Coloquei o último prato na mesa e recuei um pouco. Doze talheres, doze copos, doze guardanapos dobrados em triângulo como a minha mãe me ensinou. Às oito chegariam os Pereiras, depois a Marisa com o marido. Casa cheia, como a mãe adorava. A toalha era branca, bordada com flocos de neve nos cantos também dela, do enxoval. Passei os dedos pelas dobras e pensei: era já o terceiro réveillon que preparava esta mesa sozinha. Sem ela.
Avó Madalena, e o décimo terceiro lugar?
Estremeci. Leonor estava à porta da cozinha, abraçada a uma pilha de pratos pequeninos. Bochechas coradas do frio talvez tivesse ido lá fora por qualquer coisa.
Que décimo terceiro? fingi não perceber.
A bisavó sempre punha. Para o convidado inesperado.
Olhei pela janela. Flocos grossos de neve caíam lentamente pareciam bocados de algodão. A mãe gostava de ver nevar assim. Dizia que neve destas trazia visitas. Nunca perguntei de que visitas ela falava. Achava que era apenas uma frase feita. Só uma mania antiga.
A bisavó já não está aqui há três anos, Leonor.
Justamente por isso.
A neta olhava-me com aquele jeito só dela direto, sem mágoa, mas como se quisesse entender. Tinha dez anos e era a única da família que ainda se lembrava dos contos da mãe, que os escutou a sério e não só por cortesia. Eu já deixara de ouvir, sempre ocupada, sempre contas e relatórios. Agora, sem a mãe, já não podia perguntar-lhe nada.
Está bem suspirei. Vai buscar à arrecadação. O de madeira, encostado à parede.
Leonor sorriu e desapareceu. Eu fui ao aparador buscar uma caixa de veludo; lá dentro, os brincos da mãe gotas de âmbar em prata. Era a única joia dela que eu usava. O António dizia que me ficavam bem. Eu usava-os não por isso, mas porque, tocando no frio da prata na orelha, sentia a mãe por perto.
Pus os brincos e olhei para o espelho. Cinquenta e dois anos. Rugas junto aos olhos, cabelos prateados nas têmporas. A mãe parecia mais nova com esta idade? Ou era só impressão?
O décimo terceiro lugar apareceu na ponta da mesa. Leonor pô-lo mesmo de frente para a porta. Pensei em dizer que era desconfortável, que o convidado ficaria de costas para a janela mas calei-me. A mãe também o punha assim. Sempre.
A bisavó contava disse Leonor, ajeitando a toalha à volta do novo lugar que tinha um irmão. O tio Estêvão. Foi embora quando ela tinha vinte e sete. Nunca mais voltou.
Fiquei parada com a travessa na mão.
Onde ouviste isso?
Ela contou-me. Quando eu era pequena e ficava lá a dormir. Apagava a luz e falava dos tempos antigos, da casa, da infância, do irmão. Dizia que ele voltaria um dia. Por isso punha sempre o lugar a mais.
Quarenta anos. Quarenta anos a mãe pôs aquele décimo terceiro lugar e eu achava que era só tradição. Só hospitalidade. Só uma estranheza de velha. Mas afinal era espera. Ano após ano, à espera de alguém concreto.
Porque nunca me contou?
Leonor encolheu os ombros.
Talvez esperasse que perguntasses.
Nunca perguntei. Em cinquenta e dois anos, nunca lhe perguntei porque insistia naquele lugar vazio. Nunca quis saber do seu passado, da sua família, do que veio antes de mim. Achava tudo certo mãe era mãe, não precisava de histórias. Agora não tenho mãe, nem histórias.
Ouvimos alguém a entrar. António chegou, sacudindo a neve do casaco. Atrás dele, Luís e a Catarina. A casa encheu-se de vozes, gargalhadas, tilintar de copos. Catarina trouxe o seu bolo especial, Luís vinho frisante. António abraçou-me, beijou-me o cabelo.
Que mesa bonita preparaste.
Sorri, recolhi casacos, servi chá, ouvi conversas sobre filas de trânsito e a chuva de Lisboa. Mas os meus olhos voltavam sempre ao décimo terceiro lugar. Vazio. À espera.
A mãe esperou alguém. Quarenta anos. E eu nunca soube quem.
Às seis, tocou à campainha.
