dela e a sensação de ter estado na beira de um precipício, onde recuei no último segundo. Uns centímetros. Mesmo no limite.

Tinha trinta anos. O João trinta e dois. Casados há cinco, quatro deles a tentar ser pais. De fora, dizem só não conseguiram. Não fazem ideia do que isso significa. Cada mês uma esperança e depois o tombo no vazio. Análises, protocolos, injeções na barriga ao acordar, sem poder chorar porque o stress faz mal. Sem poder bufar de raiva porque dá stress. O segredo era, dizia-se, serenidade e bons pensamentos.

Eu tentava. Pensava na felicidade. Mas a minha sogra ia espalhando pelos vizinhos que eu tinha problemas e me deixava ir ao abandono. Sabia disso ouvi relatos. Bairro pequeno, tudo circula.

O João estava em trabalho, mais uma viagem. Fazia muitas, na construtora onde era engenheiro, com obras por todo o distrito. Eu não me queixava. Ele ligava todas as noites e eu percebia no tom dele o cansaço; também não lhe dizia as coisas más. Protegia-o. Talvez a mim própria, já nem sei.

Nesse fim de tarde, sozinha depois da Augusta sair, sentei-me à janela. Lá fora, o outono já quase inverno, árvores nuas, o chão pintado de folhas e o asfalto molhado. Passavam pessoas dos sacos das compras. Uma mulher ia de mão dada com uma menina de fato-macaco encarnado. Saltava pocinhas, ria alto. A mãe não se zangava, só a agarrava melhor.

Olhei para elas e pensei era só aquilo que queria. Só isto: uma criança a saltar poças, uma mão na minha.

Não contei ao João o que se tinha passado nessa noite. Não queria que se preocupasse a quatrocentos quilómetros de distância. Só disse que tinha saudades. Ele respondeu que em breve voltava, dentro de uma semana. E que me amava. Acreditei. Sempre acreditei nele.

Depois veio aquela semana que virou tudo.

Na quarta, telefonou-me a Olívia Matos, amiga dos bancos da escola, e a voz dela tão estranha, devagar, como quem tem medo de magoar.

– Marisa, ouviste os boatos?

– Que boatos?

– Contam aí na clínica… e na cabeleireira da Praça. Dizem que tu… tens outro. Um homem.

Fiquei em silêncio três segundos. O tempo de perceber quem lançou tal coisa.

– Isso vem de onde, Olívia?

Hesitou.

– Bem… dizem que a mãe do João contou à Sónia, e no aniversário da Sónia… Olha, não acredito em nada disto, só acho que devias saber.

– Devia, sim. Obrigada.

Não chorei. Sentei-me no sofá, quieta, sem perceber o porquê. Nunca a tratei mal. Nunca levantei a voz. Oferecia-lhe presentes do gosto dela, perguntava antes ao João. Tratava-a sempre por Dona Augusta, em sete anos, mesmo nos meus pensamentos.

Porque tanto ódio de mim? Só por estar com o filho? Por não conseguir engravidar? Por ser tão poucochinha? O João era engenheiro, chefe de equipa, cheio de futuro. Eu, professora primária na Escola da Rua Garcia de Orta. Talvez fosse isso.

Nunca encontrei resposta. Nem depois, se querem que diga.

Na sexta fui à clínica Esperança para consulta. A dra. Estela, minha médica, era como uma parente. Tanto tempo juntos. Uma mulher calma, atenta. Cada vez que um protocolo falhava, explicava-me outra coisa, verificava mais, insistia. Não havia causas. Ambos normais. Infertilidade inexplicável. Os médicos encolhem os ombros e dizem: A medicina não sabe. Tentem outra vez.

Aguardei no corredor, folheando uma revista sem ver nada. Ao lado, outra mulher, mais nova, barriguinha de meses, resplandecente. Olhei-a não lhe tinha inveja. Isto é importante. Não tinha mesmo. Apenas queria o mesmo.

Foi então que ouvi um tom familiar.