Tínhamos acabado as entradas frias. Luís contava histórias do trabalho, Catarina ria-se das piadas dele. António abria a segunda garrafa. Leonor estava calada, absorta a brincar com a salada. E então, a campainha soar, quase estridente.
Eu vou! gritou Leonor, já corria para o hall.
Eu limpava as mãos no pano quando ouvi a voz dela:
Avó, está aqui um senhor.
A forma como falou fez-me ir ao hall.
Na porta estava um velho. Barba branca, despenteada. Um sobretudo já sem brilho, um botão faltava, na cabeça um boné de lã de que saíam tufos de algodão. Sapatos gastos, um deles atado por um cordel. Um sem-abrigo, desses que vemos em Santa Apolónia.
Mas ele não olhava para nós. Fitava a casa. As janelas com caixilharia trabalhada, a pintura a descascar, a árvore de Natal à porta iluminada de luzinhas coloridas. Como se procurasse lembrar-se de qualquer coisa. Ou talvez reconhecer.
Boa noite disse ele. Voz apagada mas cortês. Desculpem… Está tanto frio. Posso aquecer-me um pouco?
António apareceu atrás de mim. Senti o corpo dele retesar-se.
Não damos esmolas disse num tom baixo mas seguro. Mas posso trazer-lhe chá quente. Espere aqui.
Deixe-o entrar! Leonor intercedeu, parando entre nós e a porta. Os olhos dela brilhavam. Avó Madalena, tu é que puseste o décimo terceiro lugar. Para o convidado inesperado.
Olhei para o velho. Não pedia esmola. Não inventava males nem histórias de fome, como fazem tantos outros. Só olhava para a casa. Para a casa da minha mãe. Para a minha casa.
E reparei então nas mãos dele.
Tirou as luvas de lã, furadas no dedo indicador para esfregar as mãos. As unhas, limpas e bem cortadas. A pele, castigada pelo frio mas mãos cuidadas, dedos longilíneos, calos nas pontas não eram mãos de mendigo. Eram mãos de quem trabalhou com delicadeza.
Entre disse eu, antes de pensar duas vezes. É a passagem de ano. Não se deixava ninguém congelar à porta.
António ia protestar, vi-lhe o maxilar a estremecer. Mas pus-lhe a mão no braço. O mesmo gesto com que a mãe acalmava o pai. Resultava sempre.
Só um bocadinho cedeu António.
O velho entrou e parou no hall. Olhou em volta. Ficou a olhar para a direita, onde era a cozinha; para a esquerda, a sala e a árvore. Vi-lhe nos olhos qualquer coisa. Reconhecimento? Ou imaginação minha?
A cozinha é para a direita? perguntou, sem olhar para ninguém.
É Leonor confirmou. Como é que sabia?
Nestas casas é sempre assim fez uma pausa. Desculpem, já não entrava numa casa verdadeira há muito.
Levámo-lo à sala. Luís olhou desconfiado detestava surpresas. Catarina encolheu-se à beira do marido. Só Leonor sorria e rondava o convidado com atenção.
Sentei-o no décimo terceiro lugar. Ele sentou-se devagar, como se aquilo fosse sagrado. Apoio as mãos nos joelhos. As costas direitas, apesar da idade.
Trago-lhe comida anunciou Leonor.
Obrigado. São muito bondosos.
A voz dele era estranha, clara, até correta demais. Não parecia alguém a viver nas ruas.
Leonor pôs-lhe à frente salada, batatas no forno e um naco de lombo. Pegou nos talheres e voltei a reparar nas mãos dele. O gesto, seguro e elegante, talher direito, à moda de quem aprendeu em criança. Comia devagar, sem barulhos, com delicadeza. Um saber antigo.
Como se chama? perguntou Leonor, sentando-se à frente.
Ele ergueu a cabeça.
Estêvão.
Quase deixei cair o copo. O vinho tintou a toalha. Estêvão. O tio Estêvão de quem Leonor falara. Vago na memória: um parente que foi embora quando era miúda. Eu tinha nove, ele já aparecia pouco. Só me lembro das lágrimas da mãe ao saber da partida dele. Só podia ser coincidência. Estêvãos há muitos em Portugal.
E o apelido? insistiu Leonor.
Antunes.
A mão foi ao brinco. Antunes. O pai da mãe chamava-se António Antunes. Morreu antes de eu nascer, conheci-o só em fotografias.
Está delicioso o velho afastou o prato. Anos sem provar assim.
Quer mais? perguntou Leonor.
Não, está bom.
Sentou-se a olhar para a árvore de Natal. Para os enfeites, luzes e a estrela no topo. Os olhos claros, azulados, qualquer coisa familiar. Vi neles um reflexo conhecido. O olhar da mãe.
Madaleninha murmurou o velho, fitando-me passas-me o sal?
Madaleninha.
Só a mãe me chamava assim, e só na infância. Madaleninha, vem jantar, Madaleninha, está na hora de dormir. Ninguém mais.
Como sabe o meu nome?
Ficou suspenso com o garfo no ar. Algo no rosto dele tremeu susto? Ou confusão?
Ouvi chamar assim, creio.
Ninguém me chamara Madaleninha. Ninguém.
Não disse nada. Passei-lhe o sal. Olhei para a janela. A neve, sempre caindo.
Mas observei as mãos dele, a noite toda.
Faltavam quinze minutos para meia-noite e erguemos os copos. António fez um brinde à família, à saúde, à sorte no novo ano. Todos brindaram. O velho, Estêvão, só sorveu um pouco, pro forma.
Soaram as doze badaladas. Leonor gritou Feliz Ano Novo! Catarina atirou-se ao Luís, António beijou-me a testa. Eu olhava o velho. Sentado, imóvel, a olhar a árvore. Os lábios moviam-se oração? Ou contava consigo?
Leonor pôs música, Luís e Catarina foram dançar no corredor, risos e fado antigo ecoavam. António adormeceu no sofá, farto de tanto bulício. Leonor saiu para telefonar às amigas.
Fiquei sozinha a arrumar a mesa.
O convidado ficou como estava costas direitas, mãos nos joelhos, olhos na árvore.
Ouvi um som baixo, quase um suspiro.
Estêvão levantou-se. Devagar, como um idoso que cuida dos ossos. Chegou-se à árvore. Tocou na estrela no cimo a velha estrela da mãe, dourado a descascar.
Girou-a. Um pouco só, dois centímetros para a esquerda.
Senti uma fisgada no peito.
Aquele gesto. A cada Natal, a mãe ajustava a estrela dois centímetros para a esquerda e sorria. Perguntava-lhe porquê. Dizia: Porque assim está certo, Madaleninha.
Aproximei-me. O coração batia tão forte, que parecia que ele ouviria.
Porque fez isso?
Ele afastou a mão. Virou-se de olhos assustados.
Habituei-me.
Hábito de quem?
Silêncio. Olhamo-nos olhos claros, rugas, barba branca, cansaço. Mas olhos iguais aos meus e aos da mãe.
Conhecia a minha mãe já não era pergunta.
Ele baixou a cabeça.
A Zenaida? balançou a cabeça. Sim, conhecia.
Como?
Demorou. Fitou a árvore, como se procurasse resposta.
Crescemos juntos.
Faltou-me o ar. Crescemos juntos podia ser vizinho, primo, qualquer coisa.
Nesta casa? perguntei, sabendo a resposta.
Sim.
Difícil respirar. Dei um passo.
Quem é então?
Ele calou-se.
Ali era o quarto das crianças apontou para o corredor. Pequeno, janela para o quintal. No inverno, os vidros ficavam com desenhos de gelo, nós gostávamos de ver e inventar nomes para eles.
Agora é a arrecadação.
Eu sei. Silêncio. Eu e Zena…
Sim?
Nada. Preciso de ar.
Saiu para a varanda, sem casaco.
Encontrei-o meia hora depois.
Sentado num banco velho junto ao portão, a olhar as janelas. A neve caía nos ombros, na boina, na barba. Nem se mexia, só olhava.
Vesti o antigo casacão de lã da mãe gasto, mas quente e fui ter com ele.
Vai congelar-se.
Não seria a primeira vez.
Sentei-me ao lado. O banco gelado até pelo casaco. Flocos caíam-me na cara frios, úmidos.
Conte-me.
O quê?
Tudo. Quem é. Como conheceu a mãe. Porque apareceu.
Demorou a falar. Olhou as mãos aquelas mãos cuidadas.
A Zena era minha irmã saiu-lhe por fim. A voz tremeu. Mais nova. Fui embora quando ela tinha vinte e sete, eu trinta.
O chão fugiu-me. Apoiei-me ao banco.