Virei-me. Era o João na receção a falar com a administrativa. Mal acreditei.

– João?

Ele virou-se, hesitou, depois veio depressa abraçar-me, e enterrei o rosto na jaqueta dele e senti o cheiro da estrada, do cansaço e dele.

– Não vinhas só dentro de três dias murmurei.

– Adiantei tudo. Queria surpreender-te. Fui a casa, não estavas. Liguei, não atendeste.

– O telemóvel ficou na mala.

– Imaginei logo. E adivinhei onde vinhas estar.

Levou-me pela mão e ficámos num banco, à espera. Não aguentei. Contei-lhe tudo a pasta do divórcio, os boatos de traição, o meu cansaço em fingir que nada se passava.

Ouviu, calado. Bem calado. Vi-lhe os músculos da face contraírem-se era sinal de que ia explodir, mas calava. Conheço-lhe os sinais.

– E não me contaste logo porquê? quis saber.

– Não te queria preocupar.

– Marisa…

– João, tu já te esforças tanto e…

– Marisa… repetiu, e nesse Marisa vi que não era raiva, era só mágoa. Devíamos há muito ter conversado seriamente sobre a minha mãe. Já sei que ela… nem sempre…

– Odeia-me, João.

Não respondeu logo. O silêncio confirmou.

A dra. Estela chamou-nos ao consultório. Ele veio comigo. E estava longe de suspeitar o que se seguiria.

A médica estava estranhamente tensa. Via o computador, depois nós, depois o processo.

– Marisa, preciso que me seja sincera. Entre tratamentos, tomou algum remédio sem prescrição?

Fiquei sem perceber.

– Nunca. Sempre tudo como indicou.

Ela assentiu. Olhou-nos.

– Recebi um contacto de uma pessoa há dois anos. Da família. Pagaram para mexer ligeiramente nos seus exames nada de mais, mas o suficiente para travar o processo.

O consultório ficou silencioso.

– Recusei, – prosseguiu Estela. – Mas na primeira clínica onde fizeram os dois primeiros tratamentos… não recusaram. Não tenho como provar formalmente. Mas uma colega contou-me, agora. A consciência pesou-lhe.

O João levantou-se.

– Quem era?

– Não posso identificar com certeza. Ligaram de um número privado. Voz feminina. Confiante, já com idade.

Vi o João respirar fundo. Nem olhei para ele. Olhei a janela, o jardim pequeno e a bétula despida.

Pensei, talvez estou a enlouquecer. Impossível. Uma mãe. Biológica. Fazer isto? Já para lá de tudo o que se faz a uma pessoa viva.

Mas, cá dentro, sabia. Sempre soube.

– Temos de falar, – disse ele.

Saímos da clínica. No carro, sentado, não ligou o motor. Olhou em frente para a rua molhada.

– João…

– Silêncio. Um minuto.

Ficámos silêncio. Chovia devagar.

– Foi ela, – afirmou. Não perguntou. Disse.

– Não posso jurar…

– Eu sei. Porque ela há um ano disse-me que tinha médicos amigos que se preocupavam connosco, achei que queria só meter-se. Nunca pensei…

Parou.

– Meu Deus, quatro anos

Não chorei. Já sabida fazer esse truque: não chorar onde nunca podia. Só lhe agarrei a mão no volante.

– E agora?

Virou-se para mim.

– Acreditas em mim, que nunca soube?

Olhei-o nos olhos. Castanhos, fundos, vasos vermelhos, sono de viajante. O meu.

– Acredito, – disse. E era verdade.

Ficámos muito tempo ali a pensar. Quem procurar, para onde ir. Polícia? Com quê? Palavras de uma médica, umas suspeitas? Não era crime. Era palavra contra palavra.

Faltavam provas.

Então lembrei-me da Olívia. Da casa de campo dela, na aldeia de Vale de Pinheiros, a meia hora de Viseu. Estava sempre abandonada, emprestou-me uma vez. A chave ainda era a mesma.