O tio Estêvão?
Estremeceu. Virou-se para mim.
Ela falou de mim?
À Leonor. Hoje, Leonor contou-me. Que a bisavó punha sempre o lugar extra, esperando por si. Todos os réveillons. Quarenta anos.
Ele tapou o rosto com as mãos. Os ombros a tremer.
Quarenta e três anos murmurou. Quarenta e três anos com medo de voltar.
Porquê?
Tirou as mãos do rosto. Os olhos vermelhos, húmidos. Um velho a chorar, em silêncio.
Por causa do pai. Brigámos feio. Disse-lhe horrores, injustiças. Saí de casa, jurei nunca mais voltar. Fui para o norte. Arranjei trabalho em construção. Disse a mim mesmo que voltaria passado um ano, já acalmado. O ano passou a cinco. Cinco viraram dez. Depois vinte. Depois já era demasiado tarde. Vergonha demais, tempo demais. Deixei que me julgassem morto doía menos para todos.
E a Zena? A mãe?
Fez expressão de dor.
Pensei que também me odiava. Nunca escrevi, nunca liguei. Achava que ela estava do lado do pai. Medo de que me rejeitasse se me aproximasse.
Ela esperou por si murmurei, a garganta apertada. Quarenta anos sentou o lugar extra, na esperança que regressasse.
Ergueu os olhos para mim.
Soube que morreu o ano passado. Por acaso, num recorte de jornal encontrado numa estação. Foto dela, velha, nome completo. E percebi tinha falhado. Quarenta e três anos antecipando-me e falhei.
Então porque veio?
Porque ela esperou. Porque todos os anos pôs o lugar à mesa. Porque devia ao menos ver a casa onde vivemos e fomos felizes. Onde eu… onde deitei tudo a perder.
Ficámos em silêncio, a neve tornando-nos invisíveis. O casaco da mãe cheirava ao perfume com que me embriaguei toda a infância.
Não consigo acreditar confessei, baixinho. Qualquer um podia aparecer, inventar uma história.
Entendo.
Pode provar?
Pensou muito. Olhou para casa.
No quarto das crianças, agora arrecadação. Eu e Zena riscámos uma frase na parede, por trás do papel de parede, com um prego. Em 1962. Eu tinha onze, ela oito.
Os papéis de parede foram mudados cinco vezes.
Eu sei. Mas ainda deve lá estar, por baixo de tudo, à altura de uma criança, no canto direito da janela. Tivemos de subir a um banco para conseguir.
Levantei-me. As pernas tremiam.
Venha.
A arrecadação cheirava a xailes velhos e livros, a pó e tempo. Liguei a luz, procurei a parede certa sob a janela.
Aqui?
Mais acima. Tivemos de subir.
Encontrei uma tesoura velha e arranquei o papel. O primeiro, bege, ainda novo. Por baixo, flores verdes dos anos noventa, azul-claro dos oitenta, amarelo dos setenta, vermelho apagado dos sessenta.
Apareceu o reboco cinzento, gretado.
Liguei a lanterna do telemóvel. As mãos tremiam.
As letras estavam lá: tremidas, infantis, talhadas fundo.
“Aqui viveram Estêvão e Zena, 1962”.
A mão fugiu-me. O telemóvel quase caiu. Passei os dedos devagar nesses sulcos. Sessenta e dois anos escondidas, segredo deles.
Fui eu que escrevi sussurrou Estêvão. Ela tinha medo que a mãe visse e ralhasse. Disse que colávamos papel por cima, ninguém descobriria. Nosso segredo.
Virei-me. Ele, velho, gasto, estranho e, no entanto, da família. O irmão da minha mãe. O meu tio. O homem que a mãe esperou quarenta anos.
Então é mesmo o tio Estêvão.
Sim, Madaleninha. Respira fundo. Eras muito pequenina quando parti. Nove anos. Lembro-me de te embalar ao colo. A Zena chamava: Madaleninha, vai ter com o tio Estêvão. Escapou-me hoje sem dar por isso.
Ficámos na cozinha até ao nascer do sol.
Fiz chá forte com tomilho, como a mãe gostava. Trouxe compota de framboesa da última colheita dela. Tinha feito pouco antes de falecer.
Estêvão contou. O norte Bragança, Vila Real, aldeias perdidas. Prendeu-se três anos por um erro de juventude. Anos sem abrigo, noites em estações, abrigos, porões. O medo de nunca mais pertencer.
Fui relojoeiro disse, olhando as mãos. Antes de partir. Oficina na Baixa. Reparava relógios, despertadores. As mãos ainda recordam. Vês estes calos? Do trabalho. Pinças, chaves, lupa. Já quase não mexo em nada, mas não esqueci.
Ergueu as mãos, oferecendo-as ao tempo passado.
Sabes porque tremi em regressar? já era madrugada. Não só a vergonha. Mas por medo que ela não me perdoasse. Anos de silêncio, sem cartas, sem telefonemas. Podia tê-la achado, escrito, voltado. Tantas vezes, mas o medo…
O medo de quê?
Que me dissesse: vai-te embora, morreste para mim. Era melhor não saber.
Ela nunca diria isso.
Como tens certeza?
Ela pôs o lugar à mesa e encostei a mão à mesa, entre nós. Todos os anos, quarenta vezes. Até ao fim. Mesmo sem forças, pedia-me para pôr. Nunca soube porquê. Agora sei esperava-o.
Ele calou-se. Pela janela o céu clareava.
Os brincos murmurou de repente. Âmbar. Prata. Dei-lhos quando fez dezoito anos, com o primeiro ordenado de aprendiz. Trabalhei três meses a juntar. Ela disse que nunca os tiraria.
Toquei neles. Âmbar frio, prata antiga. Prenda da mãe. Agora, do tio.
Nunca tirou disse-lhe. Nem na cama do hospital. Enfermeiras pediam para tirar. Ela não…
Estêvão chorou. Silenciosamente, lágrimas caíam e congelavam-lhe na barba.
Levantei-me. No armário estava o seu cachecol, cinzento, de lã, feito por ela. Ainda cheirava a perfumes e a infância.
Enrolei-lhe o cachecol nos ombros.
Feliz ano novo, tio Estêvão.
Agarrou-me a mão e encostou à face. Ficou húmida.
Ela não aguentou murmurou. Faltaram três anos. Se ao menos tivesse vindo antes…
Vieste. Tarde, mas vieste. Era isso que ela queria.
Olhou-me, olhos inchados.
Ela gostaria que ficasses.
Ficar?
Aqui, connosco. Nesta casa.
Quieto. Pela janela, o primeiro sol do novo ano.
De manhã, com o sol atravessando os vidros, fui à sala.
Tio Estêvão estava no décimo terceiro lugar. À frente, chá fumegante. Ao lado, Leonor, gesticulando histórias, e ele sorria-lhe. Pela primeira vez. A estrela no pinheiro estava virada à esquerda, dois centímetros, como sempre fez a mãe. Era o sinal deles. Irmãos, segredo de décadas. Uma esperança cumprida afinal.
Luís estava no canto, desconfiado. Catarina barulhenta na cozinha. Para ela talvez tudo fosse só rotina, mais um réveillon.
António aproximou-se e rodeou-me os ombros.
Então, ele fica?
Fica.
Madalena… tens a certeza? Não o conhecemos.
Ele sabia da inscrição por trás das paredes. Aqui viveram Estêvão e Zena, 1962. Só ele e ela.
António suspirou. Sempre prudente, mas sabia que eu era firme nas decisões.
Pronto. Mas se for preciso…
Olhei o tio. Segurava a chávena com dois dedos, com cuidado infinito. Mãos de relojoeiro. Mãos que gravaram segredos em paredes, que deram brincos à irmã.
A mãe pôs este lugar quarenta anos disse eu. Estava vazio há três. Chegou de estar.
Leonor acenou.
Avó! O tio Estêvão disse que sabe consertar relógios! O da parede nunca tocou. Ele vai arranjá-lo!
Fui junto dele. Pousei a mão no ombro o gesto da mãe quando recebia alguém. O gesto de calma. Agora também meu.
Feliz ano novo disse-lhe. Nova vida connosco.
Ele cobriu-me a mão com a sua. A mão estava morna.
Obrigado, Madaleninha a voz falhou. Por me acolheres.
Lá fora continuava a nevar flocos grossos e pesados. A mãe dizia que esta neve trazia convidados.
Ela sabia. Como sempre soube.
Quarenta anos à espera. Três anos depois, ele finalmente veio.
E o décimo terceiro lugar nunca mais ficou vazio.