– Temos de sair daqui, – disse eu.

– Para onde?

– Para um lugar onde ela não nos procura já. Onde refletimos e nos preparamos. Senão vai virar tudo, tu sabes bem.

Ele sabia. Acenou.

Fomos a casa, fiz as malas em vinte minutos. Roupa, carregadores, documentos. João agarrou o portátil, papéis. Saímos sem sermos vistos. Ou, se alguém viu, achou normal.

Liguei à Olívia do carro.

– Olívia, não me perguntes nada as chaves da casa de Vale de Pinheiros ainda dão?

– Sim, claro. Marisa, estás bem?

– Nem por isso. Depois explico.

– Vão então. Lenha no anexo, o gás funciona, cobertores no armário. Atenção só aos ratos!

– Obrigada.

– Só cuida de ti, está bem?

Nem precisei perguntar o que queria dizer. Percebi.

Já era noite na estrada. Chovia mais. João dirigia calado. Eu olhava as luzes passarem. Tinha medo. Não da escuridão, não da fuga mas por imaginar como alguém pode saber dos meus exames, dos choros, das agulhas e mesmo assim pagar para tudo dar errado.

Relações tóxicas na família. Lera um artigo sobre isso numa revista qualquer, parecia coisa distante. Agora era sobre mim. Sobre nós.

A casa velha estava fria, mas inteira. Cheirava a madeira, um travo de mofo do fim do verão. João acendeu a lareira, eu fui buscar cobertores. Bebemos chá nas canecas da Olívia tinha moinho desenhado. E conversámos, muito, pela primeira vez em tanto tempo.

– Conta-me, tudo desde o início, – pediu. – Tudo.

E contei. As pequenas alfinetadas dela, os telefonemas sempre em dias de consulta, os atrasos inexplicáveis na clínica Santa Cecília, os problemas de laboratório. Eu achava que era azar.

João ouvia, por vezes olhos fechados.

– Ela dizia que tu não te cuidavas, – confessou. – Que comias tudo, nervos sem razão, que a culpa era tua.

– E tu, acreditavas?

Ficou tempo calado.

– Não acreditava mas também não queria enfrentar. Queria que tudo resolvesse. Errei, Marisa.

– Não é isso. Amas a tua mãe. Não é igual a ser cego.

Fixou-me de um modo que doeu.

No dia seguinte, traçámos plano. Se a confrontássemos, negava tudo. Ela conseguia fazer-nos sentir culpados. Tinha de haver gravação. Sua voz, palavras.

– Ela virá, – João asseverou. – Mal veja que sumimos, vem atrás. É tudo controlo, para ela.

Preparámos tudo. Ele pôs o telemóvel a gravar áudio no bolso. Ensaiámos o que dizer. Eu iria direto, sem rodeios.

Esperámos três dias. Falámos muito, passeámos, cozinhámos. Era como se tudo o que restava fosse verdadeiro, finalmente sem máscaras.

Numa noite, João abraçou-me por trás.

– Vamos mudar de vida. Para outro sítio. Depois disto.

– A sério?

– A sério. Ofereceram-me vaga numa empresa em Coimbra. Recusei, por causa dela. Agora já penso diferente.

Não respondi só lhe cobri as mãos com as minhas.

Chegou no quarto dia. Depois do almoço de domingo. Ouvimos o carro. João ativou a gravação.

– Estás pronta? sussurrou.

– Sim.

Entrou sem bater, como em casa própria. Olhou-nos.

– João. Não sabia pensei que estavas a trabalhar.

– Claro. Tu pensaste que eu ainda estava ausente.

Olhou para mim. Longo, pesado.

– Marisa. Arrastaste-o até aqui? O que lhe disseste?

– Só a verdade, dona Augusta.

– Que verdade? Tu vives a imaginar coisas, é dos nervos, os médicos próprios dizem

– Que médicos? perguntei calma. Os que pagou para adulterar os meus exames?

Uma pausa. Mínima, mas existiu.

– Que disparate é esse mas a voz ficou mais dura.

– Disparate? Na clínica Santa Cecília estava a enfermeira Marta. Lembra-se dela?

Não respondeu.

– Ela contou à doutora Estela. Sabe do que falo. Por favor, diga a verdade.

– Tens problemas de cabeça.

– Mãe, – disse João, eu conheço quando mentes. Responde.

Algo nela fraquejou. Por dentro, só. Por fora, mantinha-se firme. Mas senti.

– Fiz isto por ti, – murmurou ela, ao João. Não percebes. Ela não é mulher para ti. Simples, sem estatuto, professora primária. Tu mereces mais alto. Dei-te tudo

– Mãe.

– Só queria poupar-te o sufoco. Que nunca passasse. Para acabares por ti. Sem escândalo. Ninguém saiu ferido

– Ninguém? ecoei, mas não me reconheci na voz. Quatro anos, dona Augusta. Quatro. Cada mês esperança e desespero. Picadas, análises, tabelas. Nada de café, nada de comida forte, nada de carregar peso. Chorei tanto, achando ser culpa minha. Ninguém ferido?

Olhou-me nos olhos. Pela primeira vez, não vi frieza. Algo vivo não compaixão mas algo humano.

– Roubou-me quatro anos sussurrei. E chama-lhe amor de mãe.

– Sou mãe dele, – murmurou. Cansada, baixinho.

– Eu sou esposa dele.

O João saiu do canto, pôs-se ao meu lado.

– Gravámos isto, – disse. Cada palavra. Agora não é palavra contra palavra.

Ela olhou-o, muito tempo, como se só então o visse.

– Entregas à polícia? perguntou seca.

– Sim.

– Sou tua mãe.

– Sei disso.

Saiu finalmente, devagar.

– Espere chamei-lhe já nas escadas. Não sei porquê.

Ela parou, mas não voltou o rosto.

– Alguma vez o amou de verdade? Ou era só para não o perder?

Silêncio. Saiu e bateu a porta.

O João ficou a olhar a porta muito tempo, depois desligou o áudio.

– Vou telefonar ao Miguel, – disse. Era amigo de infância, agora inspetor da judiciária. Que nos diga o que fazer.

– Sim.

Saí para o alpendre. Cheiro a pinheiro, a folhas apodrecidas. O carro já ia ao longe. Só o rasto das rodas na terra.

Respirei fundo.

O que se seguiu já não foi connosco: entregámos o áudio, depoimentos de Estela e Marta. Marta já não aguentava, confessou tudo. O dinheiro resolve pouco, a consciência não é à venda.

Duas semanas depois, Augusta foi detida. Em casa. O Miguel telefonou ao João. Ele ficou longos minutos sentado, a olhar o nada.

– Como te sentes? perguntei.

– Não sei.

– Não saber é normal.

– É minha mãe, Marisa.

– Eu sei.

Andou pela sala, mexeu num livro da Olívia, pousou.

– Sabe o que custa? Não estou surpreendido. Parte de mim sempre achou que ela seria não isto, mas parecido. Só que calei. Porque mãe não faz dessas coisas. Achava eu.

– É assim a toxicidade: instala-se devagar. Uma dúvida de cada vez. Brigamos com o próprio juízo.

Olhou-me.

– Tu percebeste cedo?

– Não. Mas o cansaço faz ver tudo de outro ângulo. Ou ficas burro, ou ficas mais frio. Não sei qual.

Deixámos Vale de Pinheiros três semanas depois. Não voltei à casa. João despediu-se, devolvemos as chaves e fomos para Coimbra.

Outono diferente. Mais quente, mais leve. Palmeiras pela rua achei estranho. Fizemos renda de uma casa num bairro tranquilo. João começou na nova empresa. Eu fiquei a montar o lar, a ir ao mercado, a cozinhar, a aprender a rotina nova.

Dra. Estela recomendou-nos à colega, dra. Carla, que logo me disse: tudo é possível, desistir jamais.

Fizemos exames de novo. Fomos tentados, sem manipulações alheias.

O protocolo ganhou à terceira tentativa.

Soube em fevereiro. João em casa. Estava na casa de banho com o teste, duas riscas. Saí. Ele estava no sofá, levantou a cabeça.

Nem falei só lhe pus o teste na mão.

Ficou a olhar. Depois olhou para mim, olhos vermelhos.

– Marisa

– Sim.

Apertou-me num abraço tão forte que quase me faltava o ar. Mas não pedi que largasse.

O Tiago nasceu em outubro. Três quilos e meio, cinquenta e dois centímetros. Já de sobrancelhas franzidas, as enfermeiras riram: cientista desde o berço.

Chorei. Não de dor embora doesse. Mas porque, quando mo pousaram ao peito e lhe senti o calor, pesou-me menos o que carreguei quatro anos.

Não desapareceu. Coisas dessas ficam sempre. Só mudam de lugar.

João esteve ao meu lado. Segurou a minha mão. Continua a fazê-lo. Tal como naquele carro.

Tiago tinha três meses quando, finalmente, tivemos paz numa noite. Dormia. Ficámos à mesa, chá quente, vela acesa no parapeito. Coimbra outonal cantando lá fora.

– João, – disse.

– Hm?

– Ainda pensas nela?

Sabia de quem falava.

– Às vezes. Menos vezes do que antes.

– Também eu. Às vezes penso: como é possível tudo isto? Depois vejo o pequeno a dormir ali e penso: não importa. Estamos cá. Vivemos.

– Guardas rancor? – perguntou baixinho, como quem quer muito perguntar mas teve sempre medo.

– Porquê?

– Por não ter visto. Ou não ter querido ver.

Pensei, a sério.

– Não, – disse por fim. Mas ficou uma espécie de farpa. Pequena. Não dói, só sei que lá está.

Ele acenou. Não se desculpou. Aceitou.

– Faz sentido.

– Tento ser honesta. Cansei de fingir que está tudo bem quando não está.

– Está bem?

– Quase tudo. Ele está saudável, tens-me, temos casa. – Segurei a caneca quente, aqueci-me. – Só já não somos os mesmos, João. Só isso. Não sei se é bom ou mau. Talvez seja só assim mesmo.

Ele olhava a vela. A chama oscilou.

– Lembras-te daquela noite, quando ela saiu de Vale de Pinheiros e tu ficaste na porta?

– Lembro.

– Olhava-te da janela. Pensava: como é que ela aguenta. Tanto tempo. E aguentas. Não quebraste.

– Quebrei, só não à tua frente.

– Eu sei. Desculpa.

– João… segurei-lhe a mão. Os dois poderíamos ter feito melhor. Não se trata de culpas agora.

Da sala, um som tenue. Tiago resmungava a dormir. Olhámos os dois, suspensos.

Silêncio.

– Dorme, – disse ele.

– Dorme, – correspondi.

Ficámos calados, daquele silêncio bom dos que nos são família. Em que não precisamos de mais palavras, nem vontade de sair dali.

– És feliz? perguntou, de súbito.

Pensei, honestamente, não para frase feita.

– Sou, – disse. – Mas tem outro sabor, diferente do que achava. Antes, pensava que felicidade era quando dói nada. Afinal, é quando tudo está bem apesar de doer qualquer coisa. Mas queres, mesmo assim, que o dia não acabe.

Sorriu. Devagar, como quem se esqueceu de sorrir depressa.

– Bom gosto, – comentou.

– Sim, – assenti. Tem travo de amargo, mas é mesmo bom.

Hoje sei: pedir ajuda e recusar a manipulação é a única maneira de ficar inteiro depois do escombros. Família é quem fica quando o chão some. E aprender a ser honesto connosco próprios é a receita de um novo começo mesmo demore anos mesmo que nunca se apague totalmente a dor.

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